










O Lobo de Ravencliff
Dawn Thompson

Um sombrio destino. Enquanto a carruagem adentrava a costa da Cornualha, Sara avistou o final de sua viagem: a manso de Ravencliff. A partir daquele momento esse
seria seu lar. No podia acreditar como mudou sua vida nos ltimos dias: passou de ser uma reclusa na priso para devedores de Fleet para transformar-se na esposa
do baro de Ravencliff. Mas, que espcie de homem a resgatou da priso, casando-se com ela por procurao sem t-la visto nenhuma vez antes? Sem dvida se tratava
de um homem frio e distante... Algum desventurado que mantinha sua casa em um estado de lgubre decadncia e com as cortinas fechadas.  obvio, Sara teria aceitado
o pedido do prprio diabo para sair de sua cela, assim estava resignada ao seu destino.
Ento conheceu seu marido, que tinha o cabelo negro como a noite e um arrebatador e formoso rosto, e toda sua segurana desapareceu. Que estranha maldio tinha
cado sobre o baro Nicholas Walraven e que segredos escondia? Que estranha sorte a tinha levado at aquele lugar? De onde procedia a estranha criatura com aspecto
de lobo que acampava pela manso e aterrorizava seus habitantes, e que aparecia sempre de improviso?

Disp em Esp: Ellloras Digital
Envio do arquivo e Formatao: Gisa
Reviso: Tessy
Reviso Final: Daniella Lioni
Tiamat - World


  Nota da Revisora Tessy: A histria  linda, comovente e cheia de mistrio e ao, tem cenas sensuais e belas, espero que gostem, pois eu adorei.

  Nota da Revisora Daniella: A histria  bonita... o mocinho  problemtico, mando, apaixonado e fofo. A mocinha no obedece ao mocinho mando e se mete em um
monte de confuso por isso...






  Em memria de meu pai, George Wellington Thompson
  
  
       
  Captulo 1
  
  
       Costa da Cornualha, 1815
  
       -Senhor, por favor, faa com que o chofer v mais devagar! -Gritou Sara -Se seguirmos a este ritmo, vamos cair.
       Agarrando-se  ala com a mo, segurou o chapu na cabea enquanto a carruagem se dirigia a toda velocidade para o topo, com os cavalos a pleno galope. Desde 
que tinham atravessado as portas de ferro que facilitavam o acesso a Ravencliff, avanavam a uma velocidade vertiginosa atravs da escurido, como se os ces de 
caa do inferno estivessem mordendo os cascos dos cavalos.
       -Temos que manter esta velocidade devido ao pronunciado abismo -Respondeu seu companheiro -Tenha calma, querida, o chofer sabe o que faz.
       Ao olhar pela janela, para a escarpada queda da rochosa costa que ficava debaixo, Sara no teve mais remdio que aceitar. O caminho, se  que podia chamar 
assim, no parecia o suficientemente largo para que passasse outro carro. No havia borda. Quo nico os separavam da beira, eram os restos de um muro baixo de pedras 
empilhadas, situadas na parte que dava ao mar, enquanto que um muro alto de granito que se abatia do outro lado sobre o caminho parecia empurr-los dissimuladamente 
para uma iminente fatalidade.
       O som de pedras soltas e terra esmiuada caindo como a chuva enquanto eles passavam como um raio esteve a ponto de parar o corao de Sara. Abaixo, ondas 
gigantescas coroadas de branco batiam na praia. O eco de seu trovejar se via amplificado pela fantasmagrica e fofa neblina que subia desde mar com a mudana da 
mar. Incentivada pelo crescente vento, a nvoa subia pelo escarpado e esgueirava-se pelo caminho, escurecendo a viso de Sara atravs das brechas da cerca quebrada. 
Estremeceu. Se ela no podia ver, como podia faz-lo o chofer?
       Uma das rodas se introduziu em uma fenda, e a carruagem se sustentou vacilante. O caminho estava infestado daquelas gretas. Mas o som do chicote do chofer 
e os guturais relinchos dos cavalos voltaram a pr a carruagem em marcha em seguida. Cada costura e mola do desmantelado veculo gemeu sob a tenso.
       Sara recostou-se contra o assento de couro frio e fechou os olhos convencida de que a carruagem iria abaixo pela borda do precipcio a qualquer momento, com 
o chofer, o lacaio, os cavalos e todo o resto. Como se tivesse lido seus pensamentos, o cavalheiro que viajava com ela deixou escapar uma risadinha gutural.
       -J quase chegamos, baronesa Walraven. -Disse. -Mas devido  nvoa, s poder ver Ravencliff quando dobrarmos a seguinte curva. No tenha medo, a entregarei 
ao seu marido inteira, tem minha palavra.
       Baronesa Walraven. O corao deu um tombo diante o som daquelas palavras. Devia estar louca para ter se casado com um homem que nunca tinha visto.
       -No estar se arrependendo, no ? -Perguntou ele. - um pouco tarde para isso, querida.
       -Estive me arrependendo desde que veio para mim com esta estranha proposio, senhor Mallory.
       Ele riu entre dentes uma vez mais.
       -Nesse caso, teria que ter expressado em voz alta antes de me acompanhar at Esccia para formaliz-lo -Assegurou -Agora no h nada que se possa fazer.
       -Isso  o que me desconcerta -Respondeu Sara -Se o baro tinha tanta pressa em casar-se comigo, por nosso mtuo benefcio, como acredito que disse voc... 
Ento, por que no foi ele em pessoa? Por que mandou voc, seu administrador, como representante? Isso  insultante. Inclusive debaixo destas peculiares circunstncias.
       -Estou apaixonado -Disse o homem fingindo que tinha o corao partido -E ns tambm fazemos um casal muito bonito.
       -E se no gostar do baro? -Perguntou Sara ignorando sua coquete piscada.
       Seu companheiro de viagem estava muito seguro de si mesmo. Era bonito e sabia. Tinha o cabelo loiro, era elegante e ia impecavelmente vestido, alm de ser 
culto. O segundo filho de um fidalgo, segundo ele mesmo disse. Sara no estava impressionada.
       -OH, eu no me preocuparia com isso -Respondeu ele percorrendo todo seu corpo com o olhar. Tinha os olhos da cor do ao, e igualmente frios -Mas se por acaso 
acontea semelhante situao -Continuou -Eu estarei encantado de lhe fazer o favor. Sem dvida ia desfrutar plenamente de nossas... Npcias.
       Sara no estava disposta a dignificar aquele comentrio com uma resposta, embora Mallory tivesse razo: o que estava feito, estava feito. E no cabia nenhuma 
dvida de que ele a olhava com desprezo por ter concordado com semelhante acordo.
       Teria se esquecido do estpido lugar ao que teve que ir para apresentar a oferta do baro? Depois de seis meses na priso para devedores de Fleet, teria aceitado 
um pedido de matrimnio do diabo para poder comprar sua liberdade. Olharia-a seu marido tambm com desprezo? Aquela incerteza a fez estremecer-se.
       Para ela era um mistrio a forma com que se inteirou o baro de sua situao premente, embora houvessem lhe dito que havia benfeitores que em muitas ocasies 
se ofereciam a ajudar as presas de lugares como Fleet. Que a sua tivesse sido um pedido de matrimnio e no um pouco mais delicado, deveria ser um alvio, sups 
Sara; mas no o era. O fato nu era que tinha concordado em casar-se com um homem ao que nunca tinha visto, por procurao e fora do pas, por certo, e que tinha 
permitido que um total desconhecido a entregasse naquele lugar inspito em troca do pagamento de sua dvida. Ainda faltavam por revelar os detalhes exatos do acordo. 
Sara no sabia nada absolutamente do baro, exceto seus pais tinham servido juntos na ndia e que naqueles dias foram sem dvida bons amigos. O baro tinha remarcado 
aquele ponto, imaginava Sara, com o propsito de faz-la sentir mais cmoda. Mas em certo modo, no tinha sido assim. Deixando a um lado a insistncia de Mallory 
em que se guardaria o recato e o decoro em todo momento, e alm do pedido escrito de punho e letra com a boa escritura do baro e que Sara guardava como ouro em 
pano em sua bolsa, no tinha nem ideia do que a esperava. No podia ser pior que o espantoso pesadelo do qual acabava de sair... Ou sim?
       -Estar ao menos o baro em casa para nos receber, senhor Mallory? -Perguntou.
       -Por que no me chama Alex, querida? -Respondeu ele -Nos vamos ver o bastante, sabe? Passo muito tempo na manso. Tenho um quarto ali... Para quando no estou 
fora me ocupando de negcios imobilirios. -Voltou a rir entre dentes -Certamente me ver mais que a seu marido, para ser sincero.  muito reservado, Nicholas... 
Sempre foi. Pode me acreditar. Conhecemo-nos a muito tempo, Nicholas e eu, desde nossos dias de escola, de fato.
       -Ento, por que...?
       -Teria que perguntar os porqus e os como a ele, querida -A interrompeu Mallory -No tenho permisso para revelar seus objetivos.
       -No respondeu a minha primeira pergunta senhor Mallory -Disse assegurando-se de que no lhe escapava sua relutncia a cham-lo por seu nome de batismo -Est 
Sua Senhoria em casa agora?
       Mallory consultou seu relgio de bolso.
       -OH, sim est em casa -Replicou -O que no sei  se estar disponvel ou no -Voltou a guardar o relgio no colete -Mas eu no o estarei. Assim que a deixe 
na manso, parto para Londres por semana para recolher seu convidado e deixar aos dois um tempo a ss.
       Sara no passou por cima das sedutoras implicaes de seu tom, e no disse nada mais. Quanto menos conversasse com aquele indivduo, melhor. Havia visto muitos 
como ele em Fleet. Ajustou a jaqueta e alisou o vestido de viagem de tecido de sarja em tom cinza pomba. Tinha ficado murcho na umidade que inseriu desde que divisaram 
o mar. Embora as janelas da carruagem estivessem fechadas, Sara sentia o sal nos lbios. A nvoa continuava bloqueando a vista, mas no importava absolutamente; 
assim evitava a viso do mar inquieto sacudindo a costa que ficava abaixo, batendo sobre a grosa e afiada areia da praia e cobrindo as poas de gua que a mar tinha 
criado nas baas. Aquela devia ser uma vista impressionante  luz do dia. Na escurido, parecia aterradora.
       -Olhe -Disse Mallory assinalando com o dedo quando a carruagem tomou outra curva -Ravencliff! V? Chegamos.
       Sara conteve a respirao. Aquela viso soldou os ossos da espinha dorsal. A casa estava consumida na escurido. Tratava-se de uma estrutura enorme e sinuosa 
envolta em nvoa at as torres, que se elevava trs andares por cima do ptio. Estava coroada por um par de corvos esculpidos em pedra colocados a modo de grgulas 
nos beirais. Parecia desabitada. De repente, a nvoa comeou a dispersar-se terra adentro, como se a carruagem a tivesse afugentado ao chegar  entrada e Sara voltou 
a conter o flego: elevada sobre o escarpado quebra-mar, a manso de Ravencliff parecia como se tivesse sido escavada na rocha do escarpado sobre o que se levantava.
       O chofer puxou as rdeas para deter os cavalos, jogou o freio e desceu para colocar a escadinha. A neblina o tinha impregnado por completo, do chapu de aba 
larga at o xale vermelho de viagem que levava sob o casaco... O nico ponto de cor que havia ao redor, e que brilhava sob a luz dos abajures da carruagem. Enquanto 
isso o lacaio, que tambm estava ensopado, saltou do assento de atrs do veculo e comeou a tirar a bagagem do porta-malas.
       -Esses no -Disse Mallory saindo da carruagem quando o homem comeou a desatar os dois bas que havia em cima de tudo -So meus. Eu no fico.
       Ofereceu a mo a Sara, e ela desceu para o redemoinho de nvoa que ocultava completamente o cascalho que rangia sob seus ps.
       -Venha comigo, querida -Disse ele -A no ser que me engane, acredito que se est formando uma rajada, e quero estar outra vez ao nvel do cho quando bater.
       -Uma rajada? -Perguntou Sara.
       -Assim  como os aldeos chamam as prfidas tempestades que aoitam esta costa, sobre tudo agora, na primavera. Os ventos poderiam precipit-la pelo escarpado, 
mida que  voc. Mais vale manter-se afastada da borda inclusive com bom tempo.
       J tinham chegado  entrada, e Mallory golpeou a aldrava1 dourada. Depois de um instante, a porta se abriu e foram recebidos por um mordomo mais velho e dois 
lacaios vestidos com perucas brancas e com libreas azul e ouro. Mallory a urgiu a cruzar a soleira e levou a enluvada mo de Sara aos lbios.
       -Desculpe minha falta de maneiras, partindo com tanta pressa -Disse devolvendo a mo depois de ter a beijado convenientemente -Mas todo o bom termina. Estar 
completamente a salvo sob os cuidados de Smythe, baronesa Walraven. Ele se ocupar de todas suas necessidades. Foi um autntico prazer, mas agora devo partir.
       Desenhando uma reverncia, desceu pelos degraus e desapareceu no interior do carro, cujas rodas estavam j em movimento sobre o cascalho antes que Mallory 
se acomodou uma vez mais no assento.
       Os lacaios se apressaram a recolher a bagagem de Sara. No havia muitas coisas: um ba e uma mala pequena que continha os artigos de asseio que tinha comprado 
em Londres. As demais coisas proporcionariam em Ravencliff. Quando tinham metido seus pertences dentro, o mordomo fechou a porta e jogou o ferrolho.
       -Subam a bagagem da baronesa Walraven  sute das tapearias -Ordenou aos lacaios.
       Depois se girou para a Sara.
       -Se for amvel de me seguir, senhora -Disse -O baro Walraven a espera em seu escritrio.
       Assim estava em casa. Ela quase desejava que no fosse assim. O que pensaria dela com aquele vestido de viagem mido e pegajoso? Tratou de colocar as molhadas 
mechas de cabelo, que estavam grudadas nas bochechas, sob o chapu, mas no serviu de nada, eram muitas. Para sua surpresa, j que de fora tinha parecido to escuro, 
o grande salo e os corredores que atravessavam estavam iluminados por velas colocadas nos candelabros que havia sobre as mesas de mrmore e nos cantos das paredes, 
mas no eram eficazes para espantar a penumbra. Havia uma tristeza evidente naquela casa, no ar ranoso e murcho e no melanclico eco de suas pegadas sobre o cho 
de mrmore gentil.
       Durante um segundo, Sara pareceu escutar o repico das patas de um co avanando atrs deles. Virou-se, mas ali no havia nada e, depois de um instante, voltou 
a olhar para frente e se encontrou com o mordomo observando-a.
       -Ocorre algo, senhora? -Inquiriu o homem.
       -Pareceu-me escutar a um co -Respondeu Sara sentindo-se como uma estpida ao ver que, at onde alcanava o olhar, o corredor de trs estava vazio.
       -A casa range de vez em quando devido a sua antiguidade -Respondeu o mordomo ficando outra vez em marcha -Escutar todo tipo de sons peculiares, sobre tudo 
quando se levanta vento. No  nada do que deva preocupar-se.
       Quando chegaram  porta do estdio, Smythe bateu com os ndulos, mas no houve resposta ao princpio. At que o mordomo voltou a bater uma segunda vez e o 
baro disse que entrassem, ento o mordomo a conduziu para que entrasse em uma grande sala murada com livros. As escuras cortinas das janelas estavam fechadas.  
exceo de um candelabro com velas colocado sobre uma base ao lado da poltrona que ocupava Nicholas Walraven e do fraco fogo que ardia na lareira, a sala estava 
imersa em sombras. Sara deu um pulo quando a porta se fechou com fora atrs dela, movida pela mo do mordomo. O baro deixou a um lado o enorme livro que estava 
lendo e ficou de p, examinando-a atentamente.
       Alexander Mallory tinha proporcionado uma descrio de seu marido, mas no a tinha preparado para a realidade daquele homem. Calculou que teria uns trinta 
e tantos anos, e tinha uma figura impressionante. Era alto e magro, embora bem musculoso. A camisa de algodo egpcio que tinha metida nas ajustadas calas negras 
estava aberta at o pescoo, proporcionando brilho ao pelo de seu peito, do mesmo tom que o seu cabelo... To negro como a asa de um corvo, encaracolado  altura 
dos lbulos das orelhas e que caa de forma calma pela ampla testa. Os fundos olhos que havia debaixo, dilatados devido  escurido, brilhavam como obsidianas2. 
Tinham o poder de hipnotizar.
       -Sente-se, por favor -Disse assinalando para a cadeira Chippendale situada do outro lado do tapete persa -Isto no tem por que ser incmodo a menos que voc 
o deseje.
       -Perdoe que tenha ficado te olhando -Disse Sara tomando assento na cadeira que oferecia -No esperava... Quero dizer que... O senhor Mallory no tinha preparado 
especificamente para... Tudo isto.
       O que realmente tinha na ponta da lngua era que no entendia por que um homem como aquele tinha tido a necessidade de chegar a extremos to vergonhosos para 
conseguir uma esposa.
       -Comeu? -Perguntou ele.
       Sua voz profunda retumbou pelo interior do corpo de Sara, tocando as cordas de uns lugares que at a data ningum havia tocado daquela maneira. Revolveu-se 
incmoda na cadeira.
       -Sim, senhor -Replicou -Na estalagem da parada de Bodmin Moor.
       -Voc gostaria de tomar uma taa de xerez, ou talvez algo mais... forte para te fazer entrar em calor?
       -No, obrigado -Disse Sara -No tomo bebidas fortes.
       Walraven no voltou a tomar assento na poltrona. O que fez foi dirigir-se ao escritrio e apoiar-se contra ele, meio sentado na borda com uma de suas bem 
torneadas coxas estendida para um lado com naturalidade.
       Suas altas e polidas botas de borlas brilhavam sob a luz da velas, e o fraco fogo da lareira jogava sombras que brincavam ao redor da profunda covinha de 
seu queixo. No, Alexander Mallory no tinha feito absolutamente justia a aquele homem.
       -Naturalmente, ter perguntas -Disse com aquela voz profunda de bartono que tinha aquele efeito to assustador sobre ela -Para economizar tempo, o que te 
contou Alex?
       -S que seu pedido era honorvel, que se observaria escrupulosamente o decoro, que o acordo seria... benfico para ambos e que voc me daria mais detalhe 
quando chegasse.
       -Entregou-te minha carta?
       -Sim -Disse Sara cravando a vista nas mos que tinha cruzadas sobre o colo.
       O corao pulsou descontrolado. Os olhos do baro refletiram o vermelho brilho do fogo. Brilhavam como brasas candentes enquanto a olhavam. Sara no foi capaz 
de lhe sustentar o olhar.
       -Um convite do mais corts, baro Walraven -Murmurou.
       -Assim no -Disse ele -Deve me chamar Nicholas e eu te chamarei Sara quando estivermos a ss... Comearemos agora. Precisar se acostumar a faz-lo. J no 
 Sara Ponsonby. Somos marido e mulher e essa  a imagem que deve dar. Nas ocasies solenes ser a baronesa Walraven,  obvio, e de modo mais informal, Sara Walraven, 
que  como assinar seus documentos. Ficou claro?
       -Sim, Ba... Nicholas.
       O nome no saiu com naturalidade. Tudo era muito novo.
       -Muito bem -Disse ele -Pode tirar o chapu, por favor?
       Sara confiava em que no pedisse que fizesse isso, ao menos at que tivesse tido tempo de arrumar-se. Amontoou o sangue quente nas tmporas. Ruborizar-se 
era seu mais grave defeito, uma maldio de sua herana de pele clara. No necessitava um espelho para saber que agora estava vermelha. Sentia as bochechas ardendo. 
O calor que subia delas a obrigou a entrecerrar os olhos.
       -Por favor -Repetiu Nicholas animando-a com um gesto da mo.
       Sara tirou o chapu, e ele elevou as sobrancelhas.
       -Vejo que no  uma escrava da moda -Observou.
       -Senhor?
       -Seu cabelo -Disse ele -No o corta segundo a tendncia atual.
       -Com tantas coisas em cima, ultimamente no tive tempo de pensar em modas -Respondeu ela.
       Tinha sido muito arisca sua resposta? Temia que sim, mas j era muito tarde.
       -Serei breve -Disse Nicholas trocando de postura, e tambm de tema -Necessito uma companheira... S isso. Algum que presida minhas reunies e que aparea 
comigo em pblico nas ocasies que assim o requeiram, com o propsito de dissuadir s predadoras femininas e evitar que a alta sociedade siga tratando de me encerrar 
no mercado do matrimnio. Se tiver esposa... Bom, suponho que j o entendeste.
       - essa a razo pela que no vem  cidade durante as temporadas de baile? -No pde evitar perguntar Sara.
       No parecia verdade. Se o nico que procurava era uma anfitri, podia ter tomado uma amante.
       Nicholas vacilou.
       -Essa ... Uma das razes -Disse -Meus motivos no devem ser assunto seus... S minhas necessidades. Basta dizer que no podia contratar a algum para ocupar 
esta posio e fazer que vivesse sob o mesmo teto que eu sem faltar ao decoro. Como a mulher que escolhesse devia viver aqui, tinha que converter-se em minha esposa. 
Tinha que ser atraente, culta e por cima de toda recriminao. Voc possui todas essas qualidades. Tambm devia estar de acordo com o trato, como tem feito voc, 
apoiando-se unicamente em minha carta, sem ter conhecimento pleno de minhas... Condies. Isso era primordial. Demonstra confiana, e a confiana  vital. Quando 
tive conhecimento de sua... Situao, deu-me a impresso de que poderamos alcanar um acordo benfico para ambos. Me alegro de que tenha decidido aceitar. No te 
faltar nada. H umas quantas normas simples nesta casa que vou pedir que siga, mas j falaremos desse tema.
       Sara ficou olhando aqueles olhos de obsidiana que tudo viam e pareciam penetrar sua alma. A luz do fogo seguia brilhando vermelha sobre eles. Aquele era um 
assunto estranho e, embora ele tinha respondido a muitas de suas perguntas, ainda ficava uma que precisava lhe fazer, e no sabia como exp-la.
       -Tem alguma dvida? -Perguntou Nicholas, como se tivesse lido o pensamento -OH, sim,  obvio -Se apressou a acrescentar, terminando de convenc-la de que 
tinha poderes -Suas obrigaes no incluem compartilhar minha cama. No tenho nenhum desejo de perpetuar minha linhagem. Confio em que isso no seja... Um problema. 
Pensei que, dadas as circunstncias, suporia em certo modo um alvio.
       -No... Nenhum problema -Disse Sara.
       No tinha considerado a possibilidade de ter filhos, ou de no os ter. Sua franqueza a perturbava, e evitou seguir com o tema.
       -Entretanto, h outro assunto que me desconcertou desde o comeo -Assegurou com todo o aprumo que foi capaz de reunir -Por que enviou o senhor Mallory a Londres 
para me buscar, e por que umas bodas por procurao quando esse tipo de coisas est proibido na Inglaterra? Por que no veio voc mesmo? Acredito que isso teria 
sido mais simples que me fazer percorrer todo o caminho at Esccia com um completo desconhecido para lev-lo a cabo.
       -Isso no  "um assunto" Sara, so trs -Disse ele -E os trs tm uma razo de ser. No obstante, por esta vez vou ceder. Digamos que... Situaes preexistentes 
aqui na costa me impediram de sair... Nem sequer para me casar. -Nicholas se dirigiu para o sino e puxou dele antes de voltar a girar-se para Sara -chamei  senhora 
Bromley, minha governanta. Ela te mostrar seus aposentos e apresentar a Nell, sua donzela. Seu quarto est ao lado de seus aposentos.
       -Obrigada, Nicholas -Murmurou Sara.
       -Reunir-se- comigo durante as refeies -Continuou ele -O caf da manh e o almoo so servidos na sala de cafs da manh. O jantar, no salo de jantar. 
Os criados lhe indicaro onde .
       -Antes disse algo sobre... Sobre as normas da casa -Recordou Sara.
       -Sim -Disse Nicholas -Agora ia comentar isso. Amanh far uma completa visita guiada por Ravencliff. Por favor, no v voc investigar por sua conta. A casa 
 muito antiga. H muitas partes que esto em mal estado e poderia se machucar. Por favor, no v ao quebra-mar sem companhia. Os ventos da cornija tm muito m 
fama. So conhecidos por ter atirado a homens fornidos pelos escarpados, e os vendavais se levantam de repente. Agora mesmo estamos a ponto de que se desencadeie 
um.
       Embora haja degraus escavados no recife, no desa por eles  borda. Essas escadas se fizeram sculos atrs, e foram utilizadas pelos contrabandistas. Esta 
costa est infestada de pedras, covas e passadios, nenhum deles seguro. So frequentes as guas revoltas e poderia ficar isolada em questo de segundos. Por ltimo, 
o que ocorra dentro destes muros permanece dentro destes muros. Espero que seja discreta. No v contando intrigas. Se tiver alguma pergunta ou alguma preocupao, 
no carregue com ela os criados ou Alex. Pergunte diretamente a mim. Entendemo-nos?
       -Sim, Nicholas -Respondeu ela levantando-se o ver que se aproximava.
       -Bem -Disse ele -Quero que esta associao seja agradvel... Para nos dois.
       Como se abatia sobre ela desde sua altura. Aqueles olhos fascinantes coroados com escuras pestanas que qualquer mulher invejaria eram ainda mais alarmantes 
de perto. Tinha-os entrecerrados, e a devoravam sob a luz da vela, provocando que o corao de Sara pulsasse com fora. Cheirava a limpo, a mar, com traados de 
tabaco e a brandy recm bebido. Todo aquilo combinado com sua prpria e quase feroz essncia dava como resultado um efeito embriagador. Sara aspirou com fora o 
ar e estendeu a mo.
       Ele deu um passo atrs, rompendo o feitio.
       -Me desculpe -Murmurou -Eu no gosto que me toquem.
       Algum chamou ento suavemente  porta com os ndulos, pondo fim quela incmoda situao, embora no ao ofego de Sara, que deixou cair a mo a um lado.
       -Entre! -Ordenou Nicholas.
       A porta se abriu e entrou uma mulher gordinha de bochechas ruborizadas e vestida com uma sarja negra de aspecto rgido, touca engomada e avental.
       -Por favor, acompanhe  baronesa Walraven a seus aposentos, senhora Bromley -Pediu -E ocupe-se de que Nell a atenda. Encarregue-se de que no lhe falte nada.
       -Sim, senhor -Respondeu a governanta inclinando-se em uma reverncia.
       Nicholas se girou para Sara.
       - tarde -Disse -Deve estar esgotada. Espero-a no caf da manh. Se tiver mais perguntas, responderei ento. Boa noite, Sara.
       Despediu-a com uma breve inclinao, deu a volta e se dirigiu para a lareira, o olhar de obsidiana cravada nas fascas que saam disparadas de um tronco que 
tinha cado no ralo da chamin.
       Sara tinha perguntas... Muitas pergunta, mas no obteria respostas para elas naquele momento. A estranha entrevista tinha terminado, e seguiu  governanta 
para o corredor.
       Nicholas tinha deixado claro que seu matrimnio seria s no o papel. Havia apontado de imediato, e ela o tinha recebido com uma mistura de sentimentos. Embora 
se preocupasse em compartilhar uma cama pela primeira vez com um autntico desconhecido, sentiu-se mais decepcionada que aliviada ao saber que aquilo no formava 
parte do acordo. Por que aquele homem no quereria ter um herdeiro? E mais, por que no queria sequer que o tocassem? Fazia um momento, Alexander Mallory tinha pegado 
sua mo e a tinha levado aos lbios antes que ela a oferecesse. Nicholas, embora fosse tecnicamente seu marido, tinha enfatizado que Sara devia dar a imagem de uma 
esposa, mas tinha rejeitado um inocente gesto de boa vontade para selar seu acordo.
       Talvez tivesse se precipitado. Nicholas Walraven era um mistrio, mas no havia nada oculto na situao de Sara. Todo mundo sabia que seu pai, ferido de guerra 
e renomado cavalheiro por seu valor depois servir sob as ordens de Wellington na pennsula Ibrica, tinha morrido profundamente endividado, deixando a ela todas 
as cargas. Nicholas tinha pagado uma assombrosa soma de dinheiro para liber-la... Muito mais do que teria tido que contribuir para casar-se com a filha de algum 
de seus pares.
       Por que, com tantas boas perspectivas entre as que poderia escolher, tinha convertido a ela em sua esposa? No podia ser unicamente porque seus pais serviram 
juntos em uma ocasio em terra estrangeira. Nicholas nem sequer tinha nascido ento. Tinha que haver algo mais, mas, do que podia se tratar?
       Tampouco acreditava em sua pobre explicao para querer casar-se. Tinha deixado um vislumbre de que existia algo mais que isso. Por que no o tinha explicado? 
Por que tinha sido necessrio um casamento por procurao? Por que no tinha escolhido conhec-la antes de fazer seu pedido? O que a princpio tinha parecido a Sara 
uma resposta as suas preces estava cobrando agora dimenses mais escuras. O pior de tudo era o modo em que aquele homem estranho e enigmtico tinha causado impacto 
nela no sentido fsico. Isso era o mais aterrador de tudo.
       -A sute das tapearias, senhora -Disse a senhora Bromley, devolvendo-a de repente ao momento presente.
       As janelas vibraram quando a governanta abriu a porta e caminhou como um pato pelo saguo que separava as salas para correr as cortinas do quarto. Mesmo assim, 
uma corrente de ar deslizou pelo cho, alvoroando a barra do mido vestido de viagem de Sara. No exterior, a rajada estava em pleno apogeu. A chuva golpeava contra 
os cristais, arrastada por rajadas de vento que gemiam como vozes humanas, e o bramido do mar subindo escarpado acima a congelou at a medula. Sara mal acabava de 
cruzar a soleira quando outro som rasgou o silncio e provocou um tombo no corao: um uivo lastimoso parecido ao de um lobo retumbou pelo corredor. Sara ficou cravada 
no lugar.
       -Sabia que havia um co! -Gritou.
       - o vento, senhora, s o vento -Disse a governanta fechando a porta do quarto -Ecoa por estes velhos corredores como se fosse um furaco terrvel.
       -Isso no foi o vento -Insistiu Sara -Sei distinguir o uivo de um co quando o escuto. Tnhamos um criadouro de ces, magnficos sabujos de caa... E cavalos. 
-Falava com voz entrecortada ao recordar. Teve que vender tudo, e mesmo assim no foi suficiente para pagar a dvida. Uma neblina nublou sua viso. Piscou para afast-la 
de si. Quanto sentia falta de seus adorados sabujos. Perd-los tinha quebrado seu corao. Nunca esqueceria o confuso olhar trado de seus olhos, seus gemidos e 
seus uivos quando seu novo amo os levou... Um amo cruel comparado com os mimos aos que estavam acostumados nas mos de Sara. Mas no podia pensar nisso agora se 
no queria dissolver-se nas lgrimas que a ameaavam.
       Uma donzela cruzou a toda pressa a porta do quarto adjacente. Tinha o rosto plido como cera.
       -Ah! J est aqui -Disse a senhora Bromley -preparou a banheira da senhora?
       -S... Sim, senhora -Respondeu a jovem fazendo uma breve reverencia.
       A governanta lanou um olhar severo, e a donzela suavizou sua expresso e lanou um dbil sorriso na direo de Sara, embora seus olhos de mocho continuavam 
cravados na porta, como se esperasse que algum aparecesse por ela.
       -Bem -Disse a governanta girando-se para Sara -Essa  Nell, senhora. Sua donzela. Tem medo das tempestades, mas serve bem na casa, e servir a voc do mesmo 
modo -Olhou  donzela -E bem? Prepara a camisola da senhora,  depois ajuda a banhar-se e a preparar-se para meter-se na cama. So mais de onze horas e nesta casa 
o dia comea muito cedo.
       -S... Sim, senhora -Miou a jovem.
       -A roupa que mandou trazer o baro est pendurada no armrio -Explicou a governanta -Seus cosmticos esto na penteadeira. Se faltar algo o traremos de Truro, 
s tem que fazer uma lista e eu mesma irei, ou enviarei uma das donzelas.
       -Estou segura de que tudo ser mais que aceitvel -Respondeu Sara.
       Em comparao ao estado em que Mallory a tinha encontrado em Fleet, tudo seria uma melhoria.
       Ao olhar ao redor, s tapearias penduradas das paredes, era fcil ver de onde vinha o nome da sute. Mas Sara estava muito distrada para fazer justia. 
Tinha o ouvido atento se por acaso escutava outro uivo do co cuja existncia todo mundo negava. Mas agora no se escutava nenhum som alm do vento, agora sim, arrastando 
a chuva, estampando-se contra os cristais e gemendo ao redor das colunas.
       Sara estremeceu e se dirigiu para o provador, onde esperava seu banho. Nell tinha deixado uma camisola marrom e um neglig sobre a cama. A senhora Bromley 
agarrou  donzela pelo brao, obrigando-a a segui-la, e a levou a um canto para lhe dizer algo em um sussurro. Estava claro que, fosse o que fosse, a inteno era 
que Sara no escutasse, assim as deixou ali. Estava desejando desfrutar do banho antes que a gua esfriasse.
       Sobre a gua tinha espalhadas folhas de romeiro e de hortel amassadas e Sara permitiu que a envolvesse enquanto Nell vertia umas gotas de leo de rosas na 
mistura. O efeito resultou absolutamente maravilhoso,  Sara gemeu quando a combinao de essncias se abriu passo atravs de suas fossas nasais e o apreciado leo 
suavizou a pele.
       -Logo teremos ptalas de rosa autnticas -Disse a donzela -Este ano se atrasaram, houve muitos temporais. Quando estiverem florescendo, saber. O vento expande 
seu aroma por toda a casa.
       -O de antes no foi o vento, no , Nell? -Perguntou Sara -Era um co, no  certo?... E voc tambm o ouviu, no ?
       -No sei a que se refere senhora -Disse a jovem -A nica coisa que ouvi foi o vento. Eu tenho medo desde que arrancou o telhado da torre norte e o levou voando 
para o escarpado que fica mais  frente. O baro mandou que o arrumassem, mas isso no importa. Voltar a levantar-se. Tem sorte de que no a tenha alojado em uma 
dessas sutes da torre. Despertaria no meio do mar.
       Sara no conseguiria nenhuma resposta daquela diminuda donzela, e estava muito cansada para discutir. O delicioso banho a tinha relaxado o suficiente para 
dormir e permitiu que Nell a ajudasse a colocar a camisola e lhe escovasse os cabelos.
       -Que cor to bonita, senhora -Comentou a jovem -Brilha como o ouro fiado sob a luz da vela. A maioria das damas os corta atualmente.
       -Acha que eu deveria faz-lo? -Perguntou Sara, recordando o comentrio anterior de Nicholas.
       Ainda no estava segura de se tinha querido dizer um elogio ou uma recriminao.
       -OH, eu no me atreveria a diz-lo, senhora -Respondeu donzela -Isso depende de voc.
       A deciso teria que esperar. A cama de quatro postes, que j estava aberta, era mais que convidativa, Sara se despediu de Nell, apagou as velas e se deslizou 
sob a colcha e os rangentes lenis de linho. A sute dava ao mar e o vento do oeste que levantava as ondas que batia com toda sua fora contra aquela seo da casa. 
As cortinas, apesar de serem grosas, tremiam contra os cristais, as correntes de ar brincavam com o fogo da lareira jogando grandes sombras mogno para as tapearias 
das paredes. Sara fechou os olhos. Embalada pelo ritmo das ondas se rompendo na borda, tinha comeado a dormitar quando um rudo estranho se fez ouvir por cima da 
voz da tormenta, o som de uns arranhes na porta.
       Sara tirou os ps por um lado da cama, mas vacilou antes de descer. Ratos!  obvio que tinha que haver ratos to perto do mar! Estremeceu. Havia ratos em 
Fleet... Criaturas enormes, feias, peludas e negras. Com largas e magras caudas. Despertou mais vezes das que queria recordar com alguma delas subindo pelas pernas 
em meio da noite... Na escurido. Arrepiou o pelo da nuca e conteve o flego, recordando.
       Voltou a escutar aquele som e um frio aterrador se apoderou de sua espinha dorsal. No provinha do interior da sute. Havia algo fora arranhando a porta, 
se aproximou nas pontas dos ps para escutar. Conteve a respirao. No se tratava de um rato arranhando o pavimento. Era algo... Maior.
       Durante um momento se fez o silncio.
       -Quem anda a? -Disse espectadora.
       No houve resposta, mas ela tampouco esperava t-la. Aquele no era um som humano. Voltou a escutar. Desta vez foi um gemido e a rgida postura de Sara se 
relaxou. O co  obvio!
       Abriu o ferrolho, abriu a porta e ficou petrificada na soleira. Conteve o flego de novo ao ver-se frente a frente com o que parecia ser um lobo grande e 
negro. Mas seguro que se equivocava! Era um co que parecia um lobo. J no ficavam lobos na Inglaterra.
       Durante um instante a criatura ficou olhando-a fixamente, seus olhos brilhavam em cor vermelha sangue  luz do fogo. Depois deu a volta e partiu, desaparecendo 
entre as sombras que rodeavam o patamar do segundo andar.
  
       
  Captulo 2
  
  
       A tempestade seguia desatada quando Sara despertou ao amanhecer. No tinha dormido muito. Tinha demorado um tempo antes de adormecer, depois que seu visitante 
noturno se foi, e embora ficasse deitada com os olhos totalmente abertos, na cama de mogno de quatro postes, esperando at altas horas da madrugada a que voltasse 
os arranhes, o animal no retornou. No mais profundo da noite, voltou a escutar o uivo em outro canto da casa... Foi um gemido comprido e lastimoso, como os que 
emitiam os ces... No, os lobos, quando uivavam  lua. Mas no havia nenhuma lua. Embora no tivesse havido uma tormenta tampouco se teria visto; era lua nova.
       Sara estava ainda adormecida quando Nell veio ajud-la a vestir-se e arrumar o cabelo. Sara escolheu, dentre a seleo que brindava o armrio, um vestido 
de musselina com a cintura alta e desenho de espigas com toques azulados que complementava seu cabelo e seus olhos. Nell acabava de acrescentar uns laos a seu penteado 
recolhido para trs quando a senhora Bromley chegou para acompanh-la  sala de caf da manh.
       Lacaios vestidos com libr desfilavam uma variedade de pratos para o caf da manh, servidos em pratos quentes de prata colocados sobre o aparador.
       Nicholas j estava servindo seu prato. Alm de um educado "bom dia", Sara se absteve de iniciar nenhuma conversa enquanto se servia de uma modesta poro 
de ovos cozidos, salsichas e um fragrante e quente po-doce de queijo.
       A mesa estava colocada frente a uma janela com sacada que dava ao ptio. Sara e seu recm estreado marido estavam sentados um em frente ao outro enquanto 
um lacaio servia o caf. Se no fosse pela tempestade, a janela teria mostrado uma vista espetacular do jardim. Mas em troca, pela bem aparada grama havia flores 
decapitadas espalhadas como se houvesse confete repartido pelo cho. Tudo ficava escurecido pela chuva que deslizava pelos cristais como se fosse um lenol. A cena 
se parecia muito a uma aquarela estragada.
       -Espero que tenha dormido bem -Disse Nicholas rompendo o incmodo silncio que havia entre eles.
       -O certo  que no -Respondeu ela -Ontem  noite tive um visitante.
       -OH? -Respondeu ele obsequiando-a com aquele fascinante olhar obsidiana.
       Era ainda mais alarmante  luz do dia, mas o efeito que provocou nela foi o mesmo. Fez que o sangue corresse por suas veias mais rapidamente, e o corao 
comeou a pulsar com fora.
       -Um co -Afirmou Sara -Um co negro e prateado que parecia um lobo. O mais estranho  que ningum quer admitir que nesta casa haja um co.
       -Devia ser Nero -Disse Nicholas dando um sorvo a sua taa -Se supe que no pode brincar de correr livremente pela casa. Tem que estar no andar de baixo. 
Supe-se que os criados o tm que manter ali, e essa  provavelmente uma das razes pelas que negam sua existncia. A outra, e mais importante,  que dei instrues 
para que no chamassem sua ateno respeito do animal. No quero que o mime.
       Nicholas franziu as sobrancelhas com gesto exasperado. Abriram as fossas nasais, e marcaram os suspensrios msculos da mandbula.
       -Falarei com o Smythe -Assegurou -No voltar a te incomodar de novo.
       -No, se no me incomodou -Assegurou Sara - um animal precioso. Eu adoro os ces. Em casa tnhamos muitos sabujos, eram maravilhosos. Tive que vend-los. 
Isso foi o pior para mim. De que raa  Nero? Parece-se muito s imagens que vi de lobos... Havia algo em seus olhos...
       -No tenho nem ideia -Replicou seu marido terminando rapidamente sua salsicha.
       Que dentes to brancos e bonitos tinha. Lstima que no sorrisse nunca.
       -Apareceu um dia depois de uma tormenta ao outro lado do caminho, vinha do bosque e os criados tiveram piedade dele. J sabe o que ocorre quando lhe d de 
comer a um animal.
       -Por favor, no o castigue por minha culpa -Pediu Sara.
       -O que te faz pensar que vou castig-lo? -Perguntou Nicholas com o garfo suspenso no ar.
       -Eu... No, o que quero dizer  que...
       -Sim?
       -O olhar que tinha agora mesmo -Disse -Me deu a impresso de que voc no gosta de muito dos ces.
       Nicholas parecia zangado, e ela no sabia como voltar a pr o p em terreno firme. Aquele no era um bom modo de comear, e desejou no ter tirado o tema.
       Ele no disse nada mais. Depois de dirigir aquele expressivo olhar durante mais tempo do que Sara podia suportar, arpoou a ltima parte de salsicha que ficava 
no prato com uma forte estocada do garfo e continuou comendo.
       -Meus aposentos so preciosos -Disse ela tratando de encontrar um terreno neutro.
       A conversa precisava tomar uma direo nova.
       -Alegra-me que voc goste -Respondeu Nicholas atacando os ovos com o garfo -H algumas reprodues, mas a maioria das tapearias so muito antigas. Meu pai 
as colecionava.
       -No tive ainda a oportunidade de admir-las -Admitiu -O farei depois de tomar o caf da manh.
       Ele negou com a cabea.
       -Depois do caf da manh a senhora Bromley te mostrar a casa -Disse - obvio, aqui est em sua casa e  livre, mas como te disse ontem  noite, h certos 
locais que no so seguros. Por favor, preste muita ateno s diretrizes.
       -Farei-o,  obvio -Disse Sara concentrando-se no caf da manh.
       Nicholas j quase tinha terminado seu prato e estava se entretendo com uma segunda xcara de caf, esperando que ela o alcanasse. Ao menos era um cavalheiro. 
No havia nada que reprovar em suas maneiras.
       -Meu guarda-roupa  excelente, Nicholas -Comentou Sara.
       Parecia que ele havia se abrandado de certa forma, uns quantos cumprimentos bem colocados no fariam mal.
       -Tambm tenho joias para voc -Respondeu Nicholas por cima da borda de sua xcara de caf.
       -OH, isso no  necessrio -Protestou ela.
       -Sim, . Deve se vestir e agir segundo seu papel, Sara, e se houver algo que falte no que te proporcionei at o momento no tem mais que me dizer isso.
       -Estou segura de que no esqueceu nada, mas...
       -Mas o que?
       -A senhora Bromley disse que se houvesse algo que tivesse passado por cima, ela ou alguma das donzelas o traria de Truro...
       -Sim.
       Sara vacilou.
       -No me permite ir s compras?
       -No sem companhia -Respondeu Nicholas torturando-a de novo com aqueles olhos -No  seguro, nem tampouco apropriado. Deixando a um lado o decoro, Cornualha 
est infestado de ladres de carteira e bandidos, e no tenho nenhuma escolta masculina que possa te acompanhar. Estamos com falta de pessoal. Seria mais conveniente 
que os criados se encarregassem de suas necessidades. Fazem viagens com regularidade para trazer provises.
       -Entendo.
       -Parece-me que no -Continuou ele -No est aqui como prisioneira, Sara, se isso  o que est pensando. Mas agora  a baronesa Walraven, e deve se comportar 
de acordo a sua posio.
       Sara no importava muito com "o decoro". Aquele homem to paradoxal com o que se casou tinha uma veia arrogante, mas isso era de se esperar. Aquela era apenas 
sua segunda conversa e ela j tinha arrumado para zang-lo uma vez. Uma coisa estava clara: se Nero voltasse a lhe fazer uma visita noturna, calaria-se. No se surpreenderia 
se Nicholas Walraven o encadeasse, ou que castigasse o pobre animal... Ou em sua raiva... aos criados, e Sara no poria a nenhum deles nessa situao.
       -Duvido que haja necessidade de enviar algum a procurar alguma coisa, Nicholas -Disse -Estou certa de que se ocupou de tudo.
       Ele a observou durante um instante e depois voltou a centrar-se no que restava do caf da manh, dando a Sara a oportunidade de fazer o mesmo, j que seguia 
sem poder olh-lo nos olhos. Observou o modo em que seus msculos se esticavam sob o tecido de algodo que cobria os bceps e os ombros, admirou o modo em que seu 
cabelo negro como a noite caa pela testa com ondas suaves e brilhantes, e encheu os olhos com tudo isso, j que provavelmente no teria oportunidade de faz-lo 
em outras circunstncias. Estava muito longe para poder aspirar seu aroma, mas isso no importava; seguia tendo-o dentro dela. Assim tinha sido durante toda a noite. 
Suas angulosas feies, a forma da mandbula e a suave salincia de sua testa eram sinais de fora; mas os olhos, apesar de tanto brilho, possuam um ponto vulnervel 
e triste. Sara o conhecia bem. Tinha-o visto em seus prprios olhos.
       Quando terminou de comer, Nicholas levantou a vista de sua xcara de caf e a descobriu o olhando. O sangue de Sara subiu quente s bochechas, e o garfo repicou 
contra o prato quando tratou de deix-lo sobre mesa. O corao deu um tombo. Sentia-se fisicamente atrada por aquele homem. Isso no podia ser. No o permitiria. 
No existia nenhuma esperana de que acontecesse nada fsico entre eles... Ele tinha deixado isso muito claro. Teria que proteger-se. Uma atrao unilateral s podia 
significar sofrimento para o corao, e ela j tinha tido suficiente.
       -Ocorre algo? -Perguntou Nicholas.
       -N... No -Respondeu ela - s que... Tudo parece irreal em certo modo. Faz uma semana estava comendo po mofado e uma espcie de mistura para porcos que 
se fazia passar por guisado, tinha que esquivar dos ratos e a indivduos nauseabundos e desagradveis naquele lugar... E agora isto. Deve ser paciente comigo. Necessito 
tempo para me adaptar.
       -Fizeram-lhe... Mal? -Perguntou ele franzindo o cenho de tal modo que seus olhos ficaram ocultos entre sombras.
       -No, fisicamente no -Respondeu Sara -Mas manter-se a salvo do perigo era toda uma provao.
       Isso no tinha mudado. Podia haver mais perigo ali em Ravencliff de que havia em Fleet... Embora no houvesse ratos nem vagabundos.
       -Tem mais alguma pergunta? -Quis saber Nicholas.
       Sara abriu a boca para falar, mas pensou melhor, o que fez com que ele levantasse as sobrancelhas. Tinha muitas perguntas, e havia outras que surgiam a cada 
instante, mas aquele no era o momento para express-las em voz alta. Sara se perguntou se alguma vez seria o momento. Nicholas a observou com aquele modo seu inimitvel 
durante um instante antes de dobrar o guardanapo e deix-lo ao lado do prato.
       -Muito bem -Disse -Irei procurar  senhora Bromley para que te mostre a manso. Depois da visita, tome uns instantes para contemplar as tapearias. Acredito 
que as encontrar... Reconfortantes.
       Aquilo teria que esperar. Uma ordem silenciosa, que tinha dado ao mordomo um momento antes, trouxe a governanta antes que se levantassem da mesa. Depois de 
esboar uma respeitosa reverncia, Nicholas saiu da sala e desapareceu entre as sombras que se abatiam por toda parte, dia e noite, sobre a velha manso.
       A senhora Bromley era uma excelente guia. Em menos de uma hora tinham visitado a sala de jantar, o salo, vrias salinhas, o gabinete, a biblioteca e a sala 
de msica do primeiro andar. Embora mostrasse a porta verde situada ao lado da grande escada que estavam subindo, que separava a parte nobre da zona dos criados, 
a governanta no se ofereceu a mostrar a Sara aquela zona. Resultaria inapropriado e suporia uma mcula na etiqueta da casa que o senhor ou a senhora da manso se 
aventurassem escada abaixo.
       O segundo andar estava composto de quartos e sutes como a sua. Cada uma tinha um tema, e Sara limitou-se unicamente a colocar a cabea para identific-las, 
assim que a visita naquele local foi muito breve. Quando se dirigiu para o patamar do terceiro andar, a governanta a impediu.
       -No pode subir a acima, senhora -Disse -Esse local da casa est restringido... No  seguro aparecer por a. As tormentas provocaram danos na parte superior 
da manso com o passar do tempo, e o baro no quer que suba e se machuque. Alm disso, a dele  a nica sute que se utiliza ali acima. As demais foram fechadas 
depois da morte de seu pai. Todo o terceiro andar se vir abaixo algum dia, embora estejam construdas em pedra de granito, recorde minhas palavras. De fato, a do 
baro  a nica sute desse andar da torre, que d para mar, que no perdeu o telhado durante as tempestades.
       -Por que diabo tem sua sute em um local to perigoso quando h tantas sutes bonitas no segundo andar para escolher? -Perguntou Sara pensando em voz alta.
       -No sei senhora, o baro  um homem de costumes. Teve seu quarto ali acima desde que eu cheguei a esta casa faz vinte e quatro anos e ele era um moo de 
doze. Gosta de estar sozinho.
       -Quanto tempo esta casa tem, senhora Bromley?
       -Ouvi o baro dizer que a escavaram no recife, construram-na em sua mesma rocha quando vieram os normandos, ao menos seus alicerces so daquela poca... 
Inclusive anteriores, pelo que sei. Foi mudando com o passar do tempo,  obvio. Comeou sendo um castelo, passados os anos, converteu-se em um monastrio, depois 
em abadia e depois em um priorado, entre outras coisas. Escavou-se mais rocha com o passar do tempo, acrescentaram-se cmodos, construram-se estbulos, compartimentos 
exteriores e cercas de pedra at que chegou a ser o que  hoje, e o que foi durante os ltimos duzentos anos... A manso de Ravencliff. Sem contar com os reparos 
para restaurar os danos da tormenta,  obvio.
       -Deve ter uma histria fascinante se foi construdo antes da conquista normanda -Disse Sara tentando imaginar.
       -Na biblioteca h livros que podem te contar muito mais coisas que eu possa dizer.
       -Sem dvida tirarei proveito deles -Assegurou Sara.
       -Sim, senhora. H tempo de sobra antes do almoo para que se possa jogar uma sesta -Ofereceu a governanta -Ningum a incomodar. Nell ir procur-la quando 
for a hora.
       -Obrigado, senhora Bromley. Acredito que farei isso -Disse Sara.
       Mas no tinha inteno de deitar. O comentrio de Nicholas em relao s tapearias a tinha deixado intrigada. Em particular, a utilizao da palavra "reconfortante" 
tinha despertado seu interesse. Sara despediu da governanta e se dirigiu de retorno a sua sute.
       A tempestade seguia jogando lenis de chuva sobre as janelas. Fustigadas pelo vento, as ondas que caam em cascatas obscureciam as vistas. Dava no mesmo. 
Tudo era escuro e deprimente. O certo era que Sara no podia imaginar como seria aquele lugar sob a brilhante luz do sol. Aquela manso envolta em sombras parecia 
sentir-se cmoda com o mau tempo.
       O fogo da lareira estava aceso, e lanava vibraes de calor para a corrente de ar que se filtrava atravs dos muros que penduravam as tapearias. Estes se 
estremeceram, chamando a ateno de Sara, que agarrou um candelabro e comeou com a inspeo. As pocas que representavam oscilavam entre a poca medieval e o renascimento, 
passando pelo tema pastoral. Todas as tapearias tinham umas cores comuns: tons de verde claro, creme, e vrias gamas de azul. O tema era sempre o mesmo: a caa. 
Sara estava rodeada de ces e cavalos, entre eles, os trabalhos do Detti, Oudry e Bernard Van Orley. Cada um era mais esplndido que o anterior, mas o mais esplendoroso 
de todos estava pendurado ao lado da cama: uma assustadora interpretao de Diana guerreira com seus nobres sabujos.
       A Sara tremeu o candelabro na mo. Aquele homem estranho com o que se casou era um santo ou um demnio? Parecia to austero, e agora aquele terno consolo... 
A tinha rodeado dos animais amava e que tinha perdido. Tinha-lhe atribudo aquela sute antes sequer de que ela chegasse. Tinha sabido. Que mais coisa sabia? Os 
olhos encheram de lgrimas; as tapearias ficaram nubladas. Sara piscou para livrar-se de sua dor e se aproximou da salinha de sua sute, que estava igualmente decorada. 
Chamou-lhe a ateno uma deliciosa pea medieval que representava a caa de um unicrnio, e passou a ponta dos dedos pela imagem dos ces que havia abaixo. Por toda 
a sala saltavam unicrnios e cavalos, seguidos pelos ces. Sara se esqueceu da tempestade e foi parede por parede e sala por sala de sua espaosa sute, absorvendo 
tudo at o mais mnimo detalhe.
  
       
  Captulo 3
  
  
       Sara estava desejando que Nell viesse recolh-la para o almoo do meio-dia para assim poder agradecer a Nicholas por sua considerao, mas a sala de cafs 
da manh estava vazia quando ela chegou.
       Seu marido tampouco desceu para jantar aquela noite, e Sara enfrentou sua ausncia com emoes conflitantes. Por um lado, desejava utilizar as tapearias 
como um meio para suavizar a tenso, aquela estranha presso que tinha ido crescendo entre eles desde o primeiro momento. Havia algo em sua voz, em seus olhares 
furtivos, que a fazia ficar na defensiva e desejar ter mais experincia com os homens. Dava a impresso de que seus olhos dissessem uma coisa e os lbios outra. 
Parecia um homem carregado de contradies. Por outro lado, alegrava-se de que no estivesse, porque assim tinha tempo para reunir a coragem necessria para expor 
as questes que a perturbavam desde sua chegada  manso de Ravencliff. No o tinha enganado. Ele sabia que tinha perguntas. E certamente teria tanta vontade de 
responde-las como ela de faz-las.
       A senhora Bromley no soube dizer por que Nicholas no tinha feito sua apario durante o almoo nem no jantar, s contou que muitas vezes saltava as refeies, 
e que no devia tomar como algo pessoal.
       Fossem quais fossem suas razes, para Sara parecia m educao. Deveria ter enviado suas desculpas, e sentiu vontade de entrar em seu escritrio e faz-lo 
saber. Ali era onde dava por feito que estivesse, j que viu um feixe de luz de vela sob a porta quando desceu para jantar.
       Depois do jantar, decidiu fazer justo isso, mas a porta do escritrio estava entreaberta e as velas apagadas, ao parecer recentemente a julgar pelo forte 
aroma de fumaa e a sebo que havia no mido ar. Sara agarrou o trinco, abriu um pouco mais a porta e colocou a cabea para dentro. O fogo da lareira se extinguiu 
at ficar convertido em brasas candentes que jogavam luz justa para mostrar que a sala estava vazia. As botas altas de Nicholas estavam ao lado da poltrona, e no 
cho havia um vulto que parecia ser algumas de suas roupas. As botas estavam cobertas de barro, e a roupa parecia molhada. Tinha estado fora com aquela tempestade? 
O que estava fazendo ali sua roupa? Tinha-a deixado para que a recolhessem seus criados? Estaria acostumado a trocar-se no escritrio? Sara conteve o flego. Poderia 
estar retornando! Um calafrio se apoderou dela ao imaginar que pudesse encontr-la ali, voltou a deixar a porta tal e como a tinha encontrado. Olhou a um lado e 
a outro do corredor e esquadrinhou entre as sombras, mas nada se moveu, assim correu para a grande escada e se dirigiu diretamente a sua sute.
       Ao cruzar o pequeno saguo, girou  direita e abriu a porta do quarto, onde Nell tinha feito a cama e estava colocando em cima sua camisola de seda e o neglig.
       -OH, senhora! -Disse a donzela -Parece que acabou de ter visto um fantasma!
       -Nada disso -Respondeu Sara -Subi as escadas muito rpido depois de ter comido.
       -Se voc o disser, senhora...
       -Quanto tempo leva servindo aqui, Nell? -Perguntou Sara.
       -O suficiente para saber que as histrias de fantasmas so verdade -Assegurou a donzela dirigindo um olhar furtivo pelo quarto.
       -Eu no ouvi nenhuma dessas histrias.
       -Ouvir. Pergunte a qualquer dos criados, eles as contaro. Nesta velha casa h idas e vindas muito estranhas, senhora, j o ver.
       Sara no discutiu aquele ponto nem um instante, embora no estava preparada para assimilar a ideia dos fantasmas. No que se referia a ela, o enigmtico baro 
Nicholas Walraven estava atrs daquelas "estranhas idas e vindas", e aquilo era mais aterrador que os fantasmas.
       Ainda era cedo e no estava cansada, mas queria estar sozinha para colocar em ordem seus pensamentos. Isso significava dizer a Nell que partisse. Deixou que 
a donzela a ajudasse a se trocar e escovasse o cabelo, que chegava at a cintura, frente a penteadeira do trocador e depois deu boa noite. Apagou as velas do trocador 
e voltou a sair ao saguo para dirigir-se a seu quarto quando topou de frente com o Nero, sentado sobre as patas traseiras em meio do tapete persa, observando-a 
com aqueles olhos como espelhos que brilhavam vermelhos  luz do fogo.
       -Nero? -Gemeu -Me assustou. Como entrou aqui?
       Deu um passo para ele com precauo, mas o animal no fez nenhum movimento hostil e Sara se aventurou ainda mais perto.
       -No deveria estar aqui e sabe, mas no direi a ningum. -Agachando-se para ficar a sua altura, estendeu o brao para acariciar sua peluda pelagem negra -Est 
completamente ensopado! -Descobriu -Voc tambm esteve fora com esta tempestade? Assim por isso a roupa do baro est toda molhada. Saiu para te buscar, no ? E 
voc escapou dele. Bem, pois no deve te encontrar aqui. Sabe que me visitou ontem  noite, e ser o primeiro lugar que olhar -Sara se incorporou e se dirigiu para 
o saguo -Vamos, veem comigo.
       Nero vacilou, depois ficou de quatro patas e se dirigiu para ela. Sara voltou a conter o flego ao observar atentamente o animal... Suas patas largas e musculosas 
e o corpo de peito largo; o modo em que elevava a cabea e a maneira em que aqueles estranhos olhos que a olhavam fixamente captavam a luz do fogo. Resultava impossvel 
averiguar de que cor era realmente.
       - um cruzamento de lobo, no ? -Murmurou -Se no soubesse que  impossvel...
       A porta do corredor estava entreaberta. Sara teria jurado que a fechou antes. Abriu-a em sua totalidade, mas o animal ficou onde estava. Tinha um aspecto 
fraco e faminto. Fossem quais fossem suas condies naquela casa, Sara estava convencida de que no o faziam feliz absolutamente. Tambm era bvio que estava sozinho, 
porque tinha ido procurar por ela, uma completa desconhecida, e se perguntou quando teria sido a ltima vez que comeu.
       -No lhe do de comer, Nero? -Perguntou.
       Ela no terminou todo o prato do jantar, e lamentou no ter pensado em guardar algo em um guardanapo para ele, j que confiava em que retornasse.
       -No tenho nada para voc agora -Disse -Mas da prxima vez que me visite, terei... Prometo. Agora tem que voltar para as habitaes dos criados antes que 
algum te pegue. Vamos! -Ordenou fazendo um gesto com a mo para que partisse. Mas ele permaneceu onde estava, observando-a com aqueles penetrantes olhos vermelhos 
como o fogo.
       Que expresso to comovedora para um co.  obvio, no podia entender o que estava dizendo, mas Sara estava convencida de que responderia a seu tom. Ela sabia 
como acalmar os ces, e tambm os cavalos, a verdade. Mas aquele co era... Diferente. Parecia compreender cada palavra.
       -O que vou fazer com voc? -Sara torceu o gesto -No pode ficar aqui. Um latido, um gemido, e nos descobriro. Ento me chamaro a ateno, e s Deus sabe 
o que ser de voc.
       Nero seguia sem mover-se, e Sara colocou a cabea pelo corredor. Havia suportes com candelabros pelos muros, mas s a metade estava acesa. Olhou para ambos 
os lados. O corredor estava deserto. Agasalhou-se em seu neglig para proteger-se das correntes e cruzou a soleira.
       -Suponho que posso te levar ao local dos servos -Disse -No est to longe. A porta estar sem dvida fechada, e no tem outro modo de chegar abaixo, verdade? 
 isso o que est tentando me dizer, Nero? O que quero saber  como saiu. Deve haver outra entrada. Suponho que no me mostrar isso, no  menino?
       O animal no fez ameaa de obedecer. Tocou-lhe a mo com seu frio e mido focinho e a seguiu pelo corredor.
       -Sim, eu tambm gosto de voc, pobre e desventurada criatura -O tranquilizou despenteando a lanzuda pelagem -Bem, vamos l, temos que fazer isto rpido.
       Nero avanou a seu lado. Suas unhas no faziam nenhum som ali, ao contrrio que no corredor de baixo, onde no havia tapete, embora Sara podia escutar suas 
pegadas igualmente. Tinham chegado quase ao patamar quando ele ps-se a correr e a adiantou.
       -Nero! -Gritou Sara to alto quanto se atreveu.
       Havia muitssimo eco na casa, amplificado pela tormenta, e as vozes se ouviam muito.
       -Volta aqui! -Entretanto, o animal seguiu correndo para o patamar e desapareceu entre as sombras.
       Sara o perdeu de vista antes que chegasse  escada, e correu para descer para o patamar do primeiro andar, mas a porta verde que levava a zona dos serventes 
estava fechada, como ela imaginava, e Nero no estava  vista. Por que no tinha levado um candelabro? Os corredores que ficavam alm dos quartos dos criados estavam 
to negros como o carvo. Sara se aventurou a meio caminho de um, chamando Nero em um rouco sussurro, mas no havia nem rastro dele, e deu a volta quando esteve 
a ponto de cair sobre um banco. No serviu de nada; o co no estava. Por que no a tinha esperado... Ou tinha respondido a seu chamado? Parecia um animal muito 
inteligente. Estava segura de que a tinha entendido.
       Quando chegou  porta verde, tratou de girar o trinco. Estava fechada. No havia nada que pudesse fazer agora por Nero, nem que o encontrasse. A menos que 
um dos criados tivesse aberto quando desceu, ia passar a noite fora, e rezava para que Nicholas no o encontrasse.
       No ficava nada mais a fazer alm de retornar a sua sute, se dirigiu para o patamar, mas se deteve com a mo paralisada na balaustrada. Nicholas estava descendo 
pelas escadas do terceiro andar, descalo e com um robe de seda granada. Aberto na frente, deixando ao descoberto uma sombra de pelo escuro que diminua at converter-se 
em uma linha estreita como uma flecha que desaparecia sob o cinturo. Quando tomou a curva, Sara espiou a ver uma perna bem formada e algo mais. No levava nada 
debaixo. Ela conteve o flego com um gemido estrangulado, levou a mo aos lbios... embora no a tempo de evitar que escapasse um gemido.
       Nicholas se deteve trs degraus a cima dela e apertou com violncia o cinturo do robe. Tinha o cabelo revolto e mido, cado sobre a testa, e seus olhos 
eram dois objetos escuros e entrecerrados que obrigaram Sara a afastar os seus. Nicholas no disse nada no inicio, e quando ela se atreveu a voltar a olh-lo, viu 
que a estava observando de cima abaixo. Sara estava situada debaixo de um dos suportes. Ao baixar a vista, deu-se conta de que sua camisola era transparente  luz 
das velas. Nicholas estava vendo tudo, e ela fechou o neglig com as duas mos.
       -Posso te ajudar em algo, Sara? -Perguntou ele descendo at o patamar.
       -N... No, obrigado -Respondeu ela -S estava subindo.
       Teria sado isso to ridculo para o Nicholas como para ela, considerando seu traje? Nicholas estava muito perto. E se abatia sobre ela de sua grande altura. 
Sua essncia a afligia, aquele aroma nico, acrescentado pelo forte sabor do sal marinho, o vento e a chuva. Ela tinha razo; tinha estado fora, e provavelmente 
descia para recolher a roupa que tinha deixado com antecedncia para trs, para no encher a casa de barro.
       -No deveria descer sem superviso at que te familiarize com a casa -Disse, fazendo que Sara se detivera sobre seus passos -Estes corredores no se utilizam 
depois de limpar a sala de jantar, e mal esto iluminados a estas horas.
       -Sem superviso? -Repetiu ela.
       -Sim. No posso permitir que ande perambulando pelo perigo na escurido.
       -Eu no perambulo, senhor -Espetou Sara.
       Primeiro falava de como comportar-se, e depois dizia que no se movesse sem superviso? Aquele homem no era certamente um perito em diplomacia.
       -Estou me dando conta de que sua escolha de palavras no sempre  afortunada, senhor.
       -Nicholas -A corrigiu ele -Lamento que meu vocabulrio te ofenda, mas nunca fui dos que se andam com rodeios. H perigos nesta velha casa. Taboas soltas, 
pregos oxidados. -Assinalou para os ps nus de Sara -Mveis velhos e pesados que podem bater nesses bonitos dedos. Percorre tudo o que queira durante o dia, quando 
puder ver os ocos, mas por favor, no v por a de noite... Sem companhia, se essas palavras se ajustarem melhor a sua sensibilidade. No temos mdico em casa, e 
o mais prximo se encontra em Bodmin Moor. O que est fazendo aqui embaixo?
       Sara tinha acreditado que no fizesse aquela pergunta. No trairia Nero... No o faria nunca, embora teve que fazer um esforo para no perguntar a seu marido 
pela condio do animal. S os lobos tinham um aspecto to selvagem, no os ces. Sara tinha visto desenhos dessas criaturas nos livros da biblioteca de seu pai. 
Nero parecia sado diretamente de suas pginas.
       -Eu... No podia dormir, assim desci a procurar um livro na biblioteca -Disse utilizando como desculpa a lembrana que tinha surgido na mente.
       -No te levou a senhora Bromley a dar uma volta para que conhecesse a casa? A biblioteca est na ala sul, ao lado do salo.
       -S... Sim, o fez. Devo ter me perdido, e j me tinha rendido. Percorremos muitas salas, e tudo parece diferente de noite.
       -Isso  exatamente o que eu penso -Disse ele -Pode encontrar o caminho de volta a seus aposentos?
       - obvio -Espetou ela, e comeou a subir.
       Mas a voz profunda de Nicholas a fez dar a volta outra vez.
       -Sara, temos que falar -Disse.
       -Agora? -Ela conteve o flego e o olhou da cabea at a ponta dos ps, com os olhos totalmente abertos pelo assombro.
       -No, agora no -Respondeu ele com os lbios franzidos no gesto mais parecido a um sorriso que tinha visto fazer Sara, embora se tratava de um sorriso de 
exasperao -Me ficou claro que temos que ampliar a conversa de nossa ltima noite. Tocamos o tema das normas da casa, mas o que precisamos estabelecer so... As 
normas do dia a dia. No descerei para tomar o caf da manh, mas se quer te reunir comigo depois do almoo em meu escritrio, poderemos falar a ss. Preferiria 
que os criados no estivessem a par de nossa conversa.
       -Tem certeza que vai descer para almoar amanh, Nicholas? -Perguntou Sara recordando sua descorts ausncia da mesa durante todo o dia.
       -Ah! Minhas desculpas -Disse ele -Surgiu algo inesperado que no podia atrasar e que me impediu hoje me reunir contigo para almoar e para jantar. Isso acontecer 
de vez em quando. Deveria ter enviado minhas desculpas. Por favor, perdoa minha falta de maneiras. Tratarei de me comportar de forma mais cavalheiresca no futuro.
       -Ento...  Depois do almoo, em seu escritrio -Concordou ela -Boa noite, Nicholas.
       -Boa noite, Sara.
       Ento partiu, mas o profundo e sensual eco de sua voz permaneceu quando partiu, alterando o equilbrio de Sara. Igual  imagem daquele corpo magro, musculoso 
e coberto de suave pelo meio exposto sob a luz das velas. Que bonito era, despenteado pelo vento, aquele homem to estranho com o que se casou. Seu aroma ainda seguia 
com ela, ao redor dela... Dentro dela. Aspirando com fora o ar, encheu os pulmes. Sim. Sentia-se atrada por aquele homem, mas ele no a desejava. O que queria 
dela no estava muito claro ainda. Talvez no dia seguinte Nicholas respondesse a suas perguntas. Talvez no dia seguinte ela reunisse a coragem para expor aquele 
momento, enquanto se aproximava de sua sute, Sara rezou para no encontrar Nero sentado sobre suas patas traseiras no saguo. Graas a Deus, estava vazio.
  
       
  Captulo 4
  
  
       Sara escutou de novo o uivo quando a noite chegava a seu fim. Arrancou-a de um sono profundo, e se dirigiu para a porta, mas no havia nem rastro de Nero 
no deserto corredor. O teria sonhado? No. Tinha sido muito intenso, lastimoso e triste, e tinha encolhido o corao. Tinha estabelecido um lao com aquela criatura, 
e se algo chegasse a ocorrer, o corao de Sara voltaria a romper-se de novo justo quando tinha comeado a curar-se. A inesperada apario de Nero em sua vida tinha 
acalmado a solido de sua estranha situao: casar-se com um marido que no era um marido, que no mostrava o mais mnimo afeto por ela... Que nem sequer queria 
que o tocasse. Como ia suportar perder agora a reconfortante presena do co?
       No mencionou Nero durante o almoo. A maior parte da refeio transcorreu em silncio, embora a ela no passasse despercebido que os expressivos olhos de 
Nicholas a estavam observando do outro lado da mesa. Ali estava outra vez aquele olhar... No o tinha imaginado. Havia algo oculto naqueles olhos, algo velado embora 
profundo, como se estivesse lutando com algum demnio interior. Aquele olhar hipntico era tremendamente suave e intenso, sedutor e frio tudo ao mesmo tempo. Como 
era possvel? Mas assim era. Se ao menos pudesse decifr-lo...
       A tempestade se esgotou finalmente durante a noite. Ao amanhecer a chuva tinha parado, e o vento se transformou em um murmrio suspirante. Embora o mar que 
bramava abaixo na praia seguia tendo uma voz aterradora, tinha parado de subir pelo velho muro de defesa e de lanar espuma para o cu, para os corvos de pedra escavados 
nos pinculos. O sol era outra questo. Umas persistentes nuvens escuras seguiam pendurando pesadamente sobre o horizonte, contribuindo ao lgubre ambiente do dia. 
Sara observou como Nicholas atiava o fogo da lareira do escritrio em uma v tentativa de espantar a umidade que impregnava a velha casa. Tambm se deu conta de 
que a roupa molhada e as botas cheias de barro j no estavam.
       -No precisa estar to sria -Disse incorporando-se com toda sua altura depois terminar de atiar o fogo -No tem nada a temer de mim, Sara. Isto no  a 
Inquisio, sabe? Confio que quando sair hoje desta sala nos entendamos melhor um ao outro, nada mais.
       -No tenho medo de voc, Nicholas -Disse.
       Aquilo era verdade pela metade. Tinha muito medo da atrao que sentia por aquele homem, porque no era correspondida.
       -Foi mais que generoso, e me salvou de uma existncia de pesadelo, por isso te estou extremamente agradecida.  s que seus motivos no esto... Muito claros.
       -Meus motivos so suspeitos, quer dizer.
       -Como preferir.
       -Entendo. Tem perguntas. Comecemos ento por elas, certo? -Nicholas tomou assento ao bordo do escritrio, como tinha feito durante seu primeiro encontro.
       As cadeiras eram um objeto intil para aquele homem.
       Sara cruzou as mos sobre o colo e tratou de no enrugar o vestido azul de algodo grosso que tinha escolhido para a ocasio. Confiava em que fosse ele quem 
comeasse. Aquilo ia ser difcil.
       -Muito bem -Disse -Me desculpe, mas no parece a espcie de homem que precise escolher esposa em uma priso para devedores. Com tantas damas formosas e casadoiras 
como h na temporada de baile, por que eu?
       -No estou interessado em jovenzinhas de cabea oca que desfilam pela cidade como isca para maridos. Parecem cavalos de corridas dispostos a sair de seus 
postos.
       -E no poderia ser que pensou que algum a quem tinha liberado de Fleet se inclinaria diante todos seus desejos?
       -Isso  insultante, no s para mim, mas tambm para voc.
       -E ento, do que se trata? Deve admitir que tudo isto  muito estranho, no mnimo.
       Nicholas vacilou.
       -De acordo -Disse -Se tiver que ser completamente sincero, admito que tem razo em parte. Confiava em que algum que estivesse em dvida comigo se mostraria 
mais inclinado a aguentar minha... Idiossincrasia, mas no permitirei que isso me condene. Disse o que procurava em uma esposa. Que a tenha encontrado em Fleet e 
no em um clube social no tem importncia. Encontrei-a... Fim do assunto. Dou por encerrado, h algo mais?
       -Sim -Disse Sara com toda a confiana em si mesma que pde reunir - difcil aceitar que no queira um herdeiro -Tinha chegado muito longe... Muito longe 
para deter-se agora -Um aristocrata atraente e prspero como voc, um homem com propriedades e riqueza, sem dvida necessita a algum a quem poder deixar tudo.
       Nicholas voltou a vacilar.
       -Meus motivos so... Privados, Sara -Disse.
       -Mas estamos casados, Nicholas.
       -A pessoa casada se guarda coisas para si mesmo, e isto no  um matrimnio ao uso. Tem que aceitar isso.
       -Posso aceitar tudo que seja capaz de compreender -Se atreveu a dizer -E isto no entendo! Vai alm de minha compreenso. Permite-me que seja sincera?
       Nicholas riu entre dentes sem indcio de humor.
       -Estou seguro de que o vai ser, tanto se lhe permito isso como se no.
       - pouco afortunado que me obrigue a levar a iniciativa nesta conversa. Isso me ofende e no te perdoarei por isso, estou segura, porque me poderia evitar 
isso facilmente. Pediu-me que te perguntasse minhas dvidas...
       -Assim  -Respondeu ele -Mas no te prometi que te responderia. Mas no permita que isso te detenha. Fala com liberdade.
       -De acordo, j que insiste... Prefere... A companhia dos homens? -Espetou.
       Pronto! Havia dito. Talvez a chave para conversar com aquele homem era permitir que a ira se apoderasse de suas palavras.
       Nicholas riu ento... Foi uma gargalhada rica, profunda e rouca que ressoou pelo corpo de Sara at os ps como a convulsiva vibrao de um tambor. Era a primeira 
vez que o ouvia rir, e fez iluso apesar de seu sarcasmo.
       -Se fosse to simples... -Disse quando foi diminuindo a gargalhada -No, Sara -Assegurou -No prefiro a companhia dos homens.
       -Ento, o que ocorre? No se trata s do assunto do herdeiro. No tem interesse em... Compartilhar a cama com...
       -No disse que no tenha interesse -A interrompeu ele -Disse que isso no formaria parte de nosso acordo.
       -No ande com rodeios comigo, Nicholas. O resultado  o mesmo. Sou to pouco satisfatria em algum sentido? No sou o que esperava? Tenho o cabelo muito comprido 
segundo a moda atual? Tem uma amante?
       -O que?
       -Pelo amor de Deus,  natural que tenha curiosidade sobre estes assuntos. Tenho que ter muito claro o que posso esperar desta unio. Assombra-me que no tenha 
explicado voc primeiro para me economizar a vergonha de ter que tirar eu o tema desta maneira.
       Nicholas desceu da escrivaninha com um movimento que parecia mais animal que humano, e deu um passo para ela. Aquele estranho olhar tinha voltado para seus 
olhos. Durante um instante, Sara esteve convencida de que ia se jogar sobre ela, assim que levantou de um salto da cadeira e a colocou entre eles.
       A postura de Nicholas veio abaixo, e afastou o cabelo da testa. Brilhava pelo suor.
       -No, Sara -Disse -No  pouco satisfatria em nenhum sentido e no tenho nenhuma amante. Tampouco foi escolhida de Fleet ao azar. No permitirei que pense 
isso. Acreditei que tinha deixado claro em meu pedido de matrimnio que nossos pais eram velhos amigos. Confiava em que tranquilizaria sua mente saber que havia 
uma espcie de vnculo entre ns, embora fosse frgil.
       -Mencionou-o, sim, mas, como estava a par disso? Aconteceu antes que voc nascesse.
       -Assim . Meu pai levava um dirio de suas peripcias na guerra. Quando minha me morreu, chegou a minhas mos junto com o resto de seus bens pessoais. Mencionava 
em muitas ocasies a seu pai, o coronel Ponsonby. Meu pai e ele estiveram juntos na ndia no princpio da ocupao Britnica, e em uma ocasio seu pai salvou a vida 
do meu. Mas essa  uma histria... Para outro momento. Quando me inteirei de sua m sorte, ca na conta de quem foi e tomei a liberdade de organizar seu resgate. 
Se o tivesse sabido com antecedncia, nunca teria visto dentro da priso de Fleet. Assim j v, j sabia onde me colocava. No h nenhum... Motivo oculto, a menos 
que queira considerar como tal o fato de saber que estava fazendo algo que agradaria a meu pai, embora fosse de forma pstuma.
       Nicholas meteu os punhos nos bolsos e voltou para a escrivaninha de uma pernada.
       -No estou preparado para te dar detalhes respeito do por que no quero um herdeiro, mas sim te direi isto: tenho um defeito no sangue que no desejo transmitir 
a futuras geraes.  melhor que a linhagem dos Walraven se extinga comigo.
       -Loucura? -Sussurrou Sara.
       Isso explicaria muitas coisas. Acabava de terminar com todas suas demais suspeita. Livrou-se delas de um colcho com uma s palavra.
       -No, no  loucura. Por favor, no me olhe assim. J disse, no tem nada que temer de mim, Sara. Asseguro-lhe, estou to cordato como voc.
       -Nicholas... H maneiras de evitar a concepo de bebs -Murmurou.
       Era o mais duro e ntimo que tinha tido que dizer at o momento a aquele homem, e quando aquelas palavras saram de seus lbios, o olhar do Nicholas resultou 
to devastador que Sara teve que baixar o seu.
       -Sou consciente disso -Assegurou -Mas prefiro no me arriscar. Ter que respeitar meus desejos no concernente a este assunto... E a minha intimidade. Sinto 
muito.
       Sara guardou silncio imediatamente. Embora tinha respondido a algumas de suas perguntas, agora estava mais confusa que nunca. Sara seguia tendo suas dvidas, 
mas se sentia, em certo modo, aliviada ao saber que Nicholas conhecia coisas do passado de sua famlia por uma fonte pessoal alm do que, sem dvida teria descoberto 
Alexander Mallory quando a investigou. Entretanto, no resto dos assuntos no estava sendo claro, e isso a preocupava.
       -Agora, se no tiver nada mais, eu gostaria de te fazer eu algumas pergunta -Disse.
       -Espera, Nicholas -Pediu ela -No me conta suas razes do porque no confia em mim?
       -No, Sara,  porque no confio em mim mesmo -Assegurou -Se no me abro  discusso, no me verei tentado de pr em perigo minha integridade nesta matria. 
 melhor que deixemos este tema aqui e agora. Tenho que seguir adiante com isto. No quero ser descorts, mas a casa e os campos sofreram as consequncias da tempestade, 
e devo avaliar os danos para que possam dar comeo os trabalhos de reparao.
       -Sinto -Murmurou Sara -Continua.
       -Muito bem -Seguiu Nicholas. Estirando as costas, comeou a mover-se por diante da lareira com passos lentos e contidos, como se estivesse tratando de tranquilizar-se 
-Teve j oportunidade de examinar as tapearias?
       -OH, sim -Exclamou ela -Queria te falar disso antes. So "reconfortantes", tal e como voc disse. Foi muito considerado por sua parte. Vender meus ces me 
resultou to doloroso quanto se tivesse tido que me separar de meus filhos... De meus parentes -Se corrigiu.
       No tinha sentido voltar a tirar o tema dos filhos.
       -As caadas anteriores a primavera eram o evento esportivo da parquia de Yorkshire. Todo mundo estava desejando que se celebrassem. Essas tapearias me ho 
devolvido de novo a casa. Sinto terrivelmente saudades dos animais.
       -Me alegro que tenha gostado -Disse ele -Alex vai trazer vrios mais quando voltar de Londres. O que te pareceu meu administrador? Soube se comportar, ou 
teve que o pr em seu lugar? Observei que no conseguiu te convencer para que o chamasse por seu nome de batismo. Conhecendo o Alex, isso  significativo.
       -Posso falar com franqueza?
       -Confiava em que assim fosse -Respondeu Nicholas.
       -No tive que p-lo em seu lugar. Simplesmente, mantive-o nele.
       -Bravo! -Estalou Nicholas deixando de dar passos durante um instante -Alex no seria Alex se no o tentasse.  algo mais que meu administrador, Sara. Somos 
amigos desde que levamos calas. Fomos juntos ao colgio... At que se decidiu que eu continuaria com meus estudos aqui em Ravencliff com um tutor. Sua me morreu 
quando ele nasceu, e minha me teve piedade dele antes dela morrer tambm. Ao ser o segundo filho, ignoravam-no com frequncia. O imvel de seu pai estava perto, 
e estava acostumado a passar as frias aqui, explorando esta velha casa comigo. Quando partiu a Oxford, no soube dele durante um tempo.
       - Na universidade no fazia mais que meter-se em confuses, e finalmente o expulsaram. Seu irmo se casou e foi se viver a Amrica com sua esposa, e seu pai 
morreu pouco depois. Foi ento quando o contratei como administrador. Teria dilapidado sua herana at que no ficasse nem um centavo e teria afogado suas penas 
em paqueras e bebida. Assim j v, sou perfeitamente consciente de seus defeitos. Enquanto no interferir com sua situao aqui, no me importou pass-los por alto... 
At agora, porque foi um bom amigo e um bom administrador, mas no tolerarei nenhuma falta de respeito com voc. Quero que isso fique perfeitamente claro.
       -No me incomodou seu modo direto de ser, e o ignorei -Disse Sara -Acredito que nos entendemos bem o um ao outro.
       -Bem, me alegro -Replicou Nicholas, que voltou a caminhar acima e abaixo de novo -Falarei tambm com ele. Quando sabe qual  seu lugar, est acostumado a 
comportar-se. Entretanto, se chegar a haver algum problema, por muito pequeno que seja, confio em que venha a mim imediatamente. Ficou claro?
       -Sim, Nicholas, mas te asseguro que no o haver.
       -Quanto a seu cabelo, pode fazer o que te agrade -Continuou -Mas me sentiria muito decepcionado se o cortasse.  precioso, e te favorece, e supe toda uma 
novidade nestes tempos nos que a moda manda e a gente frvola e sem vontade se inclina diante dela.
       -No tinha pensado cortar, s queria estar segura do que passava.
       -Bem -Respondeu Nicholas -E agora, quanto s normas domsticas das que te falei ontem  noite... J havia dito que no quero que perambule por a quando escurea, 
e est a par de meus motivos. Quanto a suas... Obrigaes como baronesa de Walraven, sero simples e no ter contraprestaes, tal e como assinalei quando chegou. 
Logo terei convidados em casa, e temo que ser posta a prova. Estou seguro de que no me decepcionar. H muito em jogo. E depois, em relao a nossa... Vida ntima, 
no haver nenhuma.  jovem e... Uma mulher vital, Sara. No sou insensvel a isso, e como notei... Decepo nesse aspecto de nosso acordo, tem minha permisso para 
tomar um amante... Sempre e quando for discreta, claro, e sempre e quando no se tratar de Alex Mallory. Essa  a razo pela que te perguntei sobre ele antes. Isso 
seria incmodo, porque no tem famlia e vive aqui quando no est viajando para resolver algum de meus assuntos.
       O ar ficou retido na garganta de Sara. Aquilo era a ltima coisa que esperava que dissesse, e pela primeira vez em seus vinte e trs anos de vida, ficou-se 
sem palavras.
       -Surgiro outras questes -Continuou Nicholas -E referiremos a elas quando chegar o momento, se chegar, mas estas so as mais importantes, e so cortantes. 
-Deteve-se e deixou de rondar pelos arredores da lareira como um predador.
       Girou-se para olh-la.
       -Entendemo-nos?
       -S... Sim, Nicholas -Respondeu ela em voz baixa.
       Desejava gritar: No quero um amante. Voc  meu marido. Quero que me deseje. Mas a garganta fechou sobre aquelas palavras, e teve que fazer um esforo para 
no romper a chorar.
       -Ah, e uma coisa mais -Disse ele -No se afeioe muito com o Nero. Mantenha a distncia. Tenho... Planos para ele, e se prosperarem, pode que nos deixe logo. 
Essa era a razo pela que meu desejo era que no soubesse sequer de sua existncia. No queria que voltasse a sofrer a angstia da separao que j tinha passado 
com outros animais, e menos com um meu.
       -Isto no  porque... Porque... Eu tenha sado em sua defesa, no ?
       -No -Respondeu Nicholas -No importa que o faa. No me enganou ontem com essa histria do "livro da biblioteca".  uma mulher inteligente. No acredito 
que terei que te dizer duas vezes onde est qualquer cmodo desta casa depois que tenham indicado onde se encontra. Sabia por que desceu. Sentia-se... Implicada 
com esse animal em certo modo. Isso estava bastante claro, e no  a razo pela que tirei o tema. Os planos que tenho para Nero esto pensados desde muito antes 
de sua chegada, Sara. No h nada que possa fazer para troc-los, e se soubesse quais so, tampouco quereria faz-lo. No se o que te faz pensar que quero fazer 
mal a esse animal, mas te asseguro que no  assim. Simplesmente, no quero que crie um vnculo do que mais tarde se arrependa. Devo insistir nisto tambm, j que 
 uma das normas domsticas... Provavelmente a mais importante. E agora, se me desculpar, devo me ocupar dos assuntos da casa.
       Passou ento por diante dela com os punhos metidos nos bolsos e desapareceu entre as sombras do corredor que ficava fora.
       Sua repentina marcha resultou inesperada, mas bem-vinda. Sara mal conseguiu chegar a sua sute antes que aparecessem as lgrimas. Como podia lhe oferecer 
um amante com tanta naturalidade? To baixo era o conceito que tinha dela? Por que no tinha respondido nada? Por que no tinha deixado claro ao menos que a sugesto 
era repulsiva? As palavras de Nicholas tinham paralisado o crebro. Devia pensar que ela no era melhor que a maioria da sociedade, que considerava que ter amantes, 
masculinos ou femininos, era uma forma de vida aceitvel. O que a tinha afligido tanto no era que tivesse proposto semelhante despropsito, mas sim que parecia 
pensar que ela aceitaria um acordo assim.
       Sara se jogou sobre a cama e chorou at ficar sem lgrimas. Nicholas ia levar o Nero. Que terrvel destino teria pensado para o pobre animal? No o toleraria. 
J era muito tarde para no sentir-se implicada.
       "Esconderei Nero antes que Nicholas possa fazer machuc-lo", decidiu golpeando o travesseiro de plumas com os punhos. O que estava ocorrendo? Nunca tinha 
sido uma chorona... No tinha derramado nenhuma s lgrima durante o espantoso vexame que foi estar presa naquela horrvel priso.
       Tinha chorado at quase dormir quando Nell entrou para ajud-la a vestir-se para o jantar. Um olhar no espelho emoldurado de corpo inteiro foi suficiente 
razo para que se desculpasse. Tinha os olhos inchados e vermelhos, quase fechados pelo inchao, e a branca pele coberta de rodelas. Sempre acontecia isso quando 
chorava, e essa era uma das razes pelas que no estava acostumado a faz-lo. Certamente, no podia descer com aquele aspecto. No se incomodou em enviar suas desculpas. 
Alm disso, Nicholas no jantaria ali certamente, se seu comportamento anterior servia de exemplo. Sara no tinha fome, mas optou de todas maneiras por que levassem 
uma bandeja  sute. Se negava a jantar, chamaria a ateno sobre seu desgosto, e talvez provocasse uma visita de Nicholas. J tinha tido suficiente dele por um 
dia.
       Quando chegou a comida, arrumou para comer a maior parte. Depois, Nell a ajudou a preparar-se para dormir e a seguir a dispensou; a diminuta donzela tinha 
posto os olhos em um dos criados e estava desejando partir. Era muito cedo para dormir. E Sara no poderia faz-lo nem se quisesse... Muitos pensamentos sombrios 
davam voltas por sua cabea. Mas podia meter-se entre os lenis e tratar de pr ordem a esses pensamentos.
       Apesar da insistncia de Nicholas, ajudaria Nero. Ao parecer ela era a nica amiga que tinha em Ravencliff. Tinha guardado um pouco de jantar e o tinha escondido 
no guardanapo no caso de vir. Abriu um pouco a porta... O suficiente para que ningum se desse conta, mas sim para que Nero pudesse abri-la com a pata ou com o focinho 
e entrar. Sara acabava de meter-se na cama quando bateram na porta, mas no foram os familiares arranhes do animal o que a levou a dar um pulo e sentar-se na cama, 
nem tampouco foi Nero o que cruzou a soleira. Foi Nicholas.
       Sara saltou da cama com um grito nos lbios, deu a volta e colocou o neglig antes de olh-lo. Enquanto isso, Nicholas estava com os braos cruzados, compondo 
uma figura chamativa com suas calas negras e as botas de cano alto, fraque negro de corte fino e colete de brocado granada. Uma gravata de lao perfeitamente atada 
sobre a simples camisa branca desafiava o cabelo negro como a asa de um corvo que frisava ao redor dos lbulos, e que contrastava com a covinha de seu elevado queixo.
       -Tem por costume irromper no quarto de uma dama sem se anunciar? -Espetou Sara, sentindo-se ridcula por ter dito isso, tendo em conta que aquela era sua 
casa e eram tecnicamente marido e mulher.
       -Bati, mas a porta estava aberta, Sara -Respondeu Nicholas -Talvez Nell...
       -No -O interrompeu ela. No permitiria que jogassem  moa a culpa de algo que no tinha feito -Fui eu, que entrei muito... Depressa antes. Acreditei que 
a tinha fechado.  evidente que no, mas no importa. Mal estava entreaberta, e como v, no estou vestida para socializar. Estava a ponto de me deitar.
       -Mmm -Grunhiu ele elevando as sobrancelhas. Aqueles olhos de obsidiana que tinha, e que despediam fascas vermelhas  luz do fogo, a estavam esquadrinhando 
entrecerrados e o corao de Sara pulsou com mais fora -Por que no desceu para jantar? Encontra-se mau?
       -Mau? -Espetou ela -No, Nicholas, no  que me encontre mau. Sou muito desventurada!
       -Esteve chorando -Observou ele -Essas manchas vermelhas que tem... Costuma sair quando chora? A senhora Bromley  uma perita herborista3. Direi que te prepare 
um remdio.
       -No se preocupe -Espetou Sara -No danificaro minha apario nem te envergonharei diante de seus convidados. No choro com frequncia, s quando estou zangada.
       -Fui muito direto -Disse ele desinflando-se.
       -Direto? -Repetiu Sara com tom estridente -Meu querido amigo, direto  um termo que no chega nem na metade. Se no tivesse sido to covarde e no tivesse 
partido com tanta precipitao antes, sem me dar oportunidade de me recuperar de seu insensvel... Insulto... Meu Deus, no h palavras para descrever suas tresloucadas 
normas domsticas... Haveria te dito exatamente o que penso delas e de voc!
       -Sara...
       -No! -Exclamou ela -No, Nicholas. Como pode ficar a e me dizer que tome um amante?  isso o que acha, por que me comprou... Algum que saltar  cama de 
outro homem quando voc estale os dedos... Um objeto ornamental que presida suas reunies e que depois sai em busca de outro para receber prazer? As mulheres assim 
tm um nome, e no h por que casar-se com elas. Eu no sou assim. Como se atreve?
       -No te comprei -Murmurou ele.
       -No? No ouviu nada depois disso, no ? E como o chamaria ento?
       -Certamente no  uma compra, no do modo em que voc coloca -Se defendeu -Eu o vejo como um resgate. E eu gostaria que voc tambm o tivesse visto assim. 
E no pretendia te faltar com respeito -Continuou olhando para o teto para recuperar a compostura.
       Eram lgrimas isso que nublavam aqueles magnficos olhos? Certamente, no era o remorso quem as tinha posto a. Aquele homem estranho com o que se casou era 
frio e insensvel. Entretanto, quando voltou a olh-la, suas grosas e escuras pestanas estavam midas por ter contido as lgrimas.
       -S estava tentando te oferecer uma soluo alternativa a... Uma situao delicada que no tem acerto -Assegurou -Se te ofendi o sinto, mas no me condene 
por isso. No me retratarei de minha sugesto, e voc no deveria rejeit-la to depressa. No se apresse a declin-la. O matrimnio  para sempre. Com o passar 
do tempo, talvez te alegre de ter deixado essa porta aberta, Sara.
       Nicholas esboou uma reverncia e ento partiu dando grandes passos e sem olhar atrs. Seu aroma envolveu a Sara, propagado pelo calor da lareira e pelas 
correntes de ar que pareciam vir de nenhuma parte e de todas de uma vez. Escutou como fechavam a porta do saguo. Depois de uns instantes, saiu correndo para ela 
e voltou a abri-la, deixando-a como estava antes. Nicholas no retornaria, mas talvez Nero sim. Sara se meteu na cama e esperou.
  
       
  Captulo 5
  
  
       Nicholas Walraven rondava pela borda do escarpado na escurido. O vento uivando havia tornado a levantar-se e brincava com as mltiplas capas de seu capote, 
levantando e brincando com as lapelas como se fossem os dedos de um menino curioso. Ainda havia lua nova, e  exceo de uma ou outra onda coroada de espuma cavalgando 
sobre as guas que havia debaixo, a noite era to escura como a tinta. Nicholas no necessitava lua ou estrelas para que guiassem seus passos at ali. Conhecia de 
cor cada rocha, cada planta abandonada e cada fibra de grama esmagada pela tempestade. Aquele era o nico lugar onde se sentia a salvo, a nica constante em sua 
vida que nunca o decepcionava, aquele precipcio que sempre lhe dava a boas-vindas. Ia a sua busca com frequncia, com bom tempo e com tempestade, em busca de consolo, 
como um menino ao peito de sua me, como um amante ao de sua amada... Mas no podia deter o pesadelo. Nada podia faz-lo.
       Seu ajudante de cmara estaria agora preparando o banho... Um banho frio. Outra vez. No afugentaria a loucura, porque isso era. Sara o havia dito, pelo amor 
de Deus! Uma loucura no sangue, e amaldioava seu pai por isso. Devia estar louco ao pensar que aquele matrimnio de convenincia funcionaria, por acreditar que 
podia viver como o faziam o resto dos homens, ter o que outros homens tinham. Era um engano, e embora percorresse o quebra-mar at o dia do julgamento final, isso 
no arrumaria as coisas. Teria que faz-lo ele mesmo, e teria que faz-lo logo. Tinha chegado a essa concluso a primeira vez que ps os olhos em Sara, baronesa 
de Walraven, antes Ponsonby, a formosa e inocente criatura que tinha o tirado das brasas candentes para jog-lo num fogo abrasador... Mas, como solucion-lo? Ela 
j tinha se metido sob sua pele. No se atrevia a mant-la perto, e no podia suportar a ideia de envi-la longe. Tampouco podia contar-lhe e arriscar-se a ficar 
ao descoberto. O seu era um segredo muito bem guardado. No se poria em perigo. As repercusses seriam catastrficas. Nem sequer Alex Mallory sabia, s Mills, seu 
ajudante de cmara, seu confidente, seu protetor e seu amigo, igual ao tinha sido de seu pai antes dele. Mas Nicholas j tinha jogado  gua o ponto que o condenaria. 
A marejada tinha comeado, e no havia forma de impedir que se expandisse.
       Elevou a vista para as janelas de Sara. Estavam s escuras. Ela tinha dormido. Por fim. J podia retornar a salvo, mas, retornar a que? A um banho frio e 
uma cama vazia, ou de novo  loucura? Aquela era a outra constante, a constante imprevisvel, sobre a que no tinha controle.
       O banho o estava esperando, como sabia que aconteceria, e Mills estava disposto a ajudar a meter-se nele. O ajudante de cmara, de costas estirada e cabelo 
branco, sem idade definida, estava ao lado da cmoda do provador da sute do baro. O provador estava cheio de toalhas e abarrotado de frascos com ervas. Junto a 
eles esperava o refresco noturno de Nicholas, composto de escutelaria, tilia e lpulo4 aromatizados com mel. Supunha-se que servia para acalmar e o induzir um sono 
natural. Sua efetividade era questionvel, considerando os eventos dos ltimos dois dias.
       Embora a gua estivesse fria, o forte aroma de arruda amassada e o perene e doce prazer do romeiro subiu para ele da banheira. Entrar e sair para purgar-se, 
esse era o protocolo. Remdios ciganos muito antigos. Acreditou que poderiam funcionar... At que Sara chegou.
       -Vai encontrar-se com a morte nesse escarpado, senhor -Predisse o ajudante de cmara ajudando a tirar a roupa molhada -Se impregnou at a pele.
       Mills estalou a lngua e deixou a roupa a um lado.
       Nicholas conteve o flego enquanto se inundava na gua. A aquelas alturas j deveria estar acostumado  ideia. Mas em certo modo nunca o estava, e duvidava 
muito que chegasse a est-lo alguma vez. Tranquilo e frio, tinha que estar tranquilo e frio. E como, quando inclusive a mais mnima imagem de Sara que cruzava por 
sua mente como um fantasma despertava seu sexo  vida a pesar da gua gelada? Em seguida se esquentou com o calor de seu corpo, com a febre de seu sangue, o sangue 
que provocava a loucura que no era loucura, ao menos no no sentido estrito. Esta podia curar-se, e se no, podia-se conseguir uma cega inconscincia. No havia 
alivio para aquela raa de loucura. Isso  o que era: uma raa... Sua ereta virilidade e o pelo de ponta eram a prova disso. Se isso ocorria com o mero feito de 
pensar nela, o que aconteceria se chegavam a tocar-se? Estava a ponto de aoitar seu traioeiro corpo nu quando Mills lhe tirou a esponja.
       -Nossa! -Exclamou o ajudante de cmara -No ficar pele no corpo, senhor.
       -A dor  o outro elemento dissuasivo, velho amigo... isso, e a morte.
       -No diga tolices. -O ajudante de cmara torceu o gesto, vertendo uma jarra de gua por cima da cabea -Estamos fazendo progressos.
       -Estvamos fazendo progressos -Corrigiu Nicholas sacudindo-se como um co molhado -Por que pensei que este acordo funcionaria. Fui um estpido.
       O ajudante de cmara sacudiu a cabea, apartando-se da chuva de gua.
       -Estava advertido, senhor.
       -Voc sabe por que este matrimnio... Tinha que ser -Disse Nicholas -As pessoas estava comeando a falar, e os rumores chegam at mim inclusive aqui, sepultado 
como estou neste velho mausolu cheio de correntes de ar. Cada vez que Alex retorna, volta com mais rumores. Na alta sociedade abundam... Um solteiro casadoiro, 
com ttulo, com terras e riqueza, suficientemente agradvel para ser atraente na temporada de baile na cidade... Encerrado na selvagem Cornualha. Nem imagina a quantidade 
de convites a festas, excurses campestres, veladas e danas que rejeitei. Chegam convites todos os dias, e a temporada de baile nem sequer comeou. Estremeo-me 
ao pensar como ser quando comear, e no posso voltar a partir para estrangeiro.  muito perigoso. Sem dvida me descobriro. Ah! Sara me perguntou se era um sodomita... 
No com essas palavras,  obvio, foi da mais diplomtica, mas essa era a ideia. J sabe que no posso coloc-la em minha cama tal e como sou, e ela imaginou que 
essa era a razo. O que vou fazer, Mills? No posso permitir que fique, e no posso deix-la partir... Nem agora nem nunca.  s questo de tempo que me descubra.
       -Tomou-lhe carinho -Disse Mills -E muito em breve.
       -Pior que isso -Respondeu Nicholas -O sentimento  mtuo.  mais do que me atrevia a esperar, e mais do que posso suportar. Ela  tudo o que sempre desejei... 
Loira, de pele clara e com os olhos como os jacintos silvestres das Terras Altas. Vi-os uma vez... Quando era menino. Fui menino alguma vez, Mills?
       -Ah, senhor -Cantarolou sua ajudante de cmara -No deve tomar assim. J sabe aonde o leva isso. Talvez quando o senhor Mallory retorne com seu convidado...
       -Ah sim, o bom do doutor Breeden, que certamente pensar que estou mal da cabea, que sou um excntrico louco que tem lido seu tratado e pretende aproveitar-se 
dele ou desacredit-lo, e Alex no deve sab-lo. Fiz grandes esforos por mant-lo  margem, como voc bem sabe. Isso seria perigoso. Vai ter que me ajudar com isto.
       -No o tenho feito sempre, senhor?
       -Sim, velho amigo, tem-no feito, mas agora  diferente. As coisas so imprevisveis. Eu sou imprevisvel, e Alex est  espreita.
       -Da senhora? -O ajudante de cmara conteve o flego e abriu seus olhos de ao de par em par.
       -Ela diz que controla a situao, mas conheo o Alex e voc me conhece. Se no necessitasse que estivesse aqui para ocupar-se de meus assuntos, no me atreveria 
a deixar este lugar para...
       -Ajudarei do modo que seja necessrio, senhor, isso preciso nem dizer-Respondeu o ajudante de cmara -Mas... Se me permitir  ousadia de perguntar, que desculpa 
deu ao senhor Mallory para que traga o respeitado doutor Breeden de Londres?
       -Para que avalie minha molesta anemia, que ambos sabemos que no existe, e para que desfrute da hospitalidade de Ravencliff... Umas frias pagas, se quiser. 
Estar conosco uma semana... Se tudo sair bem.
       O ajudante de cmara vacilou.
       -Neste momento, sua... Afeco fica entre ns dois -Recordou -Quanto mais gente a conhea...
       -O que outra opo tenho, Mills? -Atalhou-o Nicholas -O doutor Breeden  minha ltima esperana. Tenho lido seus artigos. Seus crditos o fazem recomendvel 
para minha "afeco". Se ele no pode me ajudar, ningum poder.
       -E o que ocorrer ento, senhor?
       -S Deus sabe. O velho est em sua tumba, e eu estou maldito com o legado que me deixou.
       -No foi culpa dela, senhor.
       -Acha que no sei? -Espetou Nicholas -Esse conhecimento no faz mais fcil viver com isso. Deveria ter feito quo mesmo eu... Abraar o celibato. Mas no, 
ele tinha que ter a seu maldito herdeiro.
       -Preocupa-me que esse mdico no seja discreto, senhor.
       -Assegurarei-me de que o seja antes de confiar a ele, velho amigo. Seu juramento o obriga a manter o segredo entre mdico e paciente. Ter que cal-lo que 
saiba. Romper esse cdigo seria sua runa profissional. Acredito que estou a salvo.
       -Mas isto, senhor...!
       -Isto  a razo pela que escolhi a esse homem, Mills. Teremos que esperar e ver.
       O ajudante de cmara guardou silncio imediatamente.
       -Falou  senhora da visita do doutor? -Perguntou finalmente.
       -O tema no chegou a sair, com tudo o que tnhamos que falar -Respondeu Nicholas -Mas me alegro de no ter dito. Essa mulher  curiosa at o extremo, e no 
teria deixado escapar o tema... Um mdico vivendo aqui com todas as coisas estranhas que acontecem? Me acredite, velho amigo, teria se jogado sobre isso como uma 
tigresa. A verdade  que no estou preparado para me enfrentar a uma descarga de perguntas sobre minha sade neste momento. Ela sabe que vamos ter um convidado, 
nada mais.
       -O que vai contar, senhor?
       -Contarei quo mesmo ao Alex, e no se fala mais do tema.
       O ajudante de cmara no disse nada mais, e Nicholas se afundou at o pescoo na gua aromatizada pelas ervas, afastando o cabelo mido dos olhos. Refletiu 
sobre as mancadas do dia e deixou escapar um comprido suspiro. No tinha sido sua inteno ferir Sara, mas talvez fosse melhor que se mostrasse brusco. Era prefervel 
despertar sua ira antes que sua paixo. Era melhor manter as distncias pelo bem de ambos. Entretanto, ia contra sua natureza mostrar-se grosseiro. Ofender sua sensibilidade 
opunha-se a todos os princpios que faziam dele um cavalheiro, ser o causador das lgrimas de uma dama. Odiava-se por isso e, entretanto, provavelmente voltaria 
a faz-lo. Era seu nico mecanismo de defesa para no trair a si mesmo, para no expor seu corao... Nem o de Sara a uma esperana que era impossvel de alcanar.
       Mills o estava observando, seu fiel servidor. O que tinha feito para merecer semelhante amigo e mentor? Sem dvida no tinha resultado fcil para o ajudante 
de cmara em um lugar como Ravencliff, onde as paredes ouviam, e onde dependia dele que no ocorresse nada do que outros pudessem inteirar-se. Por isso nunca falavam 
abertamente do tema, por isso no pronunciavam em voz alta nenhuma palavra que pudesse ser interpretada mal... Nem sequer ali, no refgio de sua sute do terceiro 
andar to separada do resto da casa. Essa era a razo pela que, quando falavam como o estavam fazendo agora, seu discurso resultava em sua maior parte indecifrvel. 
O ajudante de cmara no tinha metido a pata nem uma vez em todos os anos em que levava servindo. Era um mistrio e um milagre que as tivesse arrumado para que assim 
fosse.
       Nicholas se apontou mentalmente que devia manter sempre suas conversas com o doutor Breeden fora da casa. Por muito discreto que fosse aquele homem, nunca 
chegaria a s-lo tanto.
       -Me tire daqui, Mills? -Pediu Nicholas ficando de p.
       A gua caiu em cascata por seu corpo e foi parar chapinhando ao cho, formando um atoleiro no cho. Movendo-se com a agilidade de um homem da metade de sua 
idade, Mills estendeu uma toalha grosa no cho para que a pisasse, e Nicholas saiu da banheira. O ajudante de cmara o envolveu em toalhas, e Nicholas se esfregou 
para secar-se, dando-se golpes nas ervas que tinham ficado grudadas  pele, estendendo seu aroma, espalhando seus calmantes leos em seus poros antes de sacudir-lhe 
com no menos fora da que tinha utilizado antes com a esponja.
       -Quer que lhe traga roupa limpa ou o penhoar, senhor?
       -O penhoar, Mills -Respondeu Nicholas -J terminei por hoje... Estou exausto.
       -Sim, senhor -Disse o ajudante de cmara arrastando os ps para o quarto.
       Nicholas seguia esfregando-se com as toalhas quando Mills retornou, e o criado as retirou para o ajudar a vestir o penhoar.
       -A bebida, senhor -Recordou agarrando a da bandeja de prata que havia sobre a cmoda.
       -Ah, sim, no devemos esquecer a maldita beberagem -Disse Nicholas atando o cinturo com as speras mos.
       Agarrou o copo que oferecia e se deixou cair na poltrona ao lado da lareira enquanto Mills recolhia as toalhas e secava os atoleiros.
       -Dei-lhe permisso para tomar um amante -Disse.
       Necessitava que dessem a absolvio por aquilo, e Mills sempre estava disposto a faz-lo. Mas esta vez no. O ajudante de cmara deixou de limpar de repente, 
o olhando boquiaberto.
       -Senhor! -Ofegou -No ser verdade...
       -OH, sim  -Disse Nicholas jogando a cabea para trs para tomar a bebida.
       Torceu o gesto. Estava amarga apesar do mel.
       -O que disse ela a respeito? -Inquiriu o ajudante de cmara.
       -Armou-me uma boa -Respondeu Nicholas brincando com o copo vazio -Dizer que me cortou as orelhas por isso seria pouco. Mas  que no queria deixar o tema, 
e no me ocorreu outra coisa que lhe sugerir.
       -No pode culp-la por ficar furiosa com voc, senhor. Logo que tive oportunidade de v-la, mas at eu seria capaz de ver que ela no passaria por algo assim... 
 uma mulher irreprovvel, sem dvida alguma.
       Aquela no era a resposta que Nicholas queria escutar, e aspirou com fora o ar enquanto deixava o copo vazio na mesinha que havia ao lado da poltrona. O 
olhar de recriminao de seu ajudante de cmara o obrigou a afastar o seu; podia suportar tudo, exceto a desaprovao daquele homem to querido. Sentiu como se um 
punho invisvel lhe estivesse apertando o estmago.
       -O que teria sugerido voc? -Perguntou.
       -No sei, senhor -Respondeu o ajudante de cmara -Mas certamente, isso no.  um milagre que no lhe tenha quebrado um vaso na cabea. No que estava pensando?
       -Estava pensando, Mills, que lhe devo a liberdade de receber prazer onde o deseje, j que eu no posso lhe oferecer nenhuma sorte conjugal. Pareceu-me que 
era o mnimo podia fazer.
       -E como voc se sentiria se ela tivesse aceitado a sugesto, senhor?
       -No posso pensar nisso agora, Mills, ou todo este maldito ritual no ter servido de nada.
       -Mmm -Murmurou o ajudante de cmara retomando sua tarefa.
       -Essa porta no est fechada, Mills. Ainda pode chegar a ocorrer, e se for assim no poderia impedi-lo. No tenho direito.
       O ajudante de cmara recolheu as toalhas molhadas e se incorporou.
       -E se o contasse diretamente, senhor? -Perguntou.
       -Sabe que no posso fazer isso -Respondeu Nicholas -Sairia gritando por toda a casa, disso pode estar seguro, velho amigo.
       -Mas se... Como disse, o sentimento  mtuo...
       -H algo mais -Assegurou Nicholas ficando de p -Algo que no te disse.
       -Sim, senhor?
       -Criou um vnculo com o Nero.
       -OH, senhor! -Exclamou Mills -No pode permitir que...
       -J aconteceu.
       -Mas pode lhe pr freio... Deve faz-lo!
       -No sei se posso -Murmurou Nicholas -Foi muito longe, e nem sequer estou seguro de querer faz-lo.
       O ajudante de cmara abriu e fechou a boca trs vezes antes de que lhe sassem as palavras.
       -Precisamos falar, senhor -Disse fazendo um esforo -Se trata do Nero. houve... Comentrios abaixo.
       -Comentrios, Mills?
       O ajudante de cmara assentiu.
       -J sabe o que pensam os criados do Nero. At agora os rumores tinham sido virtualmente inofensivos, mas deve tomar cuidado. Falou-se de... Acabar com sua 
vida.
       Nicholas ficou reto de um salto na cadeira.
       -Esses vermes insolentes! Como se atrevem a planejar meu assassinato sob meu prprio teto?
       -Seu assassinato no, senhor... O assassinato do Nero. Sei o perto que est de... Bem... A situao, mas deve recordar isso. Eles nunca...
       -Sim. Sim, sei, Mills. Mas que se confabularam para fazer mal... Para matar algo que  meu... Pago um salrio a esses vagos. Como se atrevem?
       -Sei, senhor, e certamente no vou defend-los, mas j sabe o que pensam das repentinas idas e vindas do animal. So gente singela, e lhes assusta.
       -Nero no provocou jamais nenhum mal a ningum desta casa -Assegurou Nicholas elevando a voz -E suas idas e vindas no podem evitar-se, j sabe.
       -Sh, senhor, algum poderia ouvir! J sabe quo supersticiosos so os criados desta casa. Sabia que isto iria zang-lo, mas no carregue contra mim por contar-lhe. 
       -No estou carregando contra voc, Mills. Carrego contra as circunstncias. Quanto tempo faz que acontece isto?
       -O assunto acaba de chamar minha ateno. Sem dvida leva o tempo suficiente como para que nos preocupemos, senhor. Estive observando a situao muito de 
perto, acredite.
       -Maldio! Deveria ter ido a mim antes.
       -Por favor, senhor, no se irrite. J conhece os riscos. Confiava em poder control-lo, mas no fui capaz. No queria o carregar com isto tal e como esto 
agora as coisas, com a chegada da senhora e tudo isso, mas tive que faz-lo. Deve tomar cuidado com o que Nero come quando est... Fora, senhor. Falaram em pr o 
arsnico que utilizam as moos para envenenar aos ratos dos estbulos.
       -Maldio! -Bramou Nicholas levantando-se de um salto da poltrona -Quem est por trs desta... Confabulao? Quero saber seu nome! Por Deus que no voltar 
a ver sair o sol nesta casa. Est despedido... Agora... Esta noite.
       -No pode jogar a toda a servido, senhor.
       -Quero seu nome, Mills -Disse Nicholas pronunciando as palavras com perigosa calma.
       O ajudante de cmara vacilou.
       -Peters  o que mais fala, senhor, mas no teve que convencer muito ao resto. Todos estavam dispostos a isso.
       -Peters, diz? Teria que ter adivinhado -Nicholas comeou a andar de acima e abaixo do tapete -Isso  muito incmodo. Esse pequeno descarado sente algo por 
Nell. O que menos necessito agora mesmo  que a donzela de minha mulher esteja mal-humorada, e isso  exatamente o que acontecer se demito o criado. No h ningum 
entre a servido capaz de substituir a jovem. V! v de onde vem tudo isto. Nero pegou o moo dormido em seu posto e teve que despert-lo... Com certa brutalidade. 
No me olhe assim, Mills! Nero se limitou a assustar a esse cabea de vento.
       O ajudante de cmara elevou suas povoadas sobrancelhas e a boca curvou nas comissuras.
       - obvio, senhor -Assegurou.
       -Sim, bom, voc deixe o Peters comigo. Receber uma reprimenda... Por agora. Tem razo. No posso me permitir semear o caos agora, aqui tal e como esto as 
coisas, com a senhora e com o Breeden a caminho.
       -Sim, senhor.
       Nicholas dirigiu ao ajudante de cmara um olhar fulminante.
       -Colocou-me em uma posio impossvel com isto -Assegurou.
       -Eu, senhor? -Espetou ele.
       -Se enfrent-lo, saber que voc me contou isso, verdade? Que utilidade ter ento como meus ouvidos e meus olhos ali em baixo, em? Se voc no estiver pendente 
do veneno para ratos e esse tipo de coisas, o que ser de mim? Estremeo-me s de pens-lo. Atou-me as mos, mas bem, velho amigo.
       -Sim, senhor -Disse o ajudante de cmara com tristeza. Voltou a apertar as mandbulas para formar as palavras que tanto trabalho custava pronunciar -Se me 
permite falar com franqueza -Disse finalmente -O que disse antes me preocupa. No  prudente permitir que a dama se afeioe ao Nero.
       -Permitir? -Soltou Nicholas -Como no vou permitir, Mills? Como vou negar-lhe um mascote a quem mimar? Olhe de onde vem, o muito que deve sofrer nesse lugar. 
No tem nada nem a ningum exceto o superficial acordo que eu lhe ofereci. Est sozinha. Nunca imaginei que pudesse estar tanto, e eu no posso lhe dar o afeto que 
deseja. Quero que seja feliz aqui. Que dano pode fazer mimar Nero se isso acalma sua dor e sua solido? Eu diria que  um consolo muito pequeno por minha parte dadas 
as circunstncias. No tenho nada mais que lhe oferecer.
       -No est pensando com claridade, senhor! -Disse o ajudante de cmara -E se o doutor Breeden tiver xito e Nero nos abandona?
       -J adverti a Sara dessa possibilidade. Se isso acontecer, super-lo-.
       -E... Se no acontecer, senhor?
       -No adiantemos acontecimentos.


  Captulo 6

  
       Sara despertou com a primeira luz do dia, embora tivesse ficado acordada at bem passada a meia-noite esperando a visita de Nero. No tinha ido, e despertou 
decepcionada apesar do alegre sol que se filtrava pela janela, apanhando as bolinhas de p que danavam no feixe de luz como se tivessem um propsito. Nell tinha 
entrado em silncio, aberto as cortinas, ascendido o fogo e voltado a sair sem despert-la; era uma excelente donzela.
       Sara bocejou, estirou-se e deixou cair os ps por um lado da cama antes que tudo voltasse a reaparecer em sua mente... Seu enfrentamento com o Nicholas. Como 
ia enfrentar-se a ele no caf da manh? Ficou de p de um salto e adotou uma postura reta. Enfrent-lo-ia sem problemas, e lhe daria exatamente o que ele queria: 
uma anfitri. Inundaria-se naquela ocupao, no se esconderia em sua sute nem iria zangada pelos cantos. Tomaria sua estadia ali como um trabalho, e evitaria a 
aquele homem o quanto pudesse. Assim devia ser, se queria conservar a prudncia, mas primeiro estabeleceria suas prprias regras domsticas.
       Quando Nell chegou para ajud-la a vestir-se, ela j tinha tirado do armrio um vestido de musselina cor pssego com fitas de Bruxelas bordado no decote. 
A umidade tinha convertido seu cabelo ondulado em uma massa de mechas e cachos que a donzela penteou em cascata para cima, trespassados com laos de seda em tom 
pssego. Depois de vrias tentativas falhas de arrumar as mechas ao redor do rosto, Nell elevou as mos em gesto de derrota. Teria que deix-los assim. No importava. 
Sara no estava tratando de impressionar a seu marido. No era uma esposa, e sim uma empregada... Com uma vantagem especial. No importava se ele aprovava seu aspecto 
ou no. No podia despedi-la.
       O caf da manh resultou to informal como de costume. Sara estava sentada na sala de caf da manh desfrutando de um prato de ovos escoceses, pequenos, bem 
cozidos e servidos em carne picada com tomates ao forno quando Nicholas entrou na estadia. Saudou-a inclinando-se e comeou a servir-se ele mesmo seu prato. No 
levava nem colete nem casaco sobre as calas de cor cinza pomba e a camisa de algodo egpcio, embora tivesse um leno preso com mestria ao pescoo. Sara o observou 
enquanto lhe dava as costas. Que os ombros largos tinha e que estreita a cintura. As calas ajustadas, metidas nas botas de cano alto, lhe marcavam cada contorno 
de suas fortes e musculosas coxas. Deixavam pouco  imaginao, mas Sara no tinha que esforar-se em imaginar o fsico que havia debaixo; tinha visto mais do que 
tinha direito a ver atravs de seu robe aberto o segundo dia de sua estadia ali. No era algo que pudesse esquecer facilmente. O peito forte, levemente coberto de 
pelo negro que descia at converter-se em uma flecha que descia pela parte inferior de seu ventre, assinalando para a sombra do que havia sob o robe aberto, o brilho 
de sua forte coxa quando descia pelas escadas. O mero feito de pensar nisso fez que o corao pulsasse com mais fora, e uma rajada de sangue quente se amontoou 
nas bochechas. Tinha os lbulos das orelhas ardendo. Nicholas deu a volta e ela cravou a vista em seu prato.
       -Sara -Disse Nicholas tomando assento no extremo oposto da mesa -A respeito de ontem  noite...
       -No quero falar sobre ontem  noite, Nicholas -O interrompeu ela -Voc deixou muito claro sua postura, e acredito que eu tambm. Podemos deix-lo assim e 
seguir adiante com isto ou tirar o tema sem nenhum propsito prtico.
       -Muito bem -Disse Nicholas dedicando-se  comida que tinha no prato.
       "Ah, assim voc no gosta que o mandem calar, baro Walraven", percebeu Sara com satisfao. "Bem, voc comeou esta loucura, e a pessoa no deveria comear 
nunca algo que no possa terminar".
       A comida voltava a ter sabor para ela. Aquela era a maneira de tratar aquele bruto, mas no tinha feito mais que comear.
       -Tenho umas quantas "normas domsticas" prprias que eu gostaria de expor antes que sigamos adiante -Disse dissecando seu tomate ao forno.
       -Aqui no -Respondeu ele assinalando com a cabea para o lacaio que presidia o bufe.
       -Sim, aqui -Insistiu Sara reclinando-se para trs enquanto lhe serviam mais caf na xcara -Minhas normas domsticas so muito prosaicas comparadas com as 
suas. De fato, tm que ver com os criados. No  necessrio as arejar somente atrs das portas fechadas do escritrio -Aquela ltima frase a expressou de forma exagerada 
por cima da borda da xcara.
       -Sara...
       -E agora, onde parei? -Entoou-. Ah, sim, minhas normas domsticas. Em primeiro lugar, se for me encarregar da casa, devo ter liberdade de ao para faz-lo. 
Isso significa que terei que falar com sua cozinheira para elaborar os menus, com a senhora Bromley em relao a roupa branca, as flores frescas e coisas assim, 
e  obvio, com os lacaios, para me assegurar de que tudo corra como  devido.
       - obvio -Respondeu Nicholas com voz dbil e desmoralizada.
       -Em segundo lugar, embora no menos importante -Continuou -Necessitarei que me proporcionem uma lista dos gostos de seus convidados, e de qualquer alimento 
que no possam comer. Um menu defeituoso seria algo desastroso. Se fosse  cidade mais frequentemente e no enviasse a esses ingnuos a fazer seus recados, saberia.
       -Sara, por favor...
       -Vejamos... Necessitarei um lugar para fazer as entrevistas -Continuou, desfrutando de cada instante do cenho de suas povoadas sobrancelhas e de suas sombrias 
expresses.
       Era a viva imagem da formao de uma tempestade, de um menino petulante, ou de ambas as coisas, perseguindo um de seus ovos escoceses pelo prato com um vingativo 
garfo. Chegou um momento no que Sara estava convencida de que ia pr-se a voar e atacar o lacaio, que estava tratando de manter o mais afastado possvel para encher 
a xcara de seu senhor. Aquilo era muito melhor que zangar-se e chorar.
       -A salinha de manh, acredito -Continuou ela -Sim, a salinha de manh ser perfeita. Utilizarei-a depois do almoo quando surgir a necessidade, comeando 
por hoje mesmo. Pode avisar aos serventes para que estejam prontos.
       -Terminou? -Perguntou Nicholas enquanto dispensava o lacaio, que se inclinou respeitosamente e partiu.
       -Terminei? OH, no, absolutamente -Respondeu ela -Foi muito afortunado ao me escolher, Nicholas. Antes que a... Desgraa de meu pai o levasse  tumba e a 
mim  a priso em Fleet, eu presidia todas nossas celebraes, includas as caadas. Ele era cavalheiro, sabia? Claro,  obvio que sabe, provavelmente sabe o que 
tomava para o caf da manh, e ns celebrvamos muitos eventos. Assim j v, tenho muita experincia que contribuir a meu posto.
       Nicholas deixou o garfo e o guardanapo fazendo um esforo por controlar-se e agarrou a borda da mesa como se fosse um animal a ponto de saltar. Durante um 
instante, Sara acreditou que ia p-la na vertical.
       -J  suficiente, Sara! -Exclamou com fria -Faz que parea que  uma simples empregada. Sabe que esse no  o caso.
       - o nico "caso" com o que posso viver e que posso suportar. Isto, Nicholas -Assegurou ela - o que quer de mim, e o farei bem, mas devo estar completamente 
a cargo de tudo. Isso tem que ficar claro. No pode haver mais que um par de mos na massa se quiser que as coisas saiam sem problemas. Entendemo-nos?
       -Sim -Disse ele derrotado voltando a agarrar o guardanapo.
       -Bem! -Respondeu Sara -Quando chega seu convidado?
       -Vou receber um reputado mdico, o doutor Mark Breeden. Alex foi a recolh-lo a Londres. Deveriam chegar aqui na quinta-feira.
       -To cedo?
       -Deveria ter dito antes. O sinto... Aconteceram tantas coisas...
       -No precisa se desculpar; Se d muito mal. Trs dias so poucos, mas acredito que bastaro. Trata-se s do doutor, ou vem algum mais?
       -S o doutor.
       -Quanto tempo ficar?
       -Est de frias, temos uma semana pensada, mas isso poderia mudar. Os mdicos de seu calibre no revistam tomar-se frias largas. Manterei-te informada.
       -Obrigado. Encarregar-me-ei de que preparem um menu flexvel, com suficiente variedade nos entrantes e pratos que permitam mudanas, mas deve tirar o tema 
com ele assim que chegue e me informar de qualquer urgncia.
       - obvio -Murmurou Nicholas arpoando por fim seu ovo escocs.
       Sara sentiu desejos de aplaudir.
       -Muito bem, ento -Disse levantando-se.
       No estava disposta a permitir que se comesse aquele ovo... Nem menos enquanto estivesse ainda quente.
       Nicholas ficou de p de um salto.
       -Pode informar  senhora Bromley que requeiro sua presena na salinha de manh esta tarde s duas em ponto. E agora, Nicholas, se me desculpar, tenho muitas 
coisas que preparar. Bom dia.
       Estava a ponto de cruzar a soleira quando ele bloqueou a sada. Estirou a mo para ela, mas a retirou imediatamente, como se pensasse que tinha estado a ponto 
de jog-la no fogo, e a meteu no bolso, apertada e com os ndulos brancos. Em seguida fez o mesmo com a outra mo.
       -Sara, mereo parte de tudo isto agora mesmo, reconheo-o -Disse -Mas no pode se comportar deste modo quando chegar meu convidado. Quando chegar qualquer 
de meus convidados.
       -No se preocupe, Nicholas -Respondeu Sara passando por diante dele para sair ao corredor, obrigando aos lacaios que estavam escutando s escondidas a dispersarem-se 
-Serei a imagem do decoro, boas maneiras e elegncia. E agora, no pretendo ser grosseira, mas deve me desculpar. Tenho que me preparar para atender os assuntos 
da casa.
       Girando sobre seus calcanhares, partiu dali, o deixando com a mesma brutalidade que quando saiu de seu escritrio.
       Nicholas no se reuniu com ela para almoar, e era melhor assim. Sara no tinha imaginado ainda uma estratgia para sua seguinte reunio. No tinha tido tempo. 
Antes que terminasse o dia, reuniu-se com a senhora Bromley; Agnes Knott, que s respondia no nome de "Cozinheira", e com o Searl e Robbins, os dois lacaios que 
presidiam as comidas em Ravencliff.
       A senhora Bromley fez algumas sugestes para os menus e lhe proporcionou uma lista das comidas favoritas de Nicholas e do que no gostava. A governanta tambm 
mostrou um quarto que havia na sala de jantar no qual se guardava a porcelana e a prata em historiadas vitrines. Havia pratos de caf da manh, de almoo e de jantar, 
vrias baixelas diferentes para cada refeio, cada uma mais bonita que a anterior, e faqueiros de prata para combinar. Tambm se guardavam ali os cristais. A seleo 
era assombrosa. A senhora Bromley lhe disse que antes se celebravam umas festas fastuosas em Ravencliff. Grande parte da porcelana no se usava fazia trinta anos. 
Bem, pois agora iriam usar, prometeu Sara. Nicholas Walraven ia ter uma surpresa.
       Quase tinha anoitecido quando retornou a sua sute. Nell chegaria em seguida para ajud-la a vestir-se para o jantar. Sara guardou a tabela que continha suas 
notas sobre os menus no escritrio de sua salinha de estar e se aproximou da janela para contemplar a vista atravs dos vidros. O mar estava agitado. Ondas cobertas 
de espumas cresciam ao longo da costa; seu eco suspirante chegava at onde estava ela. Era um som tranquilizador que podia induzi-la ao sono se deixasse.
       Dirigiu o olhar para o sul. Uma figura avanava pela borda do escarpado sob a semi escurido. Era Nicholas, e a Sara deu um tombo no corao enquanto seguia 
os largos passos com os que estavam percorrendo o quebra-mar. No havia ira em sua postura, e sim algo mais parecido a um agitado desconforto em seus movimentos. 
Aquele era um homem lutando contra um demnio ao que ela no saberia pr nome, e desejava descer correndo pela enorme escada, atravessar o grande salo e sair aos 
bem cuidados campos que ficavam ao lado de Nicholas para perguntar aquilo;  obvio, era uma fantasia. Nem sequer sabia se seria possvel acessar ao escarpado da 
entrada circular. No pareceu que fosse assim o dia de sua chegada. Tinha que haver outra entrada, que estaria mais perto da ala oeste da casa e do mar.
       "Com certeza Nero a conhece", pensou caindo na conta. "Estava empapado quando veio me visitar". Sara encolheu os ombros. J que o animal no podia falar para 
contar apontou-se mentalmente perguntar aos criados pela manh.
       Estava a ponto de afastar-se da janela quando Nicholas tomou uma direo diferente. De repente, rompeu o passo e comeou a descer escarpado abaixo. Ela no 
podia ver de onde estava como descia, mas deu por feito que se tratava das escadas escavadas na rocha que levavam a praia. Nicholas tinha advertido contra aquelas 
escadas. Seria como ele havia dito, que no eram seguras, ou que havia algo mais ali abaixo... Algo que no queria que Sara visse? Ela tinha descido por pendentes 
semelhantes em Dover e em Lyme e nunca tinha acontecido nada. Tratava-se de descidas traioeiras e levantadas, com frequncia escorregadias devido aos efeitos da 
espuma do mar. Poderia descer por aquele pendente tambm, quando chegasse o momento.
       J no podia continuar vendo o Nicholas, assim que se separou da janela. As notas que tinha tomado durante as entrevistas a levaram ao escritrio. Precipitou-se 
em seu alarde; o certo era que trs dias no eram tempo suficiente para preparar-se para um convidado, e comeou a fazer listas com as notas que tinha tomado. Ainda 
estava refletindo sobre elas quando chegou Nell uma hora mais tarde para vesti-la para o jantar.
       -Acredito que tomarei uma bandeja aqui em minha sute -Disse Sara elevando a vista do mao de papis em que se converteram suas notas -Se encarregue disso, 
sim, Nell?
       -Sim, senhora. No se encontra bem? -Disse a donzela observando-a com o cenho franzido.
       Sara respondeu lhe mostrando um mao de papis.
       -No, no,  que tenho muito trabalho com isto. Vamos ter um convidado que chega na quinta-feira. Tenho que fazer os menus, pensar em onde o acomod-lo... 
enfim, que ocupar-me de tudo. Temo-me que vou ter que ficar aqui encerrada at a chegada do cavalheiro.
       -Sim, senhora -Disse a donzela -Quer enviar suas desculpas?
       -Ah! -Exclamou Sara agarrando da gaveta uma parte de pergaminho e cera vermelha para sel-lo. Rabiscou umas quantas linhas, dobrou-o, e depois agarrou uma 
vela e o fechou com um selo que tinha uma "W" em relevo. Claro que enviaria suas desculpas. No voltaria a cometer o mesmo engano. Quo ltimo desejava era receber 
outra visita noturna de ltima hora de Nicholas Walraven.
       -Encarregar se de fazer chegar ao Senhor? -Perguntou estendendo -Depois pode fazer o que quiser. Eu me despirei sozinha para me deitar. Tenho que me encarregar 
de tudo isto antes de me retirar, e no quero que voltem a me incomodar esta noite.
       -Sim, senhora -Respondeu Nell.
       Esboou uma reverncia e partiu com a mesma discrio com a que tinha entrado.
       A bandeja com o jantar chegou pouco depois, e Sara afastou um pedacinho de faiso assado em banha de porco se por acaso Nero fizesse uma visita. Quando levaram 
a bandeja, correram as cortinas e alimentaram o fogo com troncos novos para a noite, Sara deixou a porta do saguo um pouco entreaberta e retornou ao mao de papis 
que tinha no escritrio.
       Era quase meia-noite quando deixou a um lado as listas de menus e apagou soprando todas as velas, exceto as do candelabro que tinha na mesinha de noite ao 
lado da cama. Estava esgotada, mas j tinha escolhido a baixela que se utilizaria no caf da manh, o almoo e o jantar durante a estadia do mdico, e tinha elaborado 
um plano vivel que cobriria todas as refeies de uma semana. O resto poderia faz-lo em outro momento. Ao menos agora tinha um produto impressionante que apresentar 
a Nicholas pela manh. Levaria com ela quando descesse para tomar o caf da manh. Isso demonstraria ao baro Nicholas Walraven a espcie de investimento que tinha 
feito ao comprar uma anfitri como ela. Pensar nisso a fez reviver, e tirou os mocassins de couro marroquino para deixar cair sobre a cama a desfrutar-se em seu 
xito. No era sua inteno ficar adormecida assim, completamente vestida e ainda por cima da colcha, mas o fez. Baixou as plpebras e depois as fechou, e dormiu 
assim que ficou de lado e relaxou.
       Dormiu profundamente e sem sonhar e, entretanto, algo a despertou a altas horas da madrugada, algo fsico. A cama se moveu debaixo dela, e seu corpo tambm, 
deslocado por aquele fenmeno que a obrigou a abrir os olhos. Confusa, piscou para despertar. As velas ao lado da cama se consumaram at ficar reduzidas ao mnimo. 
Algumas tinham extinguido de tudo, e a cera lustrava o suporte, pegando o candelabro na mesinha de mogno com uma massa compacta de antiesttica cera.
       Sara piscou para limpar-se e concentrou o olhar no que a tinha despertado. Ali, aos ps da cama, estava sentado Nero como uma esfinge, lambendo a banha do 
faiso cozinhado em manteiga de porco das bochechas com sua larga e rosada lngua sem deixar de olh-la. Parecia uma esttua tirada de uma das obras do Egito clssico 
que recriava John Nash, e que estava to na moda aquela temporada entre a alta sociedade.
       -Nero! -Exclamou Sara.
       Engatinhando at chegar a seu lado, jogou os braos no pescoo e ele a recompensou lhe lambendo toda a cara. Sara riu. Tinha sabor de faiso e cheirava a 
limpo, a mar. Despenteou-lhe a grossa e abundante pelagem e plantou um beijo na parte superior da cabea.
       -Disse que teria uma guloseima para ti a prxima vez que viesse -Disse o abraando de novo -Vejo que j a encontrou. Gostou moo?
       Nero uivou por toda resposta e deu um suave golpezinho com seu mido e frio focinho.
       Seus olhos vermelhos como o fogo pareciam quase humanos enquanto a observavam no quarto em penumbra. Alm do brilho das brasas da lareira, que dava cor a 
aqueles olhos profundos e comovedores, agora s ficava acesa uma vela, que projetava um halo de luz trmula ao redor do corpo do animal.
       -Esteve fora -Sussurrou Sara -Cheira o cabelo a mar. E posso saborear o sal. Sabe como sair daqui, no , Nero? E vai me ensinar isso, no  assim? Ser nosso 
segredo.
       Os olhos do animal tinham uma expresso de absoluta compreenso, como se tivesse entendido cada palavra. Sentiu como se uns dedos frios lhe percorressem a 
espinha quando viu o mais parecido a um cenho franzido que tinha visto jamais em um co cruzar a larga e plana testa de Nero. Foi uma expresso fugaz que se voltou 
animal imediatamente. Uivando, o co saltou da cama, saiu pela porta aberta do saguo e desapareceu pelo corredor envolto em sombras antes que Sara tivesse oportunidade 
de chegar sequer  soleira.
       Mida resposta a sua pergunta; quando chegou ao corredor, quo nico encontraram seus olhos foi o espiono de um muito leve movimento que poderia ter sido 
a entupida cauda do Nero desaparecendo pelo patamar do segundo andar. Sara nem sequer se deteve pensar ou a agarrar seus mocassins. Movendo-se descala e sem fazer 
nenhum rudo, correu pelo corredor coberto de tapetes, chegou ao patamar e desceu a toda pressa a grande escada at chegar  porta verde. No se via o Nero por nenhuma 
parte, e Sara estava a ponto de puxar o trinco quando este se girou. Ela se agachou sob a escada que se bifurcava e conteve o flego.
       A porta se abriu. Um dos criados estava entrando na zona nobre procedente dos quartos da servido que ficavam debaixo. No podia ver quem era desde sua posio, 
completamente pega como estava  parede entre as sombras. Fosse quem fosse, um candelabro com velas iluminava seu caminho, e Sara permaneceu com as costas rgida 
at que o escorregadio som dos passados do criado se voltou distante e a escada voltou a obscurecer-se a seu redor.
       Sara aspirou com fora o ar de forma entrecortada e desabou contra a parede, mas no era uma parede, era uma porta! Abriu-se, deixando de sustent-la, e Sara 
avanou para trs tentando manter o equilbrio antes de que se fechasse em sua fuga com um clique aterrador.
       A ltima sensao consciente que teve foi cair no vazio.
  
       
  Captulo 7
  
  
       Sara gemeu ao despertar um pouco mais tarde na fria e mida escurido.
       O cho sobre o que estava escorregava pela umidade, e lhe recordou  a priso de Fleet. Gritou com toda a fora de seus pulmes para pedir ajuda, mas a nica 
resposta que obteve foi o lastimoso eco de seus gritos elevando-se para cima. Doa-lhe terrivelmente a cabea, e a vertigem nublava a viso. Os pequenos pontos brancos 
que davam voltas diante de seus olhos eram a nica luz que havia. Tinha um galo na testa. O tocou com cuidado. Dado seu tamanho, pensou que era impressionante. No 
seria fcil ocult-lo. Como ia explicar a Nicholas? Mas o primeiro era o primeiro, pensou. Antes teria que encontrar a forma de sair dali, estivesse onde estivesse. 
Ficou de joelhos e comeou a engatinhar pelo cho.
       De repente algo lhe roou o pescoo, e Sara gritou enquanto o golpeava. Tratava-se unicamente das fitas de Bruxelas de seu vestido, que tinha solto durante 
a queda, e exalou um profundo suspiro enquanto tratava de recoloca-la em seu lugar. Isso, entretanto, era impossvel. O vestido estava esmigalhado  altura do ombro, 
uma das mangas pendurava ali onde o decote estava rasgado, e no havia nada com o que cobri-lo. Apenas lhe tampava o peito.
       "Esse  o problema da moda atual", pensou com pesar. "Fazem a roupa muito fraca para que seja prtica". Embora tampouco fosse pensada para que algum casse 
rodando por umas escadas de pedra, no ? Isso foi o que seus dedos indicaram finalmente... Um degrau estreito, logo outro em cima, e outro. Sara ficou de p cambaleando-se 
e encontrou dois mais, e depois um muro. Percorreu cada centmetro dele. Onde estava a porta pela qual tinha cado? No estava ali!
       Aterrorizada, gritou com todas suas foras para pedir ajuda, mas o som retornou a ela em forma de eco, repicando nos ouvidos. O muro era de granito, impenetrvel, 
e Sara se deslizou de novo para o cho e comeou a procurar pela escurido com os braos estendidos, fazendo crculos com as mos no ar mido e frio. Depois de riscar 
vrios mais, topou-se com outro muro. Este tambm era de granito. Se ao menos pudesse ver algo!
       Foi apalpando centmetro a centmetro o cubculo que a rodeava, que no era muito maior que um armrio, at tropear com o que parecia uma cama e com uma 
pilha de escombros ao lado das escadas. Deu por feito que isso foi o que lhe amorteceu a queda, porque tinha aparecido ali no meio. Tinha economizado uma leso muito 
mais grave que o galo que tinha na cabea, e que evidentemente se fez ao cair ali.
       Ao outro lado das estreitas escadas, tropeou com um arca pequena que estava apoiada contra o muro. Tocou a parte superior e retirou as mos cobertas de mofo, 
embora no antes de encontrar uma pequena arca em um dos cantos. A umidade a tinha deixado presa at fech-la, e levou um pouco de tempo, mas por fim conseguiu abri-la. 
Dentro havia uma vela e um isqueiro. Podia atrever-se a confiar em que o isqueiro estivesse o suficientemente seco para arder? Rezou para que a pequena arca de metal 
o tivesse protegido o suficiente, e esfregou a pederneira at conseguir umas pequenas fascas que finalmente prenderam. Acendeu com elas a vela. Era curta e grosa. 
Colocou-a em cima da arca com ajuda do sebo escorrido e se girou para examinar sua priso. Conteve o flego. Tratar-se-ia de uma daquelas cmaras secretas nas que 
se escondiam os sacerdotes catlicos durante a consolidao do protestantismo? Se a casa se construiu com antecedncia  conquista dos normandos, era muito provvel. 
Esse tipo de habitculos tinham sido normais ao longo dos tempos, e a maioria dos castelos e casas antigas os tinha.
       Ravencliff reunia as condies em ambos os casos.
       De repente, calafrios gelados se apoderaram de seu corpo, pondo o corao em um punho. Tinha escutado histrias de homens que morriam em buracos escondidos 
como aquele, asfixiados ou de fome, aos que se emparedava dentro e se esquecia, s vezes deliberadamente. Aquelas construes eram inescrutveis. Os muros daquela 
deviam ter uma grossura de mais de um metro. Nunca se ouviriam seus gritos de cima. E se a ningum ocorria procur-la alguma vez ali? Voltou a olhar a seu redor. 
A grosa e intacta capa de mofo que o cobria tudo indicava que a cmara no se utilizou durante anos. Saberia algum sequer que existia? S podia rezar para que assim 
fosse.
       Sara olhou com consternao seu vestido esmigalhado. Estava coberto com o p e o limo procedentes da umidade que impregnava aquele lugar. Tinha as mos e 
os braos nus negros devido a isso. Estava gelada, e abraou a si mesma para entrar em calor, esquadrinhando a sala com olhar ansioso em busca de algo que pudesse 
utilizar para cobrir-se. Finalmente seus olhos se posaram em uma pilha de lenis velhos que havia no canto, e tirou uma pea de tecido que talvez no passado se 
utilizasse como roupa de cama. Era to velha que se rasgou quando se cobriu com ela. Mas teria que servir.
       Olhou para a vela. Tinha a chama alta e reta. No havia corrente. O corao deu um tombo. Isso significava que no estava entrando nada de ar. Tambm significava 
que tinha que guardar a vela para emergncias. Ficava muito pouco dela. Alm disso, no se atrevia a deix-la acesa e arriscar-se a consumir oxignio, assim percorreu 
rapidamente a estadia e memorizou as dimenses da cela e seu contedo.
       No tinha sentido esbanjar energia e pulmes antes do amanhecer. No havia ningum a fora que pudesse ouvi-la. A nica coisa que podia fazer era esperar 
e confiar em que o rudo dos serventes movendo-se por cima lhe indicasse que se fez dia, e ento poderia voltar a pedir ajuda a gritos. No podia faltar muito. Sara 
jogou uma ltima olhada ao redor e apagou a vela.
  
  
       Nicholas tomou o caf da manh sozinho pela manh. Sara no apareceu, e no tinha enviado suas desculpas. Ia de caminho  sute de sua esposa quando se cruzou 
com Nell, que descia do patamar do segundo andar.
       -OH, senhor, estava-lhe procurando -Choramingou -Aconteceu algo  senhora, sei!
       -Se acalme, Nell -Pediu ele -A que se refere com que algo lhe ocorreu?
       -No est, senhor. No dormiu em sua cama, e seus sapatos esto acima, no cho. Onde poderia ter ido descala na metade da noite?
       -Mostre-me isso -Disse dirigindo-se de um salto s escadas que tinha diante.
       -Esse co sarnento tambm esteve ali -Continuou a donzela correndo atrs dele -Ela deve ter dado algo de comer de sua bandeja do jantar. O guardanapo vazio 
estava no cho, todo cheio de banha.
       Nicholas soltou uma fileira de maldies entre dentes e irrompeu na sute das tapearias sentindo o peito pesado pela raiva. A raiva era perigosa. Tudo era 
perigoso naquele momento, em realidade, e aspirou com fora o ar em respiraes profundas enquanto entrava no quarto.
       -Quando a viu por ltima vez, Nell? -Inquiriu.
       -Quando levei a bandeja -Respondeu a donzela -Acendi o fogo e corri as cortinas enquanto ela jantava. Depois disse que no queria que a incomodassem... Que 
ela mesma se prepararia para deitar-se, assim que a deixei com suas coisas.
       -A que hora ocorreu isso aproximadamente? -Insistiu Nicholas.
       -No sei, s sete, s oito... Mais ou menos quando voc tomou assento na sala de jantar.
       Nicholas recolheu os sapatos de Sara do cho e os observou com o cenho franzido.
       -Isto  o que me preocupa tambm -Disse Nell -No pode ter ido muito longe sem mocassins. Tem que estar em algum lugar da casa, mas, onde? Procuramos de cima 
abaixo, senhor.
       -De acordo, Nell -Disse Nicholas -Quero que fique aqui nesta sute at que indique o contrrio no caso de retorne. Se isso acontecer, avise-me imediatamente. 
-Nicholas balanou os mocassins -Levo isto. Se por acaso a encontro.
       -Sim, senhor -Respondeu Nell estirando a enrugada cama -V isto? -Perguntou sacudindo os cabelos negros e curtos misturado com prata da superfcie tecida 
-Esse co esteve aqui, tal e como lhe disse... Justo em sua cama. -Estalou a lngua -Tambm manchou a colcha de baba.
       -Sim, bom, darei uma boa reprimenda ao Nero -Respondeu Nicholas -Mas no momento, deixa aberta a porta do saguo. Se o animal volta... Segue-o. Se esteve ontem 
 noite aqui, tal e como diz, pode que saiba onde foi a senhora.
       -Sim, senhor -Disse Nell -Mas me permita que o diga, senhor, Nero... No  um co adequado para uma casa to fina como esta.  desalinhado, de aspecto selvagem 
e todo pele e ossos. Parece meio esfomeado. Isso tampouco  nossa culpa. A metade do tempo nem sequer come o que lhe deixamos. D medo, essa  a verdade, sempre 
espreitando entre as sombras. Sei que no me corresponde diz-lo, mas no sou quo nica o pensa... O diz todo mundo abaixo. Tem que livrar-se desse animal, senhor.
       -Bom, sim, esse  o plano, Nell -Assegurou Nicholas -Com um pouco de sorte, no ter que seguir preocupando-se do Nero... Mas por agora vejamos se consigamos 
que ganhe o sustento, de acordo?
  
       Por muito que o tentasse, Sara no conseguia escutar nenhum som procedente de cima. Era difcil calcular o tempo que levava ali na escurido. Seguro que j 
devia ser de dia. Tinha que tentar algo, o que fosse, para sair daquele frio e mido cubculo, ou ficaria louca pensando no que poderia acontecer se nunca chegassem 
a encontr-la.
       Quanto tempo demoraria para morrer ali? A atmosfera j estava muito carregada. Quanto tempo ficava antes que ficasse sem ar para respirar? Seria uma morte 
lenta e terrvel. Sara subiu os degraus e comeou a gritar enquanto esmurrava com ambos os punhos o muro que uma vez foi uma porta. Depois se deu conta da inutilidade 
daquele gesto. No transcorreu muito tempo antes que sua delicada pele estivesse machucada e ferida por seus ataques contra o spero granito, e desceu os degraus 
de novo, tirou o isqueiro da arca e comeou a golpear o muro com ele.
       Gritou uma e outra vez com todas suas foras at que quebrou a voz e esta se converteu em speros suspiros, depois atacou o muro com o isqueiro at que escorregou 
das mos e caiu no cho. Sara gemeu e se desesperou. Necessitava do isqueiro para acender a vela. Como ia encontr-lo na escurido?
       Tudo parecia intil, e Sara se deixou cair no degrau com a cabea entre as mos. Depois de uns instantes, recuperou o ritmo da respirao e ps em ordem seus 
pensamentos. Tinha que haver algo que ela pudesse fazer. Talvez outra olhada com a luz da vela pudesse mostrar algo que antes tivesse passado, assim desceu a provas 
os degraus e comeou a procurar pelo cho. Quando por fim encontrou o isqueiro entre os escombros que havia ao lado das escadas, o corao deu um tombo. Quebrou 
ao cair, e a pederneira e a isca tinham desaparecido.
       No servia para nada. A garganta de Sara ardia de tanto gritar pedindo auxlio. Doa-lhe a cabea, o galo da testa pulsava como se fosse o pulso e tinha as 
mos cortadas e ensanguentadas. A vertigem ameaava fazendo perder a conscincia. Quanto tempo tinha transcorrido desde que se precipitou por aqueles degraus? Quanto 
tempo esteve inconsciente depois? Se ao menos aquela cela no fosse to pequena, se no fosse to asfixiante, se ao menos houvesse alguma corrente de ar como as 
que atravessavam cada greta do resto da casa.
       Sara tinha ouvido em alguma parte que ao mover-se em espaos confinados se gastava o oxignio a maior velocidade. J era muito tarde para pr em prtica aquele 
conhecimento. O esforo tinha minado suas foras. Mal podia respirar. Apoiou a cara no frio degrau de granito e fechou os olhos.
       -Quando no quero nem ver essa condenada criatura, aparece a toda velocidade -Protestou Nicholas percorrendo de cima abaixo o tapete de seu provador -E em 
troca, quando  vital...
       -No tome assim, senhor -Disse Mills recolhendo a roupa do Nicholas enquanto este a tirava -Acredita que h algo que ele seja capaz de fazer e que voc no 
possa? Encontr-la-, senhor.
       -Como? -Bramou Nicholas jogando o colete no cho. Desatou o leno do pescoo e tambm o atirou -Procuramos por toda a casa, de cima abaixo, cada maldito cmodo. 
Deus todo-poderoso, inclusive desci para procurar pela praia. Necessito de Nero! Mas no posso control-lo, no ? No, ele controla a mim! Por que acontece sempre 
assim? Por que no posso recordar nunca todo o acontecido? Ningum viu a Sara desde ontem a hora de jantar, Mills. Nero no apareceu aps tampouco. Isso foi faz 
mais de vinte e quatro horas. Se estiver ferida em algum lugar...
       -A senhora e voc... discutiram, no  verdade? -Perguntou o ajudante de cmara agarrando a camisa de Nicholas antes de que casse no cho -Tome cuidado, 
senhor! Esteve a ponto de ir parar ao fogo -Exclamou acrescentando a camisa ao vulto de roupa antes de continuar - possvel que partiu de Ravencliff?
       -Sem sapatos, Mills? No me parece provvel. H um comprido e ngreme percorrido at chegar ao caminho, e a porta sempre se fecha ao anoitecer; j sabe. Alm 
disso, no foi uma briga to forte, e Nell disse que Sara estava trabalhando nos menus para a visita do doutor Breeden quando a viu por ltima vez. No me parece 
que tivesse pensado fugir deste lugar, embora no poderia culp-la em caso de que assim fosse. Meu Deus, tenho que encontr-la.
       -Quer a banheira, senhor?
       -Nada de banhos frios esta noite -Grunhiu Nicholas deixando cair na poltrona de orelhas -Estendeu os ps -Me tire estas malditas botas.
       -Talvez um banho quente, senhor? -Sugeriu Mills colocando-se escarranchado sobre a perna estirada.
       -No -Respondeu Nicholas.
       Plantou o outro p no estreito traseiro de Mills, puxou, e o ajudante de cmara tirou a bota de cano alto com um grunhido.
       -Quo ltimo preciso  me relaxar.
       -Irei procurar seu robe, senhor -Ofegou Mills depois conseguir tirar a outra bota.
       Colocou-a debaixo do brao com o resto.
       -No -Disse Nicholas tirando as calas e depois a roupa interior -Deixa isso em cima da cama.
       -Senhor? -Perguntou o ajudante de cmara boquiaberto enquanto Nicholas voltava a caminhar de cima abaixo na frente do fogo completamente nu.
       -Deixa isso a e v  cama! -Espetou Nicholas. Agarrou os mocassins de couro marroquino de Sara do tamborete que estava ao lado do fogo e os observou como 
um sabujo que seguisse um rastro enquanto caminhava a grandes pernadas de cima abaixo.
       -Mas senhor, e sim...?
       -Sei onde te encontrar se te necessitar, Mills -O interrompeu Nicholas -V  cama. Ao menos um de ns tem que descansar algo esta noite.
       Sara despertou agonizando para respirar na escurido. Tinha despertado um som de arranhes. Ratos! A priso de Fleet! No, no estava em Fleet, isso teria 
sido o paraso comparado com isto, sua tumba nas vsceras da manso de Ravencliff, onde ningum poderia encontr-la exceto os ratos. Sentiu uma onda de adrenalina 
atravessando-a. Estavam dentro... Ou fora? No havia maneira se soubesse sem a vela, e voltou a subir com estupidez os degraus, gritando com todas as foras que 
ficavam.
       Os arranhes se detiveram. Os teria imaginado? Agora no havia nenhum som, e se arrastou de novo escada abaixo at derrubar-se sobre o frio e viscoso cho. 
Para ento o tempo j no tinha nenhum significado. Tinha perdido completamente a noo do mesmo. Estava perdendo tambm a conscincia. Uns estranhos sonhos se apoderaram 
de sua mente at que j no foi capaz de separ-los da realidade. Ento lhe chegou um som chiante que ressoou por todo seu corpo, provocando um grande calafrio, 
e uma repentina rajada de ar fresco entrou, de repente, em meio um raio de luz. Cheirava a mofo e a rano, mas, OH, que maravilhoso resultava voltar a respirar de 
novo! Tratava-se de uma alucinao; estava ficando louca. Tinha que ser isso.
       Uns braos fortes a agarraram imediatamente, e umas pernas poderosas a tiraram da tumba. Sara apoiou o rosto quente contra aquele robe borgonha familiar. 
Cheirava a limpo, a mar, a ele, sensual e animal. O corao que pulsava baixo aquele robe ressoava contra seu ouvido em um ritmo tremente, tranquilizador e ao mesmo 
tempo aterrador. Sara se apoiou contra ele, aconchegando na seda, e dormiu.
  
       
  Captulo 8
  
   
       Nicholas resistia a deixar Sara. Desesperava-se deix-la ir. Mas sabia o que aconteceria se a tocava do modo em que desejava faz-lo, assim que tudo tinha 
que ser impessoal entre eles. Tinha que tratar-se de um acordo profissional. No havia outra alternativa.
       Que suave e dcil a sentia em seus braos, que bem cheirava apesar da terrvel experincia que tinha vivido naquela ranosa cela. Nicholas aspirou seu aroma 
at que encheu com ele suas fossas nasais e sua memria: alecrim e alhel5, fragrncias ancestrais de madeira, de terra, com um toque sensual de rosa. Bebeu dela, 
daquele nctar dos deuses do que se viu privado durante tanto tempo.
       Deixou-a sobre a cama e separou da testa o cabelo banhado pelo sol. Que suave era, tal e como ele tinha imaginado, to etreo como os tecidos de aranha matinais 
visveis sob a luz que o amanhecer tinha depositado ao longo da janela. Nicholas no podia evitar acariciar-lhe, sentir sua suavidade entre os dedos. Ao afast-los 
sentiu o galo da testa, no que se estava formando um hematoma. Tinha as mos cortadas e inchadas, e sua fina e translcida pele estava sulcada de uma sujeira que 
cobria o rosto, os braos... E o peito, apenas coberto pelo esmigalhado vestido.
       Nicholas tinha a virilha acesa em fogo e pulsava com doloroso calor, seu afiado instinto estava completamente em sintonia com a febre de seu sangue, agudo 
como o de um animal selvagem. A corrente sexual que flua entre eles era evidente e Nicholas a envolveu na colcha como se fosse um casulo em uma v tentativa de 
atenuar essa corrente. Ao ver que no o conseguia, ficou de p.
       -Quero que selem essa maldita cmara oculta antes do pr do sol! -Bramou furioso sem ser consciente at esse momento de que Nell e Mills estavam muito perto 
-Deixa de choramingar, moa! -Espetou  donzela -V procurar os sais! Diga  senhora Bromley que suba imediatamente para avaliar seu estado. Tem que haver algum 
tipo de remdio ou de poo que possa preparar com essas suas malditas ervas para administrar  senhora at que chegue amanh o mdico. Quero que a meta em uma banheira 
quente assim que recupere a conscincia, e que depois a deite nesta cama. E ficar nela at que eu ordene outra coisa, embora tenha que at-la. Ficou claro?
       -S... Sim, senhor -Choramingou Nell.
       Girando sobre os calcanhares, saiu a toda pressa do quarto. Suas negras saias foram varrendo o cho de madeira.
       -Vamos, senhor -Urgiu o ajudante de cmara colocando uma mo amvel no ombro de Nicholas, que estava duro como uma rocha -Este... Desgosto no  bom para 
voc.
       A risada exaltada de Nicholas foi a nica resposta. Escapou da mo de Mills e ajustou com brutalidade o cinturo do robe.
       -Volte para seus aposentos, senhor. Prepararei-lhe o banho. Eles cuidaro da senhora. E ento, quando tiver descansado... Quando estiver outra vez tranquilo...
       -Nunca voltarei a "estar tranquilo", Mills -Disse Nicholas apertando os dentes.
       E passando por diante dele, cruzou a porta e desapareceu entre as sombras do vazio corredor.
  
       No tinha sido um sonho. Ele a tinha subido pelas viscosas escadas para tir-la da cmara oculta como se no pesasse mais que um punhado de plumas. Que forte 
era, e que terno seu abrao, como se ela fosse algo frgil que pudesse romper-se. E ao mesmo tempo a estreitou contra si como se sua prpria vida dependesse disso. 
Sara se rendeu a seus braos, tinha fantasiado com que a abraasse desde que ps pela primeira vez os olhos em Nicholas Walraven, seu marido que no era um marido. 
Seria. Embora fosse a ltima coisa fizesse na vida... O seria.
       -Tem que agradecer a esse velho co sarnento que a tenhamos encontrado -Disse Nell esfregando com sabo os tecidos de aranha e o p do cabelo. Aquele banho 
quente suavizado com leos de rosas e romeiro amassado era o paraso -Ningum havia retornado a ver essa criatura em dois dias, e de repente esta manh aparece correndo 
pelas escadas escavando o tapete justo na porta oculta desse buraco e comea a escavar, a arranhar e a uivar, fazendo rudo suficiente para levantar os mortos. Depois 
se foi a toda velocidade, e deve ter despertado o senhor, porque chegou imediatamente, descalo e em robe, assim chegou.
       -Os arranhes -Disse Sara. Era a segunda vez que confundia aquele rudo -Escutei os arranhes. Pensei que eram ratos.
       -Bom, j saiu dali, e bem a tempo. Mal podia respirar encerrada durante trinta e seis horas seguidas nessa cela no maior que um armrio. Tem sorte de estar 
viva, senhora, isso  um fato. O senhor est agora mesmo abaixo com o velho Gibbs, o encarregado de manuteno. Esto selando a cmara, isso  o que esto fazendo.
       -Onde est Nero? -Murmurou Sara.
       -No sei, senhora -Respondeu a donzela -Ningum tornou a v-lo depois. O senhor diz que lhe mostrou onde devia procurar e depois saiu como uma flecha. Assim 
 esse Nero, ronda por toda parte, aproxima-se sigilosamente das pessoas e desaparece igualmente depressa. Eu no gosto de muito, reconheo-o. D-me medo, se quiser 
que diga a verdade. OH, nunca mordeu ningum nem nada parecido. So esses olhos com os que olha fixamente. Parecem humanos -Estremeceu -Me assusta, essa  a verdade. 
Assusta a todo mundo pelo modo com que entra e sai... Como um fantasma -Sussurrou finalmente.
       Sara reprimiu um sorriso.
       -No  um fantasma, Nell, isso asseguro -Assegurou -Os fantasmas no comem faiso.
       -Sei -Respondeu Nell -Tampouco lhes cai o cabelo, nem vo deixando pelas colchas. Digo-o por seu aspecto. Eu gostaria de lhe dar um bom banho, faria-o, mas 
ningum pode o apanhar. O senhor ia livrar se dele. No me importa dizer que todos dormiremos mais tranquilos se o fizer, mas no sei se o far agora que o co  
um heri e tudo isso. Na parte de abaixo da casa no esto muito contentes.
       -OH, espero que no o faa, Nell -Disse Sara -Tomei muito carinho ao Nero, e quero que deixe a porta de meu saguo entreaberta todas as noites no caso de 
vem a me visitar.
       -Sim voc o diz, senhora... Mas...
       -Eu o digo -Insistiu Sara.
       Talvez no fosse uma esposa de verdade para o Nicholas Walraven ainda, mas sabia como levar uma casa e como manter  servido em seu lugar.
       -Sim, senhora.
       -Acredito que j me banhei bastante -Disse Sara -Eu gostaria de sair j, se me trouxer a roupa.
       -OH, no pode colocar sua roupa, senhora. S a camisola.
       -Como diz?
       -So ordens do baro, senhora -Continuou Nell -Tem que ficar na cama at que ele diga o contrrio.
       -Isso  absurdo -Assegurou Sara -Mal  a hora do caf da manh. No posso ficar todo o dia na cama. Estou tima, Nell, so s uns cortes e uns machucados; 
nada srio.
       -O baro diz que  o mdico quem deve decidi-lo. O doutor chegar amanh de Londres.
       -Mas no posso ficar na cama com um convidado a ponto de chegar. H coisas que preparar: os menus, as disposies... Tenho que me ocupar de tudo!
       -Eu me encarregarei -Disse a senhora Bromley entrando com um unguento, uma terrina de que apareciam umas compressas e ataduras de linho cuidadosamente colocadas 
em uma bandeja.
       -Mas...
       -Vamos, vamos -Insistiu a governanta -O baro jogar a todos se no se comportar. Deixou-me a cargo de tudo, e ter que cuidar-se ou me repreender. Nell 
a ajudar a sair da banheira. Secaremo-la com as toalhas, poremos a camisola e secaremos seu cabelo ao lado do fogo enquanto eu cuido desses cortes de suas pobres 
mos. Depois se meter nessa cama com este unguento na testa para baixar o galo. Eu mesma o preparei com acedera vermelha e leo de rcino. Isso ajudar a sarar 
a ferida e baixar o inchao. Depois subiremos uma boa tigela de sopa de rabo de boi e po torrado com geleia de groselha, que tm muito ferro, para voltar a pr 
seu sangue em ordem. Estar como nova em menos do que canta um galo.
  
       Nicholas fez sua apario depois do jantar. Embora Sara o estivesse esperando, quando entrou no quarto o corao comeou a pulsar com tanta fora que estava 
convencida de que ele podia observar como subia e baixava seu peito sob a camisola e o neglig. Que bonito estava com aquelas calas negras, pegas  pele, que marcavam 
as fortes pernas e as coxas. Que largos luziam seus ombros com aquele fraque de tecido de grande qualidade e o colete branco bordado que enfatizava sua estreita 
cintura e o largo e musculoso peito. Sara viu com a imaginao o que havia debaixo. No o tinha visto quase nu? Em duas ocasies.
   A princpio Nicholas no falou. Ela levava todo o dia temendo sua visita. Preparou-se para a iminente briga. No tinha defesa. Tinha acontecido exatamente o que 
ele disse que ocorreria se perambulava sozinha pela casa. No podia olhar seus olhos negros e acesos que refletiam o brilho da lareira, e quando Nicholas falou, 
ela cambaleou como se tivessem disparado.
       -Como se encontra? -Perguntou aproximando-se.
       Ento Sara elevou os olhos bem a tempo de ver como enrugava a testa enquanto observava o galo de sua cabea e as mos enfaixadas.
       -Confiava em que grande parte do que vi antes tivesse desaparecido. Que estpido fui.
       A Sara caiu a alma aos ps. Estava outra vez frio e distante. Mas no tinha imaginado aquela reao quando Nicholas a tirou daquela cela; ento havia calor, 
doura e ardor naquele homem. Tambm havia paixo. No s do tipo que nascia da raiva, embora sem dvida Nicholas tinha inclinao para ela. Uma paixo em ebulio 
que ardia lentamente se ocultava sob a superfcie disposta a fazer exploso. Sara no tinha confundido a ternura com a que a abraou, o ritmo de seu corao estremecendo-se 
contra ela. Nicholas sentia algo. Por que tinha medo de demonstr-lo?
       -Os remdios da senhora Bromley so extraordinrios -Disse Sara -Mas realmente no  to grave como parece.
       -Deixaremos que seja o doutor Breeden quem diga isso quando chegar amanh -Respondeu ele.
       -Nell me disse que levou meus sapatos -Disse Sara -Pode devolver isso, por favor?
       -At que o mdico me d permisso para te deixar sair da cama, no -Respondeu Nicholas.
       -Tenho outros sapatos, senhor -Espetou ela.
       -Nicholas -A corrigiu -Acredito que esse golpe na cabea no lhe tenha afetado a memria. Temos um trato, recorda?
       -Como poderia esquec-lo?
       -No vou repreend-la. Acredito que tenha aprendido a lio -Assegurou Nicholas -Fechei com cimento a cela secreta, mas h outros perigos na casa. Deve respeitar 
meus desejos e evitar ir de um lado para outro explorando por sua conta. O que estava fazendo ali em baixo? Como fez para cair atravs desse tabuleiro giratrio?
       -Isso no importa agora -Replicou Sara.
       -OH, claro que sim importa -Respondeu ele -O que estava procurando? Foi outra vez atrs desse animal? Quero que me diga a verdade, Sara. No tem por que andar 
rondando por esta casa. Se necessitar ajuda para algo, no tem mais que pedi-la. Tive em conta que vem de uma priso, mas Ravencliff no  nenhum crcere. Aqui no 
deve temer dizer o que pensa. De fato, te d muito bem faz-lo. No h nada que temer alm do perigo no que voc mesma te pe ao ignorar minhas diretrizes.
       -Suas "normas domsticas", querer dizer -Observou ela.
       -Se quer express-lo assim, de acordo. No troque de tema. O que estava fazendo ali em baixo?
       Deveria dizer a verdade? Estava o suficientemente zangada. Nicholas tinha razo, nunca tinha dado medo expressar o que pensava... At que chegou em Ravencliff.
       -Estou esperando -Recordou Nicholas -Se trata do Nero, no ?
       -No exatamente -Disse ela -No foi ele quem me guiou at ali em baixo, se for isso o que est pensando. Conhece muito bem a casa, e muitas vezes est molhado 
e cheira a mar. Eu gostaria de ir dar um passeio pelo escarpado algum dia. Me ocorreu pensar que ele devia conhecer outra sada por volta do mar, e minha inteno 
era seguir para ela...
       -Em meio da noite? -Interrompeu-a Nicholas.
       -No para sair, e sim para ver onde estava a porta.
       -No te ocorreu pensar em nenhum momento que algum dos criados, ou eu mesmo, teramos estado encantados de te mostrar essa sada?
       -Mostrar-me isso sim, mas no me permitir me aventurar a sair por ela sozinha.
       -OH, entendo.
       -No o entende, mas estou muito cansada para explicar isso.
       -Eu gostaria que o tentasse -Disse Nicholas cruzando os braos sobre seu imenso peito.
       -H momentos nos que prefiro estar sozinha, e me proporciona um grande prazer me comunicar com a natureza. Voc mais que ningum deveria entend-lo, dada 
sua paixo pela solido. Acredito que essa  de fato sua nica paixo.
       No acreditava realmente nem por um instante, mas no fazia falta que Nicholas soubesse... Ao menos no momento.
       -Isso demonstra o pouco que me conhece -Respondeu ele percorrendo o tapete de cima abaixo aos ps da cama com passos lentos e pausados e com os punhos apertados 
sob as abas do fraque.
       -No me deu oportunidade de te conhecer, Nicholas.
       -Est desviando o tema uma vez mais -Replicou ele -Seguiu ao Nero. E depois o que?
       -Ia muito depressa para mim. Perdi-o entre as sombras do corredor e desci para ver se podia encontr-lo quando algum, acredito que um dos serventes, abriu 
a porta que comunica com a zona da servido. No queria ser descoberta ali a essas horas da noite, assim que me escondi sob as escadas, me ocultando entre as sombras 
at que se fosse. Quando me apoiei contra o muro e se moveu.
       -Poderia ter morrido ali em baixo -Assegurou Nicholas -Essa cmara oculta foi construda faz sculos, Sara. No se utilizou h mais de cem anos. Embora eu 
conhecesse sua existncia, nunca estive ali em baixo. H mais de uma nesta casa e, alm disso, um labirinto de tneis e de passadios ocultos percorre a parte inferior. 
Utilizavam-se como via de escape durante os tempos da invaso, e mais tarde, como meio de acesso para piratas, contrabandistas e corsrios que entravam e saam com 
seus roubos. Eu no cheguei a ver todas. Entende agora por que no quero que v rondando por a sua sozinha? Se Nero no tivesse captado seu aroma, eu nunca teria 
te encontrado ali em baixo.
       -Agora j no se livrar dele, no , Nicholas? -Suplicou-lhe.
       Ele deixou de percorrer o tapete e se girou para olh-la com olhos ausentes e inquietantes.
       -Nicholas... Por favor.
       -Talvez no tenha opo, Sara -Assegurou -Pode que algum dia tenha que escolher entre um dos dois.
  
       
  Captulo 9
  
  
       Embora o doutor Breeden assegurasse que Sara estava o suficientemente bem para sair da cama, Nicholas insistiu em que seguisse em seus aposentos durante uns 
dias. Precisava passar tempo a ss com o mdico, entretanto, Sara no era sua nica preocupao nesse sentido. Alexander Mallory andava tambm por ali agora e, ao 
ardiloso administrador, no se podia confinar com tanta facilidade.
       -Desculpe-me que tenha me aproveitado de suas habilidades to logo chegou, doutor -Disse Nicholas do outro lado da mesa da sala de jantar enquanto o lacaio 
mostrava o salmo ao vapor -Temo que foi inevitvel. Darei-lhe o mesmo conselho que dei a minha mulher: por favor, no perambule sozinho por esta quinquilharia para 
evitar que seja vtima de um percalo parecido.
       -Estou encantado de lhe ser de utilidade, baro Walraven -Respondeu o mdico -E no tem do que preocupar-se, andarei com supremo cuidado.
       -H inclusive uma masmorra a abaixo -Interveio Mallory reclinando-se para trs para que o lacaio pudesse deixar na mesa o prato de salmo.
       Depois se girou para o Nicholas.
       -Recorda o vero que a encontramos? Deus, que idade tnhamos ento? ramos uns meninos. Os normandos eram uns tipos muito imaginativos. Ravencliff est infestado 
de exemplos de sua criatividade. -Desviou sua ateno para a cadeira lavrada -Nicholas, como ela chego a...?
       -Ter mais cuidado no futuro -Respondeu Nicholas ignorando a pergunta enquanto lanava ao administrador um olhar que o silenciou.
       Alm do som dos talheres de prata sobre a porcelana, o silncio prevaleceu at que serviram o prato de lombo de cordeiro assado. Nicholas mastigava cada parte 
com impacincia. Estava to ansioso por consultar o mdico que suas emoes tinham comeado a avisar de que havia perigo. No podia baixar a guarda diante do administrador, 
mas havia alguns temas que sim podia tratar diante de terceiras pessoas, e decidiu comear por eles.
       -Tenho entendido que passou muito tempo na ndia, doutor -Comeou.
       -Vivi muitos anos ali -Respondeu Breeden -Foi na ndia onde escrevi o artigo que logo se publicou nos peridicos de Boston e ao que aludia em seu convite. 
Um pas fascinante.
       Nicholas no temia que o mdico o delatasse sem dar-se conta. Em seu convite deixava clara a necessidade de manter o segredo em relao  verdadeira natureza 
de sua visita, inclusive para Sara, e especialmente para Alexander Mallory.
       -Meu pai tambm esteve ali -Disse Nicholas por cima da borda de sua taa de vinho -Formou parte da primeira ocupao sob o comando de Warren Hastings. Quando 
a partilha da ndia de Lorde North entrou em vigor em 1773 e o Parlamento se fez com o controle da Companhia das ndias Orientais, o pas ficou sob o comando do 
governador geral. Quando isso ocorreu, a poltica britnica se exerceu com firmeza na ndia. Hastings, o primeiro governador geral, era um dos melhores amigos de 
meu pai. Uniu-se em seguida a ele na ndia, na primavera de 1774, e retornou a Inglaterra em 1776, um ano antes de que eu nascesse.
       -Entendo -Disse o mdico. E a julgar por sua expresso, ao Nicholas no coube nenhuma dvida de que estava comeando a faz-lo.
       O doutor Mark Breeden era um nome que dobrava em idade e que possua os olhos prateados mais expressivos que Nicholas tinha visto em sua vida. Brilhavam com 
uma luz interior de entendimento que era ao mesmo tempo inquietante e tranquilizadora. Esses olhos o estavam observando agora, e Nicholas estava convencido de que 
viam mais do que parecia com simples vista.
       -E diz que se deu baixa depois s dois anos, e em um momento to crtico... Durante as primeiras campanhas da ocupao? Resultou ferido?
       -Sim, mas no em combate. Mordeu-lhe um animal... Um lobo. A ferida nunca sarou. Infectou-se, ulcerou-se, e essa lcera se estendeu. Envenenou-lhe o sangue, 
e ao final acabou por mat-lo. Morreu pouco depois de que eu nascesse.
       -Entendo -Disse o mdico -Que tragdia. E sua me?
       -Minha me morreu quando eu tinha doze anos. Nunca voltou a casar-se; jamais se recuperou da perda de meu pai. Estavam muito unidos.
       - filho nico?
       -Sim -Respondeu Nicholas.
       Aquela resposta pareceu produzir alvio na expresso do mdico, e agora foi Nicholas o que comeou a observ-lo.
       -Mills, meu ajudante de cmara, foi tambm de meu pai quando esteve destinado na ndia e ocorreu o acidente. Cuidou dele virtualmente at que morreu, e depois 
fez o mesmo comigo quando era menino, sobre tudo quando mame morreu. No poderia hav-lo conseguido sem ele.
       -Bem, alm disso,  muito difcil encontrar um criado leal nestes tempos -Disse o mdico pondo especial nfase na palavra "leal", indicando que tinha sabido 
ler entre linhas.
       -Sim -Disse Nicholas -O entendeu perfeitamente. Compartilh-lo-emos durante sua visita, j que viajou sem ajudante de cmara. Estou seguro de que encontrar 
muito satisfatrio seu servio.
       -No me cabe nenhuma dvida -Assegurou o mdico.
       -Quanto tempo viveu na ndia, doutor? -Perguntou Mallory captando os olhares de ambos.
       -Mais do que vivi na Inglaterra -Respondeu o mdico -Nasci ali e ali passei minha infncia. Depois me eduquei aqui e retornei a viver na ndia at que minha 
me faleceu, faz quinze anos. Era mestia. Meu pai era um trabalhador britnico da Companhia das ndias Orientais. Os fanticos religiosos o mataram enquanto eu 
estava estudando em Oxford.
       -Agora entendo que esteja to familiarizado com essa cultura -Disse Mallory elevando sua taa de vinho.
       Os lacaios tinham comeado a recolher a toalha de linho da mesa e a trazer os vinhos doces e as sobremesas. O silncio voltou a prevalecer uma vez mais at 
que deixaram disposto uma seleo de geleias sortidas e cremes, pudim de rum e ma e bolo francs com cobertura.
       -Deus Santo -Disse o mdico aceitando um pedacinho de fragrante pudim -Vou cair doente de gota e se isto seguir assim. Minhas felicitaes  cozinheira, senhor.
       -As farei chegar, doutor -Assegurou Nicholas -Mas   baronesa a quem tem que felicitar pelo menu. Est muito dotada para a arte de receber convidados, como 
logo comprovar.
       - uma pena que no tenha podido reunir-se conosco -Disse o mdico -Est em boas condies. Os efeitos secundrios da contuso demoraro um tempo em desaparecer, 
mas isso no deveria ser um problema, sempre e quando tomar cuidado.
       -Reunir-se- conosco manh de noite -Afirmou Nicholas -Quando puder estar completamente seguro de que no vai realizar excessos. Esta  a primeira vez que 
recebemos visitas desde que nos casamos, e sei quo importante  para ela.
       -Por isso parece, deram muito bem, no  assim? -Perguntou Mallory.
       - obvio -Respondeu Nicholas -Por que no seria assim?
       O administrador se encolheu de ombros.
       -Por nada -Disse terminando o bolo -Senti certa... Apreenso por sua parte quando viemos at aqui, isso  tudo.
       -Apreenso, Alex? A que se refere?
       -Talvez essa seja uma palavra um pouco forte -Se corrigiu Mallory fazendo um gesto para pedir mais vinho -Mas bem diria desconforto. Os nervos de antes das 
bodas, suponho. Algo normal, tendo em conta que poderia... Reconsiderar sua situao.
       O mdico estava observando a conversa com interesse. Nicholas lamentava que o administrador tivesse tirado o tema, mas sabia por que o tinha feito. Alexander 
Mallory era um livro aberto. Estava desejando que as coisas no funcionassem entre eles. Estava esperando o momento de dar um passo adiante quando o acordo falhasse. 
A ira se converteu ento na inimizade de Nicholas. Arrepiou-lhe o pelo da nuca, e quando falou, dirigiu sua resposta diretamente para o mdico.
       -Casei-me com a baronesa por procurao, doutor -Disse -Alex ocupou meu lugar, dado que... Circunstncias alm de meu controle me impediram de fazer a viagem 
a Londres para celebrar umas bodas apropriadas.
       -OH, cus, eu disse algo errado? -Disse Mallory deixando a um lado o guardanapo.
       -Absolutamente -Se forou a dizer Nicholas.
       A raiva seguia nele. Teve que fazer um esforo por no saltar em cima da mesa. Aspirou com fora o ar vrias vezes.
       -No sabia que na Inglaterra podiam seguir celebrando-se bodas por procurao. -Disse o mdico.
       -No se pode -Confirmou Mallory -Tivemos que viajar at Esccia para celebr-la. Uma viagem espantosa. Fazia um tempo horrvel.
       -Anos atrs, quando era permitido, -Disse Nicholas -tudo o que era necessrio fazer era que a parte ausente se apresentasse no Registro local com o substituto 
para finalizar a unio.
       Soltou uma risada gutural; aquilo era justo o que necessitava para romper a tenso.
       -Quando nos demos conta de que j no podiam celebrar-se esse tipo de unies, Mills foi o encarregado de fazer as honras por mim no registro de Truro. A devoo 
deste homem pela casa de Ravencliff no conhece limites.
       Uma ronda de gargalhadas seguiu a suas palavras.
       Tinham terminado de jantar quando Nicholas se levantou da mesa.
       -Vamos ao escritrio tomar uma taa de brandy, cavalheiros? -Sugeriu.
       -Eu devo me desculpar -Respondeu o administrador -Com sua permisso, Nicholas, irei apresentar meus respeitos  baronesa antes de me retirar e me deitar cedo. 
Foi uma viagem exaustiva.
       Nicholas vacilou.
       -Como deseja -Disse finalmente -No a fatigue, Alex.
       A ideia de que o administrador fizesse uma visita a Sara o fazia sentir um tanto incmodo, mas no havia nenhum perigo real. Nell estaria perto. Conhecia 
a postura de Sara no que se referia a Alexander Mallory, e estava desejando passar um momento a ss com o mdico.
       -OH, no o farei. Boa noite, Nicholas. Doutor Breeden... -Fazendo uma reverncia, partiu.
       Nem Nicholas nem o mdico falaram at que estiveram dentro do escritrio com a porta fechada. Uma vez acomodados com seu brandy, foi Nicholas quem rompeu 
o silncio entre eles.
       -Desculpe-me, doutor -Disse -Nesta casa no podemos falar do tema de nosso... Mtuo interesse. As paredes tm ouvidos, e  muito importante mant-lo em segredo. 
Talvez amanh, se o tempo o permitir, possamos dar um passeio pela praia. O mar guardar nossos segredos. Conservou o meu desde que fui capaz de me pr em p sem 
que me fraquejassem os joelhos.
       -Compreendido -Respondeu o mdico.
       -No pretendo ofender, mas h muito em jogo... Tenho garantias de sua confidencialidade?
       O mdico sorriu.
       - obvio, senhor, isso no faz falta diz-lo. Meu juramento  sua garantia... Mas embora no fosse assim, se formos chegar onde acredito que vamos chegar 
com isto, quem me acreditaria se o contasse? A metade da Inglaterra me considera um excntrico, e o resto est convencido de que sou um luntico exmio. -Elevou 
sua taa em gesto de saudao -Seu segredo est a salvo comigo.
  
       Quo ltimo Sara esperava quando bateram na porta de sua salinha era a visita de Alexander Mallory. Agradecendo  providncia ao fato de que estivesse ainda 
vestida, fez-lhe entrar e voltou a tomar assento em seu escritrio colocando-se meio de lado com uma atitude que, esperava, o fizesse ver que o tinha interrompido 
era muito mais importante que ele.
       -Lamento o percalo que sofreu, senhora -Disse ele dirigindo-se ao div -Posso me sentar? S ficarei um momento. J vejo que est... Ocupada.
       Sem esperar que o convidassem, tomou assento e deixou cair o brao pelo respaldo do div com atitude informal.
       -Sim, estou -Afirmou Sara -No pretendo ser mal educada, senhor Mallory, mas  tarde, e devo terminar isto antes de me retirar.
       -No teria que estar na cama? -Perguntou ele -Nicholas me disse que sofreu uma grave queda.
       -Estive na cama, senhor Mallory -Espetou Sara -E tenho permisso do doutor para reatar minhas atividades. E agora, devo insistir em...
       -Eu gostaria que cedesse e me chamasse Alex -A interrompeu ele -Aqui somos todos uma famlia feliz.
        -Sim, bom, tenho minhas dvidas a respeito, senhor Mallory. E agora, se me desculpar, tenho que terminar isto.
       -Nicholas me deu permisso para subir, se for isso o que a preocupa -Assegurou marcando as palavras -No vai irromper de repente pela porta como um marido 
ciumento com uma pistola em mos.
       OH, assim que lhe deu permisso, no ? Aquilo tocou a fibra sensvel. To pobre era a opinio que tinha Nicholas dela para permitir que o administrador a 
colocasse em semelhante posio? Se assim era, mostrava to pouco respeito por ela como Mallory. O sangue quente amontoou nas tmporas. Aquele homem era um professor 
em enviar sinais contraditrios.
       -No tem razes para faz-lo -Espetou ficando de p.
       Roou o escritrio com o vestido, e um dos menus nos que tinha estado trabalhando caiu flutuando at o cho. Mallory se levantou rapidamente do div e se 
inclinou para recolh-lo ao mesmo tempo que o fazia Sara. Seus rostos estavam muito perto, e as mos de ambos tratavam de agarrar o pergaminho do tapete. Nenhum 
dos dois recuou. Mallory cheirava a azedo, a licor forte misturado com vinho doce. O resultado era nauseabundo. Estaria bbado? Se no era assim, ia a caminho de 
est-lo.
       -Me permita -Disse o administrador.
       -J o tenho, senhor Mallory. Por favor! J prolongou muito sua estadia aqui. No posso ser mais clara.
       -Acredito que a senhora protesta muito -Disse Mallory citando uma frase de Shakespeare.
       Aquela expresso era uma indiscutvel tentativa de seduo, e Sara arrebatou o disputado pergaminho da mo, rasgando-o no processo, se levantou tanta pressa 
que uma vertigem a ameaou fazendo-a perder o equilbrio. Embora as compressas da senhora Bromley tivessem reduzido o inchao da testa, o hematoma permanecia, assim 
como os efeitos da contuso. A ultima coisa que precisava era cair direto nos braos daquele homem, assim fez um esforo para sustentar-se.
       -Est muito confuso, senhor -Assegurou -Cheira a lcool. E embora isso no desculpa sua conduta, farei uma exceo... Sempre e quando sair imediatamente de 
minha sute!
       - uma mulher muito desejvel, Sara -Cantarolou Mallory incorporando-se. Colocou o colete em seu lugar e estirou os ombros. Sara pensou que tinha todo o aspecto 
de um galo de briga pavoneando-se -No lhe far justia -Continuou - frio como o gelo, assim  Nicholas. Suponho que a estas alturas j se deu conta. Eu, por minha 
parte, sim que valho  pena.
       Sara se dirigiu para a porta e a abriu de par em par. Mallory elevou as mos e avanou para ali.
       -De acordo, parto-me, querida -Disse -S recorde que quando estiver preparada para um homem de verdade, j sabe onde me encontrar.
       Sara deu uma portada quando ele saiu e se apoiou contra a porta. Deveria contar ao Nicholas, tal e como tinha pedido que fizesse? Tratava-se aquilo de alguma 
espcie de prova? Se assim era, no lhe daria aquela satisfao. No se merecia uma obedincia cega. Os olhos se encheram de lgrimas, mas se negou a deix-las cair. 
O que esperava? O que podia esperar depois casar-se por procurao com um homem que nem ao menos tinha visto alguma vez e depois acompanhar a um autntico desconhecido 
ao fim do mundo para cumprir com sua obrigao marital? Que respeito podia gerar uma atitude assim... Embora Nicholas fora quem o tivesse planejado tudo? Ele levou 
a cabo a proposio; quo nico Sara fez foi aceit-la, e Nicholas sabia por que. Estava claro o que Alexander Mallory pensava de todo aquele assunto. No tinha 
modo de saber que no se produziu a consumao do matrimnio. Considerava-a uma fresca, uma prostituta ou no muito melhor que isso. Em caso contrrio no se comportou 
nunca daquela maneira... Bbado ou sbrio. O homem ao menos tinha um verniz de cavalheiro, embora fosse uma capa magra e descascada, sem dvida com as gretas de 
anteriores conquista. Bem, pois ela no seria uma mais.
       Sara observou o menu rachado que tinha na mo. O resto estava enrugado sobre o tapete, onde Mallory o tinha deixado depois de sua fracassada tentativa de 
seduo. Sara o recolheu e alisou as partes na parte superior do escritrio. Teria que voltar a copi-lo, mas no aquela noite; Nell j tinha recolhido a bandeja 
do jantar.
       Estava a ponto de chamar  donzela para que viesse a prepar-la para meter-se na cama quando a jovem apareceu e a ajudou a colocar a camisola. Sara estava 
esgotada e a despediu. Nell parecia encantada de partir em busca de seu criado. Melhor assim. Sara no estava de humor para bate-papos instanciais.
       Tirou a parte de cordeiro que tinha pegado da bandeja do jantar, envolveu-o cuidadosamente no guardanapo e o colocou sobre o tapete, aos ps da cama, onde 
o tinha deixado a ltima vez, com a esperana de receber a visita de Nero. No tinha aparecido desde a noite da queda. Teria Nicholas se desfeito do animal apesar 
de suas splicas? No podia suportar ao menos considerar aquela possibilidade. Dirigindo-se para a porta do saguo, deixou-a entreaberta como levava fazendo desde 
o incio, se por acaso Nero resolvesse fazer uma visita. Depois apagou as velas do candelabro que tinha ao lado da cama e se meteu entre os lenis tratando de encontrar 
sentido  situao, mas seus pensamentos no queriam ordenar-se. Retornavam uma e outra vez para as mesmas perguntas: por que Nicholas tinha se casado com ela se 
quo nico procurava era uma anfitri? Qual era a autntica razo pela que no queria um herdeiro? Era capaz de sentir uma paixo arrebatadora. Estava dentro dele 
quando a tirou daquela cmara oculta, quando a estreitou entre seus braos e a acalmou com tal ternura que Sara desejou que no cessasse nunca; como podia trat-la 
com tanta indiferena depois daquilo, deix-la a merc de algum como Alexander Mallory? Sentia-se atrada por Nicholas, apesar de sua valente deciso de separar 
de si os sentimentos que j no podia seguir negando. Tinha tratado de transferir parte daqueles sentimentos para o Nero. Agora ele tambm partiu, e Sara comeou 
a dormitar, imaginando-se aconchegada de novo nos fortes braos de Nicholas, imaginando aquele aroma animal e salino que desprendia de sua pele... Ou era a essncia 
de Nero? Eram to parecidos, e por que no seriam, misturados como estavam em seu estado sonolento? Queria-os aos dois, no era assim?
       Os braos que tinha conjurado a estreitaram com mais fora, mas o aroma que subia por suas fossas nasais no era limpo, como o do Nicholas, como o ar banhado 
pela chuva que caa sobre o mar; era um aroma azedo... Podre de brandy e vmito. Sara abriu os olhos de repente. Aquilo no era um sonho, Mallory a estava agarrando... 
Manuseando-a atravs da camisola de seda cor pssego.
       -Sabia que tudo era uma farsa, uma atuao para a donzela que dorme no quarto do lado, sem dvida. Sabia -Sussurrou perto do ouvido arrastando as palavras 
com voz vacilante -J no est aqui, no ? Claro que no, e deixou a porta entreaberta para mim, como sabia o que faria, no  verdade, senhora? No te arrepender...
       Sara gritou, mas a mo que cobriu a boca a cortou em seco, enquanto que a outra mo de Mallory tateava a provas por sua camisola. O grito apanhado em sua 
garganta ficou reduzido a um chiado desesperado, e Sara o chutou enquanto cravava as unhas na mo que estava silenciando seus gritos. Ao ver que aquilo no funcionava, 
mordeu-a com fora e Mallory a soltou proferido um alarido que coincidiu com outro som aterrador, um grunhido gutural que deixou Sara paralisada.
       Ocorreu em um abrir e fechar de olhos. O corpo negro rajado de prata de Nero atravessou voando o ar e seus afiados dentes se cravaram no antebrao de Mallory, 
jogando o administrador da cama ao cho com um rudo surdo que ressoou na estadia. A colcha se tingiu de sangue. Nero ia mat-lo! Por que no vinha Nell? Seguiria 
com o criado?
       Sara tratou de gritar, mas o medo lhe fechou a garganta a qualquer som... Medo de que Nicholas se desfizesse agora sem dvida de Nero.
       No podia permitir que isso ocorresse. No podia gritar e fazer vir os criados ou o prprio Nicholas e arriscar-se. Aquela era a segunda vez que Nero a salvava.
       Olhou para um lado, alm da cama. Mallory se estava defendendo como podia, mantendo afastado de Nero com o candelabro que estava sujeitando a presso entre 
os dentes do animal e seu prprio pescoo, mas se estava enfraquecendo. Quando Sara conseguiu falar, fez-o com um terror em estado puro.
       -Nero, no! -Gritou -O Solte. Meu Deus, O solte!
       Como se sasse de um transe, o animal vacilou, olhando nos olhos como se a tivesse entendido...  O tempo suficiente para que Mallory ficasse de p cambaleando-se 
e se dirigisse a toda pressa  porta, agarrando o antebrao ensanguentado enquanto o sangue manchava o tapete a seu passo.
       -Vou matar a esse vira-lata sarnento! -Assegurou apertando os dentes -No esquea minhas palavras, no viver para ver amanhecer!
       Nero olhou para ele, com as patas abertas, o pelo arrepiado, os olhos brilhando dilatado, vermelhos  luz do fogo. Mostrando as letais presas, deu um passo 
para o administrador, e depois outro, cravando as unhas no tapete conforme avanava. De suas bochechas pendurava espuma manchada de sangue. Um grunhido de advertncia 
saiu de sua negra boca, e depois um latido spero e vibrante que emitiu com a cabea elevada, depois abaixou e voltou a avanar. Outro grunhido levou o administrador 
a sair pela porta do saguo.
       -Recorda o que te disse -Disse Mallory com voz estridente -Este animal est morto!
       Sara estava paralisada de joelhos em meio da cama de mogno com dossel com as mos na boca, observando como Nero dava a volta e levantava a perna, marcando 
seu territrio uma e outra vez em semicrculo ao redor da cama. Quando teve terminado, sacudiu-se, elevou sua peluda cabea e lanou aquele lastimoso uivo dele que 
atravessou a Sara como uma fmea.
       Ela abriu os braos e Nero subiu  cama para refugiar-se neles, lhe roando o cabelo com seu frio e mido focinho, lambendo as lgrimas do rosto, agitando 
sua esponjosa cauda enquanto ela o acariciava. Rodeava-o um forte aroma metlico a sangue. Ambos estavam cobertos dele, o sangue de Mallory. Tinha salpicado a camisola, 
e o cabelo de Nero estava coberto com ele.
       -Esconderei-o aqui -Disse Sara -Se ele no te matar, seguro que Nicholas se desfaz agora de voc. Tem fome, moo? Olhe, guardei-te um regalo. -Assinalou o 
guardanapo do tapete, e Nero saltou e se dirigiu para ali, abrindo o guardanapo de linho com o focinho enquanto Sara descia da cama para colocar o candelabro em 
seu lugar.
       Nero tinha comeado a devorar o cordeiro quando Mallory apareceu cambaleando-se na soleira agarrando uma pistola com tanta fora que tinha os ndulos brancos.
       -Se afaste! -Bramou apontando.
       -Noo! -Gritou Sara lanando o candelabro que tinha na mo.
       No acertou, e Nero entrou em ao saltando pelo ar. Escutou-se um disparo ensurdecedor, do cano da pistola saram fascas e o ar se encheu com o forte aroma 
da plvora. O animal uivou e caiu com fora sobre o cho pelo impacto com o sangue emanando do corpo. Foi s um instante, em seguida ficou outra vez a quatro patas 
com passo tremulo, gemendo de dor. Girou a cabea para olhar a Sara, que estava atrs agarrada a um dos postes da cama. O brilho do metal sob a luz do fogo captou 
sua ateno, e conteve o flego. O administrador tinha outra pistola! Ela a viu antes que Nero.
       -Corre, Nero, corre! -Gritou, e o animal passou como um raio pela porta com o Mallory  pisando nos calcanhares, murmurando entre dentes uma enxurrada de maldies.
       De repente se escutou outro disparo. Outro uivo ressoou com o passar do corredor, e depois se sossegou.
       -No, Nero, noo! -Soluou Sara.
       E ento se fez o silncio.
  
       
  Captulo 10
  
  
       Sara estava segura de que ia encontrar Nero morto sobre o tapete do saguo. Correu para a porta e olhou no corredor, mas estava vazio; no havia nem rastro 
do Mallory nem do animal. Soluando, voltou a entrar e fechou a porta atrs dela. Estava muito triste por Nero. Queria a ajudar, a proteger. Tinha propiciado o disparo 
do administrador para tirar de sua sute; estava convencida disso, e se lanou sobre a cama para chorar at ficar sem lgrimas.
       Foi um curto consolo. De repente, uma chamada frentica  porta se abriu caminho entre seus soluos. Umas vozes gritavam seu nome, e Sara se levantou da cama, 
colocou o neglig e foi abrir. Quando abriu a porta, Nell e a senhora Bromley entraram precipitadamente, gritando a pleno pulmo. Havia outros criados agrupados 
na soleira, e chegaram mais ainda, alagando o saguo.  frente estava Smythe, o mordomo. Havia vrios lacaios que levavam candelabros acesos, e mais gente do que 
Sara jamais tinha visto. Nicholas no estava entre eles.
       Sara sob a vista se deu conta do que era o que havia desesperado Nell e  governanta. A camisola que levava sob o neglig aberto estava manchada de sangue, 
igual o seu rosto e suas mos. O alvoroo resultava ensurdecedor. Ressoava dentro de sua cabea, deixando-a tonta, e Sara fez um esforo em vo para no desmaiar.
       De repente, um criado ao que conhecia s de vista abriu passo entre o mar de serventes boquiabertos e se aproximou dela. Tinha um rosto agradvel, embora 
seus olhos, que eram como prata fundida, observaram-na com ateno durante um comprido instante sob suas sobrancelhas franzidas.
       -Est ferida, senhora? -Perguntou. Sua voz soava como se procedesse de uma habitao tirada o som -Necessita que venha o doutor?
       -N... No estou ferida -Assegurou -Voc ...?
       -Mills, senhora -Respondeu ele -O ajudante de cmara de Sua Senhoria. Seguro que no necessita ao mdico? -Seus olhos percorreram a camisola manchada de sangue.
       -E... Estou segura -Afirmou Sara -O sangue... No  meu.  do senhor Mallory. Ele... Ele... -No foi capaz de diz-lo.
       -Sei, senhora -Disse o ajudante de cmara -Sabe onde est agora o senhor Mallory?
       -N... No -Vacilou -E Nero? Est... Morto? O senhor Mallory estava bbado. Queria matar o Nero!
       -Outra vez esse maldito animal! -Exclamou o mordomo -Teria que hav-lo imaginado. De acordo, que todo mundo volte para seus postos. Retomem suas tarefas. 
A senhora est bem.
       Um coro de murmrios foi a nica resposta enquanto a multido se dispersava obedecendo a ordem de Smythe e retornava a suas obrigaes... Todos menos Nell, 
Bromley e Mills, que ficaram onde estavam.
       -Onde est Sua Senhoria? -Perguntou Sara ao ajudante de cmara.
       -Sua Senhoria teve que sair por um assunto urgente, senhora -Respondeu ele -Por isso vim... em seu lugar. Quando Nell e a senhora Bromley a tenham acomodado, 
devo insistir em que feche a porta e permanea esta noite em sua sute. O senhor Mallory segue estando na casa. A bebida o leva a ser... Imprevisvel, e Sua Senhoria 
no me perdoaria isso nunca se sofresse algum dano.
       -Mas Nero...!
       -Nero pode cuidar de si mesmo, senhora -Assegurou o ajudante de cmara.
       -Mas o senhor Mallory atirou nele, Mills. No ombro, acredito... Ou na pata. OH, no estou segura! Tudo aconteceu muito rpido. Estava sangrando muito. Temos 
que encontr-lo, nos ocupar dele!
       -No se aflija, senhora -A tranquilizou Mills -Eu cuidarei do Nero. Ocuparei-me disso imediatamente. -Girou-se para a governanta -Talvez uma bebida, senhora 
Bromley -Disse -Algo de seu armazm de ervas para ajudar  senhora a descansar. Depois se encarregue, por favor, desta porta.
       -Mas, e se Nero retornar? -Gritou Sara -Se a porta estiver fechada, no poder entrar. Est ferido, Mills.
       -O animal no retornar esta noite, senhora -Assegurou o ajudante de cmara -O encontraremos e cuidaremos dele, mas me ocuparei de que Smythe aposte em um 
dos criados diante de sua porta... se ele voltar, para que esteja mais tranquila.
       Partiu dali arrastando os ps, e Nell e a senhora Bromley agarraram a Sara pela mo e fecharam a porta atrs delas.
  
       Nicholas estava envolto em um lenol ensanguentado, nu de cintura para acima e deitado no div do provador enquanto o mdico trabalhava com mos peritas e 
rpidas para tirar a bala do ombro. Seus olhos, que refletiam uma grande dor, estavam cravados na porta. Quando Mills a cruzou rapidamente, deu um inclinao brusca 
que provocou que ao mdico lhe escorregasse a mo.
       -Tome cuidado, senhor! -Exclamou Breeden -J perdeu muito sangue.
       Nicholas no prestou ateno.
       -Sofreu algum dano, Mills? -Perguntou apertando os dentes enquanto o doutor continuava com a cura -Diga que no! Me diga que Alex no h...
       -Sabe que no sofreu nenhum dano, senhor -Respondeu Mills sem flego -Nero o evitou. Esqueceu-o?
       -No, no o esqueci -Espetou Nicholas -Como ia esquec-lo, Mills? Onde est esse desgraado agora?
       -O senhor Mallory segue ainda aqui, senhor -Respondeu Mills.
       -No se foi de minha casa?
       -Eu diria que no, senhor -Disse o ajudante de cmara -Estava bbado como um gamb, disparando pela casa -Mills vacilou -Me permita assinalar que estava apontando 
ao Nero, senhor... No ao baro Walraven.
       -Bom, se Nero tivesse arrancado o escroto se a senhora no tivesse intercedido pela vida desse homem. Agora essa tarefa me toca, no  assim, Mills? Alex 
vai lamentar a hora, o minuto exato no que liberou os espritos que tomaram conta dele esta noite.
       -No posso fazer nada se no ficar quieto e deitado -Protestou o mdico pressionando a ferida sangrenta com uma toalha de linho dobrada. Girou a cabea para 
olhar o ajudante de cmara -Suponho que no haver clorofrmio, no ? Tenho ludano para depois, mas tenho que reserv-lo para esse momento. Enquanto isso, tenho 
que anestesi-lo. A bala est alojada no osso, e tenho que passar perto da artria para tir-la. Se voltar a mover-se como acaba de fazer...
       -No temos clorofrmio, doutor, mas as ervas da senhora Bromley so legendrias. Os cirurgies dos arredores lhes tm f cega, e ela tratou a nossos doentes 
com seus unguentos durante anos. Sem ir mais longe, o ms passado preparou um ch de gomos de martrio6 secos para anestesiar a um dos criados e que pudesse extrair 
um dente infectado. Poucas vez temos que chamar um cirurgio em Ravencliff.
       -Ento, que o prepare -Disse -Isto  grave.
       -No pode implicar os criados! -Grunhiu Nicholas -Ningum deve saber... Ningum!
       -Ningum saber, senhor -Assegurou Mills cruzando a porta -Direi que o unguento  para o Nero. Tem lgica que terei que anestesiar o co antes que o curem...
       -No  um co, Mills, e sim um lobo agindo como um co -O corrigiu Nicholas -Voc sabe que a dose necessria para um co no seria suficientemente forte para 
anestesiar ao Nero.
       -Por favor, deixe isso comigo, senhor. Falhei alguma vez? -Perguntou o ajudante de cmara -Sabe que no. E agora, vejamos se pode ficar deitado, quieto e 
obedecer ao doutor enquanto eu me ocupo do que for necessrio.
       Nicholas relaxou tudo o que era possvel com a faca do mdico, apertando os dentes para suportar a dor. No se atrevia a gritar; algum poderia ouvi-lo. Naquelas 
circunstncias, no sabia quando voltaria a ter lugar a transformao, e ningum a tinha presenciado nunca exceto Mills. No tinha nunca posto a prova em uma situao 
como a que estava vivendo agora mesmo. E se a mudana ocorresse durante a operao? No tinha discutido o tema ainda com o doutor Breeden. Como reagiria o homem? 
O que pensaria? No se atrevia nem a imaginar.
       No era assim que tinha que ter acontecido. O plano era levar o mdico ao escarpado, longe dos ouvidos curiosos, e consultar em relao  situao. Isso j 
no podia ser assim. Faz-lo na casa supunha arriscar-se muito a que os ouvissem. Acaso no tinha estado Sara a ponto de golpear na cabea a dois lacaios que estavam 
escutando na porta quando saiu da sala de jantar na noite anterior?
       Ningum, e menos Sara, ia acreditar na explicao que Mills e ele tinham inventado para desculpar sua ausncia da casa at que se recuperasse o suficiente 
para voltar a ser visto. A servido sabia que nunca saa de Ravencliff. Alexander Mallory tambm sabia. Essa era a razo pela que tinha contratado o administrador. 
Que possvel razo to urgente poderia fazer Nicholas sair de casa com um convidado recm-chegado, quando no tinha sido capaz sequer de sair para casar-se com sua 
esposa? Era uma desculpa muito fraca, mas, que outra opo havia? No podia arriscar-se que o vissem assim.
       O que devia pensar aquele reputado erudito, aquele renomado doutor, ao ver-se envolto naquela situao em sua primeira noite na casa? Primeiro Sara, e agora 
isto! No poderia culpar o homem se retornasse precipitadamente a Londres na primeira carruagem que partisse da costa.
       -Sei que a dor  insuportvel -Disse o doutor Breeden interrompendo seus pensamentos -J no fica muito. Quando tivermos a beberagem, tirarei a bala rapidamente.
       -A dor...  a ltima... De minhas preocupaes -Gemeu Nicholas retorcendo-se sob a presso da firme mo do mdico, que tentava reter o sangue com toalhas 
de linho limpas.
       -Ento no tem com o que se preocupar -Assegurou o mdico com seus olhos prateados como furadeiras -Seu segredo est completamente a salvo comigo. Essa , 
depois de tudo, a razo pela que vim, no  assim?
       Nicholas assentiu.
       -Eu... No posso control-lo -Reconheceu -Se chegasse a ocorrer agora...
       -Se chegasse a ocorrer, enfrentaramos isso -Afirmou o mdico -Me olhe nos olhos e escute minha voz. Escute minhas palavras. Concentre-se nelas enquanto as 
pronuncio. As repita em sua cabea como um eco. No pense em nada mais, em nada mais que em minha voz. Tem que acalmar-se, senhor, como eu estou. Est perdendo muito 
sangue. Respire. Isso... Mais profundamente... Bem. E agora olhe a chama da vela. No afaste os olhos dela. V como dana com a corrente de ar? Observe seu centro. 
Devo lhe perguntar antes que Mills volte, ele sabe?
       -Sim -Respondeu Nicholas -Mas ningum mais, e ningum mais deve saber. Se for me deixar inconsciente, isso tem que ficar muito claro. Mills se ocupou que 
mim do comeo deste pesadelo quando eu no era mais que um menino. Se eu no estiver acordado, pode confiar em seu julgamento em todos os aspectos.
       -Entendido. Confia em mim, senhor?
       Nicholas deixou escapar uma risada.
       -Acaso tenho escolha?
       -Todos temos escolhas.
       -Todos menos eu neste instante -Respondeu Nicholas.
       -J veremos -Disse o mdico -J veremos.
       Ao Nicholas pareceu que tinha transcorrido uma eternidade at que Mills retornou com o ch de martrio. Estava forte, mas no o suficiente para adormec-lo 
imediatamente, como ele imaginava. No o permitiria. A confiana era um luxo que no podia permitir-se. O que faria seria rondar pela borda da dor, embot-lo em 
certo modo, mas no alivi-lo de tudo. Gemeu, decomps a expresso e apertou os dentes enquanto o mdico tirava a bala, mas Nicholas no soltou nenhum grito, e quando 
o mdico cauterizou a ferida, desmaiou.
  
       Quando voltou a despertar com um gemido, o sol se filtrava atravs das janelas de seu provador, derramando cegadores fachos de luz nos que danavam as bolinhas 
de p. Nicholas entreabriu os olhos para defender-se da claridade, e Mills se apressou a correr as cortinas. A imagem imprecisa do doutor Breeden dormido na poltrona 
ganhou foco... Teria passado toda a noite naquela quinquilharia to incmoda? Isso parecia.
       Nicholas voltou a gemer. Tinha o ombro coberto com um unguento e enfaixado com linho branco. Coberto de Ragwort e chickweed7, a julgar pelo aroma, um dos 
remdios favoritos da senhora Bromley para prevenir as infeces. Conhecia-o bem. Tinha o brao em tipoia, e voltou a gemer ao trocar de postura.
       -J acordou, senhor -Disse Mills umedecendo-os lbios secos -Muito em breve poder levantar-se, sempre e quando seguir as instrues do doutor.
       -H... Tornou a ocorrer? -Murmurou Nicholas.
       -No, senhor -Respondeu Mills com os olhos midos -Nada... Adverso aconteceu.
       Nicholas deixou escapar um spero suspiro de alvio.
       -Assim que o doutor o permita o levaremos a cama -Disse Mills -No pode ficar neste velho e duro div. Assim nunca se curar.
       -Agora j no posso falar com o doutor na praia, Mills. Tenho que faz-lo de uma vez, e devo faz-lo neste refgio, longe dos ouvidos dos habitantes da casa. 
H menos possibilidades de que me escutem no provador que em meu quarto.
       -Eu vigiarei se for necessrio, senhor -Disse Mills -Agora tem que deixar-se ajudar. Deve recuperar-se rapidamente. Enganar  servido  uma coisa, mas a 
senhora  outra completamente diferente... J est fazendo perguntas. Nero no retornou, e ela est fora de si. Durante quanto tempo acredita que aceitar que se 
foi de viagem de negcios com um convidado em casa? E no podemos mant-la confinada em sua sute indefinidamente. J sabe de cor a loucura que supe tent-lo sequer.
       -Onde est Alex?
       -Ningum tornou a v-lo desde o... incidente, senhor.
       -Tem uma dentada, Mills. Nero arrancou uma boa parte do brao desse canalha. Sabe o que isso significa?
       -No, senhor, no sei, e voc tampouco. Essa  a razo pela que veio o doutor.
       -Alm disso, Alex necessita ateno mdica. Disso no cabe nenhuma dvida.
       -O senhor Mallory  um homem de recursos. Uma vez que esteja sbrio...
       -Uma vez que esteja sbrio e se de conta do que tem feito, s Deus sabe o que far. Ela vai deixar essa maldita porta entreaberta se por acaso tem lugar uma 
visita do Nero, e voltar a repetir-se tudo!
       -Quem tem a culpa disso, senhor?
       -Eu, sei, mas admiti-lo no serve para negar o perigo. No temos tempo agora para alimentar a culpa. Tenho que me pr de p.
       -Ento descanse e cuide-se -Disse o mdico, fazendo que ambos os homens girassem a cabea.
       O doutor se estirou, levantou-se com rigidez e se dirigiu com passo lento para o div. Ps a mo na fronte de Nicholas e franziu o cenho.
       -Tem febre. Mirtilo8 ou suco de groselha negra deveriam baix-la, pode falar com a governanta, Mills? No  muito grave... A menos,  obvio, que no se trate.
       -Irei agora mesmo -Assegurou Mills.
       -Mirtilo ou suco de groselha negra para um co? -Apontou Nicholas -Nunca acreditaro.
       O doutor assentiu com a cabea.
       -Por que no? -Disse -Os ces feridos tambm tm febre. E j que vai, traga um pouco de caldo limpo, Mills. Ter que roubar toda a comida que possa da cozinha 
quando Sua Senhoria esteja o suficientemente recuperado para come-la, mas por agora, servir com o caldo.
       -Sim, doutor.
       -Descubra se algum tem notcias de Alex -Pediu Nicholas -V olhar nos estbulos com o Watts. Descubra se pde tomar uma carruagem, ou um dos cavalos. No 
descansarei at saber onde est esse maldito.
       -OH, claro que descansar, senhor -Disse o mdico oferecendo uma colher a cheia -Abra a boca!
       -O que  isto? -Inquiriu Nicholas.
       -Ludano -Respondeu Breeden -No posso ajudar a um cadver, e lamentaria ter vindo at aqui para nada. Abra a boca e engula.
  
       
  Captulo 11
  
  
       -Aconteceu-me pela primeira vez quanto tinha doze anos -Disse Nicholas contando sua histria ao doutor Breeden.
       Estava recostado na cama com ajuda de uns travesseiros, enquanto que o mdico estava sentado em uma cadeira Chippendale ao seu lado, o suficientemente perto 
como para que pudessem conversar em voz baixa. Embora Mills fazia guarda fora da sute do senhor, decidiram ser precavidos se por acaso algum os escutava.
       -Acredito que a morte de minha me foi o impacto emocional que desencadeou as transformaes. Antes disso, no tinha nenhuma s preocupao no mundo dentro 
de minha sorte de pr adolescente.
       -Disse que um lobo mordeu seu pai.
       -Na ndia, sim.
       -Sofria de manifestaes similares?
       -No sei, doutor. Eu era um beb de bero quando ele morreu. Por isso me preocupa o senhor Mallory. No tenho nem ideia de como vai afet-lo essa mordida. 
Transformar-se em algum como eu ou... Em algo pior, como o lobo que mordeu a meu pai?
       -Nero mordeu algum mais antes?
       -No, e esse  outro assunto que me preocupa. Est se convertendo a manifestao em algo... Mais?
       -Foram meus artigos sobre licantropa os que  levaram a me convidar, no ?
       -Sim. Li-os com muito interesse, do mesmo modo que devorei cada fragmento de informao que se escreveu alguma vez sobre o tema.
       -No  um licntropo, senhor. Entretanto, isso no significa que o lobo que mordeu seu pai no fosse um homem lobo. Oxal soubssemos mais a respeito.
       -Mas... Nero atacou Alex. Quis mat-lo, doutor. Acredite, sei.
       -Nero estava protegendo a sua mulher. Se a licantropa tivesse tido algo que ver, teria se jogado tambm no pescoo dela. H muitos informe documentados sobre 
os homens lobo por todo mundo. Em alguns deles, as vtimas s se imaginam que os transformam... Quer dizer, a transformao s tem lugar em sua mente. E em outros, 
tem lugar uma autntica transformao fsica. H mais casos do primeiro suposto, sem dvida, mas em ambos os cenrios h um denominador comum: violncia desenfreada 
e indiscriminada e sede de sangue. Nero no  um assassino. Se fosse, teria se jogado sobre a baronesa no momento em que partiu seu administrador e o deixou sem 
sua presa, no teria ido a ela em busca de mimos e recompensa. Pelo que sei, a baronesa no temeu nenhuma s vez por sua vida na presena do Nero. Isso, senhor, 
no  de maneira nenhuma caracterstico de um licntropo.
       Nicholas pensou nisso.
       -Ento, o que ?
       -Chegaremos ao fundo desta questo -Assegurou o mdico -Mas primeiro preciso saber o que desencadeia estas manifestaes. Esto conectadas por acaso com as 
fases da lua?
       -No, podem ocorrer com lua nova ou quando cheia, e durante todas as fases intermdias... Inclusive a plena luz do dia. Acontecem-me quando estou zangado, 
sensvel... E excitado. O terrvel  que no posso as controlar. Controlam-me elas.
       -Teve alguma vez lugar a transformao durante um encontro sexual? Desculpe-me, mas preciso fazer algumas pergunta um tanto pessoais.
       -No, at o momento no -Respondeu Nicholas -Mas houve poucos encontros sexuais ultimamente... Desde que os incidentes se voltaram mais frequentes. Levei 
uma vida bastante celibatrio durante estes ltimos anos.
       -Ento, por que diabos se casou? Tenho entendido que suas npcias se celebraram recentemente.
       Nicholas deixou escapar um suspiro irregular que fez prostrar-se e enviou uma onda de dor pelo ombro. S tinham transcorrido dois dias desde que tiraram a 
bala. No contaria ao mdico o da dor para no arriscar-se a que voltassem a administrar ludano. O tema de que estavam falando tinha que tratar-se agora, custasse 
o que custasse, antes que voltasse a levantar-se da cama.
       -A alta sociedade me persegue para que entre no mercado do matrimnio -comeou a dizer -Cada dia chegam montes de convites que devo declinar. Sem esposa, 
sem amante... As pessoas estava comeando a falar. Tive que dizer a meus criados que se despeam de visitantes bem intencionados que vinham decididos a me arrastar 
ao torvelinho social. No posso sair de Ravencliff por temor a que esta loucura se apodere de mim em algum momento inoportuno, em um baile, na pera, ou em um mercado 
ao ar livre. Viajei ao estrangeiro, doutor, tratando de levar uma vida normal, e estive a ponto de me encontrar nesta situao. Essa  a razo pela que me converti 
em uma espcie de ermito. Precisava me casar para pr fim  perseguio para que me converta em um membro ativo da sociedade, e no pude faz-lo mais que por procurao.
       -Mas, enviar a seu administrador? -Disse o mdico -Que classe de mulher...?
       -No, no, Sara est perfeitamente  altura -O interrompeu Nicholas - a filha de um cavalheiro, sir Jacob Ponsonby, um coronel do exrcito que ao morrer 
a deixou na runa. No havia herdeiro varo, nem nenhum que pudesse designar-se. A Coroa ficou com as terras, e seus objetos pessoais no era suficientes para evitar 
que ingressasse em Fleet. O coronel Ponsonby serviu com meu pai na ndia ao princpio da ocupao, como contei. O que no disse, e a ela tampouco,  que estava com 
meu pai quando lhe mordeu o lobo, e que foi ele quem matou o animal e salvou a vida de meu pai. Eram amigos ntimos... Companheiros militares. Meu pai o menciona 
repetidamente em seus dirios, includo o incidente do lobo. Pode l-los se o deseja, embora eu o tenha feito uma e outra vez e no encontrei nenhuma chave para 
este pesadelo que me assola.
       "Quando me inteirei da desgraa de Sara, ofereci-me imediatamente para me casar com ela. No estava em posio de negar-se. Aproveitei-me disso, confiando 
em que, se estava em dvida comigo, isso bastaria para mant-la ao meu lado uma vez que deixasse claras minhas intenes e fosse consciente dos benefcios do acordo. 
A priso de Fleet  um lugar horrvel. Meu pai teria gostado que fizesse algo assim pela filha de seu amigo, mas meus motivos foram mais egostas que filantrpicos, 
doutor. Estou... Muito sozinho."
       -Quais foram os termos do acordo, senhor, se me permitir a ousadia de pergunt-lo? -Inquiriu o mdico.
       -Foi um pedido honorvel. Expliquei-lhe que queria me casar pelas razes que j lhe contei... Queria uma anfitri que presidisse as reunies de Ravencliff, 
como sua visita neste caso, e como no quero um herdeiro, compartilhar cama no formava parte do acordo. Alm disso, seria tratada como uma rainha, no lhe faltaria 
de nada e conseguiria terras e um ttulo. Tenho outras propriedades que no dependem deste imvel. Era uma oferta muito atraente, doutor. Sou um homem de posses, 
e tambm generoso.
       -Desculpe-me, mas no precisava casar-se.  exceo do ttulo como parte do pacote, poderia ter tomado uma amante. Londres nestes dias  um viveiro de perspectivas... 
Filhas de cavalheiros, damas peritas, vivas respeitveis... Todas estariam  altura, e se mostrariam encantadas de formar parte de um acordo semelhante.
       -No -Respondeu Nicholas -Uma amante teria esperado relaes sexuais, e no posso me arriscar. Alm disso, tendo em conta como se alardeia dos amantes nestes 
tempos na cidade, tomar uma no me teria liberado do mercado do matrimnio. Me teria feito ainda mais desejvel.
       "Pensei absurdamente que compartilhar a cama comigo seria uma preocupao. Contava com que Sara se sentiria aliviada ao saber que no havia a trazido aqui 
para ser devorada por um autntico desconhecido, e que isso me ajudaria a superar este obstculo. Confiava em que uma vez deixssemos atrs esse campo to incmodo, 
poderamos ter uma espcie de relao platnica benfica para ambos. Mas as coisas no esto saindo exatamente assim."
       -Esperava que ela tambm levasse uma vida celibatria? -Perguntou o mdico, claramente desconcertado.
       - obvio que no -Assegurou Nicholas -Disse que no poria objees a que se buscasse um amante, sempre e quando fosse discreta e no se tratasse de Alex Mallory. 
Passa muito tempo aqui, e isso teria resultado incmodo. Reprovou-me abertamente que lhe tivesse feito semelhante sugesto.
       -No  de estranhar.
       -O que outra coisa podia fazer? Acreditava que estava oferecendo uma soluo prtica a um problema no que no tinha pensado. A isso ter que acrescentar que 
ela no entende por que no quero um herdeiro. Inclusive questionou minhas inclinaes sexuais. Sem dvida voc pode ver por que no posso ter filhos. No posso 
me arriscar a transmitir este... O que seja a outra gerao. A loucura deve morrer comigo. No pude dizer isso a ela,  obvio. Contei-lhe que tinha um problema sanguneo 
que no desejava transmitir.  uma verdade pela metade, mas duvido que tenha acreditado. S Deus sabe o que acredita.
       -E entretanto, ficou -Refletiu o mdico.
       -Por desgraa, existe uma atrao mtua -Disse Nicholas.
       -Por que supe isso uma desgraa?
       -Sem dvida se dar conta de que algo assim  impossvel. Sou consciente da atrao que ela sente por mim, e tenho feito todo o possvel para que no se d 
conta de que  mtuo... Inclusive cheguei a comportamentos grosseiros que me desgostam.
       -Est se apaixonando por ela.
       -Isso  algo com o que tampouco contava.
       -O amor conquista muitas coisas.
       -Esta no.
       -No menospreze o amor, baro Walraven.
       -H... Algo mais -Disse Nicholas.
       No se atrevia a olhar o mdico nos olhos. Aquele homem via mais com aquele olhar prateado do que tinha direito qualquer homem.
       -Afeioou-se a Nero -Murmurou.
       Fez-se um comprido silencio. Sentia-se na escurido. Nem sequer o sol brilhava naquele momento. As nuvens que se levantaram antes com o vento, o tinham oculto, 
e embora fosse meio-dia, a sute estava envolta na penumbra.
       -Como chegou a ocorrer? -Perguntou finalmente o mdico.
       - minha culpa -Confessou Nicholas -Era a nica maneira em que podia estar perto dela... Junto a ela... Suportar seu contato... Toc-la tambm.  uma tortura. 
Vivo com seu aroma. Est sempre comigo. Est dentro de mim. Ela est dentro de mim. Nero me proporciona o pouco que poderei ter dela... O amor inocente e incondicional 
da proprietria de um co por seu mascote.
       -Isso deve parar.
       -Tentei-o.
       -Um homem esteve a ponto de morrer. No conheceremos a gravidade de sua ferida at que o encontremos, e esse  o menor dos perigos de semelhante relao. 
J s a desesperana... Como o suporta? A baronesa acredita que Nero est morto. O suplico, deixe que seja assim.
       -Esteve a ponto de acontecer, no , doutor? -Murmurou Nicholas.
       -Sempre recorda o que ocorreu durante as transformaes quando j passaram?
       -A maior parte sim... A partes, segundo sua importncia, igual a se recordam partes de um sonho.
       -O que acontece habitualmente?
       -Nada memorvel -Disse Nicholas -Nero escapa fugindo da emoo que tomou conta dele. Ele e eu temos uma grande afinidade com o mar, e ele o persegue... Corre 
pela praia, atravs das ondas, por cima das rochas, de um modo que eu adoraria fazer, mas nunca pude. Banha-se nas poas criadas pelas mars e compete com o vento, 
livre como eu nunca poderei s-lo enquanto sigamos unidos.
       "s vezes ronda pela casa, observando os criados e Alex. Surpreenderia-se ver o que conduzem esses momentos. Nero deita a seu lado, totalmente ignorado, e 
tem acesso a todo tipo de informaes escandalosas. Atravs dos olhos de Nero, sei quem est enganando a quem, e a quem gostaria de faz-lo. Em quem se pode confiar 
e em quem no. O que pensam realmente os criados, e como conseguem, crivam e afinam os fragmentos de informao que recolhem para suas fofocas. Todos os imveis 
do reino deveriam ter um Nero rondando por elas, doutor. Evitariam-se muitos comportamentos desonestos, o garanto."
       -Quanto tempo leva Nero vivendo nesta casa?
       -Nero teve muitas encarnaes ao longo dos anos... E muitos nomes, mas segue sendo a mesma criatura, meu alter ego. Somos um. O que sou, doutor: homem ou 
animal?
       -Teria que ver esta manifestao com meus prprios olhos para fazer um julgamento de valor sobre sua... Afeco -Disse o mdico -Mas pelo que me conta, d 
a impresso de que uma parte do lobo foi transferida a voc atravs do sangue de seu pai durante a concepo. Voc no foi mordido, assim que a contaminao  mais 
fraca em seu caso. Em minha opinio, o molde se quebrou e voc , segundo meu ponto de vista,  o que se conhece como um metamorfo no violento. Os homens lobos 
tambm so metamorfos, qualquer que troque de forma entraria nessa categoria, mas no todos os metamorfos so homens lobo. O termo abrange um amplo espectro de entidades, 
e o homem lobo  a criatura mais escura e violenta, to diferente de voc em sua afeco como a noite do dia.
       -Pode me ajudar, doutor?
       - muito cedo para sab-lo -Respondeu o mdico -No existe nenhuma cura, se for isso o que pergunta, mas h outras formas de... Lutar com o problema. Ter 
que ser paciente, e ter que confiar em mim.
       -S me diga que h esperana.
       -Sempre h esperana, mas por agora deve descansar e recuperar-se. No me enganou, sabe? Sofre dores. Administrarei-lhe uma dose de ludano, retirarei a minha 
sute e lerei esses dirios dos quais me falou, se me permitir isso. D-me permisso para dizer  baronesa que Nero est morto?
       -No, doutor -Murmurou Nicholas o olhando nos olhos -Isso no posso faz-lo.
       O doutor processou sua resposta sem dizer nada. Desta vez, Nicholas manteve seu olhar de mercrio com a inteno de acentuar e sublinhar suas palavras e que 
no houvesse dvida de sua determinao. Foi o mdico o que rompeu o contato visual.
       -Muito bem, senhor -Disse -Embora suplico que pense nisso... Objetivamente. Voltaremos a discutir o tema de novo, quando tiver tido tempo para considerar 
as consequncias.
       O mdico lhe administrou a dose e partiu dali com suas entupidas sobrancelhas franzidas em gesto meditabundo. Assim que saiu da sute, entrou Mills, e Nicholas 
fez um gesto para que se aproximasse. O ludano estava comeando a fazer efeito, e precisava lhe dizer algo antes de que o deixasse dormido.
       -Do que se trata, senhor? -Perguntou Mills.
       -Sabe-se algo de Alex? -Perguntou.
       -No, senhor. Parece que desapareceu sem deixar nem rastro.
       -Isso  impossvel. Foi aos estbulos perguntar ao Watts, como te disse que fizesse?
       -Sim, senhor. Todos os cavalos e carruagens continuam ali, e Watts nem sequer estava a par de que o senhor Mallory tivesse retornado, e muito menos desaparecido. 
Chegou na diligncia.
       -Isso  impossvel. Tem que estar em alguma parte. No pode ter desaparecido no ar sem mais. -Sacudiu a cabea em uma v tentativa de acautelar os efeitos 
do remdio -Breeden me administrou uma boa dose, Por Deus -Grunhiu -No estou conseguido ficar acordado.
       -Precisa descansar, senhor. Est fazendo tudo o que pode. Tem que recuperar-se para voltar a tomar o comando.
       -Procurou pela casa?
       -Sim, senhor, uma busca a conscincia de cima abaixo.
       -Volta a procurar! Ele conhece a maioria das habitaes secretas. Est escondido em uma delas... Tem que estar. Deve ter deixado um rastro de sangue. Tem 
uma mordida grave. Seguiu-o? Essa teria que ter sido a primeira medida a adotar, Mills.
       -Peo desculpas, senhor, mas Nero tambm deixou um rastro de sangue. Um dos rastros terminava aqui, e o outro no patamar. Deve ter coberto a ferida de alguma 
forma.
       -Olhe outra vez. Talvez tenha sangrado em algum outro lugar. Ter que encontr-lo, Mills. No sabemos como o afetar a mordida de Nero. Pode ser como eu, 
ou talvez muito pior. No h modo de saber. Entende o que estou dizendo?
       -Deus Todo-poderoso, senhor! -Gemeu o ajudante de cmara -Imagina que...
       -A senhora est protegida? -Interrompeu-o Nicholas.
       -Os criados, Peters, Clarke e Gibbons fazem turnos em sua porta, senhor, tanto se estiver em sua sute como se no. Est vigiada dia e noite. Tm ordens de 
nos avisar imediatamente se o senhor Mallory se aproximar da sute das tapearias. O que devemos fazer com ele se aparecer, senhor? Voc no pode o ver tal e como 
est.
       -Pega essas... Malditas pistolas, para comear -Disse Nicholas arrastando as palavras  medida que o ludano ia tomando conta dele -E depois o jogue daqui... 
No, no pode... No estou pensando com claridade. Deve ficar at que saibamos. Ter que... Confin-lo em algum lugar at... At que possa enfrentar ele. Faz-o, 
Mills... Como pode. Tudo depende disso.
  
  
       Captulo 12
  
  
       Algo estava errado, muito errado. Tinham transcorrido trs dias e Nicholas ainda no tinha retornado... Nem tampouco Alex Mallory nem Nero. Sara estava fora 
de si. Nenhum dos criados dizia nada. Seguia confinada em sua sute seguindo instrues de Mills, que agia em nome do Nicholas. A razo que tinham dado era que Alexander 
Mallory estava, sem dvida, transtornado e era perigoso, e at que o prendessem e o desarmassem, estava mais segura em sua sute.
       Deveria estar na sala de jantar oferecendo sua hospitalidade a seu convidado na ausncia de Nicholas. Queria luzir-se diante de seu estranho marido, que sem 
dvida sentia por ela a mesma considerao que por uma pea de mobilirio. O que o tinha levado para longe de Ravencliff? Que "assunto urgente" era mais importante 
que agarrar um carro rumo a Londres para casar-se com sua noiva? No podia imagin-lo. Como podia ter se enganado tanto durante aquele delicioso e despreparado momento 
em seus fortes braos?
       O doutor Breeden tinha a ido ver vrias vezes durante seu confinamento. Nessas ocasies, mostrou-se amvel e tranquilizador, e havia dito que no se importava 
jantar sozinho e retirar-se a seus aposentos depois, para olhar algum dos volumes da impressionante biblioteca de Nicholas. No devia reprovar-se nada. Tudo ia sair 
bem. Nicholas retornaria logo. Com sorte, j teriam encontrado o senhor Mallory, e as coisas voltariam  normalidade... Fosse qual fosse. Sara no tinha vivido nenhuma 
s experincia normal desde que entrou na manso de Ravencliff.
       Entretanto, o que mais a preocupava era a ausncia de Nero. Ningum o tinha visto desde o tiroteio. Tinha resultado gravemente ferido, e no tinha retornado 
a sua sute. Tinha medo de que tivesse se arrastado a algum lugar para morrer. O doutor Breeden no a tinha animado muito. Embora dissesse que com frequncia os 
ces se arrastavam para lamber suas feridas quando estavam feridos e s vezes sobreviviam, tambm assegurou que quanto mais prolongada fosse a ausncia, menos probabilidades 
tinha que assim fosse. No era um bom pressgio, e ao final do quarto dia de confinamento, Sara tinha memorizado cada um das tapearias de sua sute, como se esperasse 
que Nero se materializasse entre os ces de caa que povoavam suas paredes. Tinha que fazer algo. Tinha que sair daquela sute se no quisesse ficar louca.
       Era tarde. Fazia tempo que Nell havia se retirado. L fora tinha elevado um vento sinistro, e o som das ondas furiosas rompendo contra a praia rochosa e subindo 
pelo escarpado, era msica para seus ouvidos. Aquele rudo cobriria qualquer som que pudesse fazer ao sair da sute. Haveria um servente postado fora. Esperava que 
estivesse cochilando, ou que Peters estivesse de guarda e que tivesse escapado para uma das visitas noturnas que acostumava a fazer a Nell. Aquilo foi o que ocorreu. 
Quando abriu a porta, o banco que ocupavam os sentinelas quando trocava o turno estava vazio.
       Bento fosse o moo! Sara saiu ao corredor, deixando a porta entreaberta para o Nero. No caso dele vir.
       No tinha nenhum plano. O mero feito de sair da sute a tinha encorajado at o ponto da imprudncia, e, por que no? Era a baronesa de Walraven, no ? Quem 
ia det-la? Certamente, no seu ausente, enigmtico e desconsiderado marido. Cheia com aquele pensamento, dirigiu-se a bom passo ao corredor do segundo andar, ganhando 
confiana a cada proibido passo que dava.
       Continuava vestida. Tinha rejeitado a ajuda de Nell quando veio a prepar-la para ir dormir. A semente de sua fuga levava vrios dias germinando, esperando 
o momento perfeito para brotar. Entretanto, deveria ter colocado a capa sobre o fino vestido de musselina branca. Havia muita corrente de ar nos corredores, e a 
umidade era penetrante. Seria assim tambm durante o vero? Sara se estremeceu ao perguntar-se.
   Ao chegar a grande escada, deteve-se vacilante no patamar e elevou a vista para o restringido terceiro andar. De repente lhe ocorreu que agora, durante a ausncia 
de Nicholas, era o momento perfeito para dar uma olhada no interior dos aposentos de seu marido com a esperana de achar alguma chave, algum fragmento de informao 
sobre o homem com o quem se casou. A curiosidade se apoderou dela, e a fez subir pelo lance de degraus atapetados que levavam a terceiro andar sem fazer nenhum rudo.
       No se importava no saber qual era a sute de Nicholas. Encontraria-a, embora tivesse que abrir uma a uma todas as portas at dar com ela. Alm de que se 
tratava de uma torre situada na ala oeste, o que a situaria na parte oeste do corredor que dava ao mar, no tinha nem ideia de por onde comear. Nunca tinha estado 
no escarpado nem tinha visto Ravencliff do lado do mar, assim s podia especular onde estariam as sutes da torre. A escada se bifurcava e dividia a casa nas alas 
norte e sul, assim girou  direita e comeou sua busca.
       Acabava de aparecer a cabea na segunda sute do lado esquerdo do corredor -Outra sute cujo mobilirio estava coberto por lenis holandeses -quando se abriu 
uma porta situada na metade do corredor, projetando um atoleiro de luz procedente de um candelabro sobre o tapete cor carmesim. Sara se escondeu de novo na sute 
em que acabava de estar, e deixou a porta aberta s o justo para ver quem passava por diante caminho das escadas.
       Pulsava-lhe com fora o corao, ressoava com rudo surdo contra as costelas. Apoiada contra a fresta da porta, conteve nervosamente a respirao. Pesados 
passos que se foram aproximando no correspondiam, sem dvida, a nenhum dos criados, que estavam treinados para mover-se sem fazer nenhum som. No, aqueles passos 
no mostravam nenhum interesse pela discrio, e seu proprietrio estava cansado e farto. Quando passou a sua frente, Sara conteve o flego. Era o doutor!
       O que significava aquilo? A sute do doutor estava no segundo andar, no no terceiro. Ela mesma as tinha escolhido, e a senhora Bromley as tinha preparado. 
Sara esperou a que desaparecesse entre as sombras do patamar que havia abaixo antes de voltar a sair ao corredor. Nenhuma luz alagou o corredor da sute da que ele 
tinha sado, s um fino feixe prateado se deslizava sob a porta. Sara se aproximou dela sigilosamente.
       Teria retornado Nicholas e no o tinha feito saber? Teria esperado, em vo, pacientemente sua volta para poder sair de sua sute? O sangue amontoou nas tmporas, 
e a onda de calor que sentiu a obrigou a entrecerrar os olhos. No chamaria. Agarrou o trinco, abriu a porta... E ficou paralisada, cambaleando-se no saguo de uma 
salinha bem mobiliada. Nicholas estava de p ao lado do fogo, nu de cintura para acima, e tinha uma taa de brandy na mo. O ombro direito estava envolto com uma 
grande bandagem. Quando se girou para olh-la, a expresso de seus olhos, metade horror, metade raiva contida, a teria feito recuar se no estivesse cravada ao cho.
       -Entra e fecha a porta -Disse deixando a taa sobre o suporte da lareira.
       -O que... O que te ocorreu? -Ofegou Sara aproximando um passo mais com a vista cravada na bandagem do ombro.
       -Fique onde est! -Bramou ele -No d um passo mais!
       -Quando retornou? -Perguntou Sara detendo-se sem flego ao escutar suas palavras enquanto ele voltava a agarrar a taa, agitando o licor de seu interior como 
se queria extrair dali a resposta.
       -No fui -Disse finalmente tornando-se  garganta um pouco de licor.
       -No... No o entendo -Murmurou Sara.
       -No deveria estar aqui -Disse Nicholas voltando a vista para ela.
       Contemplar aqueles hipnticos olhos de obsidiana era uma tortura, mas Sara no podia afastar o olhar. Sua boca sensual tinha formado uma linha reta, e se 
percebia o pulsar de seus msculos sob a mandbula. Para ela foi uma bno que voltasse a observar a taa de novo.
       -O que quer dizer com que no saiu de casa? -Perguntou.
       -Exatamente isso.
       -Como se feriu?
       Nicholas vacilou.
       -Alex me disparou -Disse olhando-a de novo nos olhos.
       Sara conteve o flego e levou a mo aos lbios.
       -No queria te preocupar -Assegurou ele acabando o brandy e deixando a taa a um lado -O doutor Breeden esteve tratando, e como pode ver, recupero-me bem 
sob seus cuidados.
       - justo isto? Estive esperando sua volta para poder sair do confinamento ao que voc me submeteu, Nicholas.
       -E ali  onde deveria estar agora mesmo -Espetou ele -O que est fazendo aqui em cima a estas horas? Disse que no podia subir aqui. Alex est ainda na casa, 
Sara. Corre perigo, e ainda no estou o suficientemente forte para te proteger. Estar a salvo em sua sute, sob custdia, at que solucionemos todo este assunto. 
Devo insistir em que retorne a elas imediatamente, e que permanea ali at que eu v pessoalmente e te de permisso para sair.
       -Diz que o senhor Mallory te disparou? O senhor Mallory disparou no Nero, senhor.
       -Houve... Dois disparos -Assegurou Nicholas.
       -Ningum tornou a ver o Nero depois -Se lamentou Sara -Acredito que ele tambm saiu ferido no ombro. Sangrava profusamente, mal era capaz de correr... E entretanto, 
tirou o senhor Mallory de minha sute. Se voc demorou todo este tempo em voltar a se pr de p, apesar dos peritos cuidados do doutor, o que ter sido dele sem 
ningum que o cuide? Est morto, Nicholas? H algo mais que me esta ocultando?
       Nicholas voltou a vacilar uma vez mais.
       -Nero pode cuidar de si mesmo, Sara -Assegurou.
       -Isso disse Mills, mas no vejo como. Para que sobrevivesse teriam tido que tirar a bala, igual  voc.
       -Se estivesse morto j o teriam encontrado -Disse Nicholas -O fato de que no tenha sido assim  bom sinal. Tire o Nero da cabea. Afeioou-se muito a ele. 
Adverti-te que no era conveniente.
       -Sim, fez-o, mas de toda maneira, no descansarei at que volte a v-lo -Replicou ela -Posso me sentar? No estou acostumada a me preocupar com facilidade, 
mas tudo isto me deixa bastante inquieta.
       -No -Respondeu Nicholas -No pode ficar aqui. Eu disse tudo o que tinha que dizer. Irei procurar meu robe e acompanharei a sua sute. Vai ficar nela, Sara, 
at que eu diga o contrrio. Irei visita-la agora que j posso, e quando achar conveniente, irei pessoalmente te buscar para te acompanhar s refeies. Sinto ter 
te enganado, mas sabia que no ficaria em sua sute se tivesse sabido que me tinham... disparado. S Mills e o doutor esto sabendo. Tinham que ocupar-se de minha 
ferida. Aos outros, assim como a voc, lhes disseram que estou fora, e assim deve seguir. Todos os criados tm ocupaes que atender, e no podem andar te vigiando 
para evitar que atravesse mais muros e caia.
       Sara ficou em silncio. Viu-o caminhar descalo por uma sala adjacente que levava ao quarto e captou um vislumbre da gigantesca cama alta coberta com suntuosas 
colchas e brancos lenis de linho. Nicholas agarrou o robe do div que havia ao lado da outra lareira, que tambm estava acesa, e retornou a salinha tentando colocar 
o objeto de seda sobre o ombro enfaixado.
       -Deixa que te ajude com isto -Disse ela estendendo as mos de forma instintiva para o robe que ficou retorcido ao tentar coloc-lo com uma mo.
       -No! -Nicholas apertou os dentes.
       Mas j era muito tarde. Como se as mos de Sara tivessem vontade prpria, deslizaram-se do enrolado robe at seu largo peito, e seus dedos se afundaram no 
sedoso arbusto de pelo negro. Sentiu o corao de Nicholas pulsando grosseiramente, estremecendo-se sob as palmas de suas mos abertas, e sua respirao agitada 
se fez mais rpida enquanto a olhava fixamente nos olhos. Tinha o olhar vidrado e dilatado  luz do fogo.
       -Meu Deus, Sara, no... -Murmurou.
       Sara mal podia ouvi-lo por cima da batida de seu prprio corao. Aquilo tinha chegado muito longe como para que pudesse deter-se. O aroma de Nicholas a atormentou. 
Saa de seu cabelo e de sua pele mida, cheirava a sal, a limpo e a animal, tudo misturado com brandy. Como poderia chegar a esquec-lo alguma vez?
       Rodeou-o com seus braos. No que estava pensando? Esse era precisamente o problema; no estava pensando. A proximidade de Nicholas era como uma droga que 
a arrastava, apagando os limites do que estava bem e o que estava mau, nublando a razo.
       Cada tendo do comprido e forte corpo de Nicholas respondeu a seu contato, embora a firmeza com que agarrava o antebrao de Sara supunha uma valente tentativa 
de resistncia. Era como acariciar um co resmungo que movia a cauda. Quem iria acreditar? A prova fsica de sua excitao se apertava contra suas calas de cor 
bege, roando e pressionando levemente contra o ventre de Sara atravs do fino tecido de musselina branca, e isso deixava sem validez sua deciso. De repente, Nicholas 
gemeu. Rodeou-lhe a cintura com o brao ferido. Estreitando-a contra si, segurou sua cabea com a outra mo na base do pescoo, abatendo-se sobre ela como uma ave 
de rapina, e abriu os lbios, com sua boca perita, em um beijo que a deixou sem sentido.
       A lngua sedosa de Nicholas irrompeu em sua boca, atraindo-a para a sua. Sara saboreou o brandy que ele acabava de beber, quente, rstico e misterioso em 
sua lngua, embora mais misterioso fosse o prprio homem. Sua mesma essncia estava agora dentro dela, mas queria mais, queria tudo dele, todas as promessas daquele 
corpo dinmico, e o queria no s durante um instante, mas tambm para sempre.
       Nicholas afundou a mo em seu cabelo e a beijou mais apaixonadamente... Foi algo primitivo, animal; todas as coisas selvagens que existiam sob o cu estavam 
ali. Como um mendigo faminto em um festim, devorou-a com aqueles lbios acariciadores, embora ao mesmo tempo houvesse uma ponta de ternura nele, uma conteno ensaiada 
flua sob a superfcie de sua paixo como um animal adormecido. O que se necessitaria para despertar quela besta? Estava a ponto de descobrir.
       Nicholas afastou as mos de seu cabelo, que tinha cado pelos ombros, e procurou seu seio e o duro mamilo que se havia posto rgido, apertando-se contra o 
suti de musselina bordada. Sara gemeu, e abaixou a manga fofa, abriu o decote e deixou exposto seu seio estremecido debaixo daqueles lbios que a tinham deixado 
fraca e tremula entre seus braos. Um gemido profundo e gutural escapou da garganta de Nicholas quando se inclinou. Sua lngua rodeou em crculos o endurecido mamilo, 
atraindo-o para sua boca, seduzindo-o sem piedade at que o sexo de Sara ardeu em ondas com uma sensao proibida que provocou que tremessem os joelhos. Mas, era 
proibido? Depois de tudo, estavam casados. Ento Nicholas se incorporou e voltou a possuir seus lbios de novo, e ela se apoiou em sua ereo at que respondeu  
presso de seus ondulantes movimentos, fazendo-se ainda mais dura. Era como se Nicholas estivesse ardendo em chamas e tivesse acendido tambm a ela, criando lnguas 
de fogo brando ao longo da corrente sexual que flua entre eles. Era algo mgico... At que se rompeu o feitio.
       Jogando a cabea para trs, Nicholas emitiu o mais parecido ao uivo de um co que ela tinha escutado jamais, e a soltou. A Sara recordou o uivo lastimoso 
de Nero. O som a fez se arrepiar e a deixou tremendo sem os quentes braos de Nicholas rodeando-a.
       -Noo -Gemeu finalmente ele -No, Sara... No!
       Sara mal foi capaz de recuperar o flego enquanto o via lutar para retomar a compostura. O peito subia e descia com rapidez, e afastou o cabelo de bano da 
suarenta testa com mo tremula enquanto tentava controlar a respirao.
       -Por que, Nicholas? -Murmurou ela.
       Cobriu o seio, ainda umedecido por seus lbios, e deu um passo adiante.
       -Eu disse que no -Repetiu Nicholas recuando  medida que ela avanava -Mantenha-se afastada. No... se aproxime mais.
       -Mas por que, Nicholas -Suplicou Sara -Me deseja. Sei que me deseja. Posso sentir agora mesmo o quanto me deseja. Como pode ficar a e neg-lo?
       -Sim, desejo -Murmurou ele apertando os dentes enquanto enchia a taa vazia. Bebeu o brandy de um brusco e s gole - uma mulher muito desejvel, Sara, e 
eu certamente no sou de pedra, mas no posso te ter... Agora no... Talvez nunca. No seria justo para nenhum dos dois viver com falsas esperanas.  melhor que 
nos voltemos ao acordo original.
       -No entendo.
       O ar que Nicholas tinha retido saiu de seus pulmes em forma de comprido e vazio suspiro.
       -J sei que no -Disse -E o sinto. Isto que acaba de acontecer... No devia ter acontecido nunca. E no voltar a acontecer, asseguro-lhe isso.
       -Mas eu te desejo -Murmurou ela estremecendo-se -Se no querer ter filhos...
       -No  to simples, Sara -A interrompeu Nicholas.
       Seus olhos nublados eram dois escuros lagos de fogo vermelho que captavam brilhos da lareira, e sua pele mida brilhava pelo suor.
       -Todo este acordo foi um engano -Reconheceu ele -Agora me dou conta. Se acha que no pode te rodear a ele, tomarei medidas necessrias para te liberar. Ser 
melhor que o faamos agora, antes que as coisas... se compliquem. Antes que vamos muito longe.
       -J  tarde para isso -Disse Sara -Se ao menos pudesse se explicar. Durante todo este tempo pensei que havia algo em mim que te repelia.
       Sua risada enlouquecida e carente de alegria a interrompeu.
       -Acreditava... At esta noite, Nicholas. Agora no poderia me convencer nunca disso. Pelo amor de Deus, do que pode se tratar?
       -Deus no tem nada que ver com isso, Sara -Espetou ele.
       Tinha comeado a passear pela borda do tapete persa situado diante da lareira tal e como j tinha feito vrias vezes em sua presena, s que agora estava 
tremendo e notava. Seria devido  ferida que o tinha consumido tanto, ou ao que acabava de acontecer entre eles? Sara no disse nada enquanto o via percorrer o tapete 
tecido durante o que pareceu uma eternidade, at que se deteve sobre seus passos e a olhou.
       -De acordo -Disse -Como no vai facilitar para que terminemos com isto, terei que tomar a iniciativa. Devo-te uma explicao,  certo, mas no posso dar isso 
ainda. Antes que possa pensar sequer em cruzar contigo essa porta e te levar a minha cama, teremos que falar, e ter que me assegurar de que guardar o que te conte 
no mais absoluto segredo, que o que te confesse ser para ti algo sacrossanto... Inviolvel.
       -Feito -Disse ela.
       -No, no  to fcil, Sara. Tenho que estar seguro disso. Neste momento no o estou, ou o teria compartilhado contigo faz muito tempo.
       -O que posso fazer para te convencer?
       -Nada! Essa  a parte terrvel, e uma conversa semelhante entre ns no pode sequer se considerada at que se resolva todo o assunto do Alex. Deve ter pacincia. 
Se no for capaz, farei que Watts traga o carro de quatro portas para que se mude imediatamente a outra de minhas propriedades at que busque um lugar permanente 
em outro lugar.
       Sara ficou pensativa. Algo escuro e perigoso aparecia nas entre linhas, mas no era capaz de l-lo. Talvez fosse melhor assim. A nica coisa que sabia naquele 
momento era que no permitiria que a enviasse para longe dali, fossem quais fossem as consequncias.
       No poderia suportar no voltar a v-lo de novo, no voltar a sentir aqueles braos fortes, seus lbios famintos, a ansiosa presso de sua virilidade apoiando-se 
com fora contra ela. Inclusive com aquele largo espao de tapete entre eles, o fantasma de sua ereo a espreitava, enviando ondas de calor que percorreram as partes 
mais privadas de seu corpo. Um novo fluxo de sangue quente subiu s tmporas ao dar-se conta do poder que aquele homem exercia sobre ela inclusive  distncia. J 
no precisavam tocar-se; tinha-o dentro da alma.
       -Muito bem, Nicholas -Disse com voz firme apesar de que naquele momento era um molho de nervos -Serei paciente, mas no durante muito tempo. Isso seria cruel.
       -Nunca te farei mal, Sara -Assegurou -Essa  a razo pela que estamos tendo este pequeno bate-papo. No sou um homem cruel. Quero resolver esta situao tanto 
como voc. Estamos de acordo?
       -Sim, Nicholas.
       -Bem -Disse ele inclinando-se para recolher o robe, que at aquele momento tinha estado atirado no cho feito um novelo.
       Assim que o agarrou, Sara se aproximou um pouco com o propsito de ajud-lo, mas Nicholas elevou a mo e voltou a deixar cair o robe.
       -Ah, no! -Exclamou -J foi suficiente! Acompanharei a sua sute tal como estou. Vamos.
       Quando saam da sute, Nicholas agarrou uma pistola da mesa dobradia que havia ao lado da porta e a levantou. Sara no se deu conta de que estava a at 
aquele momento, e um calafrio estremecedor percorreu a espinha. Suspirou.
       -S por precauo -Disse dirigindo-a ao corredor sem toc-la -Fique perto de mim. Neste andar no tem criados, o que me lembra... como conseguiu passar pelo 
Peters? Aposto que estava fora da porta da sua sute na hora, no ? Estava outra vez cochilando? No seria a primeira vez... Babaca folgado.
       -No vi ningum na porta de minha sute, Nicholas -Assegurou Sara.
       No trairia o Peters. Faz-lo poderia trazer consequncias tambm para Nell. Que Nicholas guardasse seus segredos, ela manteria os dela. Esperava que Peters 
seguisse encerrado com a donzela quando chegassem  sute das tapearias, e se manteve perto de seu marido, lamentando-se por ter prometido que manteria a distncia. 
O corredor estava muito escuro, e o corao voltou a pulsar com fora, embora desta vez no devido  excitao.
       J quase tinham chegado ao patamar quando algo se moveu por eles procedente da ala sul, que estava tenuemente iluminada. Ambos se detiveram. O corao de 
Sara paralisou durante um instante, at que o familiar som de quatro patas sobre o tapete que tanto tinha desejado ouvir durante aqueles ltimos dias ressoou dirigindo-se 
para onde eles se encontravam.
       -Nero! -Exclamou quando o animal se materializou entre as sombras.
       Ao v-los, deteve-se sobre seus passos e mostrou lentamente as presas.
       Para sua surpresa, Nicholas a colocou atrs dele e levantou a pistola.
       -Fique a! -Ordenou apertando o gatilho.
       -Noo! Est louco? -Gritou Sara impedindo que apontasse.
       Agarrou-lhe o pulso com ambas as mos e desviou o tiro para o teto quando se descarregou a pistola. Ressoou de maneira ensurdecedora. O aroma da plvora penetrou 
as fossas nasais e uma descarga de chamas saiu disparada do cano da pistola, abrasando a pele enquanto algumas partes de gesso da parede e fragmentos do suporte 
de um candelabro destroado caam sobre eles. Soltando um uivo gutural, o animal se ergueu e retornou por onde tinha vindo, desaparecendo no escuro corredor da ala 
sul.
       -Estpida! -Bramou Nicholas enquanto corria atrs do co -Volta para sua sute imediatamente e passe o ferrolho! Esse no  Nero!
  
       
  Captulo 13
  
  
       O disparo fez que Mills sasse correndo em camisa de noite balanando sua prpria pistola, que entregou a Nicholas em troca da sua descarregada. O doutor 
Breeden, que ia em robe e sapatilhas e levava um candelabro, reuniu-se com eles uns minutos mais tarde, e os trs se dispuseram a iniciar a busca pelos quartos da 
ala sul.
       -Bem, j no temos que seguir especulando sobre os efeitos da mordida de Nero, doutor -Disse Nicholas -Vi com meus prprios olhos o que parecia ser o muito 
mesmo Nero, e ambos sabemos que isso  impossvel. No h outros lobos em Ravencliff.
       -Estava apontando para matar?
       -No,  obvio que no. Quando nos mostrou as presas, minha nica inteno era feri-lo, pr fim a esta loucura, e o teria feito se a baronesa no tivesse impedido.
       Smythe e os lacaios chegaram correndo, colocando as libreas, com as perucas inclinadas e as meias e as calas m colocadas. Mills se voltou para trs e se 
encontrou com eles no patamar enquanto seguiam saindo mais criados atravs da porta verde de baixo.
       -No aconteceu, no aconteceu nada -Exclamou para que ouvissem Smythe e outros.
       Nicholas e o mdico se esconderam dentro do quarto mais prximo; no estaria bem que o pegassem com uma pistola recm disparada em mo quando se supunha que 
no estava em casa.
       -Estava limpando a pistola de Sua Senhoria e se descarregou por acidente -Explicou o ajudante de cmara -Ia descer agora mesmo para tranquiliza-los.
       O rudo surdo de uns murmrios descoordenados foi a rplica a suas palavras, e os criados voltaram para seus quartos. Depois de um instante, Nicholas voltou 
a sair ao corredor.
       -Veja o que pode fazer com este desastre, Mills -Disse assinalando com a mo os pedaos de forro quebrado que cobriam o tapete -E substitui o suporte do candelabro. 
Esses vagos cabeas de vento no se fixaro no teto nunca, esto muito ocupados inclinando-se para apoiar-se nas portas e poder espiar melhor. S te leve o mais 
bvio.
       -Sim, senhor.
       -Quando tiver terminado, quero que procure o Peters e o envie ao Smythe. Quero que esse moo se v. Isto j foi longe demais. Alm disso, j havia dito o 
que aconteceria se voltasse a cometer outro engano nesta casa. Se encarregue disso. Abandonou seu posto esta noite, e a senhora estava comigo quando... Isto ocorreu. 
Smythe conhece as consequncias de me desobedecer. Se ocupe de que algum se coloque imediatamente  entrada da sute das tapearias. Se assegure de que quem quer 
que substitua o Peters compreenda que correr o mesmo destino se a senhora voltar a ficar sem vigilncia, uma s vez! Depois se rena comigo em minhas sutes.
       -Sim, senhor -Disse o ajudante de cmara ficando em movimento.
       Nicholas e o mdico foram abrindo uma a uma todas as portas da ala sul e olharam em cada sute, mas no havia nem rastro do animal. Parecia ter desaparecido 
no ar.
       -Onde pode ter ido? -Perguntou Breeden quando saram do ltimo quarto.
       -Esta casa esta infestada de rotas de escape -Respondeu Nicholas -Os contrabandistas a ocuparam durante sculos antes de que os Walraven chegassem em Cornualha. 
Poderia ter se escondido em qualquer delas, ou ter fundido com as sombras e passar por diante de ns quando entramos nas sutes. Nestes momentos poderia estar em 
qualquer lugar da casa. Desde menino est obcecado com os esconderijos.
       -O que vai fazer?
       -Alex tem quartos aqui, os que ocupa quando no est fora encarregando-se de meus assuntos. Examinaram-nas uma dzia de vezes, mas eu ainda no. Quero entrar 
agora nesses quartos. Saberei se tiver estado nelas.
       -Ento vamos l de uma vez.
       -OH, no, no posso lhe impor mais carrega esta noite, doutor -Disse Nicholas -Desde sua chegada no houve mais que caos nesta casa.
       -No vou poder dormir de todas as maneiras -Assegurou o mdico -Alm disso, a julgar por seu aspecto, excedeu-se e sem dvida me necessitar antes que termine 
a noite.  um jovem temerrio, no ? No est ainda suficientemente preparado para nenhum herosmo no momento. Deixe que v com voc, e depois falaremos. Preciso 
saber o que acaba de acontecer aqui.
       -Ento irei procurar meu robe -Disse Nicholas -Devo ocultar minha ferida. O baro de Walraven retornou, se estiver "suficientemente bem" ou no.
  
       Sara se lanou sobre a cama, sossegando seus soluos na colcha. O que tinha querido dizer Nicholas com isso de que no era Nero?  obvio que era Nero, e tinha 
estado a ponto de lhe disparar. Sua inteno era mat-lo, e o teria feito se ela no o tivesse evitado. Uns minutos antes a estava estreitando entre seus braos, 
aqueles braos incrveis, conduzindo-a ao bordo do xtase. Por que tinha parado? Que segredo guardava, e por que no o confiava a ela?
       Seguia sem haver nem rastro de Peters, e ningum tinha vindo substitu-lo. Sara desceu da cama e entreabriu a porta ligeiramente. No cabia dvida de que 
Nero necessitava refgio com o Nicholas perambulando por a com uma arma, e rezava para que fosse a ela. Tampouco havia nem rastro de Nell, assim que se despiu sozinha, 
colocou a camisola cor crua e se meteu na cama. Estava esgotada, e assim que apoiou a cabea no travesseiro caiu adormecida acompanhada do gemido do queixoso vento.
  
       A princpio no reconheceu o som que a despertou. No at que os familiares passados do animal entraram em seus inquietantes e estranhos sonhos, dissolvendo-se 
na presena daquele som amado, e Sara se levantou na cama. O co estava marcando outra vez seu territrio, levantando a pata e percorrendo o tapete com o mesmo arco 
semicircular ao redor da cama que tinha esboado com antecedncia. Quando teve terminado se sacudiu, esticando todo o corpo, do cabelo grosso e alvoroado com listras 
prata que rodeava o pescoo at a entupida cauda.
       -Nero! -Gritou estirando os braos para ele.
       Mas passou por diante dela e se estirou no tapete frente ao tnue fogo da lareira, lambendo-a ferida e o sangue seco da pata esquerda.
       -Teria jurado que tinham ferido mais acima... no ombro -Murmurou Sara, embora se encolheu de ombros -Tudo aconteceu muito depressa, devo ter me enganado -Desceu 
os ps no cho -Pobrezinho...  Parece infectada. Deixa-me dar uma olhada? -Sussurrou aproximando-se dele.
       O animal deixou de lamber a ferida. No grunhiu, mas curvou os lbios para baixo, deixando ao descoberto umas presas de aspecto feroz. Nunca antes tinha mostrado 
os dentes, e Sara se deteve sobre seus passos.
       -Sei, moo -O tranquilizou -Meus ces tampouco queriam que os incomodassem quando estavam feridos. Um deles esteve a ponto de me morder em uma ocasio quando 
tentei ajud-lo, mas voc no faria algo assim, no , Nero? No se preocupe, no contarei ao Nicholas que apareceu. No podemos nos arriscar depois do que esteve 
a ponto de fazer esta noite.
       O animal no se moveu. Estava posicionado para sair correndo, embora Sara no podia acreditar que fosse faz-lo. Entretanto, tinha o pelo da nuca arrepiado 
em sinal de perigo. Mostrava as unhas curvadas, procurando trao no groso e nodoso tapete, os tendes das patas dianteiras se sobressaam em chamativo relevo. Pela 
primeira vez desde que conhecia seu canino amigo, teve medo... O suficiente para encaminhar-se para a cama. No momento em que voltou a sentar-se de novo na borda, 
o animal se centrou de novo na pata ferida. No se escutava mais som que o rtmico lamber de sua larga e rosa lngua.
       Sara no disse nada mais. Voltou a meter-se na cama com cuidado de no fazer nenhum movimento brusco. Nero estava sofrendo e sem dvida estava fora de si. 
Seguia cada um dos movimentos da Sara com seus olhos escuros e brilhantes como o fogo. Subindo a colcha at o queixo, fechou seus olhos, mas no voltou a dormir 
at que o animal se levantou e saiu de seu quarto pouco antes do amanhecer.
  
       Nicholas e o doutor Breeden retornaram  sute do baro depois procurar nos aposentos de Alexander Mallory. A cama do administrador estava sem desfazer, e 
no havia sinais de que no tivesse estado assim desde fazia dias. Como no estava Mills para vigiar que no houvesse bisbilhoteiros, voltaram para provador de Nicholas, 
onde o mdico examinou a ferida e ps uma bandagem limpa de linho.
       -Estique-o muito -Murmurou Nicholas apertando os dentes.
       Embora estivesse curando, a ferida continuava doendo, e ele tinha que pagar por isso.
       -No podem ver a bandagem atravs da roupa.
        -No deveria estar levantado e andando por a ainda. Esta ferida no est, de forma alguma, curada de tudo, ainda mais depois do que passou esta noite. Se 
no se tranquilizar, terei que lhe administrar uma dose.
       -No, ludano no -Protestou Nicholas -Agora preciso ter todos meus sentidos alerta. No h nenhuma dvida de que  o Alex a quem estive a ponto de disparar 
esta noite. Vi o sangue seco na perna onde eu... Onde Nero o mordeu. Isto no cheira bem, no , doutor?
       -Elimine a possibilidade de que sua infeco esteja unicamente em sua mente -Disse o mdico -Mas isso j sabamos; no  assim?
       Nicholas assentiu.
       -O que me preocupa  que no vimos o Alex depois incidente. Seria possvel que no possa voltar a recuperar a forma humana?
       -Tudo  possvel.  difcil saber o que lhe transmitiu, ou a que  receptivo. Nestes casos, parece que h uma norma comum. A diferena dos homens lobo, os 
metamorfos no violentos tendem a adquirir a personalidade de seu anfitrio humano. Quer dizer, tal como  em sua forma humana, assim ser na encarnao animal... 
Com os poderes, as fraquezas e as habilidades extraordinrias dessa encarnao,  obvio. Que espcie de homem  Alexander Mallory?
       -Alex  um pouco bbado, doutor.  bastante amistoso quando no bebe, mas quando o faz no se sabe o que pode chegar a fazer. No bebe com frequncia, ao 
menos no o tem feito no passado enquanto atendia meus assuntos. Em caso contrrio o teria despedido faz muito tempo embora seja amigo da infncia. O lcool tira 
o pior dele. Tambm  um pouco mulherengo. No sei o que lhe provocou esta vez, mas ambos os vcios se puseram esta noite em seu contrrio.
       -O cime -Disse o mdico.
       -Como diz?
       -Sua esposa, senhor,  uma jovem muito formosa. A menos que me equivoque, sente-se completamente atrado por ela e adoraria ser ele o noivo. Sem dvida pensa 
que, dado que entre voc e a baronesa no existe uma relao longa e considerando que so virtualmente uns desconhecidos, ele tem possibilidades de ganhar seu afeto.
       -Ela me deu a entender que havia algo que no estava bem, mas me assegurou que o tinha controlado.
       -Est claro que no  assim -Disse o mdico rindo entre dentes sem indcio de humor.
       -Diz que esse animal adquire a personalidade de seu anfitrio humano. Nero estava cego de raiva quando atacou Alex. Poderia influir isso no que se converteu 
Alex? No poderia t-lo feito.... Mais violento?
       -No -Disse o mdico -Qualquer animal que ataca est furioso. O homem ao que mordeu no pode voltar-se violento pela dentada, a menos,  obvio, que j seja 
violento por si. Os traos inerentes que tenha em sua essncia so os que mudaram  forma animal.  como se fosse algo hereditrio. Se o homem for bom e amvel, 
assim ser o lobo. Se for brutal e desumano, assim o ser o lobo. A personalidade do homem ser a personalidade do lobo, a menos que estejamos falando de homens 
lobo. Nesse caso, o lobo se converte no que seu agressor , um predador sedento de sangue. J estabelecemos que voc no  um licntropo.
       -Quem dera soubesse mais coisas de meu pai -Disse Nicholas.
       -As investigaes deste... Fenmeno so quando menos especulativos -Disse o mdico -A maioria dos eruditos esto de acordo em que para que algum se converta 
em homem lobo tem que ser mordido por um deles. H excees para toda regra,  obvio, mas voc no  uma delas. Nem tampouco o senhor Mallory. O que transmitiu seu 
pai durante a concepo foi uma forma enfraquecida do que ele era... Uma variao alterada, se quiser. Sempre ser o que . Nunca o que foi ele, fosse o que fosse; 
nem tampouco transmitir o que ele foi a ningum mais. Esta afeco no  progressiva. Aqui no h licntropos. Soube no momento em que sua carta me chegou com o 
correio. Seu caso  nico entre meus estudos. Embora na ndia abundam histrias deste tipo, nunca antes me encontrei com um caso similar. Por isso estava desejando 
aceitar seu amvel convite para vir aqui. Embora s seja por isso, deve estar tranquilo de que nem voc nem o senhor Mallory so nem sero nunca homens lobo.
       -Ento, Alex ser sempre... Como eu?
       -Seguir sendo no que se converteu, sim, senhor. O que vai fazer se reaparecer? Expulsara-o daqui?
       -E permitir que faa a outra pessoa o que Nero tem feito a ele? Como poderia fazer algo assim?
       -Ento, o que?
       -Talvez... O que possa fazer por mim consiga ajudar a ele tambm, isso dando por feito que possa fazer algo por mim -Seu tom era suplicante, mas o mdico 
no respondeu.
       -Est convencido de que Nero no mordeu nenhuma vez a ningum mais, senhor? Pense-o cuidadosamente.
       -No... Nunca.
       O mdico suspirou.
       -Precisa confiar na baronesa -Assegurou -E tem que faz-lo em seguida.
       -No posso fazer isso -Espetou Nicholas -A perderei! Talvez inclusive revele minha situao.
       -Isso no sabe.
       -No posso me arriscar.
       -Ela acreditava que o lobo de esta noite era Nero. E se ele a morder? Disse que deixa a porta entreaberta. Precisa sab-lo.
       Nicholas sacudiu a cabea.
       -Ainda no -Disse -Ter que vigi-la... Eu a vigiarei. No me separarei de seu lado at que tenhamos resolvido o problema de Alex.
       -Desculpe-me, mas isso lhe parece inteligente?
       -O que quer dizer?
       -O que ocorreu esta noite entre vocs antes que aparecesse o lobo?
       To transparente era, ou  que aquele homem era tambm vidente?
       -Vamos, vamos, no posso ajudar a menos que me deixe -Disse o mdico.
       -Estive a ponto de perder a cabea -Disse Nicholas -Me deixei levar pelo corao, e quase me transformo ali diante dela. No posso det-lo, mas sempre sei 
quando vai ter lugar... Quando preciso me despojar de minha roupa e deixar que acontea, assim como tambm sei quando vou voltar a mudar. Se no fosse por isso, 
me teriam descoberto faz muito.
       -E tambm sabe o que desencadeia os ataques?
       -Sim. Esta noite estava excitado.
       -Como controlou a transformao?
       -Rompi o contato, recuperei o sentido e a separei de mim antes que se iniciasse a transformao. No... No podia permitir que visse o que ocorria.
       -Isso  ter controle. Pode faz-lo; s necessita ajuda para aperfeio-lo.
       -Meu Deus, me ajude ento... Custe o que custar... Faa o que possa.
       -Existem vrios caminhos, e o tentarei com todos eles. Para comear, Mills me disse que lhe prepara cada noite uma bebida de ervas com escutelaria, tilo e 
lpulo.
  
      -Prepara-o a senhora Bromley. Mills se encarrega de que tome. Supe-se que me relaxa e me deixa calmo.
       -Isso pode seguir assim, mas eu a prepararei a partir de agora -Assegurou o mdico -Tem uma horta de plantas aromticas?
       -Sim. A senhora Bromley cuida muito dela.
       -Para comear, necessitarei meimendro9 e Anglica10 -Disse o mdico -No h necessidade de incomod-la. Conhecerei-as se ver, igual s demais ervas que necessito. 
Prescindiremos do lpulo na bebida. Embora seja conhecida a muito tempo como uma cura para os excessos sexuais descontrolados, est claro que no funciona com voc. 
Conta com excelentes propriedades para induzir ao sono, entretanto, o que resultaria benfico. Sugeriria-lhe uma aplicao externa. Um travesseiro herbal, talvez, 
cheia de lpulo misturado com lavanda que colocaramos dentro do travesseiro de sua cama... Muito efetivo. Direi  senhora Bromley que prepare uma. Enquanto isso, 
provar com a Anglica como substitutivo para ajustar sua libido, muita Anglica, e veremos que tal vai. Mas no tomar com a bebida, e sim  parte, misturada com 
vinho. No ponha essa cara de pnico. Tudo isto  temporrio. Tem rosas? Rosas mosqueta, em concreto?
       -Sim, contamos com muitas variedades -Disse Nicholas, que seguia pensando na Anglica -No conheo seus nomes, mas temos um jardineiro excelente, Henry Gibbs. 
O apresentarei. Cuidou do imvel desde os tempos de meu pai. Sente-se especialmente orgulhoso das rosas. Esto em um roseiral cercado e separado do jardim, resguardado 
dos temporais, embora o vento espalhe seu perfume por toda a casa quando esto florescendo.
       -Bem -Disse o mdico -Os antigos celtas utilizavam a raiz da rosa mosqueta para curar as mordidas dos lobos neles mesmos e em seus animais, e houve um tempo 
em que a apresentava como cura para a raiva e se utilizava usualmente no Oriente... E na ndia. Suas propriedades sero benficas. O que ter que ver  at que ponto. 
A baronesa tambm deve tom-la. Sugiro um ch de escaramujo11, com um mnimo ao dia de oito "frutos", como se chama, bem repousado e adoado com mel. Darei instrues 
 senhora Bromley. O sabor  muito agradvel e...
       -Isso se pode conseguir que tome sem contar a razo -Interrompeu Nicholas.
       -Eu me encarregarei de que o faa -Disse o mdico -O prescreverei como um tnico para que se recupere depois da terrvel experincia na cmara oculta. A dose 
sua ser mais potente, combinada com a bebida. Administrarei-lhe mais ervas com o tempo, mas no devemos provar muitas de uma vez. Devemos ver como o afeta cada 
uma delas at que alcancemos uma combinao satisfatria. Digo tudo isto porque quero que esteja a par de meus mtodos. Quero que saiba o que estou utilizando e 
por que.
       -De verdade acredita que algo disso funcionar?
       -Se acredito, no -Disse o mdico -Estabelecemos que sua afeco no est unicamente em sua cabea, senhor, mas sua mente no est isenta dela. 
  Demonstrou-o no modo em que antecipa a transformao. Depois devemos ensinar a essa mente a como pensar, mas no esta noite, ou deveria dizer esta manh? Logo 
vai amanhecer e temos muitas coisas que fazer, mas primeiro precisa descansar, e eu tenho que dar um passeio pela horta, se me indicar onde est.  melhor pegar 
as ervas quando esto ainda cobertas de orvalho.
       Nicholas assentiu e ficou de p para acompanhar ao mdico.
       -Precisamos encontrar Alex, doutor -Disse quando saram da sute -Antes que faa mais dano.
       - obvio, senhor.
       -H um quarto de armas debaixo das escadas. Direi a Mills que lhe consiga uma pistola. Se for andar por a sozinho, temo que ter que ser armado. Pelo que 
tenho lido, necessitam-se balas de prata. Por desgraa, no temos nenhuma. Temo que ter que bastar com o chumbo.
       -No necessitaremos balas de prata para nos defender dos lobos desta casa, senhor; s so necessrias em caso de homens lobo. Por desgraa para voc, neste 
caso, s precisa uma bala normal de pistola para matar a um metamorfo.
       
  
  Captulo 14
  
  
       Sara despertou quando rompeu a alvorada ao escutar uns suaves soluos procedentes de seu trocador, onde Nell estava preparando a roupa. Aconchegando-se em 
seu neglig, seguiu o som e encontrou  moa com o rosto avermelhado e os olhos chorosos enquanto aparava o vestido de musselina com desenho de espiga que Sara ia 
vestir para o caf da manh. Ao olh-la, a afligida moa rompeu a choramingar.
       -O que aconteceu, Nell? -Perguntou Sara sentando-a no div -Que aconteceu?
       -Despediram-no -Gemeu a jovem -O senhor voltou para casa e disse que se fosse antes que sasse o sol, e tudo  minha culpa.
       -A quem despediram?
       -A meu Jeremy... Voc o conhece como Peters, senhora. Tinha que ter feito guarda na sua porta ontem  noite, mas voc se retirou a descansar e ele escapuliu 
para estar comigo. Agora no voltarei a v-lo nunca!
       -Est claro que Sua Senhoria no est a par de sua implicao neste assunto, ou teria te despedido tambm -Assegurou Sara.
       -Quem dera o tivesse feito! -Gemeu a moa -OH... OH, senhora, eu no queria.... No  que no queira ser sua donzela... E realmente necessito o salrio.  
s que... O amo, senhora!
       -Sei, Nell -Disse Sara.
       Podia compreender o desgosto da jovem. Deixando  parte o lado fsico, ela tambm se estava apaixonando por seu estranho e melanclico marido. J estava, 
j o tinha admitido. Deu-se conta no momento em que entrou em seu sacrossanto santurio e o encontrou ferido... Ento soube que poderia ter sado morto, que talvez 
no voltasse a v-lo mais. Como teria podido suport-lo?
       Eles tambm estavam separados, mas sua separao era mais cruel. Estavam o suficientemente perto para tocar-se, beijar-se, abraar-se, fazer amor, mas entre 
eles havia uma barreira, um escudo invisvel que Nicholas tinha levantado, e ela no sabia por que se escondia atrs dele nem como atravessar a barricada que tinha 
colocado entre eles. No tinha a habilidade para faz-lo. Era muito inexperiente, e ele era um homem do mundo, muito sofisticado para sucumbir s transparentes mutretas 
de uma penosa e inexperiente estpida como ela no que aos assuntos do corao se referia. O pior era saber desde aquela noite que ele tambm sentia algo por ela... 
Algo que obviamente no queria sentir, algo que no se permitia. Mas, por qu? No o tinha imaginado. Estava em seus beijos, em seus fortes braos estreitando-a 
com fora, na grande presso de sua ereo apoiada contra ela, em sua prpria respirao, quente e fumegante sobre sua pele.
       -No o dir, no , senhora? -Soluou a donzela, devolvendo-a de repente ao presente.
       As mos de Sara tremiam, tinha as palmas midas, e suas regies mais ntimas, aqueles cantos secretos que Nicholas tinha despertado at o mais fundo, palpitavam 
com a mera lembrana daquele breve abrao.
       -No, no o direi -Disse -E h algo que voc tampouco deve dizer.
       -De o que se trata, senhora?
       -Tem relao com o Nero.
       -Esse maltrapilho co velho? Que horror, senhora! Ningum o viu nem a ele nem ao senhor Mallory desde que tiveram aquela briga. Pelo que sabemos, foi arrastando-se 
at morrer por culpa da ferida, e ainda bem que nos liberamos dele, digo eu!
       -No est morto -Disse Sara -O vi ontem  noite.
       -Bom, pois ser melhor que o senhor no ponha os olhos em cima. Smythe diz que certamente se livrar para sempre desse co depois do que ocorreu com o senhor 
Mallory.
       -Sim, bom, isso no ocorrer enquanto eu viva -Assegurou Sara -Se Nero quer me visitar, ser bem recebido aqui em minha sute. Tenho inteno de deixar a 
porta de meu saguo entreaberta se por acaso venha, e no quero que Sua Senhoria saiba. Tratam a esse animal de forma vergonhosa nesta casa. E tudo porque  magro 
como uma sombra. Parece um lobo meio faminto, em vez do mascote de um baro.
       -O baro me esfolar se descobrir -Protestou a moa.
       -No descobrir, Nell, a menos que voc o diga.
       -Mas os criados tm que seguir vigiando dia e noite, senhora -Disse a donzela -Se veem aproximar-se desse co velho, serei despedida desta casa sem dvida 
nenhuma!
       -Deixe os criados comigo -Disse Sara -Eu me encarregarei de distra-los de suas obrigaes. Este ser nosso pequeno segredo, Nell. Voc guarda o meu... E 
eu guardo o seu. Trato feito?
       Sara se aborrecia por ter que utilizar semelhante de ttica, mas aquelas eram circunstncias extraordinrias. O baro Nicholas Walraven no ia disparar mais 
a seu amado Nero, se dependesse dela.
       -Nell? -Disse ao ver que a donzela guardava silencio -Eu j cumpri minha parte do trato. Perguntaram-me sobre Peters. Eu sabia onde estava, e com quem. Sabia 
desde o comeo que escapuliam para se encontrar, mas no disse nada. Deve-me o mesmo. Agora volto a perguntar, trato feito?
       -S... Sim, senhora -Miou a donzela.
       -Bem! Agora, mais te vale secar esses olhos e me ajudar com o vestido antes da chegada de Sua Senhoria para me acompanhar a descer, para tomar o caf da manh.
       A donzela tinha terminado de colocar o ltimo lao de seda verde no cabelo de Sara quando Nicholas bateu na porta e a moa escapuliu a toda pressa pela porta 
do saguo. Sara a tinha deixado aberta na noite anterior, quando o animal partiu? O corao lhe deu um tombo. Nicholas a abriu com o dedo antes que a moa chegasse, 
respondendo assim a sua pergunta. Apesar de tudo, Sara estirou os ombros e o olhou com a melhor de seus sorrisos, embora ele tivesse os lbios apertados. Passaram 
por diante do novo criado que estava postado na porta de sua sute como se no existisse, embora ela desejasse entrar a fundo naquele assunto, tampouco falaram durante 
o caminho para a sala de caf da manh, s trocaram as cortesias mais elementares.
       Sara esteve atenciosa durante o caf da manh, agindo como a perfeita anfitri; as sobrancelhas elevadas de Nicholas, em mais de uma ocasio enquanto comiam, 
era a prova de que no tinha sido enganado naquele sentido. Era uma vitria minscula, mas uma vitria a final, e ela a reclamou como um trofu reluzente. No comeou 
a perder brilho at depois.
       O doutor Breeden se desculpou em seguida. A senhora Bromley tinha deixado espao em seu herbrio para preparar suas misturas, e estava desejando ocupar-se 
de suas amostras recm colhidas antes de que os efeitos do orvalho da manh se esfumassem. Sara estava encantada. O escritrio de Nicholas era seu domnio. Ela tinha 
ganhado suas vitrias na luminosa sala do caf da manh, com seus vasos cheios de flores, as impecveis toalhas de linho e a assustadora vista dos jardins atravs 
das janelas com desenhos geomtricos em forma de diamantes. Aceitou uma segunda xcara e ajustou sua posio na cadeira como se estivesse preparando-se para o ataque 
violento de uma das habituais tempestade de Cornualha.
       -H algo do que quereria falar com voc, Nicholas -Disse dando um grande sorvo a sua xcara -Disse que se tinha alguma pergunta ou alguma dvida me dirigisse 
diretamente a voc... Antes.
       Aquela ltima palavra o levou a levantar as sobrancelhas e deixar suspensa a xcara no ar. Por que sempre parecia um animal disposto a lanar-se sobre ela 
quando falavam de temas srios?
       -Sim? -Perguntou ele com um tom de voz beligerante.
       -Tem que ver com os criados que h fora de minha sute. Quero que os tire.
       -Isso  impossvel, Sara -Disse Nicholas.
       -Por que? -Insistiu ela - minha sute, no ? No quero ter um guarda armado a dia e noite. Sinto-me como uma prisioneira. Tinha mais liberdade em Fleet!
       Nicholas se levantou de um salto da cadeira lavrada, colocou-se atrs dela e jogou o guardanapo no prato vazio.
       -Por favor, nos deixem a ss -Pediu aos lacaios -Fechem a porta ao sair, e se os volto a pegar outra vez com a orelha pega a ela, podem recolher todas as 
suas coisas. Est claro?
       A resposta foi um murmrio montono enquanto os lacaios se retiravam saindo um atrs do outro. Nicholas voltou a ocupar seu lugar na mesa com expresso sinistra.
       -Isso no era necessrio, Nicholas -Assegurou Sara -Todos sabem que estou sob custdia.
       -Sim, mas no sabem por que, e prefiro que no estejam a par de... certos assuntos. J tm suficiente material para suas fofocas com as coisas como esto. 
A sala de caf da manh no  lugar para esta conversa, Sara.
       -OH, sei -Reconheceu ela -Mas parece ser o nico lugar da casa onde podemos conversar de igual a igual. Se isso  devido ao bisbilhotismo dos lacaios, ento 
eu digo que Deus os benza por isso!
       -Ter criados postados em sua porta at que encontremos Alex e solucionemos este assunto -Disse Nicholas -Isso no  negocivel agora, nem o ser tampouco 
no futuro. J se esqueceu o que aconteceu em sua sute?
       -No confia em mim, e isso  insultante.
       -No confio nele, e certamente voc no  rival para sua destreza. E isso vai mant-lo em seu lugar.
       -Isso no  justo. Estava completamente adormecida quando ele... Quando...
       -Quando tratou te incomodar?
       -Estava bbado, Nicholas.
       -E tivesse te violado se no tivesse sido pelo Nero. Como conseguiu entrar Alex, Sara? Eu te direi como, deixou a porta entreaberta... Tal e como eu a encontrei 
quando fui te buscar para descer para tomar o caf da manh. Acreditava que tinha aprendido a lio... Ao menos...
       -No se atreva a terminar a frase, Nicholas Walraven, no se atreva!
       Nicholas deixou escapar um suspiro gigantesco.
       -Sara -Disse com aquela sensual voz de bartono que a fazia derreter-se at a medula.
       Podia enfrentar a sua ira, mas no quela suavidade profunda e ressonante que tinha a capacidade de excit-la do outro lado da habitao.
       -Esta no  uma situao permanente -Continuou ele -Quando encontrarmos o Alex...
       -Ento o encontre! -Gritou Sara ficando de p de um salto.
       Tinha que voltar a sentir ira. Era sua nica defesa contra aquele homem to paradoxal que tinha arrebatado o corao.
       -Porque te digo aqui e agora que no vim a Ravencliff para ser uma prisioneira. Para isso teria ficado onde estava!
       Ele estremeceu? Tremiam-lhe os msculos da larga mandbula e se ps de p outra vez, mas no fez nenhum movimento em sua direo, assim Sara seguiu falando 
aproveitando que tinha vantagem.
       -No voltarei a ficar em um lugar no que estou prisioneira... Nunca mais! -Bramou furiosa jogando o guardanapo -E no se esquea de que ontem  noite o vi, 
Nicholas. Esteve a ponto de matar a esse pobre animal. Os criados desta casa tm os coraes igualmente duro nesse sentido. Ouvi-os falar. A prpria Nell insiste 
em livrar-se dele cada vez que abre a boca. No sei o que est ocorrendo aqui, mas o advirto... Recorda minhas palavras, nada vai acontecer a Nero nesta casa nunca! 
Enquanto eu viva nela.
       Girando sobre os calcanhares, saiu da sala de cafs da manh. Desta vez no havia nenhum lacaio  vista.
       -Sara! -Gritou Nicholas atrs dela, jogando o guardanapo.
       No houve resposta, assim rodeou a mesa e saiu a toda pressa pelo corredor. Ela j tinha chegado ao patamar do segundo andar. Atravs da penumbra que presidia 
os corredores, captou o brilho da musselina confundindo-se com as sombras quando se girou para a sute de Sara. Saiu a toda pressa atrs dela, mas o som da aldrava12 
da porta dianteira ressoou pelo corredor, o detendo sobre seus passos.
       "Quem diabos pode ser?", perguntou-se. Voltaram a bater. Soava urgente. O estrondo provocou que Smythe aparecesse arrastando os ps pelo corredor, estirando 
a casaca e queixando-se entre murmrios.
       O mordomo apenas o reconheceu quando passou por diante dele, e Nicholas penteou o cabelo para trs, com o olhar oscilando entre Sara, que partia, e o som 
de umas vozes elevadas que se escutavam com o passar do grande salo que ficava a suas costas. Estava disposto a sair correndo, mas, em que direo? Balanando-se 
como um pndulo para os lados, ficou ali cambaleando, tentando decidir.
       -Ao diabo com isso! -Murmurou finalmente.
       Girando sobre os calcanhares das botas, correu pelo corredor para a porta da entrada.
       Smythe estava na soleira discutindo com trs homens vestidos com apagadas calas cinza, casacos curtos e chapus de aba larga e taa baixa. Guardas do regimento?
       -Que demnios est acontecendo aqui, Smythe? -Inquiriu Nicholas Aproximando-se -Os ouvi da sala de caf da manh.
       -Sou o capito Renkins, senhor -Respondeu um deles tirando o chapu, antes que o mordomo pudesse responder -Seu criado no parece entender. Tivemos que vir. 
Houve uma queixa.
       -Que espcie de queixa? -Disse Nicholas sentindo um buraco no boca do estmago.
       Do que se tratava agora?
       -Viemos por um co selvagem -Disse o capito.
       -Outra vez esse animal? -Grunhiu o mordomo em voz baixa.
       -Isso  tudo, Smythe. Eu me ocuparei disto -Disse Nicholas apertando os dentes. Despedindo com um olhar que no deixava lugar a queixa, girou-se para os guardas 
-Me acompanhem, cavalheiros?
       Levou-os ao escritrio. No tinha sentido que todos os habitantes da casa se inteirassem desta nova notcia, embora no cabia dvida de que as vigas retumbariam 
com ela assim que Smythe chegasse s habitaes de servio. Urgiu aos guardas a entrar, fechou a porta quando passaram e tomou assento atrs da mesa do escritrio.
       -E agora, cavalheiros -Disse -O que  tudo isso do co?
       Os trs homens estavam rgidos como estacas diante dele. O capito, que estava no meio, parecia ser o nico que tinha lngua. Outros permaneciam como postes 
a seu lado. Nicholas no os convidou a sentar-se.
       -O moo diz que poderia ter raiva -Disse o capito -Todo o povoado  um clamor por este assunto, senhor. As pessoas no descansaro a gosto at que saibamos. 
Teremos que ver o animal para nos assegurar.
       -Que moo? -Perguntou Nicholas, sentindo-se empalidecer.
       Abriram-se as fossas nasais, e o pelo da nuca se arrepiou enquanto um calafrio percorria a espinho dorsal.
       -Um homem chamado Jeremy Peters. Diz que formava parte de seu servio at que o despediu. Disse que se sentiu obrigado a dar notcia de todos os modos porque 
o animal o atacou. As pessoas no esto a salvo com uma criatura assim rondando por a.
       -Ah! Isso o explica -Respondeu Nicholas com toda a autoridade que foi capaz de reunir -Peters foi despedido por pular com uma das donzelas quando se supunha 
que devia estar em seu posto... Mas isso no  assunto da Guarda Real. A queixa que receberam no  mais que a vingana de um criado ressentido, pura e simplesmente. 
-Nicholas ficou de p -E agora, se isso for tudo, devem me desculpar. Tenho assuntos urgentes que atender esta manh.
       Dirigiu-se para a porta, mas a voz resmungona do capito o fez d-la volta.
       -Talvez seja assim, senhor -Disse Renkins -Mas temos que dar uma olhada no animal de todas maneiras.
       -No h nenhum co! -Assegurou Nicholas elevando a voz.
       A fria provocou que uma onda de sangue quente amontoasse nas tmporas, e apertou os punhos aos flancos at que os ndulos se puseram brancos enquanto pensava 
no quanto gostaria de pr as mos em cima a aquele criado traidor. Aspirou com fora ar vrias vezes em uma v tentativa de sufocar a raiva que crescia dentro dele. 
No se atrevia a sucumbir  ira e arriscar-se a sofrer uma transformao diante do capito.
       -Isso no  o que disse seu mordomo -Respondeu o capito -Acabo de escutar agora mesmo com a claridade do dia.
       -Senhor, a mente de meu mordomo se tornou torpe com a idade. Mantenho-o aqui por compaixo. Sou o senhor desta casa, e se eu disser que no h nenhum co, 
 que no h nenhum co. E se o houvesse e estivesse raivoso, estaria aqui negando-o, pondo a meu pessoal em perigo? No teria sido isso o primeiro que teria sado 
da boca de meu mordomo quando abriu essa porta? Asseguro-lhes, cavalheiros, que se houvesse um co raivoso em Ravencliff, eu mesmo teria ido busc-los.
       -No se trata s de seu mordomo, senhor. Todo o povoado  um clamor pelas histrias que seus criados contaram sobre o animal que guarda aqui.
       -Ento Peters tinha que dizer, em vingana. A pequena travessa com a que pula continua trabalhando para mim. Ser a donzela da baronesa at que encontre uma 
moa adequada para substitu-la. Ento haver mais rumores, no me cabe dvida, porque tambm despedirei a garota. E agora, cavalheiros, no quero ser mal educado, 
mas tenho que me ocupar de meus assuntos.
       -O jovem Peters diz que o co que tem aqui mordeu seu administrador, e que no o viu depois. O que tem que dizer a isso, senhor?
       -Despedi meu administrador faz uma semana -Disse Nicholas sem vacilar -Sim, sofreu mordidas... Mas do lcool, no por parte de um co, o asseguro. Quando 
passar a bebedeira e arrastar seu traseiro at aqui para recolher o resto de suas coisas, direi que v v-los e conte ele mesmo.
       Os trs homens ficaram onde estavam, o observando. Acreditavam? As sobrancelhas franzidas do capito e seus lbios apertados no eram bom sinal.
       A transformao era iminente. Entre a discusso com Sara e este episdio, s era questo de tempo que Nero o fizesse ficar como um mentiroso. As terrveis 
palpitaes tinham dado comeo em seu interior; a nusea que o deixava tonto e a viso imprecisa que sempre advertia de que tinha chegado o momento de tirar a roupa 
para preparar-se, porque o fenmeno tinha comeado. Aquilo no podia acontecer ali, diante de trs guardas do regimento, assim fez uma reverncia exagerada e abriu 
o brao em uma ltima tentativa de livrar-se deles antes que fosse muito tarde.
       -Muito bem, cavalheiros -Disse -Como vejo que no encontraremos a paz at que submeta a esta ridcula afronta, sejam bem-vindos. Procurem por toda a casa, 
do poro at o telhado se for necessrio; qualquer coisa, de forma que eu possa me ocupar de meus assuntos. Tenho um convidado em casa, um proeminente mdico londrino. 
Esta manh prometi que daria uma volta pelo imvel, e j estou atrasado. Vai pensar que aqui na costa somos uns brbaros: criados que fazem correr mentiras escandalosas, 
guardas esmurrando nossa porta ao amanhecer. Se preferem acreditar na palavra de uma doninha ressentida antes que a de um baro, vamos. No me interporei em seu 
caminho, mas se afastem do meu. E se encontrarem um co em minha propriedade, pedirei  cozinheira que o asse com uma ma na boca e comerei isso de jantar. Esto 
vocs convidados, cavalheiros. E bem, o que esperam? Vamos, ento.
       Nicholas alcanou a porta em trs pernadas, e a abriu de par em par.
       O capito, que at ento tinha permanecido imvel, saiu do estado de transe no que parecia estar e se dirigiu para a porta. Outros o seguiram. Iam aceitar 
sua provocao? Nicholas conteve a respirao enquanto o capito se girava na soleira para olh-lo.
       -No ser necessrio, senhor... Por agora -Assegurou -Mas se escutar mais queixa, pode apostar o que quiser que retornaremos, e se houver um predador rondando 
por aqui, abat-lo-emos sem hesitar... Tenha quatro patas ou duas pernas.
       -O que se supe que quer dizer isso? -Perguntou Nicholas.
       -Quer dizer, senhor, que no sou to ingnuo como pareo. H algo em tudo isto que no se enquadra, e se tiver que voltar aqui para descobrir do que se trata, 
no descansarei at dar com isso.
       -Que assim seja -Disse Nicholas com voz glacial -Se houver alguma adversidade  espreita, eu mesmo insistirei em que assim seja. Mas se Peters encontrou com 
um co, deve tratar-se de um vira-lata de rua, no  meu. E se lhe ponho a vista em cima, no vou necessitar que vocs acabem com ele, o asseguro. Posso arrumar 
isso com ele e com todos os ces raivosos da comarca. Ces raivosos a mim! E agora, bom dia, cavalheiros.
       Nicholas fechou de uma portada sua sute com fora suficiente para tira-la de seu marco, provocando que Mills sasse de seu quarto, que estava ao lado, com 
a escova da roupa e o melhor traje de noite de Nicholas na mo.
       -Aconteceu algo mau, senhor?
       -Mau? Pode estar seguro disso, Mills -Assegurou Nicholas -Acabam de vir uns guardas do regimento.
       -Uns guardas, senhor? -Perguntou Mills -O que queriam?
       -Parece que Peters vai contando o conto de que Nero atacou e mordeu ao Alex.
       -OH, senhor! O que vamos fazer?
       -Nada, Mills -Afirmou Nicholas -Se foram... Por enquanto. Mas voltaro, no me cabe nenhuma dvida. Toda a servido esteve contando pelo povoado a intriga 
de que temos um animal raivoso aqui.
       -Convenceu-os do contrrio, senhor? -Perguntou Mills.
       -No estou seguro disso. Disse que entrassem e investigassem o lugar, e eles recusaram.
       -Isso foi um gesto inteligente, senhor? Imagine que tivessem feito conta. Eu no voltaria a tentar uma estratgia semelhante tal e como esto as coisas agora, 
se interessar minha opinio.
       Nicholas apenas escutou.
       -Vou chamar a ateno da servido por isso, asseguro -Disse isso passeando como um animal enjaulado -Quando tiver terminado, desejaro no ter aberto suas 
traioeiras bocas. Ningum voltar a sair desta casa at que tenha falado com cada criado que vive em baixo. Faz correr a voz.
       -S... Sim, senhor -Disse Mills.
       -E isso no  o nico que me aconteceu esta maldita manh!
       -H algo mais, senhor?
       Nicholas assentiu.
       -A senhora quer que deixe de colocar os criados em sua porta. Voc sabe que no posso faz-lo. Segue deixando essa maldita porta entreaberta, e no se atreva 
a perguntar de quem  a culpa, ou que Deus me ajude...
       -No disse uma palavra, senhor -Se defendeu o ajudante de cmara.
       -No, mas no  necessrio. Estava pensando.  como um livro aberto, velho amigo.
       -O que vai fazer, senhor?
       -Ela pensa que quero fazer mal ao Nero -Disse Nicholas passeando pelo tapete persa -No posso explicar Mills. No acreditaria se o fizesse. Nem sequer sei 
ao que enfrentamos. Como diabos vou pretender explicar isso a ela? Est convencida de que em quem estive a ponto de disparar foi em Nero, e sua inteno  proteg-lo. 
Ama a esse animal.
       -A voc tambm ama -Disse o ajudante de cmara em voz baixa.
       -Isso no me ajuda, Mills -Grunhiu Nicholas -S piora as coisas, se  que isso  possvel. Alm disso, acredito que se equivoca... Reza para que seja assim. 
Acredito que pensaria de forma diferente se a tivesse ouvido falar a abaixo agora mesmo.
       -Desculpe, senhor, mas, no poderia restringir as visitas de Nero a sua sute durante algum tempo?
       -J conhece os limites do controle que tenho sobre Nero.  muito tarde para isso, em qualquer caso. Ela vai procur-lo de todas as maneiras. E isso seria 
catastrfico agora, com o Alex rondando por a e sua tendncia a encontrar todas as armadilhas de Ravencliff. Sara tem razo. Ter que encontr-lo, e depressa -Nicholas 
rebuscou no interior de seu colete e tirou uma pequena pistola, ignorando o gesto de surpresa do ajudante de cmara -Tive que me ocupar de que o doutor Breeden fosse 
armado -Continuou, exibindo a arma -No posso permitir que o homem ronde por a desprotegido. Enquanto o fazia, escolhi esta para mim. No posso ir por a me arriscando 
a que me de um tiro com uma pistola em qualquer momento. Esta  o suficientemente compacta para poder lev-la oculta.
       -Est... Carregada, senhor?
       -No serviria de muito se no fosse assim, no  verdade, velho amigo?
       -Suponho que no. S me preocupa que...
       -Quo nico tem que preocupar-se, Mills,  que me encontre cara a cara com o Alex sem ela. Agora, me traga meu capote... O dos bolsos.
       -Vai sair, senhor?
       -Preciso dar um passeio pela praia -Respondeu Nicholas tirando a fina jaqueta cor azul e o colete bordado branco, que entregou ao ajudante de cmara. Depois 
desabotoou a camisa at a metade -Acredite, mas vale que ande depressa.
       -S... Sim, senhor -Disse o ajudante de cmara saindo dali a toda pressa. Retornou uns instantes mais tarde com capote embuado e ajudou ao Nicholas a coloc-lo.
       -Se assegure de que algum acompanhe  senhora  sala de caf da manh quando chegar o momento -Disse Nicholas guardando a pistola no bolso do casaco -Duvido 
muito que eu retorne a tempo para o almoo.
  
       Sara deveria ter ficado trabalhando no o resto dos menus para a estadia do doutor Breeden, mas estava muito inquieta para ocupar-se disso. Aproximando-se 
e afastando-se da janela de sua salinha, tratou de pr em ordem seus pensamentos. A tempestade tinha cessado, mas o vento ainda soprava com fora. Embora o sol permanecesse 
oculto depois de uma densa capa de nuvens, as correntes de ar que se filtravam atravs das janelas pareciam mais suaves, se  que aquilo era possvel.
       O criado estava postado fora. Como odiava estar prisioneira, porque assim era como ela via sua situao. No se tinha arrumado nada. Teria que ter insistido 
at conseguir sua liberdade. Agora teria que enfrentar Nicholas uma e outra vez sobre esse tema. A atitude de Sara se veio abaixo. Ele nunca se renderia, mas ela 
tampouco. Nero tinha que ter acesso a ela. Aquela pobre criatura faminta necessitava comida, e amizade; algum em quem confiar. Mas no trairia Nell; a donzela tinha 
razo em que a culpariam se fossem descobertas. Assim que os criados tinham que ir-se.
       Ao passar ao lado da janela, Sara baixou a vista bem a tempo para ver Nicholas descendo pelos degraus de pedra lavrados no escarpado com seu capote estendido 
ao vento. Sara chamou Nell. Foi s questo de minutos que chegasse a moa e fizesse uma reverncia, mas Sara pareceu uma eternidade. Tinha a vista cravada no lugar 
no que tinha visto por ltima vez ao Nicholas no escarpado.
       -V procurar minha capa -Ordenou a jovem.
       -No pode sair, senhora! -Gemeu a moa -O criado a ver.
       -Ver-nos as duas, Nell -Replicou Sara -Vamos dar um pequeno passeio. Isso me est permitido, sempre e quando for acompanhada. Farei um comentrio em referncia 
s correntes de ar deste mausolu para justificar que no leve o neglig para que o oua meu carcereiro no corredor. E agora, ande depressa. Vai me mostrar como 
chegar a esse escarpado.
  
       
  Captulo 15
  
  
       Protestando, Nell guiou Sara para uma porta lateral que estava em uma curva. Era como a da cmara secreta, e estava situada depois das escadas posteriores. 
Coberta com tapearias, a sada ficava bem dissimulada, um remanescente dos tempos dos contrabandistas, pensou Sara. Ela nunca a teria encontrado por si mesma. Um 
estreito passadio a conectava com uma entrada traseira que levava s habitaes dos criados e que ela no sabia sequer que existia. Era uma autntica entrada de 
servio que no tinha nenhum sentido a menos que um fosse contrabandista, porque o escarpado no era acessvel da entrada principal. S se podia chegar ao escarpado 
da parte dianteira da manso de Ravencliff atravs de uma estreita porta. Esse portal, feito de grosas e secas vigas e entrecruzado com barras de ferro, como se 
pertencesse a um castelo medieval, estava sempre fechado como medida de precauo, ou isso disse Nell. Sara despediu da moa e saiu a uma estreita plataforma de 
s uns metros de largura, adornada aqui e l com brotos de ervas daninha escavada sobre a Lisa superfcie de rocha de granito, e se elevava da casa para o lgubre 
cu. Uma grade baixa feita de pedras empilhadas parecida com a que bordeava o escarpado do caminho que levava a Ravencliff era a nica coisa que protegia a borda, 
que tambm estava em mal estado, crivado de buracos escavados com o tempo pelo mar. Uma estreita abertura revelava os degraus profundamente lavrados na face do escarpado 
que levavam a praia que ficava debaixo. Tinha uma queda assustadora, suavizada unicamente por uma gradual inclinao a meio caminho na parte inferior. Um penhasco 
saliente  esquerda oferecia certo resguardo contra o vento, e havia uns ocos convenientemente escavados nos que, dependendo do tempo, a pessoa que estivesse descendo 
podia agarrar-se para no faz-lo na rocha viscosa, umedecida pelas algas e os refugos jogados ali pelo mar. A rochosa parede continuava agora mida pela neblina 
do amanhecer, e Sara se perguntou se alguma vez se secaria.
       Deteve-se um instante na borda com a capa ao vento tal e como tinha acontecido antes o capote embuado de Nicholas, e observou a borda de baixo em ambas as 
direes, mas no havia nem rastro dele. Tinha que estar ali, em alguma parte, e aquele era o lugar perfeito para terminar sua discusso, sem olhos que os espiassem 
nem ouvidos que escutassem. Quando voltou a olhar para baixo de novo, entendeu por que tinha advertido que no fizesse o que estava fazendo agora, mas no podia 
evit-lo. Tinha que descer. Talvez no voltasse a ter uma oportunidade semelhante de novo. Aspirando com fora o ar salgado, levantou a barra de seu vestido de musselina 
com desenho de espigas e comeou a descer.
       Multido de aves planavam por cima de sua cabea, pelicanos, andorinhas e gaivotas entre elas. Havia algumas espcies que no foi capaz de identificar, mas 
todas compartilhavam a mesma plumagem nas asas, em diferentes tons de branco, marrom e cinza.... A cor do cu obsessivo que se abatia sobre ela. Formavam um bando 
de irmandade terra adentro: uma massa agitada e barulhenta sobre a plataforma de pedra que ficava acima. Voaram com elegncia por cima do muro e ultrapassaram a 
entrada para ir pousar no ptio, como tinha visto fazer em outras ocasies quando se aproximava o mau tempo. Vinha outra tempestade a caminho.
       Agachando-se para esquivar dos pssaros que voavam baixo, Sara chegou  praia sem incidentes e se deteve para recuperar o flego. A borda rochosa, rodeada 
de areia, formava um arco semicircular para o norte para desaparecer depois da escarpada face de outro velho penhasco. A praia se fazia mais estreita para o sul, 
embora ali estivesse definida por vrios elementos: rochas cadas, piscinas de gua corrente formadas em riachos, diques naturais e resduos devolvidos ao penhasco 
pelo mar.. Era uma faixa de terra acidentada, solitria e desolada e, entretanto, possua uma beleza etrea que a atraa como um m.
       Ainda havia mar morta. Ainda faltavam uns dias para que a lua cheia trouxesse o mpeto das mars vivas. Seria seguro dar um breve passeio pela praia. Nicholas 
no teria descido se houvesse algum perigo. Pensando aquilo para fortalecer sua coragem, comeou a caminhar com o passar do muro de areia para o sul, todo o longe 
que pde das ondas que lambiam a borda e passavam por cima dos afiados cascalhos. As ondas foram fazendo-se mais altas  medida que Sara avanava, mas ela apenas 
se deu conta disso. Algo negro colocado sobre um montculo meio escondido entre as rochas de uma pequena baa situada a vrias jardas da praia captou sua ateno, 
e decidiu investigar do que se tratava.
       Levantou-se um vento que balanava o objeto, que elevou pelos ares algo branco que tinha ao lado e que saiu rodando pela areia at que se enganchou em outra 
rocha. Sara correu para ali, abrindo-se passo com dificuldade sobre as rochas que formavam um dos espiges naturais, e passou por diante do que reconheceu como um 
capote de homem, o capote de Nicholas, metido a presso entre dois vultos. Puxou o objeto branco. Era uma camisa. A aproximou do nariz e aspirou o aroma de Nicholas. 
Aquela evocadora fragrncia era inconfundvel. Mas seguia sem haver nem rastro dele, e quando se levou a camisa com o capote descobriu as calas, as meias e a roupa 
interior tambm espalhada por ali. As botas estavam entre as algas, um pouco mais ao oeste, e subiu em cima das rochas para recolh-las e as unir ao resto dos objetos. 
Aquilo levou um pouco de tempo, porque as rochas estavam escorregadias, meio escondidas entre as algas, e Sara se desequilibrou em mais de uma ocasio as retirando.
       Para quando chegou  pilha que estava formando, o vento tinha aoitado as ondas at as converter em algo aterrador que se aproximava cada vez mais e deixava 
anis escuros debruados de encaixe sobre a areia. Sara no emprestou ateno. Tinha perdido a noo do tempo. Onde teria ido Nicholas sem sua roupa? Teria ido nadar 
em um dos charcos que tinha formado a mar? Estavam em maio, e fazia mais calor, mas nem tanto calor, e o vento mordia com fora. No fazia tempo para nadar. De 
fato, as lareiras estavam ainda acesas na casa, e certamente o estariam durante algum tempo. Perguntou se todos os habitantes de Cornualha seriam to rudes. Sem 
dvida, Nicholas devia estar louco.
       Retornou a sua tarefa. A roupa sairia voando de novo se no a segurava bem entre as rochas, e se disps  tarefa de coloc-la de tal maneira que evitasse 
que desaparecesse.
       De repente se deu conta do que estava fazendo. Aquele homem ia perambulando por a nu. E se retornava e a encontrava? Observou a praia de cima abaixo. Seguia 
sem haver nem rastro dele, e Sara moveu um pouco mais depressa as mos enquanto ordenava a roupa.
       Colocou tudo em uma pilha ordenada e levantou o capote com a inteno de coloc-lo sobre os outros objetos, mais leves, e depois segurar o conjunto com as 
botas. Era muito pesado. Ao tentar dobr-lo, encontrou-se com um dos motivos... Tinha uma pistola no bolso. Esteve a ponto de deix-la cair, dando-se conta de qual 
era sua utilidade. Nicholas seguia pensando em matar Nero! Deveria peg-la? Nicholas tinha uma armaria bem provida. S teria que pegar outra, mas isso lhe levaria 
tempo. Deveria ou no deveria? Enquanto se debatia dando as costas ao mar, no prestou ateno ao gemido do vento, nem ao bramido das ondas rompendo na costa. At 
que um jorro da gua salgada no tivesse coberto seus ps ela no tinha se dado conta de que estava prisioneira. Estava apanhada... Isolada pelos espiges. Tinha 
o acesso para o norte cobertos pelas ondas que rompiam, e que a deixavam flutuando com a gua at a cintura. Uma gua gelada que a deixou sem respirao. A capa 
fazia fora para baixo, e comeou a inundar-se at que tentou deixar-se levar pelo fluxo da mar e fluir com a corrente de gua. No podia deixar-se vencer pelo 
pnico. Quando pegou o ritmo do mar, tentou subir quando a gua recuou, mas a areia que havia sob as ondas parou seus ps, arrastando-a de volta ao mar... Para a 
ressaca. No se atreveu a ir longe o suficiente para que a apanhasse, porque ento se afogaria com certeza.
       No estava mais conseguindo se segurar a rocha. Quando comearam a falhar as foras, algo a puxou para o espigo natural... Algo que pareciam umas mandbulas 
afundadas profundamente em sua empapada capa. Sacudindo o cabelo molhado dos olhos, os entrecerrou, porque ardiam devido ao sal. Piscou, clareando-a viso, esperando 
encontrar-se com o Nicholas abatendo-se sobre ela, mas no era Nicholas. Ali, com as garras cravadas nas algas e na rocha, com as afiadas presas afundadas na l 
virgem de sua capa, estava Nero, no espigo, puxando-a, afastando-a da crescente mar.
       Parecia ter adotado a mesma estratgia, aproximando-a mais de si enquanto as ondas recuavam at que Sara conseguiu agarrar-se s rochas e ele pde tira-la 
da baa e lev-la  praia. As condies ali no eram menos traioeiras. Tinha acontecido exatamente o que Nicholas disse que aconteceria. A praia se alagou em questo 
de segundos, deixando-a isolada, e no estava ainda fora de perigo. Os degraus de pedra pareciam estar muito longe. Como podia ter alcanado aquela distncia? Como 
poderia retornar? As ondas iam agora mais depressa, levantando-a mais alto, esmagando-a contra o escarpado muro de Ravencliff.
       Nero continuava agarrando-a pela capa. Tinha-a destrudo e continuava puxando com esforo, mas no a soltava. Estava diante dela, apoiando-a, arrastando-a 
para um lugar mais alto, para os degraus.
       -Meu Deus, Nero, no me solte! -Gritou quando ele diminuiu a presso dos dentes para segura-la com mais fora.
       O lanzudo pescoo, de cabelo com listras de prata, que rodeava a cabea estava esmagado e molhado contra sua cabea; e seus olhos, aqueles olhos escuros e 
penetrantes, no se separavam de seu rosto enquanto a arrastava para a salvao. Nero gemeu como em resposta, tendo grande cuidado em no morder, com aquelas presas 
fortemente apertadas, outra coisa que no fosse tecido.
       -s vezes acredito que  mais humano que qualquer criatura de duas pernas que habita neste lugar deixado da mo de Deus -Comentou Sara permitindo uma risada 
ligeira agora que a salvao estava virtualmente ao alcance da mo.
       Sem deixar de gemer, o animal continuou dirigindo-se para os degraus, abrindo as fossas nasais ao respirar. Seu largo peito se expandia e se contraa visivelmente. 
Parecia como se a caixa torcica o fosse explodir pelo esforo, mas no a soltou at que chegaram  escada de pedra. Ento latiu. Era a segunda vez que Sara escutava 
aquele latido, e a deixou cravada no lugar. A primeira vez que o ouviu foi quando ameaou Mallory. Agora se tratava de um som de triunfo. Profundo e sonoro, gutural 
e antigo, soava mais como o latido de um lobo que como o guincho de um co. Ento Nero se sacudiu, e quando rodeou seu pescoo com os braos, agradecendo o esforo, 
o animal  lambeu o sal do rosto com sua larga e rosada lngua.
       -Amo-te, valente -Murmurou -J vejo que esta manh est de melhor humor. -Tratou de ver a ferida, mas tinha o peito e as patas dianteiras cobertas de algas, 
barro e sangue.
       Guiou-a para os degraus, e Sara comeou a subi-los pensando que a seguiria, mas no o fez. Nero voltou a latir, Depois se virou e fez correndo o caminho de 
volta atravs das brancas ondas e a espuma voadora. Depois desapareceu terra acima por cima da baa, deixando detrs de si seu lastimoso uivo. Foi ento quando Sara 
se deu conta de que o mar tinha arrebatado os mocassins.
       Comeou a subir. A roupa mida pendurava do corpo, e o cabelo o tinha um desastre feito. Os laos do vestido caam sem vida pelos ombros. Tinha tanto frio 
que os dentes batiam, mas quando sua pele arrepiou e se deteve metade de caminho do escarpado, no foi pelo frio. O que tinha sido de Nicholas? Teria ficado tambm 
apanhado pela tempestade? No, era muito inteligente para isso. Devia conhecer outro modo de chegar a casa. Entretanto, sua ausncia a inquietava, e continuou subindo, 
desejosa de chegar a Ravencliff antes dele para tranquilizar-se antes de ter que enfrentar-se de novo a sua presena.
       Nell estava esperando-a ao lado da porta da entrada de servio, retorcendo o avental sem piedade quando Sara avanou descala pela rochosa plataforma.
       -OH, senhora! -Soluou a moa com as lgrimas escorregando pelo rosto -A tinha dado por morta.
       -Retornou o baro? -Ofegou Sara cruzando a soleira justo antes que comeasse a cair a chuva.
       -No sei, senhora -Assegurou a donzela -No o vi.
       -Obrigado, Nell. Quanto tempo leva aqui?
       -Desde que apresentei suas desculpas ao doutor para o almoo, senhora. O fiz assim voc que partiu.
       -Ento tem que haver outro modo de subir da praia ate aqui. Ningum teria podido sobreviver nestas condies. Se no tivesse sido pelo Nero, teria me afogado. 
A praia desapareceu em questo de segundos, Nell.
       -Esse maltrapilho velho co, senhora?
       Sara assentiu.
       -Assim .
       -Como vai passar por diante do criado assim? -Choramingou a donzela.
       Sara pensou nisso durante um instante.
       -No terei que faz-lo -Disse -V recolher minha capa com capuz. Finge que vai levar para baixo para estir-la com a prancha de ferro ou algo assim, se algum 
te perguntar. Depois retorna e distrai o que est na porta... afaste-o dela, da maneira que te ocorra, para que eu possa retornar a minha sute.
       -Mas, como, senhora?
       -Estou segura de que te ocorrer algo, Nell. Como arrumou isso com Peters? Tente fazer com que no a peguem desta vez. No foi muito inteligente ento. Se 
houvesse sido, Peters seguiria aqui contigo. Eu soube desde o comeo e no disse nenhuma palavra a Sua Senhoria sobre sua relao com esse moo. Cumpri minha parte 
do acordo, tal e como disse que faria. No preciso te recordar que me deve algo em troca... Alm das visitas de Nero. Se me falhar agora e tudo sai  luz, porque 
sem dvida assim ocorrer, no terei mais remdio que contar a verdade. A mim no pode despedir, mas te despedir em um abrir e fechar de olhos.
       Sara se arrependeu daquelas palavras, assim que saram de sua boca; a expresso aflita da moa era mais do que podia suportar. No era prprio dela se mostrar 
to mesquinha, mas se Peters no tivesse escapulido para ver a donzela, nada disto estaria ocorrendo. Tinha ido muito longe.
       -Sinto muito, Nell -Disse -Estou alterada. Estou molhada at os ossos e preciso me colocar em uma banheira quente para evitar pegar uma pneumonia. Isto  
o que vamos fazer... Diga a esse moo, como se chama...
       -Desculpe senhora, chama-se Wallace.
       -Muito bem, pois diga a Wallace que v buscar gua para meu banho. Diga que voc far guarda at que ele retorne. Assim que tenha desaparecido de sua vista, 
recolhe minha capa e a traz... Mas no aqui. No posso ser vista pelos corredores desta porta. Algum contar ao baro sem dvida. Esperarei na salinha que est 
ao lado das escadas. E agora ande depressa. Sua Senhoria pode retornar em qualquer momento.
       A moa saiu correndo, e ento Sara avanou sigilosamente pelo corredor e esperou entre as sombras. Uns minutos mais tarde, Wallace saiu pelo saguo para cumprir 
sua misso, e Nell apareceu pouco depois com sua capa. Uma vez a salvo na sute das tapearias, Sara se encerrou em sua salinha, longe dos olhares dos criados, enquanto 
subiam por turnos com a gua para encher sua banheira.
       No exterior, a tempestade tinha piorado. Uma chuva horizontal se deslizava, como um lenol, pelos cristais, e as rajadas de vento faziam vibrar os vidros. 
Sara mal podia ver alguma coisa abaixo, embora forasse a vista e limpasse a embaada janela com a esperana de vislumbrar o negro capote de Nicholas ondeando ao 
vento, mas o saliente pavimento que havia abaixo e a cerca de pedra que continha os degraus, estavam vazios.
       Nell foi procur-la quando a banheira estava cheia e Sara cruzou a sute, vacilando no saguo. No. No fecharia a porta. Deixaria-a como sempre, sem fecho, 
mas no aberta de tudo. Os sentinelas no estavam custodiando-a contra intrusos de quatro patas, s para os de dois. Contra Alexander Mallory em particular. Nero 
tinha salvado a vida em duas ocasies. Se queria procurar refgio em sua sute, era bem-vindo. Decidido aquilo, dirigiu-se para seu trocador para entrar na banheira 
que a estava esperando.
  
       -Maldita seja! -Bramou Nicholas irrompendo em seu trocador, onde Mills estava preparando o traje para o jantar daquela noite.
       -OH, senhor! -Gemeu o ajudante de cmara afastando-se dele -Onde est sua camisa... As calas e as meias? E o que aconteceu com sua bandagem? OH, olhe seu 
capote! No conseguirei tirar a terra.
       Nicholas olhou o que ficava de sua roupa e jogou as botas no cho. Ficou ali de p, descalo, vestido unicamente com as cueca sob o capote que pendurava do 
ombro e que roava o cho, sujo com os restos da praia.
       -Teria retornado antes que se desencadeasse a tormenta se no tivesse sido pela baronesa -Disse -Talvez deveria pedir que faa as coisas que no desejo que 
faa. Possivelmente assim teramos ordem em vez de caos nesta maldita casa.
       Procurou em um dos empapados bolsos do capote e tirou a pistola. Do outro surgiram os mocassins de couro marroquino da Sara e os jogou sobre o div.
       -A senhora desceu  praia? -Perguntou Mills. No acreditava.
       -Assim , e se no fosse pelo Nero, teria se afogado ali mesmo.
       -Nero, senhor?
       -No podia enfrent-la nu, velho amigo, voc no acha? Isso me atrasou, e tive sorte de escapar com vida, ento o que menos importa, so as cueca -Assegurou 
tirando o capote -Onde est o doutor Breeden? -Inquiriu jogando as botas de lado.
       -No herbanrio, preparando sua bebida -Respondeu Mills inclinando-se para recolher o casaco e as botas.
       -Gostar de saber que essa maldita beberagem parece estar funcionando, caso contrrio tudo teria terminado ali mesmo.
       -OH, senhor! Conseguiu controlar a transformao?
       -Em certo modo sim -Disse Nicholas -At que seus malditos sapatos chegaram na crista de uma onda e me golpearam a cabea -Assinalou com um gesto os empapados 
mocassins de couro marroquino.
       -OH, mas esta  uma grande noticia, senhor!
       -Foi muito pontual para qualific-lo de boa notcia, velho amigo. Vejamos como progride e deixemo-lo estar por agora, de acordo?
       -Querer tomar um banho, senhor -Disse Nicholas arrastando os ps para ocupar-se de sua roupa molhada -Me encarregarei de que o preparem em seguida.
       -Nada de banhos -Assegurou Nicholas, provocando que o ajudante de cmara se detivesse sobre seus passos -Acredito que j tive suficiente gua fria no momento. 
Me alcance uma toalha e meu robe -Pediu enquanto tirava a cueca -Vou ter umas palavras com a senhora. No posso permitir que isto fique assim, Mills.  muito grave.
       Mills estendeu a toalha.
       -No deveria vestir-se primeiro, senhor? -Perguntou-lhe.
       -No h tempo -Respondeu Nicholas agarrando os sapatos de Sara do div -E agora me traga o maldito robe, e pelo amor de Deus, ande depressa!
  
  
       Captulo 16
  
  
       Sara estava congelada at os ossos. Apesar da vaporosa camisa de gaze com a que se colocou no banheiro, estava tremendo embora a gua perfumada estivesse 
quente.
       -No serve de nada, Nell -Disse -Vou sair j. Duvido muito que volte a recuperar o calor.
       Ficou de p na banheira justo no momento em que Nicholas cruzava pela porta do trocador. Um gemido assombrado escapou da garganta quando chegou at ela com 
grande rapidez, jogou seus sapatos e lhe agarrou os antebraos com as duas mos.
       -Esta  a segunda vez que tenho que te devolver os sapatos, senhora -Exclamou furioso -Se voltar a me tropear com eles, ficarei com eles -Olhou para a donzela 
-Nos deixe sozinhos! -Espetou.
       Nell saiu correndo com um grito nos lbios, olhando para trs enquanto Nicholas tirava a Sara da banheira.
       Sara tirou as mos de seus braos e tentou, sem xito, cobrir todos seus encantos de uma s vez. A fina e mida gaze era transparente, e se atava aos contornos 
de seu corpo como uma segunda pele, enquanto a gua caa por toda ela, marcando cada curva. Nada ficou oculto aos olhos de Nicholas, que se cravaram em seu corpo 
como os de um animal faminto.
       Sara baixou a vista para ver o que o tinha to cativado. Os seios tinham estirado o tecido mido e os mamilos eram claramente visveis, escuros e grandes, 
aparecendo atravs do objeto. A camisa estava aberta na frente, e o olhar entreaberto de Nicholas seguiu a poro de pele que levava a montculo de pelo dourado 
que ela tinha entre as pernas e que no tinha podido tampar por falta de mos. Sara ficou sem flego e tratou de fechar a bata, mas resultou intil. Era como se 
estivesse nua.
       O que no entendia era por que estava se tampando. Aquela era a oportunidade perfeita, no ? A julgar pelo modo em que a estavam devorando aqueles sensuais 
olhos de obsidiana, no demoraria muito para seduzir Nicholas. Tinha estado a ponto de ocorrer em seu anterior encontro, quando os dois estavam razoavelmente vestidos. 
Agora ambos se encontravam virtualmente nus. Nicholas no levava nada debaixo daquele robe. O tinha preso com descuido, deixando-a entrever um brilho do pelo escuro 
que tinha debaixo da cintura, e o rastro de uma ereo desafiava  seda cor borgonha.
       Sara voltou a conter a respirao e agarrou se mais na camisa molhada. No serviu de nada. No podia seguir enganando-se. No era nenhuma sedutora. No saberia 
por onde comear... Mas ele sim. O notava nos olhos, na velocidade com a que subia e descia seu largo peito, em sua clida respirao, que exalava contra seu rosto 
enquanto se abatia sobre ela. Seu aroma viajou at Sara e filtrou-se atravs de suas fossas nasais, rodeando-a, penetrando-a. Bebeu dele, to embriagada por sua 
proximidade como um cavalheiro o estaria depois tomar umas taas. OH, como gostaria de ter mais experincia! Como desejaria abrir seu robe e deslizar as mos por 
debaixo dele, afundar os dedos no pelo suave e sedoso, que tinha sonhado voltar a acariciar desde a noite em que enfrentou Nicholas em sua sute. A nica coisa que 
podia fazer era ficar ali, olhando com desejo e almejando que aquele corpo magnfico se unisse ao seu.
       De repente, a atitude de Nicholas mudou. Parecia como se acabasse de despertar de um transe. Voltou a lhe agarrar os antebraos e a sacudiu. Sara gritou, 
porque no estava preparada para que a sujeitasse com aquela rudeza, mas no fez ameaa de solt-la.
       -Disse-te que no descesse  praia -Espetou.
       -Como pode saber onde estive? -Desafiou-o ela -Voc nunca est por aqui quando se necessita. Agora deu ordens de que me sigam cada vez que saia de minha sute?
       -Vi-a... Quando subia de volta -Assegurou Nicholas -E se no tivesse sido assim, algum dos criados teria me contado isso. Eles esto muito a par dos perigos, 
embora voc no esteja. Poderia ter se afogado.
       -Mas no o fiz, graas a esse pobre co que voc est tentando matar -Lanou ela -O que estava fazendo ali abaixo, Nicholas? Tem por costume nadar no mar 
com semelhante clima?
       -Vivi aqui toda minha vida -Respondeu ele -Estou acostumado a... me banhar em todo tipo de condies climticas, mas agora no estamos falando de meus costumes, 
mas sim de sua obedincia.
       -Minha obedincia? -Gritou Sara -Como se atreve a me tratar com menos respeito ainda que a esse co?
       -Sara, sua segurana  muito importante para mim, e j te expliquei que a confiana  primitiva nesta relao. Obedincia cega  confiana. Esteve de acordo 
com isso quando aceitou meu pedido.
       -E sem dvida voc me olha com desprezo por t-lo feito. Temia que o fizesse. Alexander Mallory certamente o fez. Por que deveria esperar algo mais de voc?
       -No me inclua -Grunhiu Nicholas.
       -Foi um engano vir aqui... esperar seu respeito.
       -Sabe que no  assim. -Nicholas a segurou com menos fora, mas no a soltou.
       -Eu no sei de nada! Trata-me como a um de seus criados... Algum a quem pode dar ordens... Algum abaixo de voc. Talvez isso seja certo, mas certamente 
no sou uma criada. Sou a filha de um coronel do Exrcito Real de Sua Majestade, um cavalheiro, e um heri reconhecido pela Coroa, que caiu no vcio do jogo e morreu 
infestado de dvidas. No me mea pela mesma medida. O nico jogo ao que me submeti em minha vida foi ter vindo aqui. Como pode ver, no tenho talento para jogar.
       -Por que concordou com isto? -Murmurou Nicholas.
       -Estava morrendo naquele lugar -Assegurou ela -Comia mantimentos podres e tinha que me defender de predadores de duas patas, quando no dos de quatro. No 
teria durado muito tendo que abrir caminho a dentes a cada dia, cada hora, sem esperar nada mais. OH, teria podido suport-lo em um sentido fsico, suponho, mas 
isso teria me transformado em algum como os outros, algum em quem no teria suportado me transformar, algum em quem teria que ter me convertido  fora para sobreviver. 
Seu... Convite chegou no momento mais apropriado. Foram selecionar garotas para os bordis entre as prisioneiras mais jovens. Sem dvida teriam me levado. Pagam-se 
mais alto pelas virgens. Os carcereiros teriam-se mostrado encantados de livrar-se de mim em troca de uma generosa recompensa. Sua carta foi como uma resposta s 
minhas preces, como se meus sonhos fossem feitos realidade. Mas esses sonhos se transformaram em um pesadelo.
       Algo terrvel vivia nos olhos de Nicholas; uma raiva e um terror alm do suportvel, e Sara afastou o olhar. Estava a beira das lgrimas, mas no lhe daria 
aquela satisfao.
       -Por que desceu  praia? -Perguntou Nicholas.
       -Estava te seguindo.
       -Por qu?
       -Para terminar nossa conversa anterior. Aproveitei-me da presena dos criados na sala do caf da manh para deixar clara minha postura, mas h algumas coisas 
que decidi no discutir diante deles. Queria falar com voc a ss. Pareceu-me o lugar perfeito para faz-lo.
       -O que queria me dizer, Sara?
       -Isso j no importa.
       -Por qu?
       -Porque no  importante. Quero que me deixe ir, Nicholas. Procurarei emprego como governanta ou como dama de companhia, qualquer posto respeitvel que possa 
encontrar. E te devolverei cada peni que gastou comigo, embora isso tome o resto da minha vida. S te suplico que no me devolva quele lugar. Prefiro morrer antes 
que ser vendida a um bordel.
       - minha esposa, Sara. No posso deix-la ir -Disse ele.
       -Ento, aqui estou, prisioneira depois de tudo!
       -No -Grunhiu Nicholas.
       -Ento o que, Nicholas? O que sou? No sei o que o que quer.  nica coisa que sei claramente  que no me quer. Sou uma mulher casada que no  esposa, uma 
companheira que nem sequer  amiga. Quero ser ambas as coisas, mas voc no me deixa, e no quer me dizer por que. Como se atreve a me falar de confiana? Como se 
atreve?
       Nicholas tinha os olhos cravados nela... Aqueles olhos terrveis que contavam com o poder de derreter sua determinao. No podia olhar neles. De repente 
se viu entre seus braos. Apertando-a contra ele, tomou seus lbios com boca faminta e os abriu com sua lngua perita em uma rpida investida. Sara ficou sem respirao. 
Segurando sua cabea com a mo, saboreou-a profundamente, alimentando o gemido de sua garganta, acompanhando-o com seu prprio grunhido animal que parecia surgir 
do mais profundo de seu ser, e que ressoou pelo corpo de Sara de um modo que a deixou com os joelhos tremendo.
       Nicholas deslizou a mo ao longo de seu arqueado pescoo e abriu mais a camisa. Depois tirou o cinturo de seu robe e a atraiu para sua nua ereo. Sara conteve 
o flego. Agarrando sua mo, Nicholas a guiou para seu sexo. Ela exalou um grito sufocado atravs dos lbios apanhados sob a boca de Nicholas quando respondeu a 
sua carcia vibrando como o batimento do corao. Ele deixou cair a cabea para trs tragando ar com seus olhos entrecerrados dilatados pelo desejo.
       -Parece-te que no te desejo, Sara? -Ofegou envolvendo os dedos dela ao redor de seu intumescido membro -Mal posso resistir... Me custa evitar fazer amor 
contigo, mas tenho que faz-lo e o farei, porque  o que devo fazer. No posso me permitir o luxo de te possuir desse modo.
       -Mas por qu?
       -No posso te dizer a razo... Ainda no... Talvez nunca. Isso est ainda por ver.
       Soltou-lhe o pulso. Sara tinha a pele ardendo. Sentia como se tivesse lava derretida flutuando atravs de seu ventre e das coxas, umedecendo o montculo de 
entre as pernas que pulsava como um corao ao ritmo da virilidade de Nicholas... A essncia de sua vida estremecendo-se entre seus dedos. Sara deixou cair a mo 
e ele se inclinou para trs, fechando o robe.
       -Estou te pedindo que confie em mim -Continuou Nicholas -Que faa como te peo e me d tempo. J te disse em uma ocasio que acredito que isto seja temporrio.
       -No te envergonharei diante de seu convidado -Murmurou ela, tratando de aparentar que tinha o controle de suas descontroladas emoes.
       Mas soou pouco convincente. Como Nicholas ia acreditar se ela mesma no acreditava? Era um desastre andante, envergonhada e morta de frio ali de p com uma 
camisa molhada e grudada ao corpo. Todo seu corpo ardia pelo de Nicholas, uma paixo que ele negava. Por qu? Tinha chegado o momento de forar o tema.
       -Procurarei um trabalho em seguida -Assegurou.
       -No pode fazer isso -Espetou Nicholas -A baronesa de Walraven no pode dedicar-se ao servio. Sabe que no pode sugerir uma coisa assim.
       -De acordo, talvez no, mas tem at a partida do doutor Breeden para se explicar, senhor -Respondeu Sara -Porque se no o fizer, partirei com ele quando chegar 
sua carruagem.
       -E aonde ir? -Perguntou ele.
       -No tenho nem ideia, s sei que devo faz-lo. Se at ento no puder me dar uma resposta, ver-me-ei obrigada a chegar  concluso de que ou eu tenho razo, 
ou que voc est louco. Em qualquer caso, se ficar tornarei-me louca. J disse o que tinha que dizer. Agora concerne a voc desenredar a meada, Nicholas.
       Ele pegou uma toalha da cmoda.
       -Se tampe. Vai morrer de frio -Disse como se acabasse de dar-se conta de que estava descala em uma piscina de gua aromatizada com uma camisa que seguia 
gotejando sobre o cho -Me desculparei em seu nome. No pode descer em semelhante estado. Direi  senhora Bromley que te leve uma bandeja com o jantar e um ch de 
ervas para te fazer entrar em calor. O doutor Breeden te tem prescrito um tnico de ch de hibisco para que se fortalea depois da traumtica experincia na cmara 
secreta.
       -No preciso "me fortalecer" -Espetou ela.
       -Voc far o que eu te diga -Respondeu Nicholas sem vacilar -No carregarei a responsabilidade de que adoea sobre minha conscincia.
       -Tomando emprestada sua frase favorita, trato feito, Nicholas? -Perguntou Sara agarrando com fora a toalha.
       -Sara...
       -E quero que os criados partam imediatamente de minha sute -Continuou ela -No viverei sob vigilncia.
       -Isso j esta feito -Respondeu Nicholas com um suspiro -Cedi nesse ponto, mas s se voc mantiver as portas fechadas. Alex no apareceu ainda. Enquanto ronde 
por aqui, corre perigo. Sei que no o entende, mas deve obedecer... deve me dar razo nisto.
       Nicholas atou o robe na frente. Continuava excitado, e afastou o cabelo mido da testa.
       Sara avanou um passo para ele.
       -No! -Rugiu Nicholas recuando -No me toque! No volte a me tentar nunca... Nunca mais!
       -Muito bem, Nicholas -Disse ela -Mas h mais uma condio. Nem te ocorra fazer mal a esse co. No levantar um dedo contra ele de novo ou chamarei os guardas. 
Partirei unicamente com a roupa que tiver posta. Pode ficar com tudo que me deu, mas quando for, Nero ir comigo.
       Nicholas girou ento sobre seus calcanhares e saiu a toda pressa do provador. Sara estremeceu ao escutar a portada, embora tivesse visto como ele a fechava 
de repente. Paralisada no lugar, ficou olhando durante um longo momento o lugar por onde tinha sado. Quando avanou um passo para a campainha para chamar Nell, 
seu p tropeou com algo. Era o cinturo do robe de Nicholas. Recolheu-o e atravessou correndo a sute, cruzando o quarto para sair ao saguo, embora se detivesse 
em seco ao chegar  soleira. A porta estava totalmente aberta, e ali, feito um monte a seus ps, estava o robe atirado no corredor. No havia nem rastro de Nicholas.
  
       Nero caminhava em crculos frente  lareira do provador da sute do baro. Seu lastimoso uivo ressoava por cima da voz da tempestade. Saltava cada vez mais 
e mais rpido, suas unhas afiadas repicavam sobre a soleira que rodeava a lareira e seus passos ressoavam no tapete persa  medida que seu percurso se ia fazendo 
mais amplo, esquivando de Mills, que estava esperando com um leno de tecido preparado.
       Nero voltou a uivar, uma splica lastimosa que foi arrastada pelo vento. Uma imagem imprecisa de cabelo desalinhado e tendes se expandiu at cobrar a altura 
completa do Nicholas, surgindo em uma massa suarenta de carne nua e msculos, cujos nervos se estiravam como a corda de um arco. Ofegando e resfolegando como o animal 
que tinha deixado atrs, Nicholas caiu de joelhos frente  lareira com a despenteada cabea inclinada.
       Havia tornado a acontecer. Duas vezes em um dia. Uns soluos secos e um gemido surgiram de sua garganta, e golpeou o soalho que ficava ao extremo do tapete 
com os punhos fechados.
       -Fique calmo, senhor -Disse Mills cobrindo com o echarpe -J passou.
       Uma risada enlouquecida e disforme foi a nica resposta de Nicholas. O ajudante de cmara lhe agarrou por brao.
       -Vamos, me deixe ajud-lo.
       -Deixei meu robe em sua sute -Gemeu Nicholas enquanto ficava de p.
       -Tem outros robes, senhor -Respondeu o ajudante de cmara o acomodando na poltrona -Irei lhe buscar outro agora mesmo.
       -Esse no  o problema -Respondeu Nicholas -Como vou explicar?
       -No sei, senhor. Acalme-se, no h nada que se possa fazer a respeito agora. No demorarei nem um instante.
       Nicholas apoiou a cabea contra o tecido nodoso do respaldo da poltrona e deixou escapar um comprido e prolongado suspiro. Nenhum canto de seu corpo se livrou 
da dor da estressante transformao, nenhum tendo ficou isento dos agonizantes efeitos do estiramento. Para piorar as coisas, tinha a libido carregada, como estava 
acostumado a acontecer sempre que estava esgotado. Agora estava mais  frente do esgotamento, e no tinha encontrado alvio. Seu sexo ainda pulsava de desejo por 
Sara. Nicholas se retorceu incmodo na cadeira.
       Mills cruzou a soleira arrastando os ps e levando um robe bordado de seda azul que o ajudou vestir. A bebida o esperava na cmoda, e o ajudante de cmara 
a levou.
       -Beba senhor... Toda -Disse oferecendo a beberagem de forte aroma.
       -Agora  muito tarde para esta maldita cura -Respondeu Nicholas recusando o copo.
       -Talvez por esta vez sim -Insistiu o ajudante de cmara -Por favor, senhor, est-o fazendo muito bem.
       Sua resposta foi outra risada enlouquecida, e depois de um instante, Nicholas agarrou o copo e tomou a bebida com uma careta de desgosto.
       -No deveria desanimar-se, senhor.
       -No deveria? -Grunhiu Nicholas -Disse aos criados saiam de sua sute, e fiquei como um estpido porque tinha jurado que no o faria.
       -Foi uma deciso inteligente, senhor?
       -Era necessrio -Respondeu Nicholas -Caso contrrio, algum deles teria visto o que me aconteceu agora mesmo. Quando desci j sabia que corria o risco de sofrer 
uma transformao. Por isso no podia me arriscar a descer vestido de tudo. Foi uma sbia deciso. Quase no consigo ao menos sair de sua sute, Mills. Sei que no 
vai fechar essa porta, e agora est desprotegida. Terei que vigi-la eu mesmo cada vez que possa, e isso no ser fcil enquanto o doutor Breeden esteja nesta casa. 
Descuidei-o de forma vergonhosa com tudo isto.
       -Acredite, ele o compreende, senhor. Alm disso, est encerrado dia e noite nesse herbanrio que h escada abaixo. No veio aqui para socializar.  consciente 
disso.
       -Quero que me faa a cama na sute verde que est do outro lado do corredor, frente aos aposentos da senhora, e que leve ali minhas coisas. Estou muito longe 
aqui acima para ser de utilidade no caso de surgir alguma emergncia, uma concluso previsvel considerando sua trajetria passada nesta casa. Faa-o voc mesmo. 
No quero que a servido fique sabendo. S serviria para levantar suspeitas e dar mais isca aos criados para alimentar histrias que agora no podemos nos permitir.
       -Sim, senhor.
       -Durante o dia me atender aqui, como de costume. Na sute verde terei que me valer por mim mesmo, assim se encarregue de que tenha tudo o que necessito. 
No podem v-lo entrando e saindo.
       -Sim, senhor. Encarregar-me-ei disso enquanto estiver jantando.
       -A senhora no se reunir a ns na sala de jantar. Vo levar uma bandeja a sua sute. Cuide de que no te veja, e esteja  espreita. No preciso te recordar 
de que Alex ainda no apareceu. Estarei encerrado com o doutor nesta sute durante bastante tempo depois do jantar. Talvez deva ficar na sute verde at que eu v 
para l. Sara me deu um ultimato. Tenho um prazo at que o doutor se v para me explicar ou ela partir tambm. No posso permitir que o faa, Mills. No tem para 
onde ir, e terminar nesse crcere, de onde a levaro a um bordel.
       -Muito bem, senhor -Disse o ajudante de cmara -Peo desculpas, mas, no acredita que deveria contar que o doutor Breeden est aqui para resolver suas preocupaes 
e...
       -Contar o que, Mills?
       -Seu verdadeiro papel nesta loucura. Depois de tudo, essa  a razo pela qual a escolheu. Porque pensou que de todas as mulheres do reino, esta poderia terminar 
o entendendo, que poria fim a sua solido. Meu corao est com voc, senhor, mas tem que tomar a iniciativa e confiar em algum. No pode esperar confiana por 
parte dela e no lhe der confiana em troca.
       -Se conto toda a verdade e falo da implicao de seu pai em todo este assunto, terei que lhe explicar o resto.
       -No necessariamente, senhor. No poderia contar o suficiente para apazigu-la, s... Algo? No pode deix-la partir, senhor. A ama, e ela o ama tambm.
       -Bem, isso no  to singelo, velho amigo, porque ela ama a algum mais.
       -Senhor?
       Os lbios do Nicholas se curvaram em um sorriso irnico.
       -Acaba de me informar que quando partir levar Nero consigo.
  
       
  Captulo 17
  
  
       -A tcnica que eu gostaria de tentar no  minha -Disse Breeden -A aprendi sob a tutela de Anton Mesmer faz mais de quarenta anos. Eu no tinha nem vinte 
anos, era muito inexperiente e me sentia intimidado por aquele grande teosofista, no podia acreditar em minha boa fortuna ao poder estudar em sua casa e no hospital 
de Landstrasse, em Viena. Ao princpio ele utilizava objetos magnticos para curar e teve muito xito, mas pouco depois de que me uni a ele, seus mtodos mudaram. 
Comeou a fazer uso do que ele chamava "o magnetismo animal" durante suas prticas, e temo que isso foi o princpio de sua queda.
       -Magnetismo animal? No houve algum tipo de escndalo respeito de Mesmer e suas prticas?
       O mdico assentiu e deu um sorvo a sua taa de xerez. Estavam sentados na salinha da sute do Nicholas, onde o mdico tinha reunido um grupo ecltico de objetos 
sobre a mesinha auxiliar.
       -Sim, assim foi -Disse Breeden -E segue havendo. Segundo Mesmer, o "magnetismo animal"  uma substncia, um lquido invisvel se o preferir, que no pode 
ver-se, sentir-se, cheirar-se, tocar-se nem saborear-se, e que todos os homens possuem em diferentes graus. Essa substncia pode utilizar-se para curar... E para 
ajustar a conscincia, de modo que o receptor da terapia pode receber estmulos que provocaro uma mudana de conduta.
       -Mas j desprezamos a teoria de que minha afeco existe unicamente em minha mente.
       -Sim, assim  -Reconheceu Breeden -Entretanto, a mente pode treinar-se para superar todo tipo de comportamentos fsicos.
       -E acredita que...
  -Acredito que alguma das teorias de Anton Mesmer possa resultar benfica para voc. O que no saberia dizer  at que ponto. Tem razo em relao ao do escndalo. 
Parece-me justo advertir de que foi acusado de enganador na ustria por sua terapia do magnetismo animal. Mudou-se a Paris, onde escreveu um artigo, com a esperana 
de redimir-se, no que afirmava que o magnetismo animal no era uma espcie de cura secreta para tudo, como temiam os austracos, e sim um fenmeno cientifico, que 
desejava estudar para beneficiar  humanidade.
       Suas curas resultaram fantsticas. Os clrigos,  obvio, atriburam-no tudo ao diabo, mas a aristocracia francesa o reverenciava como a um santo. Teve muito 
xito e obteve o favor da rainha da Frana, mas o rei ordenou uma investigao. O comit designado no encontrou falhas nos resultados de Mesmer, mas no podiam 
aprovar algo muito ilusrio para ser recebido pelos cinco sentidos, e voltaram a denunci-lo. Ento chegou a revoluo. Sem fama nem fortuna, deixou Paris e se assentou 
em algum lugar perto de Zurich. Dois anos atrs se mudou para Meersburg, onde em morreu maro passado, enquanto trabalhava com os pobres. Digo-lhe tudo isto porque 
no quero utilizar mtodos que voc aprove. Minha teoria  que esse homem a frente de seu tempo, e que algum dia seus mtodos sero valorizados, inclusive reverenciados. 
No h dvidas de que funcionam; o que nos resta saber  ate que ponto o faro em seu caso.
       -Usou esses mtodos com outros? -Perguntou Nicholas.
       -Sim, mas nunca em um caso to particular como o seu.
       -O que devo fazer?
       -Relativamente pouco -Disse o mdico -No muito mais do que j tem feito.
       -No entendo...
       -Quando atiraram em voc e estava sofrendo, enquanto esperava a que Mills trouxesse o remdio da senhora Bromley, usei meus "poderes", se quer cham-los assim, 
de magnetismo animal, que o doutor Mesmer me ajudou a desenvolver durante meu treinamento para paliar a dor. Recorda-o?
       -Lembro que me dizia que me concentrasse em suas palavras, sob a luz da vela.
       -E o que aconteceu quando fez o que pedia?
       -A dor diminuiu. Tivemos uma conversa virtualmente normal.
       O mdico assentiu.
       -Estava tentando descobrir se seria receptivo a meus mtodos.
       -E fui?
       -At certo ponto -Assegurou o mdico -Tem uma fora de vontade muito poderosa; mais forte que a da maioria. Lutou contra o ch de pasionaria at o final com 
o propsito de manter o controle, e sofreu incisivamente por isso. Acredito que a nica razo pela que meu mtodo obteve algum xito foi porque voc no era consciente 
do que estava fazendo, e porque sofria uma grande dor. Falta por ver se posso trat-lo sendo voc completamente consciente do processo. Tem que aprender a confiar.
       -Isso diz tambm Mills -Respondeu Nicholas depois exalar um suspiro cansado -Levo muito tempo confiando s em mim mesmo, no me vejo capaz de delegar o controle 
completo a outra pessoa, nem sequer nele, e ele viveu comigo este pesadelo desde o comeo.
       -Tinha-me contado que Mills foi tambm o ajudante de cmara de seu pai, verdade?
       -Sim.
       -E no pode nos contar nada mais do que aconteceu depois do seu pai ter sido mordido na ndia?
       -S que meu pai sofria umas dores de cabea terrveis e que se voltava irritvel com frequncia. A ferida nunca se curou, e ao final de sua vida passava mais 
tempo longe de Ravencliff que aqui. Fosse qual fosse seu estado, no confiava em ningum, e essa foi provavelmente a razo pela que Mills insinuou que conhecia meu 
problema do primeiro momento. Tinha a sensao de que algo estava muito errado. Meu pai o excluiu, e Mills ficou destroado quando morreu. Acredito que nunca se 
recuperou da culpa por no ter sido capaz de ajudar meu pai enquanto vivia. Estava decidido a que isso no ocorresse comigo.
       Acredito que tenha notado que nossa relao  algo mais do que a normal entre um ajudante de cmara e seu senhor, e que em muitas ocasies permito falar quando 
no corresponde. Alm do bvio, Mills foi como um pai o substituto, um confessor, um mentor, um protetor e um amigo para mim desde que pude me pr de p, e no que 
a ele se refere, no sigo as normas convencionais. Os criados esto acostumados a isso, mas pode ser estranho para algum alheio, que esteja habituado a uma interao 
mais formal entre as classes superiores e seus criados, e essa  a razo pela qual o menciono. No tenha temor em contar com ele para seus mtodos, e sinta-se livre 
em perguntar o que queira em qualquer momento. Eu estou muito comprometido na situao para ser objetivo, e suas opinies podem ser de grande ajuda. Ele foi testemunha 
da maioria de minhas transformaes, a ltima teve lugar esta mesma tarde.
       -Tirarei partido dele,  obvio -Disse o mdico -Enquanto isso, h vrias coisas que gostaria de tentar. -Fez um gesto para a mesinha auxiliar -Pus aqui vrios 
objetos que eu gostaria de usar junto com o magnetismo animal. Como ver, h um singelo m e outros objetos de metal que tambm foram magnetizados. Os vou utilizar 
seguindo o mesmo mtodo que usei quando atiraram em voc -Disse colocando os dedos na testa e as tmporas do Nicholas a modo de exemplo - muito relaxante, e isso 
 exatamente o que se necessita se queremos alcanar algum xito.
       -E essas taas da? -Perguntou Nicholas assinalando vrias taas de brandy que continham diversos nveis de gua.
       -Uma gaita de cristal -Respondeu o mdico -Um pouco primitiva, reconheo-o, mas efetiva em qualquer caso. O doutor Mesmer conseguiu resultados assombrosos 
com a gaita. No  mais que um instrumento musical, e Anton Mesmer amava a msica a cima de tudo. Era um consumado pianista e violoncelista. No  de estranhar que 
encontrasse a maneira de utilizar um instrumento como a gaita para suas prticas. Quando uma pessoa umedece o dedo e percorre com ele o bordo da taa, produz-se 
um tom em funo da quantidade de gua que contenha. Portanto, as taas que guardam diferentes quantidades de gua produzem diferentes sons. O resultado  um tipo 
de msica. Utilizarei todos estes mtodos para induzi-lo a um estado de transe temporrio, durante o qual introduzirei uma sugesto hipntica em sua mente que com 
sorte chegar at seu estado consciente quando despertar.
       -Isso  tudo?
       -Isso  muito. Se tivermos xito, e falo em plural porque no posso fazer isto sozinho, terei ordenado a sua mente que rejeite a transformao. O que tem 
que fazer  baixar o guarda e confiar em que vou obt-lo. No conseguiremos nada a menos que voc acredite que ser assim.
       Nicholas deixou escapar um suspiro receoso e pensou nisso.
       -O que estou dizendo,  que deve ficar completamente em minhas mos.
       -Sei o que est dizendo -Assegurou Nicholas -E  obvio, farei tudo o que possa para contribuir a seu xito, mas...
       -Nosso xito -O interrompeu o mdico -E no pode haver mas. Ou aceita ou procederei a agir sem seu conhecimento para provocar em voc um estado que possa 
alcanar-se mediante a autossugesto. Ou isso, ou lhe agradecerei sua amvel hospitalidade e deixarei tal e como encontrei. A escolha  sua, e essa  a razo pela 
qual expliquei tudo a fundo. No existem riscos. Ou triunfamos ou fracassamos. O pior pode ocorrer  que continue como est... Sem mudanas.
       -No h opo, doutor -Disse Nicholas -Proceda com seus experimentos e vejamos que tal vai, de acordo?
       -Como desejar.
       -Se tivermos xito, existe alguma possibilidade de que me cure? -Quis saber Nicholas.
       -No h cura -Respondeu o mdico -Nem sequer sabemos o que  o que estamos tratando de curar. O mximo ao que podemos aspirar  a deter as transformaes; 
o menos, a ser capazes de control-las satisfatoriamente, de modo que possa desfrutar de uma vida, de certo modo, normal.
       -Inclui isso a coabitao com minha esposa? Desculpe minha franqueza, mas este  um assunto que preciso saber.
       O mdico vacilou.
       -Sem o tratamento de magnetismo animal, no tem nenhuma possibilidade -Assegurou com franqueza -Sua atuao de hoje  um exemplo disso, apesar da nova bebida 
que proporcionei e que estava pensada para apaziguar nesse sentido. E por cima de tudo, o filho que resultaria de sua unio herdaria a mesma afeco, embora talvez 
o fizesse em menor grau.  impossvel sab-lo com certeza.
       -Mas... Haveria possibilidades de consumar o matrimnio?
       -At arrisco de me repetir, volto a dizer que tem que contar a sua esposa. Precisa estar preparada. Se estiver disposta a arriscar-se, isso poderia aliviar 
a tenso que provoca suas transformaes nesse tipo de circunstncias. Por outro lado, se estiver disposta a seguir sendo sua esposa sem consumar o matrimnio sabendo 
quais so suas circunstncias, isso daria outra opo. Se no o estiver, ou se a situao for repugnante, precisa saber de uma vez, antes que as coisas entre vocs 
vo muito longe.
       Nicholas suspirou profundamente.
       -Deu-me um ultimato. Tenho que dar uma explicao antes que voc se v, caso contrrio pensa partir para Londres com voc. No posso dizer a verdade e me 
arriscar  que v contando histrias sobre mim se decide deixar Ravencliff, e se no o conto, a perderei. E ainda h mais. J sabe,  obvio, que est convencida de 
que foi em Nero que disparei. Acredita que quero me liberar dele de um modo ou outro, e tem inteno de lev-lo com ela quando partir.
       -Isso  impossvel, senhor!
       -Mas ela no sabe.
       -Uma razo a mais para que o conte.
       -Mills pensa que no devo contar toda a verdade, s algo para apazigu-la enquanto ns resolvemos esta confuso.
       -Uma verdade pela metade?
       -Exato.
       -Ou tambm pode deix-la partir, reconhecer que cometeu um grande engano e deixar atrs todo este desafortunado assunto.
       - muito tarde para fazer isso. No esperava me apaixonar por ela. Isso no formava parte do acordo, e tenho feito tudo o que estava em minha mo para desanim-la. 
Permiti que me visse como um tirano grosseiro e como um brbaro. Insultei sua inteligncia, feri seus sentimentos. No tem nem ideia da espcie de homem que sou, 
de que sou um cavalheiro, e entretanto...
       -O amor, senhor, segue a direo que marcaram. As flechas de Cupido nunca se detm diante os obstculos que encontram em seu caminho. Se for amor verdadeiro, 
resistir  verdade. Se for uma iluso, ficar no caminho.
       -Mas, a que preo?
       -Seja qual for o preo, nunca ser muito para comprar a verdade. Nenhuma unio pode construir-se sobre os alicerces da mentira.
       -Todos meus instintos me advertem para que guarde silncio.
       -Ento deve seguir esses instintos, mas ao menos os examine profundamente.
       -H algo mais do que devemos falar antes de comear -Disse Nicholas -Tive que dispensar o servente que fazia guarda na porta da baronesa. Caso contrrio, 
teria me visto transformar esta tarde. Eu ocuparei seu lugar.
       -Voc, senhor?
       -Vou dormir na sute verde que fica em frente  sute das tapearias at que se resolva todo este assunto do Alex. Temos que encontr-lo, e agora mesmo s 
podemos busc-lo Mills, voc e eu. Transcorreu muito tempo, doutor. Pode ter voltado a transformar-se a estas alturas se tiver querido. A menos que me equivoque, 
acredito que segue na forma de lobo. No podemos esperar que a baronesa feche sua porta com chave. Quer proteger Nero de mim, e isso a converte em presa vulnervel 
para ele. Duvido muito que eu consiga dormir, mas estarei mais preparado para ajud-la dali do que se estivesse longe, e a baronesa tem que estar controlada.
       -Uma deciso sbia.
       -Ningum deve saber disto exceto Mills e voc, doutor. No posso permitir que os criados deem voltas  ideia e tirem suas prprias concluses. Esta manh 
vieram os guardas por culpa dos falatrios que estenderam pelo povoado sobre o Nero, e Mills me contou que na zona de servio se est incubando um plano para mat-lo 
diretamente. No devem saber nada das atividades que vamos levar a cabo.
       -Compreendo-o perfeitamente.
       -Mantenha a pistola carregada e pronta. Encarregar-me-ei de que Mills tambm v armado. Mas vigie a que lobo dispara.
  
       Nicholas estava muito inquieto para que funcionasse o tratamento magntico. O tinha advertido ao mdico; tinha muitas ideias lhe rondando pela cabea para 
permitir que a suave voz de Breeden penetrasse nela. Os ms no apresentavam suficientes estmulos exteriores para atrair ou captar sua ateno. A nica coisa em 
que podia pensar era em Sara e em quo perto tinha estado de consumar seu matrimnio com ela. Seu membro se agitava pelo desejo de terminar o que tinha comeado, 
o corao se interpunha no caminho do sentido comum, e em sua cabea aconteciam os dilemas, cada um maior que o anterior.
       Entretanto, com a gaita foi diferente. O mdico tinha preparado as taas de modo que proporcionavam uns tons prazenteiros no muito diferentes aos suaves 
acordes de uma cano de ninar. Alm do fogo da lareira, cada vez mais escasso, um nico candelabro estava aceso sobre a mesinha auxiliar. As plpebras de Nicholas 
comearam a fechar na tnue semi-escurido, enquanto permanecia reclinado no div escutando como os peritos dedos do doutor Breeden extraam msica de elementos 
to simples como o cristal e a gua.
       - isso -Murmurou Breeden. Sua voz tranquilizadora parecia fluir na estranha melodia -Escute a msica. Deixe que o transporte. Espere para ver aonde o leva. 
Imagine a voc mesmo flutuando sobre as tranquilas guas de uma poa formada pela mar. Deixe que a gua mantenha a flutuao... Deixe que o sustente. Agora est 
indo  deriva, livre de toda preocupao. Seus problemas esto drenando, fluindo por volta do mar. J quase os perdeu que vista. J no pode reconhec-los. No vo 
voltar. A msica bloqueia o caminho. Vai sentindo cada vez mais leve enquanto flutua na gua. Est protegido como um menino no ventre de sua me. Deixe-se levar, 
senhor... S... Deixe-se levar...
       -Algum dos dois pode me dizer o que est acontecendo aqui? -Perguntou uma voz suave atrs deles.
       Era Sara que estava na soleira com o cinturo e o robe Borgonha de Nicholas pendurados no brao.
  
       
  Captulo 18
  
  
       Nicholas saltou do div ao ver Sara, e os dedos do doutor Breeden emitiram um chiado discordante quando agarrou a borda da taa em que estava fazendo crculos. 
A taa se fez pedacinhos, lhe rasgando o polegar.
       -Isto  seu, senhor -Disse Sara a Nicholas colocando o robe em uma cadeira antiga de estilo ingls que havia ao lado da porta -O deixou na soleira de minha 
porta.
       Nicholas engoliu seco. Tinha-o pegado. Olhou de esguelha ao mdico, mas no encontrou ajuda nele. Breeden estava cobrindo o polegar ferido com seu leno.
       -Que diabos est fazendo aqui a estas horas, senhora? -Espetou Nicholas. A ira tinha sido sempre sua melhor defesa contra ela. Confiava em no ter perdido 
sua habilidade, mas estava ainda um pouco adormecido devido ao experimento do mdico e, portanto, em clara desvantagem -Poderia ter chamado a um dos serventes para 
que me trouxesse isso. No ouviu nada do que te disse antes? H perigos dos que no sabe nada.
       -Bom, acredito que j vai sendo hora de que saiba algo -Respondeu ela batendo os ps no cho -Comeando por isso -Assinalou o robe -Tem certa propenso a 
andar por a nu, senhor. Esta  a terceira vez que tropeo com sua roupa sem que voc a leve posta. Se importaria de me explicar isso.
       -No o farei -Espetou ele.
       Trs vezes? S podia recordar duas ocasies, ambas naquele mesmo dia. Quando teve lugar a terceira?
       -Dispensei os criados de sua porta de boa f -Continuou dizendo -Posso voltar a instal-los ali com a mesma facilidade. As normas da casa so muito simples. 
Por que no pode acat-las? Se machucou em duas ocasies por desafiar minha autoridade e ignorar minhas diretrizes. Acreditava que a estas alturas j estaria disposta 
a seguir os ditados do sentido comum, senhora! H perigos que...
       -Sim, sim, perigos dos que no sou consciente. J me disse isso. No posso dar crdito a esses "perigos" sem uma explicao; Se no forem o suficientemente 
graves para que me esclarea, no tm importncia para mim, senhor, e no posso... No, no tomarei a srio. E bem? Estou esperando, Nicholas. Conte-me que perigos 
rondam e me espreitam em sua casa.
       Justo ento apareceu Mills na soleira e se deteve. Sua chegada fez que Nicholas elevasse as sobrancelhas.
       -Bem feito, velho amigo -Disse com a voz afiada pelo sarcasmo.
       O ajudante de cmara torceu o gesto e depois olhou a seu redor antes de centrar a ateno no mdico, que ainda estava encarregando-se de seu polegar ferido.
       -Est sangrando, senhor -Disse -Deixe que o ajude.
       -No  nada, Mills -Assegurou Breeden -Se trata s de um arranho.
       -Como se cortou? -Perguntou Sara girando o pescoo para a mesinha auxiliar -Estava jogando os dois a algum tipo de jogo de mesa justo antes que eu entrasse? 
Um jogo perigoso, diria eu, se termina sangrando.
       -Talvez devesse partir -Sugeriu o mdico - tarde, e tenho que cuidar disto. Continuaremos amanh.
       -Agradeceria se ficasse, doutor -Pediu Nicholas -Mills, o acompanhar a meu provador e o ajudar com a ferida. -Olhou a Sara de rabo de olho -Isto no levar 
muito tempo.
       -Sim, senhor -Respondeu Mills guiando o mdico para a porta.
       Nicholas se girou para sua mulher.
       -Ficou louca? -Perguntou furioso -Assim que Mills saia desse provador, farei com que a acompanhe a sua sute, e ali vai ficar.
       -No sem uma explicao -Respondeu Sara tomando assento no div.
       Por que se inclinava para frente daquela maneira? O pescoo de seu vestido de musselina branco prola era um problema. A ltima coisa que Nicholas precisava 
era que o recordasse do que ficava oculto debaixo daquele atraente decote.
       -Deu-me um ultimato, e concordei em me submeter a ele em seu momento, no aqui em minha sute, com... Com pblico, pelo amor de Deus! Perdeu o sentido do 
decoro?
       -Eu prefiro chamar de "desafio" o nosso pequeno acordo. Mas voc o anulou ao se despojar de seu robe em minha porta. Quero algumas respostas, e no vou sair 
deste quarto at que as obtenha.
       Nicholas comeou a caminhar pelo tapete. Mills tinha razo. Tinha que lhe contar algo, mas, o que? Aquela mulher era extremamente inteligente. No poderia 
engan-la com facilidade. Havia um consolo, entretanto, e Nicholas esteve a ponto de rir em voz alta quando lhe veio  cabea. A resposta que Sara procurava com 
tanto af era to estranha que a mesma inteligncia que a tinha levado at ali nunca aceitaria o que estava apresentando. Tambm custava trabalho acredit-lo, e 
o fato de que o doutor sim o fizesse se devia unicamente a suas crenas teosficas. Se tivesse tratado de um mdico convencional, Mark Breeden tivesse certificado 
que Nicholas era um luntico; disso estava seguro.
       -Estou esperando -Disse sua esposa.
       -No... No estou bem, Sara -Assegurou ele detendo-se frente a ela ao sentir-se inspirado.
       -Me parece que est perfeito -Respondeu Sara deslizando o olhar pela longitude de seu corpo.
       Pousou com desconforto no vulto de suas calas cor bege.
       -As partes essenciais se encontram em ordem -Concluiu.
       -Minha enfermidade no pode observar-se a simples vista. Trata-se de um problema interno, e a visita do doutor Breeden no  um fato exclusivamente social, 
algo que sem dvida j dever ter adivinhado. Est aqui para tentar corrigi-lo, e talvez tenha que ampliar seus dias de visita se continuarem estas interrupes 
-Aquilo era uma verdade pela metade, mas uma verdade afinal.
       -Fala a srio -Murmurou ela escurecendo a expresso - algo... Grave?
       -Poderia s-lo, e essa  a razo pela que necessito privacidade neste instante.
       -De que espcie de enfermidade se trata, Nicholas?
       -OH, no  contagiosa -Respondeu ele -Sofro de... lapsos, e com frequncia no posso recordar do que aconteceu durante esses perodos, depois.
       A musa a que tinha cortejado em busca de inspirao continuava ainda ali. O resultado tinha sido uma autntica genialidade, a seu modo de ver. As tinha arrumado 
para despachar os dois assuntos de uma tacada... Ou no? Por que o estava olhando Sara assim? Sua euforia se desvaneceu de um colcho.
       -E no podia ter me contado tudo isto antes? -Perguntou ela -No acredito, Nicholas. H algo mais, tem que hav-lo. No existe nenhuma razo para que no 
me tenha dito isto desde o comeo. No sou nenhuma estpida. Quero que me conte a verdade.
       Nicholas elevou as mos para o cu.
       -Tenho-o feito! -Bramou -Mas voc no reconheceria a verdade nem que se aproximasse sigilosamente e mordesse seu bonito traseiro.
       -Desculpa, como diz? -Ofegou Sara.
       -Voltarei a repetir isso sofro de lapsos.  uma afeco... Hereditria. Est acontece normalmente quando estou zangado ou excitado, e no sou nem um santo 
nem um eunuco, e essa  a razo pela qual no posso permitir que continue o que ocorreu entre ns com anteriormente. Nunca haver nada... Fsico entre ns. Disse 
isso desde o comeo. Deixei isso muito claro. Esta  a verdade. J que no acredita em mim, acreditaria no doutor Breeden?
       -Sim -Respondeu ela com firmeza cruzando-se de braos.
       -Tudo  certo -Disse o mdico entrando com o Mills atravs do quarto adjacente de Nicholas com o polegar envolto em um pano de linho. -Sua Senhoria no queria 
preocup-la, senhora, nem tampouco deseja despertar suas esperanas -Exibiu o polegar e o girou para a taa quebrada que Mills estava tentando recolher -Esse artefato 
 parte de meus mtodos -Explicou -Uma gaita de cristal, seguindo o exemplo do doutor Anton Mesmer.
       -Esse enganador?
       O mdico sorriu.
       -Esse mesmo -Assegurou, provocando que Sara elevasse as sobrancelhas -Foi denunciado em duas ocasies,  certo, e tambm acusado de praticar magia negra, 
mas foi uma vtima de mentes estreitas, algo que est acostumado a acontecer com frequncia aos gnios. Seus mtodos so revolucionrios, senhora, mas demonstraram 
ter xito. Eu triunfei com seu uso, e algum dia suas prticas assombraro ao mundo. Disso no me cabe nenhuma dvida.
       -Para que serve e armou... essa coisa? -Inquiriu ela.
       -Relaxa o sujeito de modo que o mdico possa dirigir-se a seu subconsciente com a esperana de aliviar os problemas existentes em seu estado consciente.
       -Soa a magia negra -Murmurou Sara.
       -Para os leigos, suponho que sim -Reconheceu o mdico -Relaxe a mente, senhora. Seja quais forem suas diferenas com Sua Senhoria, as deixe a um lado por 
agora. Dificultaro o processo. Sua mente deve estar limpa e livre de tenso se quero ter xito. Deve confiar em que o que estamos fazendo aqui  para o bem, e permitir 
que o levemos a cabo em privado.
       -Tudo isto est muito bem -Disse Sara levantando-se -Mas ainda no sei quais so esses "perigos" que me mantm prisioneira em minha sute. Que viso pode 
me dar a esse respeito, doutor?
       -Nenhuma, senhora -Respondeu ele -No estou qualificado para isso. Minha experincia no se estende aos assuntos domsticos.
       -Eu posso responder a isso -Interveio Nicholas -Mas duvido que a senhora deseje que o faa diante dos outros.
       -Ao contrrio -Assegurou Sara -Vamos. No tenho nada que esconder.
       -Muito bem, mas conste que a adverti -Respondeu isso Nicholas -Alex Mallory tem planos para voc, Sara. As circunstncias de nosso matrimnio o impulsionaram 
a agir de acordo a eles. Sabia que voc e eu ramos uns estranhos, e evidentemente, deu por feito que dado que nossa relao no era amorosa, poderia ter uma oportunidade 
para ganhar seus favores. Sem dvida pretendia se transformar em seu amante. Voc mesma me contou que durante a viagem se mostrou excessivamente atento. Tambm me 
disse que tinha a situao controlada, e eu acreditei. Isso foi um engano por minha parte.
       -Nicholas...
       -OH, no, voc queria ouvir isto, e assim ser -A interrompeu -Alex, a quem tinha "sob controle", irrompeu em seu quarto bbado e se aproveitou de voc enquanto 
estava adormecida. Subiu a sua cama, ps as mos em cima apesar de sua resistncia, e esteve a ponto de te violar. No o viu depois, e no saiu de Ravencliff. Est 
escondido em algum canto desta casa, sem dvida ganhando tempo at que possa continuar te buscando ou possa vingar-se de voc por t-lo rejeitado. Se no recordar, 
sofreu uma grave mordida no processo. Se o que digo no fosse o caso, senhora, j teria aparecido para suplicar humildemente nosso perdo por ter se comportado como 
um imbecil por ter bebido, e isso teria sido o fim da histria.
       "Conheo Alex a muito mais tempo que voc, Sara.  um bbado reconhecido, embora nunca tivesse permitido anteriormente que o lcool influsse em sua situao 
aqui. Sabe que no o consentirei, porque sei o mal que fica quando est sob a influncia do lcool. Quando digo que h um perigo, pode confiar em minha palavra. 
O fato de que no tinha especificado esse detalhe antes foi, simplesmente, porque no queria te assustar, mas talvez seja melhor que o faa. Esta  uma casa enorme. 
H muitos lugares nos que pode ter se escondido. Estamos fazendo tudo o que est em nossas mos para encontr-lo e arrumar as coisas com ele, mas at que o consigamos, 
devo insistir em que se atenhas  minhas regras. Esto pensadas para sua proteo. Se continuar deixando a porta aberta, estar convidando-o a voltar e a que faa 
algo pior. Essa  a razo pela qual entrou em seu quarto a primeira vez. Ao encontrar a porta entreaberta deu-lhe a entender que havia feito um convite. Ele mesmo 
disse isso!"
       "Bom, j  muito tarde. Mills acompanhar a sua sute e se assegurar de que a feche para passar a noite. Eu mesmo irei te buscar na hora do caf da manh. 
Assim ser at que tenhamos solucionado o assunto do Alex. -Deu uma ordem silenciosa com a cabea a Mills, que imediatamente se colocou ao lado dela -E agora, boa 
noite, Sara."
       Ela no disse nada enquanto o ajudante de cmara a guiava. Tinha o rosto de um vermelho escarlate, e seus formosos olhos azuis olhavam para baixo. A alma 
de Nicholas caiu aos ps. Odiava a si mesmo por t-la envergonhado. Todos seus instintos o levavam a correr atrs dela, estreit-la entre seus braos e rogar seu 
perdo. Mas se manteve em seu lugar, rgido como uma vassoura e com as mos to apertadas a quo custados tinha os ndulos brancos.
       -Que me parta um raio! -Murmurou apertando os dentes.
       -Bem feito -Disse o mdico.
       -Acredita que me acreditou?
       -Eu acreditei. No se reprove. Contou a verdade, s que no inteira.
       -Quem dera compartilhasse sua mesma segurana -Disse Nicholas -Mas havia algo em seus olhos que me congelou os ossos. No est convencida. Estou seguro disso.
       -Ter que tirar tudo isso da cabea agora e voltar para o que estvamos -Pediu o mdico -Estou muito animado. Antes da interrupo se encontrava muito perto 
de me permitir o acesso a seu subconsciente. Voltaremos a tent-lo amanh.
       - grave a ferida? -Perguntou Nicholas assinalando com a cabea para o dedo enfaixado do doutor.
       -No  nada. Mills  muito capaz. Os mdicos so os piores pacientes, temo-me. Ele me ajudou a enfaix-lo convenientemente.
       -Desculpa que o tenha obrigado a ficar. No perdi todo rastro de cavalheirismo, embora no entendo por que, tendo em conta o maldito papel de ogro que me 
vejo obrigado a representar para manter Sara afastada de mim. Sabia que ela nunca aceitaria uma explicao apoiada unicamente em minha palavra.
       -Compreendo perfeitamente. Mills e eu escutamos grande parte da conversa do outro quarto. E simplesmente, fiz minha entrada a tempo. Descanse um pouco. Comearemos 
cedo pela manh, e veremos como vai.
       -Duvido que consiga descansar muito, doutor -Disse Nicholas -Quando tiver falado com Mills e tenha dado tempo a minha esposa para ficar cmoda, darei uma 
olhada no quarto da sute verde, s para me assegurar.
  
       A porta de Sara parecia um pouco mais aberta de como ela recordava t-la deixado quando Mills e ela chegaram  sute das tapearias. Entretanto, estava muito 
confusa para forar seu crebro a pensar. Alm disso, tudo parecia estar em ordem quando Mills apareceu a cabea e olhou a seu redor.
       -Onde est Nell, senhora? -Perguntou.
       -Dei-lhe a noite livre -Respondeu ela -Sua Senhoria despediu do Peters. Era seu namorado, e ficou muito triste. Era o mnimo que eu podia fazer.
       -A Sua Senhoria no vai gostar disso -Disse o ajudante de cmara.
       -No me importa muito se a Sua Senhoria gosta ou no, mas estou convencida de que voc ir correndo a contar.
       -Somente nos preocupamos com seu bem-estar, senhora.
       -Ento v contar o que queira e me deixe descansar. Acredite, j tive suficiente aventura por um dia.
       -Sim, senhora -Disse o ajudante de cmara. Fazendo uma reverncia, deu a volta para partir. J quase tinha fechado a porta atrs de si quando Sara voltou 
a cham-lo.
       -Espere, Mills -Pediu -Se fizer uma pergunta, responder-me com a verdade?
       -Tenho por costume dizer sempre a verdade, senhora -Respondeu ele.
       -A enfermidade de Sua Senhoria  grave... Quero dizer, muito grave?
       -Esperemos que no, senhora -Respondeu Mills -O Doutor Breeden  um reconhecido mdico. Devemos pr nossa f e nossa confiana nisso, e permitir que faa 
seu trabalho sem interferncias.
       Tinha respondido sem responder. Aquele homem era um exemplo de diplomacia. No havia ningum nessa casa que pudesse falar de uma maneira firme e direta?
       -O que quero saber, Mills,  se sua afeco  preocupante ou no. No sou uma senhorita de porcelana. No me fao pedacinhos durante uma crise, e poderia 
ser de ajuda se fosse necessrio.
       -A afeco de Sua Senhoria o acompanha desde menino -Disse o ajudante de cmara -No  preocupante. ... Desagradvel, e ele confia em que os tratamentos 
do doutor o ajudem a suport-lo melhor. Em realidade no h nada que voc possa fazer. Em qualquer caso, transmitirei sua preocupao e seu amvel oferecimento de 
ajuda.
       -Obrigado, Mills -Disse Sara enquanto ele voltava a inclinar-se e fechava a porta ao sair, dando por finalizada a conversa.
       Sara deu a volta. Apesar da eloquente explicao de Nicholas, teria que desembaraar a meada ela mesma. No  que no acreditasse, mas no podia livrar-se 
da sensao de que estava ocultando algo, de que todos o estavam fazendo.
       Sara bocejou e se estirou. Era perto de meia-noite. Tinha sido um dia muito comprido. Estava a ponto de entrar no quarto quando se lembrou da porta e se aproximou 
dela para deix-la entreaberta para Nero. Uma vez feito isto, apagou as velas e cruzou pela porta do quarto, detendo-se em seco diante uma pilha de roupa sua jogada 
no cho pelo tapete e diante o visitante que estava em cima de sua cama.
       -Nero! -Repreendeu -Este desastre  obra sua? Que co to mau. Desa da. Essa  minha cama, no a sua.
       Era uma reprimenda brincalhona, e o animal no se moveu. Reclinado sobre o travesseiro, continuou olhando-a enquanto ela se movia pelo quarto.
       -J vejo que a porta do armrio est aberta. Nell deve ter deixado-a assim. Tirou tudo isto de dentro? Com certeza que sim. Que vergonha, Nero. Isto no  
prprio de voc absolutamente.
       Sara se aventurou a aproximar-se mais com os braos cruzados. A pata parecia ter melhorado. Talvez aquilo explicasse sua arrogncia, ou possivelmente estava 
s esgotado e carente pelo esforo que tinha feito na praia. Embora no ficava nenhum rastro de que tivesse estado ali. Tinha secado o peludo casaco, e no cheirava 
to limpo como seria de esperar depois acabar de retornar do ar salgado.
       -Pergunto-me se me entende -Murmurou Sara -s vezes parece que sim, e em outras ocasies, como agora,  como se tivesse sado da natureza selvagem. No sei 
por que isso deveria me surpreender, tendo em conta o mal que o tratam nesta casa.
       O animal piscou e depois continuou olhando-a fixamente.
       -Bem, pois eu no te abandonarei -Continuou ela -Pode contar com minha proteo, e agora mais que nunca. Ele quer te matar, Nero. Leva uma pistola... O vi. 
Pretende atirar. Deve tomar cuidado quando vier aqui. -Deixou cair as mos aos lados -OH, o que estou dizendo, no  mais que um co. No tem nem a mais remota ideia 
do que estou falando, no , moo? No,  obvio que no. Bom, no pode passar a noite em minha cama. Nem tampouco deveria perambular por a. No  seguro. Deveria 
ir onde quer que seja que v, antes que o descubram. Sentiria-me mal se ocorresse isso por minha culpa. Certamente partirei logo de Ravencliff, e quando o fizer 
te levarei comigo, mas no esta noite. Desa, moo.
       Sara deu um passo para frente, mas quando se aproximou para tir-lo da colcha, o co ficou em p e encurvou o lombo. Com o cabelo arrepiado, curvou os lbios 
e deixou ao descoberto umas presas aterradoras, soltando um grunhido gutural que a deteve sobre seus passos. Seus olhos frgeis se cravaram sobre ela, injetados 
em sangue. A respirao de Sara ficou retida na garganta. Parecia disposto a saltar sobre ela.
       O medo arrepiou toda a pele do corpo e comearam a tremer as mos. Aquela era a segunda vez que se revolvia contra ela. No havia voltado a ser o mesmo desde 
que Alexander Mallory atirou. No podia culpar o pobre animal por isso, mas s podia haver um cdigo quando se tratava de co e dona. Tinha suficiente experincia 
com animais para saber que tinha que levar a voz cantante. Havia uma bacia de porcelana com sua jarra de gua no lavabo que havia ao lado da cama, e Sara agarrou 
a jarra justo quando o animal se lanou sobre ela, esvaziando todo o contedo na cabea no momento em que saltou. O grunhido se transformou em um gemido e o co 
saltou da cama, saindo como um raio pela porta do saguo enquanto se sacudia.
       As mos de Sara tremiam. O som de seus dentes afiados se chocando contra a jarra de porcelana, a escassos centmetros de seus dedos, ainda ressoava em seus 
ouvidos. Deixou a jarra em seu lugar e tirou a colcha molhada da cama. Secaria-a diante do fogo e ningum saberia de nada. Teria feito com o comando? No estava 
segura. Talvez no momento fosse assim, mas precisava que houvesse outro gesto de desaprovao por sua parte para que no coubessem dvidas. Sara fechou a porta do 
saguo. S por aquela noite. Ento, quando Nero estivesse calmo e quando ela pudesse controlar seu medo, para que ele no pudesse cheir-lo, voltaria a abrir a porta.
       O quarto parecia um desastre, mas no se atreveu a despertar Nell e contar o que tinha acontecido. Disps-se a orden-lo ela mesma. As ltimas roupas que 
recolheu foram a camisola e o neglig de seda cor pssego que ps a noite em que Alexander Mallory tentou incomod-la. Tinham-na lavado e tirado as manchas de sangue, 
e Nell a tinha deixado preparada antes de retirar-se. Ao parecer, Nero as tinha espalhado por todo o quarto e as tinha marcado como tinha feito com o tapete, assim 
Sara as jogou no fogo. Voltar v-las tinha feito recordar de tudo. Estremeceu-se, agarrou outra camisola da cmoda e se preparou para deitar.
       Apagou a vela com um sopro e subiu  cama de quatro colunas. Enquanto isso, as mortias brasas da lareira tinham tornado a cobrar vida, alimentadas pela seda 
cor pssego que tinha jogado nas chamas. Sara suspirou e tratou de esquecer as imagens daquela outra noite, o terror que tinha sentido sob o corpo exigente de Alexander 
Mallory, o fedor forte licor de sua respirao, e as palavras que tinha pronunciado ao ouvido: "deixou a porta entreaberta para mim, como sabia que faria, no  
verdade, senhora? No se arrepender..."
       As plpebras comearam a fechar, mas aquelas palavras no se esfumavam. Ressoavam uma e outra vez por sua memria, sem dar descanso at que de repente se 
incorporou bruscamente na cama de mogno com o corao pulsando nos ouvidos.
       -Como pode saber Nicholas que Alexander Mallory me disse isso...? -Murmurou.
  
       
  Captulo 19
  
  
       O tempo melhorou no fim de semana, e o mesmo ocorreu, de certa forma, com os nimos. Sara se mostrou reservada, dividindo seu tempo entre seus aposentos e 
a imensa biblioteca de Ravencliff durante o dia, examinando atentamente qualquer volume que pudesse encontrar ali capaz de esclarecer algo mais sobre a misteriosa 
afeco do Nicholas. O doutor Breeden tinha retomado o tratamento, e Nero no fez mais visita os aposentos de Sara embora ela houvesse voltado a deixar a porta entreaberta 
na manh posterior ao incidente. Estava comeando a temer que seu castigo tivesse sido muito severo. Ningum tinha visto Nero fazia dias. Parecia como se tivesse 
desaparecido no ar.
       Sara terminou os menus para a estadia do mdico, que j estava algo mais que mediada. No que a ela se referia, no tinham respondido a seu ultimato. Nicholas 
estava ocultando algo; estava convencida disso. Se no desse uma explicao acreditvel nos prximos dias, veria-se obrigada a cumprir sua palavra e deixar Ravencliff, 
algo que romperia seu corao. Tambm o romperia se ficava tal e como estavam as coisas entre eles: O amando e desejando sem nenhuma esperana. Tinha apostado numa 
medida drstica, e tinha falhado, a menos que Nicholas aceitasse satisfazer suas exigncias e contasse o que acontecia realmente e por que no queria fazer amor, 
quando era bvio que estava desejando tom-la entre seus braos e consumar seu matrimnio.
       Tambm se perguntava por que queria fazer mal a Nero. Uma coisa era querer livrar-se de um co buscando um lar em outro lado, mas Nicholas queria matar o 
animal, algo que Sara no permitiria fazer. Levaria Nero com ela se chegasse fosse o caso, mas no podia faz-lo se no o encontrava, e o tempo ia passando.
       Quando Smythe chegou aquela tarde para dizer que Nicholas desejava v-la em seu escritrio, Sara agarrou os menus e o seguiu escada abaixo, dando por feito 
que era isso o que queria ver. Encontrou-o caminhando na frente da lareira apagada. Pela primeira vez desde que tinha chegado quela casa, fazia suficiente calor 
para no ter que acender o fogo durante o dia, embora tivessem advertido de que pelas noites e com mau tempo, devia contar com que se acendessem as lareiras ao longo 
de todo o vero para paliar a umidade da velha manso.
       -Por favor, Sara, sente-se-Pediu ele assinalando o div com um gesto.
       -Trouxe os menus -Disse ela deixando-os sobre o escritrio antes de sentar.
       -Disso queria falar com voc -Respondeu Nicholas -Vamos necessitar mais... Muitos mais, a verdade. O doutor vai ficar conosco uma temporada.
       -Uma temporada longa?
       Sara esperava que acontecesse algo assim, e aquilo demonstrava sua teoria. Nicholas estava escondendo algo. Se sua afeco no podia tratar-se no transcurso 
de uma semana, ento era realmente grave.
       -Aceitou ficar at que esteja convencido de ter feito todo o possvel por mim, e at que se solucione o assunto do Alex.
       -O que  esse "assunto" do senhor Mallory, Nicholas, e o que tem que ver com o doutor Breeden?
       Nicholas vacilou. No se atreveu a olh-la nos olhos, embora ela inclinasse a cabea at que no teve mais remdio que faz-lo ou dar a volta, que foi o que 
fez. Era uma pergunta das mais simples. Por que custava tanto esforo?
       -O doutor Breeden aceitou amavelmente ficar at que encontremos Alex -Disse -Nero o mordeu, como suponho que recorda. Precisar cuidados uma vez que aparea.
       -A mordida no foi to grave para reter aqui o mdico, Nicholas. Eu estava l. No foi profunda.
       -Qualquer ferida de co  grave -Insistiu ele.
       A Sara deu um tombo no corao. Preocuparia que Nero pudesse ter a raiva? Sua mente recordou o comportamento do co nas ltimas ocasies. Isso poderia explicar 
sua estranha atitude, e tambm a de Nicholas. Seria essa a razo pela que tinha tentado matar Nero e pela que ia armado? Sara custava acreditar e menos ainda fal-lo.
       -E esperas que deixe minha vida paralisada indefinidamente por culpa disto? -Perguntou.
       -Fez um trato, Sara.
       -E voc tambm.
       -E o cumpri -Assegurou Nicholas virando-se para olh-la -Te disse o que queria saber, e te pedi que confiasse em mim.
       -O que est acontecendo realmente aqui, Nicholas? -Murmurou ela -E como  possvel que no tenham encontrado o senhor Mallory em todo este tempo? Em uma casa 
cheia de criados com nada que fazer, como  possvel que ningum tenha descoberto algo? Esto ao menos procurando?
       - obvio que estamos procurando -Espetou Nicholas -E os criados desta casa tm muitas coisas que fazer. Uma casa deste tamanho no se leva sozinha.
       A expresso de seus olhos era desoladora. Havia algo sob a superfcie daquele olhar entrecerrado que apertava o corao como se fosse um punho. Nicholas no 
tinha posto nem colete nem jaqueta, embora levasse sob a modesta camisa de botes o leno atado ao pescoo de forma perfeita, emoldurando a sombreada covinha do 
queixo. Respirava depressa e de maneira audvel, o peito bem musculoso subia e descia, estirando at o limite sua camisa de algodo egpcio. Seus olhos se encheram 
do resto dele; as mos apertadas ao lado, as calas negras ajustadas  pele, que no deixavam nada  imaginao, estavam metidas nas botas altas e polidas. Parecia 
um animal a ponto de saltar, como sempre que estavam juntos. Sara desejava correr para seus braos, senti-los fortes e quentes abraando-a de novo, apertando-a contra 
aquele magnfico corpo que lhe era negado, pondo fim ao desejo de obter mais dele. Se ao menos nunca a houvesse tocado, se no a tivesse permitido saborear o que 
nunca poderia ter. Mas o tinha feito, e nunca o perdoaria. Sara ficou de p e lutou contra a abrasadora dor que sentia no corao utilizando a lngua, afiada como 
a folha de uma faca.
       -Bom, fica claro que a servido no est procurando com muito afinco -Disse -Talvez necessitem ajuda. Eu estaria encantada de lhes dar uma mo. Qualquer coisa 
para terminar com este desafortunado assunto. Vejamos. -Deu-se um golpezinho no queixo com o dedo do meio -Definiu o senhor Mallory como um bbado. Tm adega aqui?
       - obvio que sim.
       -Procuraram ali?
        -Estou seguro de que ter sido o primeiro lugar da lista.
       -Mas no sabe com certeza -Respondeu Sara rebatendo sua resposta -Muito bem, deixemos isso no momento. Parece-me que escutei o senhor Mallory falar dos mltiplos 
passadios e cantos ocultos desta casa. Parecia ter conhecimento deles, inclusive de uma masmorra que h debaixo das escadas. Falou disso constantemente em nossa 
viagem da Esccia at aqui. Suponho que esses lugares tero sido tambm "os primeiros da lista".
       -Sara...
       -Vamos, vamos, no so perguntas muito complicadas. O que parece ser difcil so as respostas, o que acho bastante revelador. A que se deve? Poderia ser que 
realmente no queira encontrar o senhor Mallory? Pelo que sei, estando presa em minha sute sem mais liberdade que a que tinha em Fleet, poderia t-lo encontrado 
e ter lutado com ele faz muito, senhor. No poderia estar utilizando-o como desculpa para me manter aqui? Trata-se disso, no ? No tem por que responder. Posso 
v-lo em seus olhos. Bem, pois no vai funcionar. Nada disto faz parte do acordo que fiz com voc quando vim aqui, mas no vai matar a esse pobre animal! Vou lev-lo 
comigo, Nicholas. Quer se liberar de Nero? Considera-o feito. -Girou-se para partir, mas Nicholas elevou a voz para det-la.
       -Aonde vai, baronesa de Walraven? -Perguntou -Uma baronesa no pode trabalhar no servio, e no pode voltar para Fleet. Paguei uma fabulosa soma para te liberar 
desse terrvel lugar. Isso no significa nada para voc, senhora?
       - um tipo empreendedor. Estou segura de que tm amigos nas altas instncias, conexes que podem recomendar sua petio ao arcebispo de Canterbury, a Corte 
de Arches a alguma instncia similar que aprove a nulidade. Talvez possa conseguir o divrcio no Parlamento dado que nosso matrimnio  uma farsa, e assim eu poderia 
aspirar a um posto de governanta, ou de dama de companhia, ou talvez me casar com um marido adequado e te pagar com o tempo essa "fabulosa soma".
       -Essas coisas levam seu tempo, Sara... Anos. Nem sequer sei se...
       -E quanto aonde irei enquanto isso -Continuou ela sem dar a oportunidade de responder -No estou to necessitada, senhor. Tenho uma prima longnqua em Shropshire, 
a viva de um vigrio, uma parenta com a que no tenho muito trato,  certo que no a vejo desde menina, mas estou convencida de que me aceitar de bom grado e se 
alegrar de ter companhia.
       Nicholas ficou a sua altura com grande rapidez.
       -No me deixe, Sara -Murmurou estreitando-a entre seus braos. Tremiam-lhe as midas e clidas mos, e os olhos nublados que a olhavam resultavam suplicantes 
e tristes -S te peo tempo... isso  tudo, um pouco de tempo.
       -J teve tempo, Nicholas -Disse ela defendendo-se contra aqueles braos que estava desejando que a sustentasse -Deixe-me ir, s est piorando as coisas.
       -Nunca te deixarei partir.  minha esposa, Sara. Nunca haver outro "marido adequado" para voc, nunca!
       -No se d conta de que tudo isto  intil? -Insistiu ela empurrando o duro peito com ambas as mos.
       O corao de Nicholas pulsava com fora contra seus dedos, e ela deslizou as mos pelo suave pelo que tinha sob a camisa. A escura sombra era visvel sob 
o fino algodo. Recordou sua suavidade sedosa contra sua pele. Seu aroma a alagou por completo, seu aroma salgado e animal misturado com o licor que tinha tomado 
para fazer-se forte naquele encontro, embora fosse Sara a que estava embriagada. Nicholas possua o poder de embebed-la com um s olhar. Seu contato era uma deliciosa 
agonia.
       -S te peo um pouco mais de tempo -Murmurou perto de seu ouvido. A clida respirao de Nicholas em seu cabelo e em sua pele provocou calafrios de fogo gelado 
no sangue. O corao e a mente de Sara foram a toda velocidade, atirando em direes opostas. Nicholas tinha tudo o que sempre tinha desejado em um homem,  exceo 
de seu secretismo, aquela barreira que os mantinha separados. Alm disso, no cabia fazer nenhuma recriminao. Aquele homem exsudava honra, fora e amabilidade, 
todas as qualidades que alimentavam o amor, mas o que mais a atraa nele, por cima de todo o resto, era aquele ar de trgica vulnerabilidade que o envolvia, aquela 
mstica prpria dos guerreiros poetas de antigamente. Derretia seu corao. Mas no se atrevia deixar que Nicholas o visse, ao menos nesse momento.
       -Sara, por favor... -Sussurrou ele.
       -Maldio, agora sim a incomodei! -Disse uma voz compungida da soleira.
       Era o doutor Breeden. Sara nem sequer o tinha escutado chamar.
       Afastando o cabelo com mo tremula, Nicholas a soltou. Sara deixou escapar um gemido que ressoou por todas as emoes encontradas que batalhavam dentro de 
seu corpo, girou sobre seus calcanhares e saiu a toda pressa.
       -Sinto muito -Disse o mdico -Bati na porta, e poderia jurar que escutei como me convidava a entrar.
       Tinham entrado na biblioteca, onde Nicholas estava mostrando alguns tomos que tinha ido recolhendo com o tempo porque poderiam ser interessantes para sua 
afeco. J tinham repassado dois teros da coleo, detendo-se primeiro na parte mais informativa. O que ficava no era muito prometedor, mas Nicholas estava decidido, 
e o doutor se mostrava disposto a examinar atentamente toda leitura relacionada com aquele campo em questo.
       -Tudo bem, doutor -Assegurou Nicholas -Talvez tenha feito mais bem do que mau. Sara quer me deixar, e no posso culp-la por isso, mas no posso deix-la 
partir. E, tampouco posso contar -Ele acrescentou em resposta ao olhar do mdico -Nem sequer me pea isso. Ela acredita que estou usando a ausncia de Alex como 
desculpa para ret-la aqui. Nem sequer acredita que o estejamos procurando. Como vou dizer que verdadeiramente no estamos procurando ele, e sim o lobo no que se 
transformou?
       -Isso  a nica coisa poderamos encontrar. Transcorreu muito tempo.
       -Logo terei que correr a voz de que o despedi e dar ordem de deter a busca. S Mills e voc continuaro buscando-o e,  obvio, eu. J contei essa historia 
aos guardas. Estive postergando unicamente por Sara, mas no posso continuar impedindo-o durante muito mais tempo. Tambm acredita que quero matar Nero, e tampouco 
posso negar isso.
       -Nero a tem visitado ultimamente? -Perguntou o mdico.
       -No... Se ao menos pudesse estar seguro, mas ainda  muito cedo. Estamos fazendo progressos, ou os estvamos fazendo at agora. Esteve a ponto de acontecer 
no escritrio. Se no voc entrasse quando o fez, Sara teria se encontrado de frente com seu querido Nero.
       -Lamento escutar isso -Reconheceu o doutor com gesto desalentado -Estava muito animado. Talvez o que faa falta  uma bebida mais potente; encarregarei-me 
disso agora mesmo.
       -Sara  tudo o que me estive negando todos estes anos -Disse Nicholas -Tudo o que sempre quis. O que mais admiro nela  seu esprito indomvel. Acredito que 
me apaixonei por isso antes que seu corpo me tentasse, porque somos muito parecidos nesse sentido. Lutamos pelo que queremos, pelo que deveria ter sido nosso, mas 
nos foi negado por circunstncias alm de nosso controle e sem que fosse culpa nossa. Deslumbrou-me esse esprito aceso muito antes que o fizesse a doce pele que 
o guarda. Apesar das terrveis humilhaes que sofreu naquele lugar, no perdeu o aprumo nem a elegncia. No saiu da situao endurecida, nem amargurada pela experincia, 
s agradecida por ter se liberado dela.
       - uma dama.
       -No mais amplo sentido da palavra; soube desde o comeo. Uma mulher frvola se lanaria sobre meu pedido, teria me aceito por minhas posses e se mostraria 
encantada em tomar um amante para o resto, conformando-se em me resultar indiferente. Apesar de seus medos, porque tambm os tem, Sara se comportou como um coelhinho 
assustado em nosso primeiro encontro. Aceitou-me para salvar-se de ser vendida a um bordel. Eu representava o menor dos dois maus, e embora aceitasse o desafio com 
entusiasmo, quando chegou aqui no estava absolutamente resignada. O mais terrvel  que nunca esperei que pudesse apaixonar-se por mim, nem que eu me apaixonasse 
por ela. Isso no fazia parte do plano. A nossa devia ser uma relao platnica, amistosa e mutuamente benfica que parasse os ps da alta sociedade que estava me 
perseguindo. Estava pensada para acabar com minha solido por meio de sua companhia neste insuportvel exlio e, em troca, ela contaria com minha eterna gratido 
e tudo o que seu corao pudesse desejar. Fui um estpido ao pensar que o aspecto fsico no despertaria com a mulher adequada. Nunca imaginei que encontraria  
mulher adequada presa nesta tumba, e no estou preparado para isso. No  necessrio dizer que minha experincia com o sexo oposto foi em sua maioria no estrangeiro, 
e com um tipo de mulher diferente, que no exigia nada do ponto de vista pessoal, s do monetrio. Nunca corri o risco de me apaixonar.
       -O que fez voc para evitar a concepo naquelas ocasies?
       -No era uma preocupao. Voc  mdico. Deve saber que elas so peritas na arte da contracepo. Ocupam-se elas mesmas, sua sobrevivncia depende disso.
       -E no houve nenhuma transformao durante aqueles momentos de intimidade? -Inquiriu o doutor.
       -No.
       -Ento, por que tanto temor de que acontea agora?
       -No existe presso nem angstia quando corao e sexo vo por caminhos diferentes -Disse Nicholas -O ato sexual no era mais que uma funo orgnica... Uma 
forma de alvio que, de certa forma, acredito que ajudava  situao, como extrair gua de uma torneira. Isto  diferente. Trata-se de um fogo abrasador que acende 
a loucura, e se pode provocar que experimente a mudana sem chegar a consumar, estremeo-me ao pensar quais poderiam ser os resultados se levasse a cama a essa magnfica 
criatura que tenho por esposa.
       -Ser que parte desse fogo no est  na emoo? -Perguntou o mdico -Talvez o risco de que ocorra, o temor que a transformao a espante seja o catalisador, 
ou se preferir, a isca, que o acende.
        -E se fosse assim?
       -Precisa contar para ela. Todos os caminhos levam a essa direo.
       Nicholas negou com a cabea.
       -No se trata s disso -Disse -Como j disse antes, e mantenho. No posso transmitir este pesadelo a nenhum de meus descendentes. Preferiria cortar meus genitais 
antes de arriscar a que isso ocorra.
       -Agora mesmo devemos deixar esse assunto de lado; h outros modos de enfrentar isso -Disse o mdico -Temos que nos concentrar em minhas beberagens e nos tratamentos 
para que sua mente rejeite as transformaes e nos preocupar em relao  transmisso da afeco quando tivermos conseguido isso.
       -O que "outros modos"? -Quis saber Nicholas.
       Pela primeira vez desde que tinham dado comeo os tratamentos, havia autntica esperana em seu corao e em sua voz.
       -Pacincia -Disse o mdico -No deixaremos nenhuma pedra sem remover, asseguro. Voltaremos a falar deste assunto, mas primeiro temos que nos ocupar do tema 
que temos entre mos antes de nos mover para outra direo.
       -O que seja -Assegurou Nicholas -No posso perd-la, doutor. No  nenhuma cabea oca. Conhece as leis. Quer que solicite a nulidade diante o arcebispo de 
Canterbury, ou que pea um acordo de divrcio diante o Parlamento.
       -Pode fazer voc isso? Conta com os contatos necessrios?
       -Sim -Reconheceu Nicholas -Mas de todas formas seria um processo longo e difcil. Poderia levar anos. Enquanto isso tem inteno de ir-se com uma prima longnqua 
que tem em Shropshire e trabalhar como governanta ou como dama de companhia, ou inclusive voltar a casar-se quando todo o processo tenha terminado para poder me 
devolver o que gastei com ela. No posso deix-la partir. Se o fizer, no voltarei a v-la nunca. No poderei ir atrs dela. O que vou fazer, doutor?
       -O melhor ser que nos ponhamos a trabalhar -Disse o mdico -S h uma coisa que se possa fazer para evitar esse plano; tem que conseguir que no queira deix-lo. 
Tem que consumar seu matrimnio, e depressa.
  
       
  Captulo 20
  
  
       -Se no vir comigo, irei sozinha -Disse Sara a Nell, que tinha se negado terminantemente a mostrar mais esconderijos da manso normanda -No existe risco 
de que nos pegue, Nell. Sua Senhoria e o doutor Breeden se colocaram na biblioteca justo depois de jantar. Estaro ali, fechados, a metade da noite, e  impossvel 
fazer isto durante o dia. H muitos criados ao redor.
       -O senhor me despedir para sempre se descobrir, senhora. Supe-se que tenho que estar vigiando-a para que no sofra nenhum dano.
       -E isso  justo o que vai fazer, porque vou sair e explorar com ou sem voc, assim, se quer cumprir suas ordens, ser melhor que venha comigo agora mesmo. 
Ningum mais nesta casa parece interessado em encontrar o senhor Mallory, e dado que meu futuro depende disso, devo me responsabilizar eu mesma.
       -Depende disso, senhora? -Perguntou a donzela desconcertada.
       -No importa. Voc faz o que te digo.
       -E se encontrar o senhor Mallory?
       -Deixa que eu me preocupe disso. Agora pega o candelabro e ilumina nosso caminho.
       Sara no suspeitava o alcance da misso que tinha empreendido at que transcorreu uma hora e ainda no tinham descido do primeiro nvel dos serpenteantes 
corredores de Ravencliff e seu labirinto de quartos. Evitaram completamente o terceiro piso, assim como a ala que estava a biblioteca. No lhes convinha tentar o 
destino.
       A maioria das salas ocultas estavam ao lado do mar, e a todas elas se acessavam atravs de paredes falsas, lareiras de imitao ou inclusive um armrio roupeiro 
cujo painel do fundo era o acesso. Escurecido pelo alto quebra-mar, discorria paralelo e um tanto estreito, sob o passadio situado ao fundo dessas salas ocultas, 
as unindo como elos de uma cadeia que levava ao escarpado atravs de outra entrada traseira da casa. Sara se deu conta que aquele era um dos tneis dos contrabandistas 
dos quais Nicholas tinha falado. A casa era literalmente um labirinto de lugares ocultos. Quantos mais haveria? Daria alguma vez com todos?
       Descobriu vrias cmaras secretas mais no caminho. Embora estivessem situadas ao nvel da entrada, no afundadas como a que ela tinha cado. De qualquer forma, 
aproximou-se com precauo, e no se aventurou a passar da soleira. A ltima, entretanto, impressionou-lhe por ser o esconderijo mais perfeito de todos, j que era 
virtualmente invisvel ao estar escavada no arco de uma minscula sala oculta. Marcava a entrada de um tnel profundo e negro como o carvo que se abria para baixo. 
Nell se deteve em seco quando chegaram a ele.
       -No, senhora -Disse -No darei um passo mais. A masmorra est a abaixo, e a habitam fantasmas e demnios. -Inclinou-se para aproximar-se dela, sussurrando 
-s vezes os ouvimos das salas do servio, assobiando como o vento e uivando como lobos. No conseguir que eu desa a. Antes darei aviso!
       -Isso  ridculo, Nell -A repreendeu Sara -Essas coisas no existem. Se escuta sons procedentes de baixo, trata-se sem dvida de correntes de ar que se filtram 
do interior. No as sente? Eu tenho os tornozelos congelados.
       -No vai conseguir com que eu desa a, e se puser um p nesse tnel, irei diretamente procurar ao baro, juro-o, farei-o.
       Sara deixou escapar um suspiro exasperado. No havia nenhuma dvida de que aquela moa assustada e falava a srio. No podia arriscar-se. Agora que conhecia 
o caminho, iria sozinha. Prometendo que isso  o que faria, fingiu uma falsa derrota e retornou pelo corredor.
       No tinham passado ainda a cmara secreta quando o estrondo de um rudo destoante saiu do tnel. Tratava-se de um uivo aterrador e horripilante.
       -Nero! -Gritou Sara -ento aqui  onde est.
       Nell percorreu a toda pressa em sentido contrrio o caminho que tinham feito pelo corredor com o candelabro na mo. De sua garganta no paravam de sair gritos. 
Sara levantou a barra da saia e foi correndo atrs dela enquanto ainda podia ver. Havia muitos giros e corredores no passadio para arriscar-se a separar-se da donzela 
e ficar na mais profunda escurido. O corao pulsava com fora contra o peito. Quando alcanou a jovem, deu-lhe a volta e tampou a boca com a mo.
       -Cale-se! -Disse sacudindo-a -Vai fazer que desa toda a casa. S  Nero. No h nada que temer.
       Voltou a escutar o uivo, desta vez mais distante.
       -Viu? Assustou mais ele que ele a voc. Fez que entre mais profundamente. Agora mal posso ouvi-lo.
       -Esse asqueroso co velho! -Bramou Nell -quem dera o senhor se d pressa em atirar nele. Faz uns dias veio atrs de mim, sabia? Saa correndo de sua sute 
justo quando eu subia da sala dos criados. Estava completamente ensopado. Gritei que fosse, e se aproximou de mim. Mostrou-me os dentes e me grunhiu, fez isso. Estava 
babando por todo o tapete, alm disso. Eu estava segura de que ia me morder, mas partiu correndo e rugindo quando dei um chute no cho diante dele.
       Sara sentiu calafrios percorrendo a espinha. Isso devia ser a noite que jogou gua no Nero, nisso tinha ficado a lio que tinha querido lhe ensinar.
       -Tornou a v-lo depois? -Perguntou a Nell.
       -No, senhora, mas vou contar ao senhor na primeira ocasio que tenha. Esse co estava acostumado a ser um aporrinho, saindo de um nada e nos dando a todos 
sustos de morte, mas nunca tinha feito mal a ningum. Agora se tornou mau, e isso poderia ser perigoso.
       -No conte ao senhor -Pediu Sara -Nero no voltou a ser o mesmo desde que o senhor Mallory lhe disparou. Estou segura de que  s isso. Voc tambm te encontraria 
mal se tivessem te disparado. No tive oportunidade de me aproximar o suficiente para ver se a bala segue alojada em seu corpo. Certamente sofra muitas dores.
       -Poderia ser, mas sigo pensando que o senhor deve sab-lo.
       -Deixe o Nero comigo -Disse Sara -O que o baro precise saber, eu contarei. E agora, ser melhor que nos apressemos. No se atreva a sair correndo e voltar 
a me deixar para trs! As velas do candelabro podem apagar-se com um movimento brusco, e no  apetecvel a ideia de andar a cegas por estes passadios na mais absoluta 
escurido.
       Choramingando, Nell saiu disparada pelo frio e mido corredor apesar da advertncia de Sara. Acaso a moa no tinha ouvido nenhuma palavra do que havia dito? 
As velas comearam a piscar, sua fraca chama afogando-se na cera fundida por culpa da precipitao da donzela. Salpicou vestido de Sara e a pele nua do brao e o 
antebrao quando puxou a manga de Nell para que fosse mais devagar. Foi muito tarde, uma das velas se apagou, e depois outra, propagando o desagradvel aroma de 
fumaa e sebo queimado. S ficava uma vela acesa, e Sara sacudiu a jovem para que se estivesse quieta.
       -Olhe o que fez -Espetou tentando segurar o candelabro na tremula mo de Nell -. No! No o incline! O sebo apagar a chama.
       -OH, senhora, est se extinguindo! -Gemeu a moa.
       -Fica aquieta! -Gritou Sara furiosa -me d isso -Tirando o de suas mos, segurou o candelabro muito reto observando com ateno a decada chama.
       A vela estava desaparecendo no atoleiro de cera da base. Ficava muito pouco tempo, e o passadio estava s escuras.
       -Por que no pegou um candelabro com velas novas? -Repreendeu Sara.
       -Estavam novas quando samos, senhora -Se defendeu a donzela.
       -No importa -Disse Sara -Onde estamos agora? Atravs de qual destes painis passamos? Todos me parecem iguais.
       -Acredito que foi por este -Disse Nell -No... Por aquele da esquerda. OH, no sei, senhora. Estou totalmente confusa!
       -Bem, pois ser melhor que se esclarea rapidamente, moa. Est anoitecendo e dentro de um momento no haver luz aqui embaixo, e a esta ltima vela ficam 
s segundos!
       Nada podia tranquilizar a donzela. Estava claramente paralisada pelo terror, gemendo e tremendo, cravada no cho. Escutou-se outro som atravessando o silncio 
que deteve a mo livre de Sara no meio do ar quando ia tocar o muro mido em busca de uma sada do passadio. Um grunhido grave e gutural a obrigou a girar-se para 
encontrar-se com dois olhos vermelhos e dourados que brilhavam sob a luz que a vela projetava um instante antes que seu movimento a apagasse. Nell gritou e comeou 
a correr. A ltima coisa que Sara viu foi o brilho de umas presas afiadas. E a ultima coisa que ouviu foram as patas do animal, suas longas unhas repicando pelas 
lisas pedras que tinha debaixo, antes de lanar-se atrs da histrica donzela, peg-la pelo brao e gui-la atravs do painel que tinha estado procurando. Abriu-se 
 segurana de uma das cmaras interiores, fechando-se imediatamente atrs delas. Por cima dos gritos de Nell, Sara seguia escutando os gemidos e os grunhidos do 
outro lado e um frentico arranhar, como se o animal estivesse tratando de abrir caminho escavando um buraco com as patas.
       Sara apoiou-se contra a porta e se deixou cair. O candelabro ficou em algum lugar do outro lado, onde ela o tinha soltado. J no importava. No serviria 
de ajuda agora que todas as velas tinham apagado.
       -Quer deixar de gritar de uma vez? -Brigou com Nell sacudindo seu brao -Isso  grave. No tenho nem ideia de como chegar ao outro lado. Voc me trouxe at 
esta cmara secreta. Tem que se acalmar e nos tirar daqui!
       -No... No posso ver! -Choramingou a moa -Est escuro como a noite. Tenho medo da escurido, senhora.
       -Isso  muito inoportuno -Disse Sara -No h nada na escurido que possa te fazer mal, Nell. Deixamos o perigo para trs. E outra coisa: nunca saia correndo 
de um animal ameaador. Nunca mostre seu medo. Esse pobre co est sofrendo. Est claro que estes so seus domnios, e ns o violamos. Os ces podem chegar a ser 
muito territoriais, mas Nero nunca me faria mal. Mas ao que parece, voc no tem tanta sorte, j que diz que tentou te morder em uma ocasio. Certamente sentiu o 
cheiro do seu medo. Sabe que eu no tenho medo e que no quero machuc-lo.
       -Ento, por que est arranhando e grunhindo desse modo, senhora? -Perguntou Nell.
       -No posso me colocar na cabea de um co enlouquecido pela dor -Respondeu ela -Certamente esta tentando chegar at mim. Sou a nica amiga que esse pobre 
animal tem nesta casa. Mas no h tempo para adivinh-lo. Deixa de choramingar! Temos que sair deste labirinto de esconderijos de contrabandistas e retornar a casa 
antes que nos sintam falta.
       Sara tirou o sapato e o deixou no cho, apoiado contra o painel de que acabavam de sair.
       -Comea a caminhar ao redor do muro -Disse -Quando chegarmos a minha sapatilha, saberemos que temos feito um crculo completo. Ao menos assim descobriremos 
onde est uma das sadas.
       -A mim, isso pouco importa, senhora -Espetou a donzela -No voltarei nunca para os domnios desse co!
       -Ento me ajude a encontrar o caminho de volta a sala de fora -Disse Sara urgindo-a a mover-se.
       A estadia mal estava mobiliada, mas cada vez que se chocavam com uma mesa ou um banco, os gemidos de Nell se transformavam em gritos. Fazia tempo que Sara 
tinha deixado de tentar que a jovem ficasse em silncio. At que no chegaram  parte de atrs do armrio pelo que tinham sado anteriormente e o cruzaram para chegar 
 habitao a moa no se calou. A luz da lua cheia alagava a sala, e enquanto Nell mantinha o painel do armrio aberto, Sara correu para pegar seu sapato.
       -Ande depressa, senhora! -Gritou Nell -Por favor, depressa.
       Sara no necessitava que a apresasse. J estava tarde. S podia pensar em voltar para sua sute antes que um dos criados ou o prprio Nicholas a pegasse. 
Uma vez a salvo dentro, a mo de Sara vacilou, abatendo-se sobre o trinco.
       -No estar pensando em deix-la aberta, no , senhora? -Ofegou Nell -Depois de tudo o que acaba de passar!
       -Sim vou fazer -Disse Sara -Isto no  de sua incumbncia, Nell.
       Olhou seu prprio vestido. Estava sujo e coberto de mofo e p. O mesmo acontecia com suas mos e seus braos, imaginava qual seria o estado de seu rosto e 
seu cabelo, que se pendurava do lado que tinham cado os prendedores.
       -Sei que  tarde, mas quero dar um bom mergulho. Faz com que encham a banheira e depois pode se retirar. Esta noite j no te necessitarei, me arrumarei sozinha. 
O vestido ter que ir diretamente ao lixo. No tem soluo.
       -Peo-lhe desculpas, senhora -Disse Nell estirando-se de tudo -Mas no voltarei a entrar nesses passadios outra vez por mais que diga que o devo. Antes darei 
aviso disso, ou pode me despedir se o desejar.
       -Agora que conheo o caminho, j no te precisarei -Assegurou Sara.
       A moa conteve o flego.
       -Est dizendo que pretende voltar a? -Gritou.
       -Se for necessrio sim, mas no esta noite. O nico lugar ao que penso ir agora mesmo  tomar um banho quente e agradvel, e depois  cama.
  
         O leo de rosas nunca tinha cheirado to doce, e a gua aromatizada com a almiscarada fragrncia do romeiro nunca tinha sido to deliciosa como aquela noite. 
Sara esteve a ponto de dormir na banheira. No gostava nada de ter que sair, e no o fez at que a gua comeou a esfriar. Nell tinha deixado uma pilha de toalhas 
na cmoda, e Sara secou o corpo e depois fez o mesmo com seu cabelo. Mas quando deu a volta para pegar a camisola e o neglig, deu conta de que tinha pblico. Nero 
estava sentado na entrada com a cabea inclinada para um lado e sua larga lngua rosa pendurando de tal maneira que quase parecia que estivesse sorrindo.
       -Nero! -Exclamou ela emocionada.
       Embora tivesse deixado a porta entreaberta, no esperava por aquilo. Agora parecia dcil, mas, devia atrever-se a confiar naquela enganosa imagem? Deu um 
passo para frente com precauo.
       -Acalmou-se? -Cantarolou com doura -Sim, j vejo que sim.
       Atreveu-se a dar outro passo e ele se levantou, agitando sua larga e peluda cauda sem mover do lugar.
       Sara tirou a toalha que rodeava seu corpo e colocou a camisola, um objeto de seda cor manteiga to fina que era quase transparente. Agachou para acariciar 
a pelagem mida e abundante de Nero.
       -Esteve fora, no ? -Perguntou -Parece que o ar salgado te calma. Tambm tomou outro caminho para retornar a casa. Conhece todos, no , moo?
       O animal gemeu e se sacudiu, tocando com o focinho a mo e lambendo com sua lngua suave e clida.
       Sara se aventurou a dar uma olhada  ferida. Deslizando os dedos pela pata, subiu a pelagem e a encontrou mais acima.
       -Tem-na no ombro -Se maravilhou -Nossa, j est quase curada. No di, no ? Ento, que diabos aconteceu antes? Era por Nell? No te cai bem, no , Nero? 
Pergunto-me por que. Talvez perceba que no te tem muito carinho -Sara ficou de p -Bom, mas isso no  desculpa para ser grosseiro. Assustou-a muitssimo. No vai 
voltar a faz-lo, no , moo?
       Se um co podia parecer desconcertado, sem dvida era aquele. Sua expresso provocou na Sara o mais parecido a uma risada que se apareceu em seus lbios em 
dias, e alvoroou o grosso cabelo do pescoo.
       -De acordo, se faa de bobo -Disse -Mas me vale no ter  mo uma jarra de gua quando voltar a faz-lo. Tem que aprender maneiras, moo, embora no me surpreende 
seu comportamento, tendo em conta o bom exemplo que seu amo para voc.
       Sara o separou de si e se dirigiu para o quarto. Nero foi trs dela, olhando-a de um modo estranho antes de emitir o uivo mais lastimoso que ela tinha escutado 
em sua vida. Provocou-lhe calafrios por todo o corpo e ps os pelos em p. De repente, Nero deu um salto e saiu a toda pressa para a salinha para depois desaparecer 
pela porta aberta do saguo.
       Sara j tinha se perambulado bastante por aquele dia, mas no obstante apareceu a cabea pelo corredor para segui-lo com o olhar. Para seu assombro, no se 
dirigiu diretamente ao patamar, como tinha feito as outras vezes, mas sim desapareceu pela sute verde que ficava no outro lado.
       Sara ficou olhando fixamente o ponto no que tinha desaparecido. Que diabos estaria fazendo ali? Deveria investig-lo? S tinha que cruzar o corredor. Trocou 
o peso de um de seus ps nus ao outro, deliberando durante uns instantes antes de jogar pela janela a precauo e aventurar-se a sair ao vazio corredor. S teve 
que dar uns passos e logo entrou na escura sute. Encontrou-se em uma salinha bem mobiliada. A luz difusa e suave que saa do quarto que ficava mais  frente deixava 
claro que a habitao estava vazia, e seguiu aquele feixe de luz de lua com passos lentos e compassados.
       -Nero? -Chamou-o.
       Sua voz no era mais que um sussurro rouco. E se Mallory estivesse escondido ali? Esteve a ponto de voltar diante aquele pensamento, mas j era muito tarde 
para isso. Assim, cruzou a soleira do quarto s para encontrar-se de repente com a imagem de Nicholas no meio do tapete persa. Estava nu e excitado.
       
  
  Captulo 21
  
  
       Sara conteve o flego. Nicholas ficou imvel no lugar, com seu olhar de obsidiana cravado nela.
       -NE... Nero? -Gaguejou ela -Onde...?
       -Se foi -Disse Nicholas -O expulsei.
       -O que... O que est fazendo aqui... Assim? -Perguntou tropeando em cada palavra.
       -Me preparando para ir  cama -Espetou ele agarrando a camisa do cho, em uma v tentativa de cobrir sua nudez.
       -Aqui? -Disse Sara -Mas, por que aqui? Por que no se prepara para ir  cama em sua prpria sute?
       -Porque em minha prpria sute no posso te vigiar -Afirmou ele.
       -OH! -Exclamou Sara.
       Nicholas deu a volta e se dirigiu a toda pressa para a porta, mas jogou a camisa e se aproximou dela com grande rapidez girando-a para ele.
       -Acha que no necessita que a vigiem? -Perguntou aproximando-se de seu rosto -. Se Olhe! Vagando pelos corredores meio nua com essa camisola.  transparente 
como um tecido de aranha. Em todo o caso  como se estivesse nua. E se encontra com o Mallory?
       - curioso que voc fale de ir por a nu, senhor! -Espetou ela retorcendo-se entre seus braos -Voc mesmo parece estar separado, mais uma vez, de suas roupas. 
E no estava vagando pelos corredores. S sa ao corredor porque vi Nero entrar aqui. Acabava de estar comigo, se por acaso quer sab-lo, e me perguntei o que estaria 
tramando. No foi o mesmo ultimamente, e estou preocupada com ele. E menos mal, porque ningum mais parece est-lo. Todo mundo quer livrar-se dele. Voc quer atirar 
nele. No se atreva a neg-lo! Vi, recorda? Talvez j te tenha desfeito do pobre animal. OH, Meu deus, se tiver feito mal a esse co...
       -O que quer dizer com que no foi o mesmo ultimamente? -Interrompeu-a Nicholas.
       Sara ficou boquiaberta. Ali estava ele, completamente nu, agarrando os antebraos como um louco, como se no tivesse a mnima ideia de que estava nu em pelos, 
e o que era o que tinha chamado a ateno? O comportamento estranho do Nero.
       -Me responda, Sara! -Exigiu-lhe ele sacudindo-a brandamente.
       -Nicholas, por favor... -Murmurou ela.
       Guiando-a para uma poltrona que havia ao lado da lareira apagada, sentou-a nela.
       -No se mova -Advertiu.
       Agarrou sua camisa de dormir da cama e a ps com brutalidade.
       Mas j era tarde demais. Sara j tinha visto o que havia debaixo: os ombros largos, o peito coberto de um suave pelo, a cintura estreita e as pernas musculosas, 
o esplendor de seu sexo. O corpo de Nicholas estava gravado a fogo em sua memria, igual o seu aroma. Seu instinto gritava que se levantasse daquela cadeira e sasse 
correndo, mas no podia faz-lo, no o faria. Seu corpo ardia em chamas por ele.
       -O que tem Nero de... Diferente? -Insistiu Nicholas de p frente a ela com os braos cruzados.
       O amplo peito subia e descia pesadamente.
       -A maior parte do tempo esteve brincalho e carinhoso -Assegurou Sara -No h dvida de que me protege. Mas desde que recebeu o disparo parece que houve uma 
mudana.
       -Que espcie de mudana?
       -OH, no  que tenha mudado completamente. O que acontece  que agora em ocasies me assusta. Antes nunca o fazia.
       -Como te assusta? Vamos, vamos, Sara, preciso sab-lo.
       -Por qu? -Espetou-lhe ela -Quer que te proporcione mais munio? Quer que carregue a arma com o que vai mat-lo? No o farei, senhor.
       -Maldio! -Bramou Nicholas -Nero  meu. Se ele no estiver bem, a senhora Bromley pode preparar um remdio. Por que insiste em que tenho inteno de matar 
esse animal?
       -Porque te vi tent-lo! -Respondeu-lhe Sara -Ou isso aconteceu durante um de seus "lapsus"?
       Nicholas no disse nada. Parecia abatido e seus braos penduravam inertes aos lados. Parecia to perdido naquele momento que sentiu que ia se derreter. Depois 
de pensar cuidadosamente, decidiu que contaria, mas no por isso, mas sim porque talvez pudesse servir de ajuda ao Nero.
       -Comeou com coisas pequenas -Disse -O modo em que tratou de apoderar-se de minha sute, ou como curvava os lbios para trs em um grunhido silencioso. No 
me deixou examinar a ferida, e, entretanto agora mesmo me permitiu retirar o pelo, inclusive toc-la.
       Nicholas ficou to branco como a luz da lua que se filtrava atravs do vidro chumbado. Abriu a boca vrias vezes como se fosse dizer algo, mas no o fez, 
e Sara no pde ler seu pensamento. O corpo de Nicholas voltou a ficar tenso. As veias de seu pescoo se sobressaam em chamativo relevo, e os msculos da mandbula 
iniciaram um ritmo frentico.
       -Uma vez o encontrei em cima de minha cama -Continuou ela -Tinha tirado algumas coisas de meu armrio e as tinha espalhado. Quando o repreendi e tentei de 
lhe obrigar a descer da cama, avanou em mim.
       -No te mordeu? -Interrompeu-a Nicholas dando um passo para ela.
       Por um instante, Sara acreditou que ia lanar-se sobre ela como tinha feito Nero.
       -N... No -Murmurou contendo o flego, porque seu repentino movimento a tinha desarmado -Jo... Joguei-lhe a gua da jarra que tinha ao lado de minha cama. 
Fechou os dentes sobre a jarra, no sobre mim. E depois, a seguinte vez que o vi, estava igual a esta noite, como o antigo Nero, ao que nunca teria medo. Ao que 
amo. Eu pensava que estava sofrendo pela ferida e que isso o tinha irritado, mas a um momento no parecia, absolutamente, que fosse assim.
       -Quando foi a ltima vez que te pareceu que estava... Estranho? -Murmurou Nicholas.
       Sara guardou silncio. Se respondesse a aquilo, teria que falar da explorao pelas cmaras secretas. Isso implicaria Nell, e no podia faz-lo.
       -No... No me lembro -Dissimulou Sara -Mas no tinha ocorrido nada parecido at que o senhor Mallory disparou.
       Nicholas a levantou da poltrona e a segurou entre seus braos. No podia lhe ver a cara, mas quando falou, tinha a voz tinta sombria.
       -Sara, devo te pedir que confie em mim -Disse -Por favor, me acredite quando te digo que no pretendo fazer nenhum mal a esse animal. Forma parte de mim, 
tanto como estas mos que esto te segurando.
       -Mas voc disse que no deveria afeioar-me ao Nero, que poderia partir, e ento voc... Voc...
       -Sei o que disse -A interrompeu ele -E sim, talvez tenha que nos deixar, mas no do modo em que voc me est acusando. Deve manter a porta de sua sute fechada, 
se estiver dentro ou no, at que encontremos ao Alex e... Nos encarreguemos de Nero. Tinha que ter me contado tudo isto h muito tempo. Corre perigo, mais perigo 
do que eu pensava -Acrescentou com ar ausente.
       -Como posso estar em perigo se me vigia sem descanso? -Espetou Sara.
       -Sara, Nero  metade lobo -Assegurou ele -Os lobos so imprevisveis. Deve me obedecer. Te prenderei antes de v-la sofrer algum dano.
       -Desde o comeo pensei que o era! -Exclamou -Nunca vi um lobo,  obvio, mas vi imagens deles nos livros da biblioteca de meu pai. Agora compreendo a beleza 
de Nero. Tem uma pobre estampa como co, reconheo-o, mas como lobo  magnfico.
       -E poderia ser perigoso. Me prometa que far o que te peo.
       -Nicholas...
       Estreitando-a entre seus braos, agarrou-lhe o rosto com sua gigantesca mo e a olhou nos olhos. Parecia estar memorizando cada centmetro de sua face, cada 
poro de sua pele, que estava acesa sob seu escrutnio. A vibrao tinha comeado em seu interior, golpeando como o batimento de um corao e umedecendo seu sexo. 
Por que a estava olhando assim, com aqueles olhos nublados, dilatados pela luz da lua? Quando falou no rompeu o feitio, mas sim o intensificou, levando-o a um 
plano mais ntimo, alimentando o fogo que tinha acendido uma paixo que Sara no sabia sequer que pudesse existir. Ali estava o autntico perigo, em aproximar-se 
muito a esse fogo, em permitir que a marcasse, que a queimasse, que a arruinasse e a encadeasse a um amor sem esperana. Entretanto, permitiu que as chamas se apoderassem 
dela  e que a engolissem.
       -Por Deus, Sara, se algo chegasse a te acontecer acredito que ficaria louco -Murmurou contra seus lbios antes de beij-la.
       Nicholas tinha sabor de sal e vinho doce quando sua perita lngua entrou nela e lhe abriu os lbios, entrando mais profundamente, extraindo o gemido que esperava 
em sua garganta para ser liberado. Misturou-se com o rugido de sua prpria garganta, e Nicholas o devorou, do mesmo modo que devorou sua determinao e suas inibies, 
despojando-a delas.
       A mo de Nicholas deixou sua face e deslizou para baixo, seus dedos mal roavam seu pescoo arqueado. Foi descendo enquanto procurava o pulso, o sangue trepidante 
que pulsava ali, e deslizou a boca para aquele ponto. Sua lngua de seda procurou o fluxo palpitante at que ela estremeceu. A sombra da dura barba incipiente de 
seu rosto contra sua suave pele provocou repentinos espasmos atravs de seu sexo. O que tinha despertado nela? Cada fibra de seu ser morria por ele, suspirava por 
ele. Sem dvida Nicholas podia sentir sua paixo. Discorria dentro dela ao mesmo ritmo que o estremecido corao que pulsava dentro de seu peito, apertado contra 
ela.
       Nicholas desatou, com dedos trmulos, o lao de seda que mantinha fechado o colarinho de seu neglig, abrindo-o todo, logo a acariciou no ombro e depois no 
seio, cuja redondeza cobriu com a palma aberta. Segurou o duro mamilo entre o polegar e o indicador e depois o levou a boca; chupando-o, mordiscando-o, arrancando 
um e outro surdo gemido do mais profundo de seu ser. O som que emitiu Nicholas a atravessou com um calor abrasador misturado, ao mesmo tempo, com calafrios gelados. 
Parecia sado da garganta de Nero e no da sua.
       Nicholas deslizou sua camisola at que essa caiu a seus ps. Ento, ele tirou sua camisa de dormir e pegou-a entre seus braos musculosos, duros como rochas. 
Parecia que os tendes fossem se partir. Tombando-a sobre a cama, atraiu-a para si.
       Nenhum homem tinha visto o corpo nu de Sara antes, nem muito menos o havia tocado. Um ligeiro rubor percorreu toda a pele, da cabea  ponta dos ps. Uma 
vaporosa rajada de sangue quente acompanhava a emoo da experincia, especialmente quando a perita mo de Nicholas se entreteve sobre o montculo de pelo suave 
e mido que Sara tinha entre as pernas. Estavam legalmente casados e, entretanto, havia um brilho de algo proibido em seu abrao. Teria Nicholas metido em sua cabea, 
com tanta insistncia, que seu acordo no inclua contato fsico? Seria por sua inexperincia, por seu pudor de donzela, ou aquilo no parecia real devido a que 
se tratava de um matrimnio celebrado por procurao? Sara no quis dar mais voltas  causa. Fosse o que fosse, aumentava o efeito alm do imaginvel. Aquela faceta 
do proibido se fez chamas, apanhando-a em uma tormenta de fogo impossvel de sufocar. 
       Nicholas tomou uma mo, a levou os lbios e beijou a mida palma antes de pr seus dedos ao redor de seu sexo; Sara ficou sem flego e ofegou ao ver como 
respondia a seu contato. Voltou a ofegar quando a boca de Nicholas abriu a sua e quando seu profundo e animal gemido ressoou no interior dela. O corao deu um tombo 
ao escut-lo fluir por seu corpo, mais animal que humano.
       Sara afundou a mo em seu cabelo. Que suave era, parecia seda entre seus dedos. Nicholas tinha o fino pelo da nuca arrepiado, e tambm o do resto do corpo. 
Todos seus tendes estavam tensos. Parecia que o corao fosse sair do peito a julgar pelo modo em que pulsava contra as costelas.
       -Que Deus me ajude -Murmurou ele.
       Abriu pernas de Sara e comeou a lhe acariciar o sexo. Aqueles dedos to suaves, to hbeis e geis que percorriam seu cheio sexo arrancaram um soluo seco 
de Sara. Ela no se deu conta sequer de que tinha escapado at que ressoou em seus ouvidos. Parecia provir de uma cmara isolada situada na distncia, igualmente 
impactante foi o uivo de Nicholas. No havia outra palavra para definir o som que emitiu. Era mais prprio do mundo selvagem que de uma cama. Seus olhos eram como 
duas partes de carvo negro que a olhavam fixamente, obscurecidos pelo desejo, resplandecentes sob a luz da lua. Havia algo naquele olhar que a excitava e a aterrorizava 
ao mesmo tempo. Uma paixo feroz tomou conta dele e, entretanto, estava-a contendo. Que delicioso seria se a deixasse livre. Sara no se conformaria com nada menos, 
e arqueou as costas para ele.
       Ia doer. Estava preparada para isso. Para o que no estava preparada era para os movimentos lentos e tentadores daquele amante experiente que parecia decidido 
a evitar at a mnima dor. Cada investida de seus dedos a aproximava mais e mais do xtase que desejava, o alcanou com as mos estendidas sobre seu peito levemente 
coberto de pelo que se transformava em uma estreita linha que descia por seu plano ventre e apontava como uma flecha a grosa ereo de seu sexo. Nicholas respondeu 
a suas carcias movendo-se com a sigilosa elegncia de um gato monts, e quando ela abriu mais as pernas, e ele se acomodou entre elas, Sara conteve o flego diante 
da emoo de sentir sua vida movendo-se dentro dela, enchendo-a, completando-a.
       De repente, um grito dilacerador ressoou no corredor exterior, misturado com o grunhido gutural de um animal selvagem. Voltou a escutar o grito, e depois 
outro. Um monto deles, ensurdecedores e agudos, que se foram fazendo mais longnquos, igual aos grunhidos. Ento um uivo lastimoso e profundo ressoou pelo corredor. 
E depois se fez o silncio.
       O corao de Sara se apertou.
       -Nell! -Gritou -Era Nell!
       Nicholas ficou paralisado no lugar durante um dcimo de segundo antes de saltar da cama e pegar a camisa de dormir do cho, onde a tinha deixado cair.
       -Fique onde est -Ordenou -No se mova da cama!
       Nicholas no deu a sua esposa oportunidade de replicar. Agarrando a pistola da mesinha auxiliar, saiu a toda pressa do quarto, apesar dos gritos de Sara, 
e correu pelo corredor em direo aos gritos de Nell. Encontrou-a estendida em um atoleiro de sangue ao lado da porta de seu quarto e se ajoelhou a seu lado com 
um gemido. Os criados se estavam aproximando; suas vozes ecoavam baixas e fizeram que Nicholas voltasse a ficar de p. No se atrevia a ficar. No havia nada que 
pudesse fazer. Tampouco podia retornar  sute verde sem ser visto. Aquilo era o pior de tudo. Sara estava sozinha e desprotegida. Mallory vagava pelos corredores 
de Ravencliff em forma de lobo e ela pensava que se tratava de Nero. A intensidade da paixo com a que tinha estado a ponto de consumar seu matrimnio e o impacto 
de encontrar-se com que a donzela tinha sido brutalmente atacada era mais que suficiente para provocar uma transformao, alm do medo por sentir-se impotente para 
proteger a Sara. No podia trocar de forma diante dos criados, nem tampouco de Sara. No devia transformar-se e ponto. No podia aparecer como Nero quando todo mundo 
na casa estaria buscando-o com uma arma. Subiu saltando as escadas de trs, a beira da loucura por tudo o que estava ocorrendo, e chegou bem a tempo para irromper 
na salinha de sua sute, em que o doutor Breeden estava falando com o Mills.
       Correndo atravs da sute, um uivo precedeu  transformao antes que atravessasse a toda pressa a porta do provador convertido em uma sombra imprecisa, e 
ento Nero aterrissou a quatro patas, enredado no robe bordado cor borgonha.
  
       Sara saltou da cama e colocou a camisola. No obedeceria a ordem de Nicholas. Ia matar Nero! Aquele era o nico pensamento que tinha em mente enquanto saa 
correndo do quarto. Fora, o som de muitos passos e a animao de vozes gritando arrepiou sua pele. Entreabriu a porta e olhou para o corredor mal iluminado, observando 
como passavam os criados, alguns em camisola e robe. A senhora Bromley, Smythe, Robbins e Searl e um punhado de criados passaram por diante de sua sute em direo 
norte. Mills e o doutor Breeden no estavam entre eles, e sua ausncia era suspeita.
       -Onde est o senhor? -Gritou algum -Que algum v procurar ao senhor!
       -Teremos que ir chamar aos guardas! -Gemeu a senhora Bromley.
       -No at que o tenhamos contado ao baro -Assegurou Smythe -Irei busc-lo em baixo.
       -Todos vamos morrer em nossas camas se no agarrarmos a esse asqueroso animal. No pegarei olho at que assim seja! Vou apresentar minha renncia!
       -Quieta! -Bramou o mordomo -Contenha-se, senhora Bromley. Agora no  hora para histerismos.
       -Est morta, Smythe -Gemeu a governanta tornando a chorar.
       Sara saiu ao corredor ao escutar aquilo. Ningum se precaveu de sua presena. Todos estavam reunidos no extremo norte do corredor, frente ao quarto de Nell, 
que estava ao lado do seu prprio quarto. O corao pulsava com fora nos ouvidos. Custou-lhe um grande esforo dar um passo depois do outro. Onde estava Nicholas? 
Por que no tinha retornado? Acaso no sabia que estaria preocupada?
       -A senhora! -Gritou a governanta -Foi algum ver como est a senhora?
       -Eu... Estou aqui -Disse Sara aventurando-se a aproximar-se mais -O que aconteceu?
       Tinha medo da resposta. Medo de ter ouvido bem. O ar cheirava a desgraa, a morte.
       A governanta, que tinha os olhos cheios de lgrimas, conteve o flego e correu para o seu lado.
       -Vai morrer de frio aqui fora com essa camisola to fina! -Gritou dando a volta para gui-la para a sute das tapearias -Entre e coloque o robe antes que 
pegue uma pneumonia, e fecha a porta com chave, senhora. Isto no  para seus olhos.
       -O que aconteceu? -Inquiriu Sara cravando os calcanhares.
       Tinham chegado a sua sute, mas no pensava cruzar a soleira at sab-lo.
       -No vou a nenhuma parte at que me conte!
       A senhora Bromley rompeu a chorar.
       -Trata-se do Nell, senhora... -Gemeu.
       -O que aconteceu com Nell? -Gritou Sara, que seguia rezando para ter ouvido errado.
       -Est morta, senhora -Soluou a governanta -Nero lhe rasgou o pescoo, e anda por aqui solto. Deve ter ficado louco. Os homens o esto procurando agora. Vo 
atirar nele assim que o vejam. E agora entre e tranque-se at que um de ns venha dizer que j pode voltar a sair.
  
       
  Captulo 22
  
  
       O som dos gritos agudos e as vozes altas de baixo, tinham comeado a deslocar-se para a grande escada. Mills pediu ao mdico que entrasse no provador atrs 
de Nero e depois fechou a porta.
       -Segure-o! -Gritou -No o solte at que eu veja o que est acontecendo!
       Mills cruzou a sute a toda pressa, fechando as portas em uma frentica tentativa de sufocar o rudo de uivos, gemidos e grunhidos que tinha deixado atrs 
no provador. No esperou  chamada iminente que temia. Irrompeu no corredor justo quando Smythe chegou correndo.
       -Que diabos est acontecendo ali em baixo? -Espetou-lhe ao mordomo, que estava sem flego -Daqui de cima escutamos o alvoroo inclusive com as portas fechadas. 
Ia descer agora para ver do que se tratava.
       -Onde est... Sua Senhoria? -Ofegou Smythe.
       -No est aqui -Disse Mills -O que aconteceu?
       -Trata-se de Nell -Respondeu o mordomo -Est morta. Nero a matou.
       -Nero? -Mills conteve o flego -Ficou louco? Sabe que esse animal no tem nenhum pingo de maldade em seu corpo.
       -Est morta de toda maneira -Insistiu Smythe -Tem o pescoo esmigalhado e dois punhados de cabelo de co nas mos, Mills. Teremos que chamar os guardas, e 
isso  Sua Senhoria quem deve fazer. Onde foi a estas horas?
       O ajudante de cmara se arrepiou. Sua mente dava voltas a toda pressa. No podia ter sido Nero, apostaria sua vida, mas Nero levaria a culpa porque ningum 
mais, exceto o doutor Breeden e ele sabiam que havia outro co solto pela casa. Mas, por que Nicholas acabava de irromper desse modo, h alguns instantes? Durante 
todos os anos que levava o atendendo, nenhuma s vez tinha visto seu senhor transformar-se vestido.
       -Disse que no o esperssemos -Assegurou fechando a porta da sute do baro e guiando o mordomo de volta para a escada.
       No se atrevia a arriscar-se que Nero sasse tal como Nicholas tinha entrado; bastaria isso para condenar-se.
       -Acredito que disse algo sobre dar um passeio pela praia. Faz-o com frequncia quando o tempo permite. H lua cheia e por fim melhorou o clima. J o conhece. 
Poderia ficar fora durante horas.
       -O que vamos fazer? -Perguntou o mordomo -No podemos deixar Nell assim!
       -Ter que ficar como est at que Sua Senhoria retorne -Assegurou Mills.
       -E sobre os guardas?
       -Isso depende de Sua Senhoria, Smythe, no podemos cham-los sem seu consentimento. Vou descer. A tamparemos e enviaremos outros  cama. No deveriam estar 
por aqui at que saibamos o que ocorre. -Ento sentiu outra pontada de pnico -On... Onde est a senhora? -Perguntou tratando de dissimular a velocidade com a que 
pulsava o corao.
       -A senhora Bromley est com ela em sua sute -Disse o mordomo -Est tremendamente afetada. Pode imaginar isso...
       -Sim, sim, posso -O atalhou Mills -Volta para baixo. Estava em meio de algo. Terminarei-o e me reunirei em seguida contigo. Onde... Aconteceu?
       -Bem diante de seu quarto, que est ao lado do quarto da senhora. Est claro que Nell tratava de chegar a seu quarto quando o animal a atacou. Escutamos claramente 
seus gritos em nossa sala, porque estamos mais perto ali em baixo que voc aqui acima na torre.
       -No escutei nada at que vocs comearam a montar um alvoroo capaz de levantar o telhado -Disse Mills.
       -No deveramos ir procurar o doutor? -Perguntou o mordomo.
       Smythe no era consciente de que o doutor Breeden estava preso na sute do baro. E era melhor assim. Era necessrio justo onde estava. Nero no podia ficar 
sozinho naqueles momentos. O ajudante de cmara s necessitou uns segundos para responder.
       -O doutor se retirou -Assegurou -Se a moa est morta, no temos por que despert-lo. Depois de tudo, no h nada que ele possa fazer. O baro est preocupado 
porque no est descansando o suficiente estas frias devido a todas as situaes de emergncia que aconteceram nesta casa desde sua chegada. Com que o avisemos 
amanh ser suficiente, a menos que Sua Senhoria diga outra coisa quando retornar.
       -Isso espero -Disse o mordomo - que acredito que deveria haver algum com autoridade para tratar este assunto.
       -Teremos que esperar que volte Sua Senhoria -Insistiu Mills -E agora, desa para pr ordem. No gostar de chegar e que reine o caos. Eu me reunirei em seguida 
contigo.
       Mills entrou a toda pressa na sute do baro e fechou a porta por dentro. Cruzou o quarto e entrou no provador fechando tambm. Nero tinha despojado do robe 
e estava dando voltas em enlouquecidos crculos com seu largo torso subindo e descendo, com a lngua fora e manchando o tapete. Seu agudo gemido atravessou o ajudante 
de cmara como uma faca.
       O mdico estava observando com a boca aberta cada movimento de Nero. Assim que Mills se separou da porta, Nero se lanou sobre ela. Mills conteve o flego. 
O painel inferior da porta estava sulcado de marcas procedentes das presas e as garras de Nero. As lascas se amontoavam no cho. Mills apertou os dentes.
       -Extraordinrio -Disse o mdico -Nunca tinha visto nada igual.
       -Eu sim -Interveio Mills -No at este grau, reconheo-o, mas tem uma boa causa.
       -Por qu? O que aconteceu?
       -A donzela da senhora, Nell Critchton, est morta. Disseram que rasgou o pescoo. Todo mundo pensa que Nero a matou, mas ambos sabemos que no  assim. No 
vejo que tenha nenhuma gota de sangue em cima. Apostaria minha vida a que foi Alex Mallory em forma de lobo, mas sem dvida a culpa recair sobre Nero.
       -Deus todo-poderoso!
       -No h tempo agora para contar tudo. Mais tarde o colocarei em dia. Devo ir l para baixo. Estar bem aqui... No tem medo?
       -Sou um cientista, Mills. Tive contato prximo com coisas muito piores que esta. Esta experincia tem um valor incalculvel para minha investigao. No, 
no tenho medo. Nero no supe nenhuma ameaa para mim, mas o certo  que no saberia como o deter se atravessar esta porta.
       -Nero, quieto!-Bramou Mills.
       O lobo cessou seu incansvel assalto  porta, olhando com uns olhos to cheios de desespero que os olhos do ajudante de cmara se umedeceram.
       -Ela est a salvo -O tranquilizou -Dou minha palavra.
       Girou-se para o mdico.
       -Olhe se pode acalm-lo -Pediu -Ficar como est enquanto continuar nervoso. Necessitam-no l em baixo, e agora no pode perambular pelos corredores assim. 
Receber um tiro assim que aparea. Tente segur-lo at que eu saia. Voltarei o mais rpido possvel. Fecha por dentro assim que me v. Faa o que faa, no permita 
que ele saia desta sute!
       Assim que Mills fechou a porta do provador, o mdico passou o ferrolho e Nero retomou o ataque ao painel. Aquele som provocou um calafrio na coluna vertebral 
do ajudante de cmara, que se girou sobre seus calcanhares, correu pela sute e saiu ao corredor. No havia tempo a perder.
  
       Sara percorria acima e abaixo o tapete de seu quarto. A senhora Bromley foi a ltima em sair; ficou para consol-la. Outros tinham retornado fazia bastante 
os quartos de servio que ficavam do outro lado da porta verde. Onde estava Nicholas? Ningum o tinha visto e todo mundo o buscava. Sara tinha recebido uma rpida 
visita de Mills, que disse que Nicholas foi dar um passeio pela praia. Isso no podia ser. Estava com ela quando aconteceu o que aconteceu, e depois desapareceu. 
O que  estavam escondendo? E onde estava Nero? Ningum o tinha visto atacar Nell e, entretanto, todos o acusavam daquele crime. Dariam com ele e o matariam, mas 
no se ela o encontrava antes.
       Agasalhou-se no neglig, abriu a porta e colocou a cabea pelo corredor. No havia ningum  vista. Estremeceu ao ver o montculo que formava a colcha com 
que haviam coberto o corpo do Nell um pouco mais longe, meio escondido entre as sombras, e os olhos voltaram a encher de lgrimas. Piscou para livrar-se delas e 
olhou na outra direo. No havia nem rastro de Nicholas nem de Nero.
       Estava a ponto de voltar a fechar a porta e passar o ferrolho quando recordou ter visto Nero entrar na sute verde. Poderia ter ido esconder se ali? Sem pensar 
duas vezes, cruzou a soleira e saiu nas pontas dos ps ao corredor. No estava longe, e se no o encontrava ali dentro, admitiria momentaneamente a derrota e retornaria 
a sua sute at a manh seguinte.
       Uma vez no quarto, acendeu as velas do candelabro e olhou a seu redor. Deslizou o olhar sobre a cama revolta que tinha estado a ponto de ser seu leito conjugal, 
e as lgrimas voltaram a amea-la ao reviver as intimidades que Nicholas e ela tinham compartilhado ali. Voltou a sentir o fantasma de sua ereo apoiando-se contra 
sua coxa, o calor de suas agitadas respiraes soprando sobre sua pele nua, seus hbeis dedos e sua boca faminta acelerando o ritmo do corao, despertando em Sara 
prazeres que apenas se atrevia a imaginar. Por que no havia retornado para ela? Onde estava agora? Aquilo era insuportvel.
       -Nicholas? -Chamou-o.
       Sua voz no era mais que um rouco sussurro. Ele no respondeu. Sara sabia que seria assim. Mas talvez Nero sim respondesse. Voltou a sussurrar enquanto ia 
de sala em sala, mas tampouco respondeu.
       Atravessando o quarto de volta encontrou com o cinturo do robe de Nicholas atirado no cho. Partiu com tanto mpeto que nem se incomodou em recolh-lo. Sara 
o agarrou e o levou ao nariz. Conservava seu aroma. Aspirou-o com fora profunda e lentamente e depois o colocou no brao. Estava a ponto de sair do quarto quando 
Nero surgiu de entre as sombras da ala sul e entrou no quarto passando na frente dela.
       Sara fechou a porta, deixou o candelabro e se ajoelhou a seu lado. Nero gemia e tinha o cabelo arrepiado, as patas separadas e sua orgulhosa cabea inclinada. 
O peito subia e descia, e ofegava como se tivesse estado correndo at extenuar-se. Tinha os olhos cravados nos seus, e brilhavam com ferocidade sob o brilho das 
velas. Sara lhe rodeou o pescoo com os braos e soluou contra sua abundante pelagem.
       -Voc no o fez, no , Nero? -Gemeu -No tem nenhuma gota de sangue por nenhum lado. OH, sabia que no o tinha feito! Sabia que no podia ser, e eles vo 
mat-lo!
       Nero lambeu a face com sua larga e rosada lngua e deu um salto sem mover do lugar.
       -Tampouco pode ter se limpado sozinho -Continuou Sara -No esteve fora, no ? No tem o cabelo mido. No cheira a mar -Aspirou seu aroma -Cheira... A ele, 
a seu amo.
       De repente, umas vozes atravessaram o silncio. Algum estava correndo pelo corredor de fora. Sara conteve o flego. Tratava-se de Mills e do doutor Breeden.
       -Tem certeza que veio por aqui? -Ofegou Mills.
       -Estou to seguro como voc -Respondeu o mdico, que tambm resfolegava -Nos escapou, mas eu teria jurado que se meteu por aqui.
       -A porta da senhora est entreaberta. Meu Deus, acredita que...? -Perguntou Mills.
       -S h um modo de descobrir -Assegurou Breeden -Mantenha a pistola preparada, mas no dispare a menos que esteja seguro. Eu no gosto nada disto.
       Sara abriu a boca e conteve a respirao.
       -Vo entrar em minha sute! -Disse em pnico -Quando no me encontrarem... -Ficou de p de um salto -No podemos ficar aqui. Vamos, Nero! -Mas o lobo no 
se alterou -Tem que vir comigo agora, enquanto esto ocupados! -Sussurrou Sara -Esta tudo bem, conheo um lugar.
       O lobo continuava sem mover-se, e ela atou o cinturo do robe de Nicholas ao redor do pescoo, pegou o candelabro e o arrastou at o corredor.
       Custou-lhe trabalho, mas finalmente o convenceu para que a seguisse. Juntos correram para o patamar, escada abaixo, at a ala norte da planta principal. Demorou 
um instante para se dar conta de que se tratava da cmara em que Nell e ela tinham entrado para acessar  sala secreta e ao passadio dos contrabandistas. O corao 
pulsava com fora contra as costelas, e embora Nero seguisse seus passos, no parecia resignado e se detinha em seco a cada giro.
       -Estou tentando salvar sua vida -Repreendeu Sara insistindo que entrasse pelo falso fundo do armrio -Os dois viro armados. OH, Deus! Se ao menos pudesse 
me entender! -Gemeu.
       O candelabro que tinha deixado para trs em sua primeira incurso ainda estava onde o tinha deixado, e o recolocou no cho ao lado do painel para marcar o 
caminho de volta. Depois puxou Nero. O passadio estava envolto em sombras. Os muros cobertos de umidade brilhavam sob a luz das velas enquanto se dirigiam para 
o tnel.
       -J quase chegamos -Ofegou Sara.
       Queimavam-lhe os pulmes por respirar aquele ar ranoso e mido, e mal podia ouvir o repicar das longas unhas de Nero sobre a spera superfcie de pedra que 
tinham sob os ps. Parecia que esta vez a distncia era, de certo modo, maior, mas a negra boca do tnel por fim surgiu diante ela, e entrou na pequena sala que 
cobria o esconderijo que tinha visto quando explorou o passadio com Nell. A porta era um painel estreito de madeira que girava de forma parecida com a entrada pela 
qual adentrou.
       Colocada entre outras tabuas parecidas que havia no muro oco, no parecia uma porta absolutamente. Necessitou de toda sua fora para mov-la. A sala de dentro 
estava  mesma altura que a entrada, mas Nero ficou para trs, puxando sua improvisada corda. A nica coisa que Sara pode fazer, foi segur-lo.
       -No, Nero! -Espetou -Tem que entrar. Aqui estar a salvo at que possa encontrar uma soluo para isto. Vo vir os guardas. Aqui nunca o encontraro.
       Mas ele continuou sem avanar, gemendo, resistindo ao puxo de Sara at que ela entrou e o chamou da soleira.
       -V? -Disse quando foi atrs dela -Pode ver na escurido, sei que pode. Trarei comida e gua pela manh. Deve ficar aqui at que os guardas se vo. No permitirei 
que lhe faam mal. No o permitirei!
       Nero parecia confuso, e Sara se aproveitou do momento para sair dali e fechar o painel. Os olhos se encheram de lgrimas ao escutar seus contidos uivos do 
outro lado. Recordava o uivo que tanto tinha assustado a Nell. Pobre Nell. No se atreveu a pensar nela naquele instante, assim saiu correndo pelo passadio com 
aquele lastimoso uivo ressoando nos ouvidos.
       Conseguiu entrar de novo na casa com facilidade, mas se moveu com precauo. J quase tinha amanhecido. Os criados estariam em seguida envoltos em suas tarefas 
matinais, sem dvida antes do habitual, dadas as circunstncias. No podia permitir que a descobrissem vagando pelos corredores de camisola.
       No encontrou ningum at que chegou s escadas. Ento, as altas sombras que se desenhavam nos muros do segundo andar, que ficava acima, adquiriram forma 
humana. Os lacaios estavam colocando velas novas nos suportes dos candelabros. Os lgubres corredores se iluminavam dia e noite, e as velas se substituam de acordo 
a esse costume. Sara no podia subir at que os lacaios sassem para o terceiro andar, ento se escondeu sob a escada e se fundiu entre as sombras para esperar. 
Teve a sensao de que transcorria uma eternidade at que escutou seus passos nas escadas cobertas de tapetes do andar de cima. Continuou esperando, dando tempo 
de sobra para que ficassem com sua tarefa antes de subir a escada nas pontas dos ps e escapulir-se dentro de sua sute.
       A porta de seu provador estava entreaberta, tal e como a tinha deixado. Mills e o doutor Breeden deveriam deix-la como estava para que ela no soubesse que 
tinham entrado. Olhou para o outro lado do corredor. A porta da sute verde tambm estava um pouco aberta. No tinha pensado em fech-la quando saiu precipitadamente 
com Nero. Sara vacilou. Poderia estar Nicholas l dentro? Se assim fosse, tinha que dar algumas explicaes, e sem pensar duas vezes, cruzou a soleira.
       As primeiras serpentinas do fraco amanhecer apareciam  janelas, rompendo o mgico feitio da noite anterior, quando por um breve instante tinha visto o cu 
aberto. Voltariam a v-lo outra vez? No, a menos que o baro Nicholas Walraven estivesse disposto a confiar seu corao e todos seus segredos.
       A sute estava vazia, e Sara voltou a sair ao corredor para retornar  sua, situada do outro lado. A sute estava praticamente consumida pela escurido, os 
fogos se extinguiram e ela no tinha deixado nenhuma vela acesa. A luz da alvorada no era excessivamente generosa na parte oeste da casa quela hora, e Sara mal 
podia ver, mas o som de um movimento perto dela fez que arrepiasse o pelo da nuca e pusesse a tremer.
       -Que... quem est a? -Gaguejou esquadrinhando a escurido com um olhar penetrante esperando que algum se materializasse.
       Respondeu um bufo forte que se aproximava de um rugido, e seguiu aquele som at distinguir o resplendor de dois olhos brilhantes e um brilho de presas largas 
e brancas sob uns lbios curvados para trs.
       -Nero! -Exclamou -Como conseguiu voltar at aqui?
  
       
  Captulo 23
  
  
       Mills no tinha pregado o olho a noite toda, nem tampouco tinha sado da salinha da sute do baro. O doutor Breeden tinha comeado a dormitar reclinado no 
div situado frente a ele. O ajudante de cmara no teve coragem de incomod-lo, embora devesse t-lo feito; aquela antiguidade rgida forrada de crina de cavalo 
no era o suficientemente cmoda para que o mdico descansasse.
       Deveria voltar a descer e procurar  baronesa? Levava um momento expondo-se. Estava cansado fsica e mentalmente por ter andado subindo e descendo a grande 
escada durante toda a noite, e tudo para nada. Agora tinha irrompido a alvorada e continuava sem ter nem rastro do baro, a baronesa, nem tampouco do Nero. Ningum 
tinha visto nenhum deles desde o incidente, e o medo de que acontecesse outra desgraa o tinha deixado com a garganta seca e impedido que pudesse dormir. No podia 
descansar at saber o que tinha acontecido. Tinha falhado ao pai; no falharia ao filho. Nicholas era como de sua famlia. Acaso no o tinha criado, virtualmente, 
desde menino, quando comeou a afeco? Onde terminaria aquilo? Ou teria terminado j? Estremeceu-se ao pens-lo.
       Um deles j deveria ter retornado. Se no Nicholas, com certeza Nero teria retornado; se pudesse. Aquilo era o que mais o preocupava, porque todo mundo na 
casa procurava o animal com uma arma. Mills retornou ao provador para jogar outra olhada  danificada porta. No tinha presenciado nada parecido em todos seus anos 
ali. Nunca tinha visto Nero em semelhante estado. Havia rodo e arranhado o painel inferior daquela porta at que conseguiu enfraquec-lo de tal forma que pde atravess-lo. 
Tinha acontecido to depressa que no houve tempo para reagir, e no poderiam t-lo detido em qualquer caso. Nero tinha cruzado a toda pressa a sute, derrubando-os, 
e depois desapareceu em um abrir e fechar de olhos entre as sombras do patamar da escada quando chegaram a ela. S tinha uma coisa na cabea: sua companheira. E 
pobre da alma que se interpusesse entre seu propsito e ele. Ambos tinham sido o suficientemente preparados para no tent-lo.
       Mills se agachou e apalpou o painel destroado da porta. Havia lascas a ambos os lados, embora se viam partes maiores no lado do quarto pelo que Nero tinha 
cruzado. Elevou a vista. A porta tinha duas vezes sua altura. Seria uma tarefa colossal repar-la, e muito mais substitu-la. A madeira tinha centenas de anos de 
antiguidade. Mas isso no importava ao transtornado lobo que tinha produzido os danos. Como ia explicar algo assim ao resto dos criados? Tinha tido seus problemas 
ao longo dos anos com as transformaes do senhor, mas nunca nada parecido a aquilo. Os habitantes da casa suspeitavam de algo, disso estava seguro. No podia ser 
de outra maneira. Mas nem em um milho de anos teriam imaginado o segredo do baro de Walraven. A menos que se encontrassem cara a cara com ele, e isso era o que 
o ajudante de cmara temia a cima de qualquer outra coisa.
       -Sinto muito, Mills -Disse o mdico, que tinha se colocado a seu lado -. No se jogue a culpa. No havia nada que nenhum dos dois pudssemos ter feito. Eu 
no pude o acalmar, nem muito menos segur-lo.
       -Eu mal havia voltado a entrar quando ele atravessou o painel -Assegurou Mills -Poderia ter jurado que fechei a salinha atrs de mim.
       -Fez-o -Disse o mdico -Mordeu o puxador dessa porta at que a abriu. Tentou fazer o mesmo no provador, mas passei o ferrolho de acima e no chegou at ele.
       Mills soltou uma gargalhada spera em que no havia nem indcio de humor.
       -Bom, ao menos temos o consolo de que tratou de limitar os danos ao mnimo -Disse incorporando-se com rigidez -. Nero no... No o mordeu, no ? -Perguntou.
       -No -Assegurou o mdico -No estava interessado em mim, embora tenha que reconhecer que tampouco dei oportunidade de que o estivesse. No vi nada parecido 
em todos os anos em que  estudo fenmenos deste tipo. O que pode ter ocorrido para provoc-lo dessa maneira? A senhora no estava em perigo. Ao menos no naquele 
momento. Voc a encontrou?
       -No, e Sua Senhoria j deveria ter retornado a esta altura, de uma forma ou outra. Estou preocupado, doutor. Passei a noite inteira subindo e descendo essas 
escadas. No posso entender por que no apareceu nenhum deles. No me atrevo a alertar a outros para que me ajudem a procurar. No esto conscientes, nem tampouco 
podemos seguir esperando. No podemos deixar a essa moa morta no corredor do segundo andar para sempre.  impensvel que a tenhamos deixado ali sem nenhum respeito 
durante tanto tempo, e no devemos mov-la at que cheguem os guardas. Eu no tenho autoridade para os fazer vir, nenhum de ns tem. Na ausncia de Sua Senhoria, 
a seguinte pessoa encarregada das emergncias da casa seria a Senhora, e ela tambm desapareceu. Temos que encontr-la.
       -A donzela tinha famlia? -Perguntou Breeden.
       -No, e isso ao menos  uma bno, mas no muda a gravidade do assunto. As pessoas que vivem em baixo so a famlia dessa jovem, doutor, foram-no desde que 
comeou a formar parte do servio da casa h dez anos. Querero que se faa justia pelo que ocorreu, e todos sabemos o que isso significa. Embora ambos saibamos 
que Nero  inocente, sua vida est condenada agora. Por que no voltou a transformar-se? No consigo entender.
       -Quanto tempo demora normalmente para transformar-se quando est inquieto assim? -Quis saber Breeden.
       -Esse  o problema, nunca o tinha visto intranquilo assim. Se a ira ou a frustrao provocam a mudana, libera essa energia at que se calma e ento volta 
a ser ele mesmo. Quando est excitado, normalmente demora mais. No sabemos com exatido o que o provocou desta vez, mas seja o que for, a julgar pelo modo que entrou 
aqui, esteve a ponto de ficar louco. Enquanto siga assim, permanecer como est. O terrvel  que, acontea o que acontecer, precisa ser ele mesmo para resolv-lo. 
No pode faz-lo em forma de lobo.
       -Ento, temos uma provao pela frente, Mills -Assegurou o mdico - o que pensei quando o magnetismo animal no teve efeito sobre ele em sua forma de lobo. 
Necessitamos que volte, para que possa trabalhar com ele em sua forma humana. Por onde comeamos? Suponho que terei que examinar  moa. Poderei faz-lo quando chegarem 
os guardas, sem o maldito lobo e sem o baro. Isso o asseguro.
       -No, ainda no -Disse Mills.
       Sua mente estava funcionando a toda velocidade. Nada parecia real, exceto o pressentimento de uma iminente fatalidade que tinha se apoderado de seu corao, 
apertando-o como um parafuso.
       -Um de ns deveria ficar aqui se por acaso Sua Senhoria retorna -Decidiu -Ser melhor que eu desa primeiro, para ver se a senhora retornou a seus aposentos. 
Devemos chamar os guardas. Depois ficarei aqui de guarda enquanto voc examina o corpo.
       Olhou o doutor nos olhos.
       -Sinto que tenha que acontecer tudo isto, doutor -Disse fazendo um gesto para acompanhar suas palavras.
       -Tolices -Respondeu o mdico.
       -No durar muito -Disse Mills cruzando o quarto.
       -Leva consigo a pistola? -Perguntou o mdico a suas costas.
       -Odiaria ter que us-la -Assegurou Mills -Mas sim.
  
       Sara se afastou ligeiramente do animal que grunhia em seu saguo. Estaria zangado porque o tinha trancado na minscula sala? Como tinha sado? Tinha perdido 
o cinto do robe que Sara tinha utilizado como corda, e no parecia que estivesse disposto a segui-la sem corda tal e como estava naquele momento. No devia escapar. 
Sara fechou desta vez a porta do saguo.
       -Me deixe passar -O repreendeu -Terei que ir procurar algo com o que te atar. No pode ficar aqui. J amanheceu. Alguns criados j esto centrados em suas 
tarefas. Vai voltar para essa sala, tanto goste ou no. No se d conta de que trato de te ajudar, Nero? Aqui no est a salvo nestes momentos.
       Avanando lentamente, Sara se dirigiu para o quarto. Sacudindo a umidade de sua abundante pelagem, a besta a seguiu at a soleira e depois se sentou. Seus 
penetrantes olhos observavam cada um de seus movimentos enquanto ela se dirigia para o armrio roupeiro.
       -Como se molhou tanto? -Perguntou -Tornou a sair para a praia, no ?
       O animal no emitiu nenhuma resposta, mas quando Sara procurou no interior do armrio, ficou a quatro patas com o pelo arrepiado e comeou a curvar os lbios. 
Desta vez foi um grunhido silencioso, mas no cabia dvida de que se tratava de uma advertncia.
       - intil -Espetou ela - melhor se comportar. No vou permitir que o matem.
       Mal acabava de pronunciar aquelas palavras quando uma batida na porta do vestbulo arrancou um grunhido gutural daqueles lbios curvados, e quando se abriu 
a porta, o lobo saiu disparado por ela, derrubando Mills ao sair.
       O grito de Sara, o grito de Mills ao cair no cho e o estrondo do disparo de sua pistola se escutaram em rpida sucesso. Sara chegou a ele antes que pudesse 
levantar-se e olhou para o corredor em busca de algum sinal do animal, mas estava vazio.
       -Matou-o! -Gritou ao ajudante de cmara, que seguia cado no cho.
       -No, senhora, falhei -Respondeu Mills apertando os dentes e acariciando o ossudo cotovelo, que tinha recebido a fora do impacto -A queda me fez desviar 
do objetivo,  uma pena.
       O doutor Breeden chegou correndo e se ajoelhou ao lado do ajudante de cmara.
       -Est bem, Mills? -Ofegou -No... No o mordeu, no ?
       -No, no o fez -Assegurou Mills permitindo que o mdico o ajudasse a levantar -S me derrubou ao fugir a toda pressa.
       -Vamos. Deixe-me olhar seu brao.
       -No, ainda no -Se negou o ajudante de cmara -Os outros estaro aqui acima em um instante. Se quer ajudar, desa e diga que fiquem a at nova ordem... 
Todos eles. Eu vou falar um momento com a senhora antes de me reunir de novo com voc. -Girou-se para a Sara e assinalou a salinha de seus aposentos com o brao 
bom -Senhora, temos que falar -Disse.
       Sara tomou assento no div e fez um gesto ao ajudante de cmara para que fizesse o mesmo.
       -Esta de verdade bem, Mills? -Quis saber -No parece.
       -Estarei bem, senhora -Respondeu ele -Onde esteve? Ficamos loucos procurando-a depois do que ocorreu ontem  noite.
       -Estive procurando Sua Senhoria -Replicou Sara -A quem no parece se importar o mais mnimo que uma pessoa tenha sido morta.
       -Senhora, no pode vagar sozinha por aqui agora. Simplesmente, no  seguro at que se resolva tudo isto.
       -No est exercendo uma autoridade que no te corresponde, Mills? -Perguntou ela.
       Depois de tudo, no era mais que um ajudante de cmara. Tinha esquecido qual era seu lugar.
       -No, senhora -Respondeu ele ficando de p -O baro faria com que me cortassem a cabea se ocorresse algo ruim em sua ausncia. Deixou-a meu cargo.
       -E onde se colocou nestes momentos? -Insistiu Sara.
       -Ontem  noite saiu a dar uma volta pela praia -Disse o ajudante de cmara -Antes da tragdia, como disse.
       -E esteve fora toda a noite? -Inquiriu.
       -s vezes, quando o tempo est bom, passa a noite na praia, senhora. Com os ventos que temos aqui, que nunca param, e com as correntes desta costa,  muito 
difcil que faa bom tempo nesta poca do ano.
       -Est mentindo -Assegurou Sara com firmeza, ficando de p.
       -Perdo, como diz, senhora? -Ofegou o ajudante de cmara.
       -Disse que est mentindo, Mills -Repetiu ela -Ontem  noite no foi dar nenhum passeio  praia. Estava comigo na sute verde at que o grito de Nell nos separou. 
Ele saiu correndo para ver o que tinha ocorrido e no retornou. E agora, pode me dizer o que aconteceu com o baro?
       -Estava com voc, senhora? -Murmurou o ajudante de cmara.
       -Comigo.
       -Deus todo-poderoso! -Disse Mills entre dentes.
       -Estou esperando, Mills. Onde est meu marido?
       A postura do ajudante de cmara se veio abaixo.
       -No sei, senhora, e no quero preocup-la.
       -Bom, pois estou preocupada, Mills -Assegurou Sara -Nero no fez mal a Nell. Nunca acreditarei isso. E voc acaba de tentar atirar nele agora mesmo.
       -Senhora, deve nos deixar estes assuntos  -Disse ele -Mas se quer ser de utilidade a esta casa, h um problema urgente que necessita de sua imediata ateno.
       -E do que se trata?
       Estava a beira de ser mal educada, mas no ia se segurar. Se Mills no podia dar uma resposta sincera, ento no merecia um tratamento diferente. O que todos 
sabiam que ela no sabia, e por que no o contavam? Se corria tanto perigo, como todos afirmavam, por que ningum dizia do que, ou de quem?
       -Nell no faleceu... Por causas naturais, senhora -Assegurou Mills -Ter que chamar os guardas. Na ausncia de Sua Senhoria, essa responsabilidade recai sobre 
voc. No se pode mover o corpo,  nem prepar-lo para o enterro at que tenham vindo.
       Sara voltou a sentar-se no div. Finalmente tinha uma responsabilidade como senhora de Ravencliff, e teria dado tudo por designar a outra pessoa para que 
a cumprisse. Os olhos se encheram de lgrimas, claro, teria que chamar os guardas. A pobre moa ficou toda a noite a, jogada.  obvio, Sara devia ser quem desse 
a ordem, e ao faz-lo, selaria o destino de Nero. Onde estava Nicholas? Tinha o corao quebrado.
       -Sinto muito, senhora -Disse Mills -No h outro caminho.
       - obvio -Assegurou ela -Envie algum para procurar os guardas.
       -Ser melhor que fique em seus aposentos at que se acabe tudo, senhora -Props o ajudante de cmara -No sei se  consciente, mas j estiveram aqui em uma 
ocasio devido s histrias que se contam no povoado. Agora tudo ser mais difcil. Ser melhor que deixe os guardas comigo. Ser compreensvel que voc esteja abatida 
depois do ocorrido. Se insistirem em interrog-la, o melhor seria que estivesse realmente abatida, no sei se me entende, e oferea as mnimas explicaes possveis. 
Se me permitir isso, voc estava adormecida quando o grito despertou, e quando saiu de sua sute, os criados se reuniram ao redor do... Cadver, e estava horrorizada. 
A senhora Bromley a acompanhou de retorno a sua sute e ficou ali para tranquiliza-la.
       -Tem tudo pensado, no ? -Disse Sara.
       -Sim, senhora.
       -E Sua Senhoria? Onde estava ele quando tudo isto acontecia?
       -Sua Senhoria teve que sair a resolver um assunto importante relacionado com seu patrimnio. Saiu de Ravencliff antes da tragdia. Eu o ajudei a fazer a mala 
e o vi partir.
       -Sim,  obvio -Replicou Sara -Por que no me surpreende? A ltima vez que Sua Senhoria teve que sair por um assunto urgente, encontrei-o em sua sute recuperando-se 
de um disparo de pistola. Se me lembro bem, naquela ocasio voc tambm estava tentando no me preocupar. Com o que me encontraria se voltar toda a casa do avesso 
agora mesmo, Mills?
       -Com... Com nada, senhora -Assegurou o ajudante de cmara -Ele no est aqui, o asseguro.
       -Ento no por objeo se eu quiser comprovar por mim mesma.
       -Eu no o faria se fosse voc, senhora -Insistiu ele.
       Por que parecia que estava a ponto de desmaiar? De repente havia se tornado to branco como a nvoa da manh que se filtrava atravs da janela. De fato, a 
nvoa tinha mais cor.
       -Enviarei  senhora Bromley com uma bebida para tranquiliza-la, e ficar com voc em sua sute at que tenha passado tudo.
       -Depois de que tenha visitado a sute do baro -Replicou Sara saindo a toda pressa pela porta do saguo.
       As pernas de Mills no estavam  altura das suas, geis e longas. Sara chegou ao terceiro andar antes que ele tivesse alcanado o patamar, e entrou na salinha 
vazia da sute.
       -Nicholas? -Gritou movendo-se pelo quarto.
       Mas tambm estava vazio, exceto pela presena do doutor Breeden, que se encontrava de joelhos limpando as lascas de madeira com a escova da lareira.
       Sara se deteve em seco e conteve o flego.
       -Que diabos aconteceu aqui? -Murmurou cravando a vista no buraco da porta do provador.
       -Nada que deva preocup-la, senhora -Disse Mills de trs. Estava sem flego, e no tinha recuperado a cor depois da exaustiva experincia de persegui-la por 
dois corredores e um lance ngreme de escadas -Se trata s de um... Percalo sem importncia.
       -Parece algo mais grave -Respondeu ela com os braos cruzados.
       -Bom, asseguro-lhe que estamos nos ocupando disso -Disse o ajudante de cmara -E agora, senhora, como pode ver, Sua Senhoria no est aqui, e devo insistir 
em que retorne a sua sute e se tranque. Eu a acompanharei, e me encarregarei de que a senhora Bromley a atenda imediatamente. Necessitarei que escreva uma carta 
para convocar aos guardas.
       -Sim, claro.
       Os olhos de Sara seguiam ainda os movimentos do mdico. Estava observando alguns estilhaos de madeira arrancados da parte inferior da porta como se fosse 
algo que fizesse todos os dias, e as estava colocando cuidadosamente contra a parede do provador.
       -Muito bem -Disse Mills -Quando estiver tudo sob controle, direi ao moo dos estbulos que o arrume em seguida.
       -Eu o farei -Disse o mdico -E tambm acompanharei  senhora a seus aposentos, e ficarei com ela at que chegue a senhora Bromley. Voc enquanto isso sente-se 
e acalme-se, Mills. Caso contrrio e a julgar por seu aspecto, quando chegarem os guardas tero que ocupar-se de dois cadveres.
  
       
  Captulo 24
  
  
       Durante as seguintes horas Sara agiu como uma autnoma, sem mais vida que os pequenos engenhos mecnicos que se vendiam nas feiras. Watts, o encarregado dos 
estbulos, levou os guardas. Eles chegaram ao meio-dia, em meio a uma forte tempestade que levou a nvoa da manh, com ventos fortes e chuva torrencial. No podiam 
ter escolhido pior momento. Eram muito poucos para fazer uma busca exaustiva pelo Ravencliff. S deram um breve passeio pelos cmodos mais usados e os cantos favoritos 
de Nero seguindo as indicaes dos criados.
       Uma busca completa pela casa no poderia acontecer sem mais homens, e uma explorao pelos jardins no poderia fazer-se com aquele temporal.
       Embora Mills dissesse que tinha atirado no animal que tinha matado Nell e que o tinha feito sair da casa, o assunto no poderia ser deixado enquanto eles 
no tivessem procurado em cada canto da casa e dos jardins e at que tivessem aprisionado e matado animal responsvel antes que ele atacasse novamente. Para Sara, 
aquilo significava que assim que o temporal enfraquecesse, eles voltariam. Tinha que encontrar Nero e voltar a escond-lo outra vez na recndita e pequena sala. 
Aquele era o nico lugar da casa em que estaria a salvo dos guardas. Com um pouco de sorte nem sequer encontrariam o passadio secreto, mas se o fizessem, a entrada 
para aquele buraco oculto era virtualmente invisvel. Teria mais cuidado desta vez na hora de fechar o painel. Esse era o plano, e ficou pensando nele durante quelas 
horas. S havia uma coisa que a deixava inquieta. Onde estava Nicholas?
       A explicao de Mills em relao  ausncia de Nicholas no pareceu estranha aos guardas. Interrogaram Sara, como ela sabia o que fariam, mas seguiu as indicaes 
do ajudante de cmara ao p da letra, inclusive chegou a fingir um desmaio quando o interrogatrio ficou incmodo. Os guardas se contentaram com as explicaes de 
Mills e do doutor Breeden, cujo relatrio mdico e cuja corroborao das palavras dos criados foram mais que satisfatrios para os investigadores.
       Obtiveram permisso para retirar o corpo e enterr-lo. Chamaram o coveiro mais prximo, o de Padstow, que com ajuda da senhora Bromley preparou Nell e colocou 
seu corpo em um caixo na sala de estar, onde permaneceria at que a tempestade passasse. O caixo, iluminado da cabea aos ps com candelabros, estava fechado, 
o que era de agradecer. A pequena donzela tinha sido brutalmente atacada.
       Sara se negava a acreditar que Nero houvesse feito algo semelhante, mas se no foi ele, quem podia ter cometido um ataque to atroz? Todos os indcios apontavam 
para Nero; o modo em que Nell tinha morrido deixava pouco espao  dvida. Nell no gostava do animal, e ultimamente, quando estava to tenso, tinha medo. Sabia-se 
que os ces atacavam aos humanos nos quais pressentiam medo, e Nicholas havia dito que Nero era em parte lobo. Quem sabia no que podia resultar aquela combinao? 
Teria surgido nele um instinto feroz? Sara pensou nos momentos em que tinha sentido medo em presena de Nero, e sim, em todas as ocasies tinha parecido perigoso. 
No! Seu Nero no! Nunca acreditaria. Tinha que ter outra explicao.
       Decidiu comer em sua sute. Sentia-se perfeitamente bem para ir at a sala de jantar, mas era mais difcil guardar comida para o Nero ali e voltar a subi-la 
a sua sute sem que os lacaios ou o doutor Breeden se dessem conta. Era muito melhor fazer o papel de senhora confusa e alterada. Entretanto, passou o tempo entre 
o almoo e o caf da manh velando na sala de estar. Era o mnimo que podia fazer pela pequena donzela que tinha servido com tanta fidelidade.
       Os serventes foram passando um a um, quando suas obrigaes o permitiam. Durante todo esse tempo, os olhos de Sara iam para a porta da sala de estar com a 
esperana de ver Nicholas entrar, mas nunca apareceu. As velas estavam virtualmente consumidas quando a senhora Bromley entrou  para troc-las.
       -Cus senhora! Ainda continua aqui? -Repreendeu-lhe -So sete e meia. No veio ningum para acompanh-la acima?
       -Disse-lhes que se fossem -Disse Sara levantando-se.
       Tinha as pernas rgidas. No entendia por que. Certamente se deveria a grande tenso. Esfregou-se a nuca e depois se estirou.
       -Ningum pode desatender suas obrigaes para substituir Nell -Disse a governanta pondo uma mo sobre o caixo -Ter que conformar-se comigo, virei quando 
minhas tarefas me permitam, isso at que o senhor retorne e possamos trazer outra donzela do povoado para que a atenda. Esta sempre foi uma casa masculina, senhora. 
O que mais h  criados, s h umas quantas donzelas, mas nenhuma delas est preparada para servi-la.
       -No se preocupe comigo, senhora Bromley -Assegurou Sara -Estou acostumada a me valer por mim mesma. Estarei bem.
       Aquilo era uma boa notcia. No necessitava testemunhas para o que estava planejando.
       -Retornou o senhor? -Perguntou.
       -No, senhora, e nem Mills nem Smythe sabem tampouco quando voltar. Bom, Smythe nem sequer sabia que se foi. Nenhum de ns estava sabendo, s Mills. Deve 
se tratar de um imprevisto.
       -Suponho que sim -Disse Sara.
       -Olhe, isto posso faz-lo mais tarde -Disse a senhora Bromley deixando a um lado as velas -Deixe que acompanhe a sua sute. Precisa descansar. Est chovendo 
menos. Se a tempestade diminuir pela manh, o jardineiro pode cavar a tumba e poderemos celebrar o enterro.
       -Onde vai ser? -Perguntou Sara.
       -Temos nosso prprio cemitrio, senhora -Informou a senhora Bromley -Data dos tempos em que Ravencliff era uma abadia ou algo assim. Est convenientemente 
consagrado. Watts ir procurar ao vigrio de Padstow quando chegar o momento. Isso  o que o baro quereria que fizssemos. Ofereceu-nos isso a todos como lugar 
de descanso eterno enquanto permaneamos a seu servio, e aqueles de ns que no temos outro lugar no que jazer quando chegar o momento estamos muito agradecidos 
por isso.
       -O baro  um homem muito generoso.
       -, senhora. Nell no tinha parentes vivos. Ns fomos sua nica famlia, por diz-lo de algum jeito. Este  um bom cemitrio, senhora.  onde ela quereria 
estar, onde seus amigos pudessem visit-la de vez em quando, e no que a envissemos a uma parquia desconhecida. Os pais do baro esto enterrados ali, e tambm 
seus antepassados. Estar em boa companhia.
       -Acredito que vou subir -Disse Sara permitindo que a governanta a guiasse -Estou esgotada.
       -Posso ajud-la a meter-se na cama, mas no posso ficar com voc, senhora. H muitas coisas que fazer.
       -Est bem, senhora Bromley -Replicou Sara -Se o baro retorna quero que me avise imediatamente, seja a hora que for.
       - obvio, senhora. E vai fechar-se por dentro, ouviu-me? No queremos mais sucessos lamentveis nesta casa. Meu pobre corao no o suportaria.
       -Sim -Disse Sara -Me assegurarei de faz-lo.
  
       O doutor retornou  sute do baro depois de jantar para seguir com a viglia em companhia de Mills. Estavam fechados na salinha bebendo o xerez que Mills 
servia com uma nica mo, j que tinha o brao esquerdo com um tipoia.
       -Que tal o ombro? -Inquiriu o mdico.
       -Curando-se -Disse o ajudante de cmara com todo o convencimento que foi capaz de reunir.
       Tinha-o inchado e doa, tinha sido um entorse feio.
       -Mmmm -Grunhiu o doutor -Os ossos velhos se curam muito devagar. Ser melhor que se cuide durante um tempo.
       -No sabia que tinha os ossos velhos -Comentou o ajudante de cmara -Tomarei cuidado. Graas a Deus no foi na mo da pistola. Nunca duvidei que no era Nero, 
nem por um instante, mas nunca o tinha visto nesse estado, e isso me preocupou. Era como se tivesse louco. Agora temos a prova final de que minha f nele estava 
bem fundada. O baro estava com a senhora quando Nell foi assassinada. Deixou-a para ver o que tinha ocorrido e nunca retornou. No estava ali quando o resto do 
servio chegou, e nunca voltou ao lado de senhora. Onde pode ter estado durante todo esse tempo, doutor? Espremi o crebro uma e outra vez e no cheguei a nenhuma 
concluso.
       -Foi a encarnao em lobo de Mallory quem matou a jovem, isso est claro, mas no podemos contar isso aos guardas. Levariam-nos a todos ao manicmio -Assegurou 
o mdico assinalando o provador com a mo -Se fixou na expresso de seus rostos quando viram a porta?
       -Acredito que engoliram minha histria, que tentamos de prender o animal at sua chegada e que ele arrancou a madeira a dentadas, atirou-me no cho e escapou 
da casa quando tentei det-lo com a pistola. Foi o nico que me ocorreu.
       -Acreditaram,  obvio, mas tambm esto mais ansiosos que antes por continuar a busca at dar com o animal e acabar com ele.
       -O que devemos fazer,  assegurar de que o baro volte e de que isso nunca mais nos acontea -Respondeu Mills.
       -Duvido que acreditem que o animal  um co vagabundo, sobre tudo depois das histrias que o criado foi contando pelo povoado. Quem menos acreditou foi o 
capito Renkins, que no parava de repetir at no poder mais que ele j sabia que algo estranho estava acontecendo aqui. No invejo a Sua Senhoria, quando retornar 
vai passar um mal bocado quando tiver que convenc-lo de que as coisas no so como parecem. O que me preocupa  que Sua Senhoria no tornou a transformar-se em 
todo este tempo. J deveria t-lo feito a estas alturas, a menos que, como voc diz, continue no mesmo estado de ansiedade. A outra alternativa  muito horrvel 
como para sequer consider-la.
       Mills animou o mdico a que se explicasse melhor com um olhar silencioso. Ele tampouco podia pr em palavras o que lhe estava rondando pela cabea.
       -Que tenha encontrado um destino similar ao da pobre Nell -Disse Breeden -Temos que considerar essa possibilidade, Mills. Voc mesmo disse que Nero  um lobo 
dcil. Ambos sabemos que a encarnao de Mallory no o . Pergunto-me se estiverem os dois ao mesmo nvel.
       -Tendo em conta como estava Nero a ltima vez que o vimos, eu diria que sim, doutor -Afirmou Mills -Depois de tantos anos, virtualmente posso ler a mente 
de Nero. A maior parte de sua angstia est provocada pela senhora. Antes o pensava, agora apostaria minha vida nisso. Sua Senhoria estava com ela justo antes de 
encontrar Nell brutalmente atacada. Veio rapidamente aqui e se transformou diante de nossos prprios olhos. A ama muito, doutor. No se acalmar at que se alivie 
essa angstia.
       -Ento devemos encontr-lo e tranquiliza-lo o mais rapidamente que possamos, Mills.
       -Por qu? Acredita que nunca voltar a transformar-se se no o fizermos? -Um calafrio percorreu a espinha do ajudante de cmara at que rangeram os ossos.
       -No posso assegur-lo com certeza -Disse o mdico -Os estudos que h sobre este tema so muito especulaes. Estamos pisando em cho virgem, essa  a verdade. 
Mal h material sobre metamorfos no que nos documentar, nem tampouco parece que exista uma linha de comportamento definida que seja comum a todos os casos conhecidos. 
Estou andando a no escuro, e oxal me equivoque, mas Mallory estava cego pela ira quando se transformou, no ? E tampouco retornou a sua forma humana, no  certo?
  
       Sara fechou a porta de sua sute enquanto a senhora Bromley esperava fora. Quando deixou de escutar os pesados passados da governanta pelo corredor, voltou 
a abrir a porta e a deixou entreaberta para o Nero, como sempre fazia. Tudo estava preparado. A comida que tinha guardado estava separada junto com o cinturo de 
seu vestido de gaze azul, que serviria a modo de correia, e subiu  cama para esperar, vestida com a camisola e o neglig. A nica coisa que faltava era que Nero 
fizesse sua apario.
       Fora o vento tinha diminudo at transformar-se em um murmrio suspirante, e a chuva tinha parado de bater nos cristais das janelas. O suave eco do mar, rompendo 
abaixo na praia, comeou a induzi-la ao sono apesar de sua deciso de manter-se acordada. No se atreveu a deixar-se levar. Se Nero no ia a ela, teria que ir busc-lo. 
O enterro seria, sem dvida, pela manh, agora que a tormenta estava amainando. Ento voltariam os guardas, encontrariam-no e o matariam.
       Se ao menos Nicholas estivesse ao seu lado neste assunto, se  tivesse tanto carinho por Nero como ela e tivesse conseguido comove-lo. Mas no era assim, e 
Sara quase se alegrava de sua ausncia. Se estivesse em casa seria o primeiro na fila para descarregar sua pistola contra o pobre animal. Aqueles pensamentos alimentaram 
seus escuros e perturbadores sonhos enquanto cochilava, tudo isso misturado com as lembranas de seus sensuais e apaixonados beijos, o poder de seus fortes braos 
rodeando-a, a presso de sua dureza, o sabor, o tato e a essncia de Nicholas. Despertou sobressaltada ao sentir um aroma diferente, o aroma ranoso a cabelo de 
animal sujo. Abriu os olhos de par em par.
       -Aqui est! -Murmurou -Sabia que viria. Tenho um presente para voc -Levantou o pacote de comida que tinha no lavabo pego  cama de quatro colunas e o agitou 
diante de seu focinho -. Ah, ah, ainda no -Disse pondo os ps no cho -Primeiro tem que ser um bom menino e vir comigo.
       Deslizando pela cabea o lao que tinha feito com o cinturo, Sara puxou o suficiente como para que no pudesse escapar, pegou o pacote de comida, uma vela 
e guiou animal para o corredor vazio. No seguiria deserto por muito tempo. Estava a ponto de amanhecer, e Sara correu escada abaixo, agradecida ao ver que estava 
mais interessado na comida que em demonstrar sua condio de lobo. Estava outra vez de um humor estranho, mordiscando o pacote e emitindo uns bufos pelo nariz, muito 
parecidos com grunhidos para o gosto de Sara.
       -No, tem que esperar -Repreendeu mantendo o pacote fora de seu alcance.
       O animal retirou ento os lbios para trs, mas j estavam perto da sala pequena, e como estava a ponto de cumprir com sua misso, a resoluo pde mais que 
o medo.
       Estava acostumado a mover-se pelo passadio; isso era bvio pelo modo que praticamente a guiava ao final, mas parecia querer entrar no tnel, e Sara o teve 
que puxar para faz-lo entrar outra vez na pequena sala. O animal j quase tinha esmigalhado o pacote, e ela teve que baixar a vela para continuar segurando-o enquanto 
ela tateava o painel.
       -Tudo isto poderia ter sido evitado se tivesse ficado aqui -Disse sentindo o mecanismo de mola -No sei como conseguiu sair, a menos que tropeasse com uma 
mola do outro lado. No deve voltar a faz-lo. Os guardas estaro aqui pela manh. Dispararo assim que o ver se encontr-lo perambulando por estes corredores.
       Cada vez custava mais o segur-lo. Quando suas mos puxaram a mola, soltou uma exclamao de alvio e afastou a estreita tabua de madeira a um lado esperando 
encontrar-se com uma sala vazia. Mas dois olhos escuros e brilhantes que resplandeciam em vermelho e ouro sob a luz da vela se cravaram nela, e uma alvoroada massa 
de cabelo negro e prata que arrastava o cinturo de um robe cor borgonha saiu a toda velocidade pela abertura, pisoteando um montculo de lascas de madeira.
       Sara deixou cair o pacote de comida e o cinturo enquanto o estrondo de uns grunhidos aterradores ressoava pelo corredor. Diante seus olhos totalmente abertos, 
dois reflexos de pelagem alvoroada e arrepiado que se mostravam em viso imprecisa saltaram pelos ares e chocaram-se em uma confuso de msculos, tendes e presas 
nuas que jogavam saliva e espuma.
       -Meu Deus! -Exclamou Sara com voz rouca -So dois!
       Nero tinha agarrado com os dentes nas costas do outro lobo, mas quando os gritos de Sara o distraram, a besta se liberou da sujeio de Nero e se lanou 
sobre ela, apontando mortal e diretamente para seu pescoo. Nero voltou a voar pelos ares, impactando contra o outro, e cravando suas afiadas presas nas costas de 
seu grosso adversrio at que o outro lobo uivou de dor.
       Ainda concentrado em Sara, o animal voltou a lanar-se, e uma vez mais Nero o agarrou com suas mortferas mandbulas, desta vez na parte posterior do pescoo. 
O lobo gritou, deu a volta e se precipitou para o tnel dando alaridos, arrastando consigo o cinturo de seda azul de Sara.
       Nero jogou a cabea para trs e lanou um uivo triunfal que reverberou com o passar do passadio uma, duas e at trs vezes de maneira ensurdecedora antes 
de comear a correr em crculos, obrigando a Sara a apertar-se contra a parede enquanto seu percurso se fazia mais amplo nos estreitos limites do corredor. Ento 
j no ficou mais espao para correr. Ao cortante fio de um lastimoso uivo, Nicholas surgiu de entre aquela imagem imprecisa de pelagem prateada, presas e msculos, 
aparecendo de p antes de cair esgotado e exausto de joelhos, nu, aos ps de Sara.
       Cambaleando ao ficar de p, Nicholas tirou o cinturo do robe do pescoo e se girou para ela, sacudindo com incrvel fora o cabelo mido. O peito, que subia 
e descia pesadamente, brilhava pelo suor. Durante um dcimo de segundo, seus olhares ficaram entrelaados na bruxuleante penumbra enquanto as velas se consumiam 
antes de apagar-se de repente, tal e como aconteceu a Sara, que caiu inconsciente em seus braos.
  
       
  Captulo 25
  
  
       Murmurando entre dentes uma fileira de palavres, Nicholas carregou com Sara nos braos e a levou pelo passadio at chegar a um painel diferente ao que ela 
tinha utilizado. No necessitava luz para encontrar o caminho. Possua viso noturna em ambas as encarnaes, assim atravessou o complicado passadio com facilidade 
at chegar a uma porta secreta dissimulada com uma tapearia. Dava s escadas de trs, Nicholas subiu por elas de dois em dois at chegar o terceiro andar, onde 
saiu em um sombrio corredor.
       No havia ningum ao redor. Ainda faltava ao menos uma hora para que amanhecesse. Acreditando que Mills e o doutor houvessem se retirado a seus respectivos 
quartos, dirigiu-se com sigilo para sua sute sem ser visto e deixou Sara sobre a cama. Ficou ali deitada, plida e muito quieta. Se no houvesse sentido sua doce 
respirao contra a pele enquanto a carregava, teria jurado que estava morta.
       Tinha acontecido o que temia. Agora j no podia fazer nada a respeito, Nicholas afastou o cabelo mido da testa franzida e tirou o robe borgonha do armrio 
roupeiro que estava no canto.
       Sentando-se a seu lado na cama, olhou se Sara tinha alguma ferida. No a tinha mordido, disso estava seguro, mas o lobo de Mallory se aproximou em vrias 
ocasies; aproximou-se muito. As mos de Nicholas tremiam e o corao pulsava com fora enquanto examinava o delicado pescoo de Sara, seus braos, as mos e as 
pernas. Nada. Nem sangue nem mcula em nenhum canto daquela pele translcida.
       -Graas a Deus -Murmurou exalando um gigantesco suspiro.
       Deveria despert-la? Cus, no! Melhor deix-la assim, ao menos at que tivesse preparado algum tipo de defesa ou desculpa. No tinha nem ideia de qual poderia 
ser, e comeou a percorrer o tapete acima abaixo com as mos apertadas com fora s costas em uma v tentativa de dar com uma explicao plausvel. De repente escutou 
atrs de si o som de uns ps arrastando-se e se girou rapidamente para encontrar-se com o Mills. Levava posta a camisa de noite, tinha um brao enfaixado e em tipoia 
e com o outro lhe apontava uma arma ao ventre.
       -OH, Meu Deus -Disse precipitadamente o ajudante de cmara baixando a pistola como se essa pesasse como dez pedras -Bendito seja Deus em sua Glria! J o 
tnhamos dado como perdido.
       -Shii -Nicholas o mandou calar, assinalando Sara com a cabea.
       -O que aconteceu? -Perguntou Mills.
       -O pior -Respondeu Nicholas o guiando para a salinha por temor a que Sara despertasse -Ocorreu bem diante dela.
       -Est...?
       -No. S desmaiou -Assegurou Nicholas -O que aconteceu com voc?
       -O outro animal me derrubou. O doutor j se ocupou disso. No  nada. Onde esteve, senhor? Estvamos loucos de preocupao.
       -Estava com Sara na sute verde quando Nell gritou. Um instante mais e no teria voltado a falar de solicitar nada do arcebispo de Canterbury. Fui ver o que 
tinha ocorrido e me deparei com Nell; com o que ficava dela. Soube imediatamente que tinha sido Alex, e tambm soube algo mais. Tinha estado visitando  Sara. Ela 
pensou que Nero estava experimentando mudanas de humor, e estava preocupada porque s vezes a assustava.
        Resumindo, senti que a transformao se aproximava. No podia voltar para Sara e no podia ficar tampouco com o cadver. Teria acontecido diante do servio, 
j estavam quase ali. Subi correndo as escadas e cheguei aqui bem a tempo.
       -Ento isso foi o que provocou semelhante estado. Senhor, em todos estes anos...
       -Estava excitado. E logo sofri o impacto de Nell e o medo de que Sara recebesse a esse bastardo em sua sute pensando que era eu. Acredito que fiquei, Mills. 
E depois foi ainda pior.
       -Mas, onde esteve todo este tempo, senhor? Os guardas estiveram aqui, e vo retornar para procurar o animal e mat-lo.
       -Bom! -Exclamou Nicholas -Deixemos que o matem, porque eles se no o fizerem, eu o farei.
       -Mas, e se for voc a quem matam? Se voltar a transformar-se aqui e agora, ser a ltima vez.
       -Farei tudo o que esteja em minhas mos para que no seja assim -Assegurou Nicholas -Mas tal e como esto as coisas, no posso prometer nada.
       -Procuramo-lo por toda parte, senhor... Por toda parte!
       -Por todas no, velho amigo -Disse Nicholas -Quando Nero saiu precipitadamente daqui se dirigiu  sute verde. O alvoroo j tinha passado, e temendo que 
disparassem ao me ver, a senhora fez uma correia com este cinturo -Deu um tapinha -E me prendeu na pequena e oculta sala que h em baixo. O painel de madeira da 
porta tem quase meio metro de largura. Nero tinha arrancado virtualmente a metade a dentadas quando ela desceu, faz um momento, seguida do outro lobo. Brigamos, 
e no final o lobo de Alex saiu correndo e eu me transformei diante dos olhos da Sara. No houve maneira de evit-lo, Mills, e quando aconteceu ela desmoronou e perdeu 
a conscincia.
       Mills deixou escapar um suspiro desigual.
       -O que vai dizer, senhor? -Ofegou.
       -Isso  exatamente o que eu gostaria de saber -Disse uma voz da soleira do quarto.
       Ambos os homens giraram a cabea em sua direo.
       Era Sara.
       -Nos deixe sozinhos, Mills -Pediu Nicholas sem afastar os olhos dos seus. No era capaz de decifrar aquele olhar.
       -Muito bem, senhor -Respondeu o ajudante de cmara inclinando-se enquanto partia.
       -Sente-se, Sara -Disse Nicholas assinalando com a mo o div de crina de cavalo.
       -Acredito que o preciso -Assegurou ela dirigindo-se para o div com pernas tremulas, conforme observou Nicholas.
       E como no? Acabava de ver como seu adorado mascote se convertia em seu marido nu.
       -Temos que falar -Disse ele.
       -Isso  falar certo -Respondeu Sara com uma risada afogada carente de humor -Onde est Nero? E de onde saiu esse outro co? Me diga que no vi o que acredito 
ter visto faz um momento.
       -No  um co -Respondeu Nicholas - um lobo, o lobo que matou Nell. Tentou te matar tambm.
       Sara empalideceu completamente ante seus olhos. "Deus, no permita que volte a desmaiar!" Tinha que dizer aquilo nesse instante, enquanto tivesse ainda coragem.
       -Deixa que te sirva uma taa de xerez -Ofereceu estirando o brao para agarrar a licoreira que estava sobre a mesinha auxiliar.
       -No quero xerez -Assegurou ela -O que quero so respostas, Nicholas. Que diabos est acontecendo aqui? Onde o Nero est? O que fez?
       Nicholas descartou o xerez e serviu um brandy para ele. Seria Sara capaz de entender algo que nem mesmo ele era capaz de compreender? Conseguiria convenc-la 
a ficar uma vez que o houvesse dito? Chegaria alguma vez a am-lo, a aceit-lo como a estranha criatura que em realidade era? A julgar pela expresso que tinha agora, 
o assunto no pintava bem.
       -No tenho feito nada a Nero, Sara -Assegurou -Nero e eu somos o mesmo. Sempre te disse que no quero fazer nenhum mal a ele.
       -Como pode ser isso?  uma loucura! Voc mesmo me disse que no deveria me afeioar com esse co porque tinha pensado se liberar dele. E bem? Estava pensando 
em suicdio, queria dizer que tinha pensado se liberar de si mesmo? Para que me trouxe aqui ento? Tudo isto  ridculo!
       -No, os criados disseram que tinha pensado em me desfazer dele. Essa foi a histria que eu contei. Eles no sabem nada do que estou a ponto de te dizer, 
Sara, e assim deve continuar. Disse-te que no deveria se afeioar a Nero porque pode que nos deixe. Essa  a razo pela qual o doutor est aqui, para ajudar o Nero 
a partir.
       -No entendo nada disso -Assegurou Sara sacudindo a cabea.
       -Vou tentar te ajudar a compreend-lo, Sara -Disse ele -Mas dever ter pacincia comigo e prometer que me escutar. H muitas coisas que so novas tambm 
para mim e  difcil falar delas. Nunca o tenho feito com ningum alm de Mills e do doutor Breeden.
       -De acordo, adiante ento. Se explique -Pediu Sara cruzando os braos sob o decote -Mas me permita que te diga que acredito que est bastante perturbado.
       -Antes que eu nascesse, meu pai esteve de servio na ndia, onde foi mordido por um lobo -Comeou Nicholas.
       Sara o estava olhando fixamente, e ele comeou a caminhar de um lado a outro dando sorvos a sua taa.
       -Seu pai estava designado ali com ele, e foi ele quem matou o lobo que o atacou e quem salvou a vida do meu pai. Quando descobri que a filha de seu companheiro 
de armas estava encarcerada pelas dvidas, apresentei-te imediatamente minha proposio. Se tivesse sabido com antecedncia que se encontrava em to premente situao, 
nunca teria tido que pisar na priso de Fleet.
       -Ento, nossa unio foi uma operao filantrpica?
       -Em parte sim, e em parte tambm pelo que j te contei. Queria me casar para pr fim  perseguio da alta sociedade. E, alm disso, tambm me encontrava 
terrivelmente sozinho, Sara. Acreditava que nosso acordo diminuiria parte dessa solido, e no me atrevia sequer a ter esperanas de que o doutor fosse capaz de 
me ajudar a encontrar uma maneira de levar uma vida normal. Mas tudo isso foi antes de te conhecer. Agora tudo  diferente.
       -No que  diferente concretamente, Nicholas? -Murmurou ela.
       -Meu Deus, no sabe que estou apaixonado por voc? -Perguntou -Roubou o corao dos dois; de Nero e meu, no sabia? No o sentiu em meus braos sobre a cama?
       -Acreditava que sim -Respondeu Sara -Confiava que sim, mas no estamos falando disso agora. Tem que me confiar o resto da histria, seja qual for, antes que 
enfrentemos a esse outro assunto.
       - obvio -Se desculpou Nicholas -Me perdoe. A ferida de meu pai no sarou, e foi dispensado do servio. Eu nunca cheguei a conhec-lo, Sara. Morreu devido 
s complicaes provocadas pela mordida daquele lobo enquanto eu estava ainda no bero. Mills foi tambm seu ajudante de cmara, e se ocupava dele, mas meu pai se 
distanciou de Ravencliff no final de sua vida. Morreu longe daqui e minha me nunca se recuperou de sua perda. Faleceu quando eu tinha doze anos. Foi ento quando... 
Minha afeco fez sua apario.
       O rosto de Sara no refletia nada, e ele continuou rezando para que mantivesse sua palavra e o escutasse at o final.
       -Quando estou zangado, nervoso ou... Excitado -Continuou -Adquiro a forma de um lobo; o lobo que voc conhece como "Nero". No posso evitar que ocorra, mas 
sempre o percebo com bastante antecipao, o tempo suficiente para me despojar de minhas roupas antes que a transformao acontea. O problema  que, embora possa 
sentir que se aproxima, no posso control-lo. O doutor Breeden esteve tentando me ajudar a conseguir, j que no existe cura. Isso era o que estvamos fazendo quando 
entrou com este maldito robe e nos encontrou a dentro. O doutor tentava de comunicar-se com meu subconsciente do mesmo modo que Mesmer o fazia com seus pacientes.
       -Um... Homem lobo? -Sara conteve o flego -Isso  o que me est dizendo que ? Acreditei que os homens lobos no eram mais que mitos, contos inventados para 
assustar aos meninos!
       -No, Sara, no sou um homem lobo, embora isso fosse o que eu tambm pensava, at que conheci o doutor Breeden. Parece que sou o que se conhece como um metamorfo. 
Os homens lobo tambm so um tipo de metamorfos. Qualquer com a capacidade de transformar-se pode ser considerado parte dessa categoria, segundo o doutor Breeden. 
Mas o homem lobo  uma entidade completamente diferente, nica em seu gnero. Trata-se de uma entidade malvada e predadora situada ao outro extremo das criaturas 
com a capacidade de adquirir outras formas. E igual a voc, eu sempre acreditei que semelhantes seres eram criaturas mitolgicas.
       Por isso sabemos, meu pai me passou a afeco ao me conceber. No sabemos o que era o lobo que o mordeu, nem o que transmitiu a meu pai. Levou isso  tumba, 
assim que a nica coisa que podemos fazer  tratar de lutar com o que existe dentro de mim.
       -Acreditava... Acreditava que o que vi nesse passadio era uma espcie de truque de magia bem feito -Murmurou Sara -Uma iluso de tica. Mas est falando 
a srio! Acredita de verdade que Nero e voc...!
       -Somo-lo -Interveio Nicholas ao sentir sua vacilao -Entende agora por que as bodas tinha que ser por procurao, por que no podia sair de Ravencliff nem 
sequer para me casar? Pode imaginar o que acaba de ver acontecendo na pista de baile de Almack's ou em meio de Hyde Park um domingo pela tarde? Entende agora por 
que no quero herdeiros aos que transmitir este pesadelo, por que no posso me arriscar a consumar nosso matrimnio? Esteve a ponto de acontecer, em qualquer caso, 
e me transformei imediatamente depois de te deixar. Mal consegui chegar a minha sute antes que acontecesse e me prenderam no provador at que Nero arrancou a dentadas 
o painel da porta e retornou para assegurar-se de que estava a salvo. Depois voc me prendeu naquela sala minscula, ou melhor, ao Nero;  difcil separ-los. E 
ali permaneceu at agora mesmo. Assim que vi que estava a salvo, voltei a me transformar. Por desgraa, voc estava ali quando aconteceu. Nunca foi minha inteno 
que o descobrisse assim.
       -Est dizendo que se transformou pelo que esteve a ponto de acontecer entre ns?
       -Por isso e por ter encontrado Nell, mas o que esteve a ponto de me deixar louco foi descobri que o lobo que a tinha matado, tinha estado te visitando e voc 
acreditava que era Nero. Sabia que estava em perigo, e no podia voltar a me transformar para te proteger. Estava muito preocupado para me acalmar e permitir que 
a mudana acontecesse.
       -De onde saiu esse outro lobo, Nicholas? -Murmurou ela.
       Nicholas vacilou. Teria acreditado em alguma coisa do que tinha contado at o momento? No havia como saber. Sua expresso seria perfeita em uma casa de jogo; 
ningum seria capaz de adivinhar a mo tinha. Nicholas deixou escapar um suspiro irregular, deixou de caminhar e a taa vazia. No tinha se dado conta de que a tinha 
acabado at que tentou de dar outro sorvo. Se Sara no tivesse acreditado no que tinha acabado de contar, nunca acreditaria o que estava a ponto de dizer.
       -Recorda a noite em que Alex entrou em seu quarto e esteve a ponto de te violar?
       -No acredito que seja algo que possa esquecer -Respondeu ela.
       -Nero o mordeu, no ? E ento Alex tirou a pistola e disparou no ombro. Com o que se encontrou quando entrou em minha sute vrios dias mais tarde? Assim 
 -Disse ao ver que ela continha o flego -Me encontrou me recuperando de uma ferida no ombro.
       -Mas disparou duas vezes!
       -O outro tiro o falhou -Respondeu Nicholas sucintamente -Sei porque eu estava ali, e tive muita sorte. Alex  um excelente atirador quando est sbrio.
       Sara voltou a conter o flego.
       -Por isso sabia que ele disse que eu supostamente tinha deixado a porta entreaberta para ele. Voc, ou melhor dizendo, Nero, o escutou dizer.
       Nicholas assentiu. Estava ganhando terreno? Confiava em que assim fosse, porque as seguintes palavras que iam sair de sua boca demonstrariam sua posio ou 
o condenariam a parecer um luntico diante os preciosos olhos da Sara.
       -Nero mordeu o Alex, Sara -Disse -E Alex no foi visto depois, mas o outro lobo sim, no ? Nero era o nico animal desta casa at essa noite.
       -Est tentando me dizer que o senhor Mallory se transformou em algum como voc porque voc... Porque Nero o mordeu?
       -A afeco pode transmitir-se desse modo igual a um homem lobo passa sua condio a suas vtimas. No percamos de vista o fato de que meu pai me transmitiu 
esta loucura depois de ter sido mordido. A minha  uma variedade mais fraca do que a dele devia ser. Isto no  uma cincia exata, Sara.  s perguntar ao doutor. 
No existem dois casos iguais. Essa  a razo pela que tinha tanta vontade de vir aqui para estudar o meu caso. Quando foi a primeira vez que percebeu uma mudana 
na conduta de Nero?
       Sara guardou silncio durante um instante.
       -Foi depois do disparo -Disse finalmente -Pensei que isso era o que o fazia estar intranquilo.
       -O doutor diz que a personalidade do homem se refletir em sua encarnao animal. Alex e eu somos polos opostos. Embora tenhamos o mesmo aspecto na forma 
de lobo, nossas encarnaes animais so o suficientemente diferentes como para que voc tenha notado uma mudana de atitude. Que mais viu nesse lobo que te fez ter 
medo?
       -Seu comportamento em geral era diferente. No me saudava da mesma maneira, movendo a cauda, aproximando-se para que o acariciasse. Era quase como se me sorrisse. 
E em troca agora parecia indiferente.
       -Graas a Deus! -Interveio Nicholas com genuno alvio.
       -O que quero dizer  que em vez de saltar a minha cama, ficava quieto frente  lareira, jogando os lbios para trs com um silencioso grunhido quando tratava 
de me aproximar e grunhindo da vez que tentei de examinar a ferida.
       -Onde tinha a ferida, Sara? -Perguntou Nicholas com a esperana de que aquilo terminasse de convenc-la.
       -Na pata dianteira! -Ofegou ela -Tudo aconteceu muito depressa e eu estava confusa. Pensei que o que me tinha parecido em um princpio uma ferida no ombro 
estava em realidade... Mais abaixo. No me equivocava. OH, Nicholas!
       Ele assentiu.
       -Alex levou a ferida que fez Nero a sua encarnao animal, do mesmo modo que Nero tinha a ferida de bala tambm em minha forma humana.
       -Se tudo isto for possvel, por que o senhor Mallory no voltou a transformar-se? -Quis saber Sara.
       -No sabemos -Respondeu Nicholas -Estava bbado e cego de ira quando Nero o mordeu, e eu estava a ponto de ficar louco a ltima vez que me transformei. J 
sabe quanto demorei para voltar a trocar. Foi a vez que mais durou. Talvez esteja confuso e ao no saber o que aconteceu no pode transformar-se. Talvez permanea 
em um estado de angstia que no permite trocar. Ou possivelmente a ferida se infectou, envenenando o sangue. No h modo de saber com certeza.
       -Isto ... Impossvel! -Murmurou Sara.
       -Impossvel, mas certo.
       -O que te acontece quando se transforma? Como sabe quando voltar a trocar?
       -Nero esgota a energia que provocou a mudana at que se calma, e ento, simplesmente... Acontece.
       -Assim que esta  a razo pela que muitas vezes te encontrei sem roupa?
       -Sim. Disse-me que isso tinha acontecido em trs ocasies. Eu s recordo duas, e  obvio, esta ltima.
       -Recorda a noite que nos encontramos nas escadas? Voc tinha posto o robe, e eu tinha estado seguindo o Nero. OH, Meu deus! Voc sabia que tinha ido atrs 
dele!
       -Sim, porque Nero esteve contigo justo antes desse momento -Respondeu Nicholas.
       -Fui te buscar em seu escritrio com antecedncia e vi sua roupa e as botas cheias de barro no cho, mas voc no estava ali. No podia entender por que o 
tinha deixado precisamente ali havendo tantos lugares para faz-lo.
       -Ah, assim foi isso -Nicholas caiu na conta -O deixei ali porque foi onde teve lugar a transformao. Eu estava dando um passeio pela praia para tratar de 
acalmar os efeitos que tinha provocado em mim, e mal pude chegar ao escritrio antes que acontecesse. Est acostumado a me ocorrer ali fora com frequncia, mas nesta 
ocasio no foi assim. Como disse, no posso control-lo.
       -Ento... Nesse dia, quando desci  praia e encontrei sua roupa...
       -Sim, o dia que Nero te salvou de morrer afogada. Esteve a ponto de ficar isolado nessa ocasio. H muitas maneiras de acessar Ravencliff de baixo, mas no 
durante uma borrasca, porque se desencadeiam muito rpido, nem tampouco com a forma de lobo. Mal tive tempo de me transformar e retornar antes de que esse lance 
de praia desaparecesse. De fato, a metade da roupa que recuperou para mim se perdeu no mar, e a que consegui salvar foi diretamente ao lixo.
       Sara sacudiu a cabea e baixou os olhos. Eram lgrimas o que brilhava em suas pestanas?
       -Mas isto... No sei, Nicholas -Murmurou -Eu... No sei.
       -E que outras mudanas viu no Nero? -Perguntou ele - importante, Sara. Preciso saber.
       -Nada especfico que j no tenha te contado, exceto a vez que tirou minha roupa do armrio. Tive que queimar uma camisola e um neglig. Urinou em cima deles.
       -Nero tambm marcou seu territrio em sua sute, e por isso o lobo de Alex fez o mesmo. Estava reclamando... Te reclamando. Maldio!
       -O fez mais de uma vez.
       -Continua -Grunhiu Nicholas passando os dedos pelo mido cabelo -H algo mais que recorde?
       -Quando me encontrei com ele na cama aquela noite, a noite que joguei a gua da jarra de minha mesinha de noite, soube mais tarde que quando partiu ameaou 
Nell, mas ela o impeliu. Disse que no fugisse dele, que no mostrasse seu medo. OH, Nicholas!
       -Est segura de que no mordeu voc? -Interrompeu ele -Nem sequer te fez um arranho?
       -No, no o fez -Assegurou Sara -A gua fria o afugentou, e dessa vez sim fechei a porta por dentro depois. Queria ensinar boas maneiras. Esse... No era 
Nero?
       A Nicholas pulsava com fora o corao. Desejava estreit-la entre seus braos e beij-la e ao mesmo tempo sacudi-la.
       No fez nenhuma daquelas coisas. Aspirou profundamente para controlar o acelerado ritmo de seu pulso.
       -No, Sara, no era -Respondeu -Faz quanto foi isso?
       -Justo antes... de Nell. Ela me contou que tambm tinha tentado mord-la.
       -Retornou depois disso?
       -No -Disse Sara -Essa foi a ltima vez, at agora que o levei abaixo, e encontrei voc.
       -Como encontrou esse quarto de baixo? -Quis saber.
       -Nell me mostrou o caminho. Escutamos um uivo no tnel e depois um de vocs fez sua apario e ento corremos de retorno  casa.
       -Aquele tampouco era Nero, Sara.
       -Agora me est assustando!
       -Bem! Algum tem que faz-lo. Compreende, por fim, por que deve manter sua porta fechada? Nero no retornar a sua sute, mas o outro lobo sem dvida o far, 
e te matar, Sara, do mesmo modo que matou Nell.
       -No podia ter me contado tudo isto desde o comeo? -Lamentou-se ela.
       -Se o tivesse feito, teria acreditado?
       Sara vacilou.
       -No -Reconheceu em voz baixa -Certamente no o teria. Nem sequer agora sei no que acreditar! Isto  absurdo!
       -Bom, pois j sabe -Disse encolhendo-se ao pronunciar aquelas palavras -No lhe contei isso porque no queria te perder.
       - uma pena. Teria que ter acreditado em mim o suficiente para se arriscar -Assegurou Sara levantando do div.
       Estava amanhecendo. Os primeiros retalhos de com penugem de nvoa se amontoavam contra os cristais das janelas.
       -A tempestade passou -Comentou ela -O vigrio vir esta manh para o enterro, e depois sem dvida retornaro os guardas para retomar a busca de Nero pela 
casa e os jardins, o co louco que acreditam que matou Nell!
       -Sara...
       -Agora no, Nicholas -Murmurou ela -Necessito de tempo para assimilar tudo isto. Primeiro devemos nos ocupar de Nell. Devemos-lhe ao menos isso. Eu o devo.
       -Promete-me que fechar sua porta por dentro at que demos com o outro lobo e nos encarreguemos dele?
       Sara assentiu.
       -Nero acaba de lhe fazer umas quantas feridas novas. Isso s servir para irrit-lo ainda mais. Ficarei pelas noites na sute verde at que isto se resolva, 
e estarei armado.
       Quando Sara se moveu para passar na frente dele, Nicholas tratou de estreit-la entre seus braos, mas ela o manteve longe apoiando as mos contra o peito, 
e no o olhou nos olhos.
       -Agora no, Nicholas -Pediu Sara -No, por favor! Preciso de tempo para pensar.
       Nicholas deixou cair a cabea.
       - obvio -Respondeu.
       Aquelas palavras tinham sabor de blis. O pior de tudo era que tinha razo. Tinha que ter acreditado nela. Deveria ter se arriscado. Inclusive Mills o havia 
dito.
       -Amo-te, Sara -Disse -No quero que me deixe, mas no  prisioneira aqui. Disse isso desde o comeo. Se no puder aceitar a situao, aceitar-me e ao o acordo 
ao qual chegamos, usarei meus contatos para pedir s autoridades competentes que te libere de seus votos. Em qualquer caso, ser um processo comprido. No mentirei 
para voc; poderia levar anos. No estou tentando te convencer, s quero que seja consciente, mas no vou mand-la para seus parentes pobres se for o caso. Tenho 
outros imveis nos quais pode se alojar com todas as comodidades at que chegue a resoluo. Em troca s te peo que no traia meu segredo. No gostaria que soubessem 
disso, ou me caariam como a um animal, que, por outro lado,  o que sou.
       Sara no respondeu nada. Rompeu a chorar com soluos profundos e dilaceradores, escapou de seus braos e saiu a toda pressa.
  
      
  Captulo 26
  
  
       Nicholas passou todo o enterro sem afastar os olhos de Sara, que no lhe deu nenhuma oportunidade para continuar com sua conversa. No ia pression-la. Observou-a, 
cativado, enquanto ela permanecia ao lado da tumba, consolando os criados e dirigindo a situao como ele nunca poderia ter feito, como se nada tivesse acontecido 
entre eles, embora no o olhou nos olhos em nenhum momento. Melhor assim. Tinha estado chorando. Apesar da generosa aplicao de talco, sua pele plida estava vermelha 
e tinha os olhos virtualmente fechados pelo inchao. Parecia o natural, tendo em conta a solenidade do rito funerrio em meio a uma coleo de criados enfermos e 
sob um melanclico cu de aquarela com todas as tonalidades de cinza. Mas se tivesse dirigido para ele seu olhar ofuscado em lgrimas, Nicholas teria se visto obrigado 
a mant-lo, sabendo que ele era o culpado de ter posto aquelas lgrimas em suas bochechas de ptalas de rosa.
       A certeza de que os guardas iam a Ravencliff tinha posto todo mundo nervoso. Ao ver que avanava o dia e no faziam sua apario, Nicholas decidiu encarregar-se 
ele mesmo do assunto. Coberto com um capote embuado e armado com um par de pistolas de duelo nos bolsos, disps-se a procurar em toda a manso de cima a baixo, 
e tambm cada canto dos jardins. Mas antes passou pela sute das tapearias, bateu e esperou, animado pelo fato de que a porta estivesse fechada, e mais tranquilo 
ainda quando Sara abriu o ferrolho, abrindo apenas uma brecha.
       -Disse que necessitava tempo, Nicholas -Disse abrindo a porta um pouco mais, embora no o suficiente como para que entrasse.
       -No vim em busca de uma resposta -Assegurou ele -Vim para te dar isto. -Mostrou-lhe a pequena pistola que levava em cima -E para te ensinar a utiliz-la.
       -No quero t-la, Nicholas.
       -J no se trata do que queiramos, Sara. Precisa estar protegida. S te assegure antes de disparar. Nero nunca te ameaar. -A passou pela porta -Toma, pegue-a. 
Tome cuidado. Est carregada.
       Sara vacilou.
       -Eu... Eu no gosto das armas -Disse.
       -Pegue-a! -Insistiu Nicholas -E isto tambm. -Passou-lhe um pequeno estojo envolto em um pano de cor Borgonha -Dentro est a munio que necessita para voltar 
a carreg-la. V esta chave? Entra na ferramenta que te permite retirar o cano para carreg-la e limp-la. Olhe, deixa que te mostre.
       -Sei como carregar uma pistola, Nicholas -Espetou -Meu pai era militar, recorda? Inclusive uma vez eu levei uma pistola, durante uma viagem de Nottingham 
a Londres. Meu pai insistiu devido aos bandoleiros que frequentavam aquela zona.
       -Eu gostaria de escutar o como e o porqu disso, mas ter que esperar por outro momento. Leva esta pistola contigo e mantenha a porta fechada. A buscarei 
na hora de jantar e depois te acompanharei de volta. Logo, depois da minha sesso com o doutor, me retirarei aos aposentos de frente se por acaso me necessita para 
algo.
       -No tem por que fazer isto, Nicholas. No sou uma menina -Espetou.
       -Ou isso, ou volto a postar os criados  porta de sua sute outra vez. Voc decide.
       Sara deixou escapar um suspiro irregular.
       -Faz o que queira -Respondeu encolhendo de ombros.
       - obvio, suponho que  consciente de que no pode falar desta situao na mesa. J sabe como escutam os criados nesta casa. A ltima coisa que necessitamos 
agora  que haja mais historia circulando pelo povoado.
       -No tem do que preocupar-se -Assegurou ela -Me comportarei. -Ficou olhando -Onde vai com isso agora? -Perguntou assinalando com a cabea as pistolas de duelo 
que lhe marcavam no bolso.
       -A caa. E agora, fecha por dentro -Ordenou, esperando a que ela o fizesse e passasse o fecho.
       Nicholas procurou at que o crepsculo intensificou as sombras e teve que acender uma vela, mas no havia nem rastro de Mallory. Convencido de que o lobo 
estava se ocultando em alguma das cmaras secretas que rodeavam o passadio, procurou pelos locais inferiores e seguiu o tnel at o final, at a masmorra, onde 
estava o painel giratrio que dava acesso  plataforma de granito que bordeava o escarpado. Nero a tinha utilizado muitas vezes para sair da casa.
       Em seu subconsciente estava a lembrana de que Alex Mallory se mostrou sempre fascinado pelos esconderijos de Ravencliff; seus numerosos lugares ocultos, 
os corredores que se ramificavam, as portas de acesso e os muros falsos. O administrador os conhecia todos, mas tambm Nicholas, ou ao menos isso pensava. Havia 
alguns que no havia tornado a visitar desde que era um menino, e outros que Nero frequentava com regularidade.
       Havia uma forma de fechar o tnel de sada, mas no tinha sido usada h anos. Tratava-se de um mecanismo escavado na parte superior do painel que, uma vez 
ativado, evitava que o painel girasse. Um homem poderia faz-lo funcionar, mas um lobo no. Se o punha em marcha e as peas engrenavam dentro do muro, estaria deixando 
o lobo ou dentro ou fora. Tambm privaria a si mesmo ou Nero de uma rota de sada se surgia a necessidade. Tratou de ficar na mente do lobo e pensar nisso s de 
passagem antes de acionar o mecanismo. O som chiante da pedra contra a pedra ressoou pelo corredor. Estava se arriscando, mas a menos que se equivocasse, o lobo 
estava em algum lugar da casa e apareceria logo, agora que j no contava com uma via de escape. Confiando em que seu instinto no o enganaria, ele refez seus passos, 
mas a parte inferior estava vazia.
       A busca que fez pelos jardins do ptio tampouco reportou nenhum fruto, e Nicholas finalmente retornou a casa, molhado pela neblina do entardecer e com o frio 
metido nos ossos, como estava acostumado a acontecer com frequncia no vero, na costa de Cornualha.
       No havia tempo antes do jantar, assim optou por uma rpida mudana de roupa e ordenou que reacendessem as lareiras da sala de jantar e as das sutes principais. 
A casa estava mida e fria, os velhos muros gotejavam mofo e crescente umidade. Isso nunca tinha importado antes. Mas por alguma razo, agora tudo o incomodava.
       Sara o acompanhou em silncio a sala de jantar. Ainda tinha os olhos inchados e vermelhos, mas as marcas avermelhadas tinham diminudo, ou as tinha dissimulado 
com mais percia com talco. Suspeitava que se tratasse do ltimo. A conversa durante o jantar foi agradvel, embora forada. O doutor Breeden observou cada movimento 
que Sara fazia, igual a ele, mas ela se comportou como a perfeita anfitri, por cima de toda recriminao, e Nicholas comeou a relaxar-se; tudo o que era possvel 
sob o feitio de sua proximidade.
       O decote baixo de seu vestido de musselina com desenho de espigas atraa seu olhar. Nicholas j tinha saboreado com os lbios o que havia debaixo. Que doce 
foi lamber aqueles seios perfeitos. Que mgico foi sentir a sedosa suavidade de sua pele sob seus dedos, speros em contraste; sentir como os mamilos em forma de 
casulo se endureciam sob sua lngua. Que bem encaixavam juntos, como se Sara fosse a parte que faltava a ele, sem a qual nunca estaria completo. Que delicioso seria 
estar vivo dentro do suave e mido calor de Sara, enchendo-a, movendo-se ao ritmo dela. Ele tinha imaginado milhares de vezes, mas nunca chegaria a acontecer. A 
cala azul comeou a se apertar, e trocou de posio na cadeira. No serviu de nada. Apertavam-lhe as costuras. Menos mal que estava sentado e assim ia ficar um 
momento.
       O aroma de Sara o rodeava, estava nele, introduzia pelas fossas nasais. A sutil essncia de flores silvestres e rosas embriagava. Nicholas o aspirou profundamente. 
As rosas floresceriam logo nos jardins e alagariam a casa com seu perfume, como sempre tinha acontecido no vero, mas seu aroma empalideceria ao lado do de Sara, 
e o atormentaria eternamente se ela partisse.
       Depois de jantar, Nicholas a acompanhou a sua sute e esperou que passasse o ferrolho. No trocaram nenhuma palavra exceto um tenso "boa noite". Ele subiu 
depois a salinha de sua sute, onde o doutor Breeden tinha colocado a gaita e o esperava com sua bebida noturna enquanto Mills e os lacaios preparavam o banho.
       - intil -Disse Nicholas quando teve transcorrido meia hora de tratamento -Temo que tenha muitas coisas na zona consciente do crebro para permitir o acesso 
ao subconsciente. Sinto muito.
       -No se preocupe. Temos muito tempo.
       -Disso se trata, no o temos -Assegurou Nicholas -A baronesa viu ontem  noite como me transformava. Para mim  um mistrio e um milagre que j no tenha 
fugido deste lugar. Ainda pode ocorrer. Ainda no me deu uma resposta, mas temo conhecer qual ser.
       No tinham tido tempo para falar do acontecido, devido ao funeral e a que o doutor Breeden tinha estado a metade do dia encerrado no herbanrio. Nicholas 
imediatamente o ps em dia de todo o acontecido, desde que tinha subido Sara do andar de baixo. Quando terminou elevou a cabea, que at o momento tinha mantido 
inclinada. Seus olhos, frgeis, se mostraram suplicantes.
       -O que vou fazer, doutor? -Perguntou.
       -Precisa consumar seu matrimnio, baro, se quer conservar a sua esposa.
       -Esteve a ponto de acontecer antes de tudo isto. Mas agora no posso for-la,  obvio, e no tenho direito a me interpor em seu caminho se ela quiser sua 
liberdade.  jovem e cheia de vida. Merece muito mais do que eu tenho para lhe dar, pelo que posso dar nestas circunstncias.
       -Mas voc a ama -Disse o mdico -Ela ama voc, ou j se teria partido a estas alturas, estou seguro. Fixei-me nela esta noite na mesa. Esteve chorando. Ao 
princpio acreditei que se devia  morte da moa, mas agora vejo que se tratava de outra coisa muito diferente.
       -Me casar com ela, traz-la aqui foi um erro -Assegurou Nicholas -Fui um estpido ao acreditar que podia levar algo parecido a uma vida normal. -Ficou de 
p e comeou a caminhar pelo tapete -O menos que posso fazer  tratar de retificar antes de...
       -Antes do que, baro? -Instigou o mdico -Se estava a ponto de dizer "antes de que seja muito tarde", no gaste saliva.
       -Esperarei sua deciso e agirei em consequncia. No h fundamentos para um divrcio no Parlamento. No se cometeu adultrio e eu no sou um desalmado que 
esteja pondo sua vida em perigo. Alm disso, embora houvesse uma maneira, poderia demorar inclusive um ano. O Parlamento tem que estar reunido, para comear, e tem 
que ter concludo sua atividade habitual antes que possa apresentar uma apelao semelhante. A data limite para as peties deste ano j passou. Terei que esperar 
o fim de novembro para apresentar minha solicitude.
       "O da nulidade poderia arrumar-se, e tenho os contatos para faz-lo. Encarregar-me-ei disso. Devia estar louco quando permiti que as coisas entre ns chegassem 
to longe. Sempre existiu a possibilidade real de que possa me transformar justo no leito conjugal!"
       -Agora no necessariamente -Interveio o mdico.
       -Por que agora no?
       -Ela sabe -Se explicou o doutor com calma -O medo de que possa acontecer j no existe. Isso deveria bastar para que estivesse o suficientemente calmo para 
poder fazer amor com sua esposa.
       -E acredita que vou arriscar-me? -Nicholas deixou de caminhar, soltou uma gargalhada gutural e sacudiu a cabea -Pode que tenha me tornado meio louco com 
tudo isto, mas no sou idiota.
       -Acredito, baro, que deveria pr a teoria a prova. Ela j sabe. O pior pode acontecer  uma transformao, e ser avisada a tempo para poup-los do embarao, 
se chegar a acontecer.
       -Todo isso est muito bem, mas ainda fica por considerar o assunto da transmisso da afeco, tal e como meu pai me transmitiu isso. No me arriscarei.
       O mdico deixou escapar um profundo suspiro.
       -Quem disse que a afeco se transmitia pelo sangue?
       -Bom, ningum. Dava-o por feito porque meu pai me passou isso assim...
       -No h estatsticas a respeito -O interrompeu o mdico -Nem sequer sabemos se sua afeco em particular pode transmitir-se desse modo, tendo em conta que 
 uma verso mais fraca e algo completamente diferente daquilo que transmitiu o lobo que mordeu a seu pai. Uma vez mais, temos o carro antes do cavalo. So zonas 
de sombras.
       -Mais razo ainda para andar com cuidado -Raciocinou Nicholas.
       -Antes de nada e por cima de tudo sou cientista. Para teorizar, suponhamos que apesar de toda possvel precauo tem lugar a concepo. Sabemos que a encarnao 
animal do metamorfo adquire a personalidade de seu anfitrio. Ponhamos por caso o Nero: orgulhosamente leal, de bom carter, bem educado, nada violento a no ser 
que o provoquem. Em resumo, um cavalheiro lobo, se me permitir isso, to cavalheiro como  voc. Se a afeco for hereditria, quo pior poderia ocorrer  que seu 
descendente seja como voc.
       Nicholas sacudiu a cabea em gesto de firme rejeio.
       -Com os mesmos medos, as mesmas restries? -Disse -Condenar a uma vida de exlio forado do mundo, de todas suas alegrias e prazeres, quando tenho o direito 
de economizar semelhante destino? No... Nunca!
       -Mas, realmente tem esse direito?
       -Sim, tenho-o -Espetou Nicholas -No desejaria esta loucura nem a meu pior inimigo, assim que muito menos  carne de minha carne. Eu no sou filho de meu 
pai nesse sentido. No estou to cego procurando um herdeiro que no possa antecipar os riscos de minhas aes.
       -De acordo ento,  sua prerrogativa. H outros modos de dirigir a convivncia de maneira que seja satisfatria para ambos, formas antigas de enfrentar-se 
ao problema com ervas que se remontam aos tempos bblicos. Essa bebida da -Assinalou com a cabea -contm ingredientes que ajudaro, e tambm pode instruir  senhora 
em certos mtodos internos e externos.
       -Que espcie de "mtodos"?
       -Por exemplo, as prostitutas francesas utilizaram durante anos uma esponja.  o mesmo mtodo que usam aqui agora as prostitutas, as cortess e aquelas mulheres 
cuja sade  muito frgil para sobreviver o parto. Uma vez voc mencionou que as mulheres de vida alegre e as cortess ocupam-se desse tipo de assuntos. Elas sabem 
como faz-lo. Encarregaram-se disso desde tempos imemoriais. Tratada com certas ervas, a esponja que lhe mencionei pode ser muito efetiva. Outra alternativa  um 
unguento feito com essas mesmas ervas. Acredite, a situao esta longe de ser desesperadora. Posso fazer que me tragam de Londres o que se necessita. Em qualquer 
caso, sua esposa no poder utilizar nenhuma das coisas a primeira vez.
       -No pode fazer nada at que a baronesa diga -Disse Nicholas.
       -Ajudaria que eu falasse com ela de sua afeco? -Perguntou Breeden -Talvez se vier de mim...
       -No -Respondeu Nicholas -Deve ser deciso dela e s dela. No quero que ningum a convena. Ela o viu. Agora se trata de que seja capaz de viver com o que 
viu.
       -Como desejar, mas se mudar de opinio, estarei encantado de me pr  altura das circunstncias. Enquanto isso, com sua permisso, farei com que algum de 
seus criados mande um recado a Londres, para pedir algumas provises que necessito e o artigo do que falei para a senhora, no caso de que tudo isto termine com um 
final feliz, de acordo?
       -No caso de que assim seja -Murmurou Nicholas.
       O pobre homem estava fazendo tudo o que estava em sua mo, depois de tudo. O menos que podia fazer era seguir a corrente.
       -De acordo ento -Disse assinalando para a gaita -O tentamos de novo?
       Embora o tentassem uma e outra vez, Nicholas no percebeu nenhum resultado significativo. E no que a ele se referia, assim seguiriam at que encontrassem 
Alexander Mallory, em uma encarnao ou em outra, e se fizesse justia.
  
       O mau tempo evitou, durante os trs dias seguintes, que os guardas voltassem, e Nicholas percorreu os arrevesados corredores e passadios da velha manso 
armado com pistolas carregadas. Pelas noites manteve a viglia sobre Sara, com os olhos totalmente abertos, da sute verde, situada frente  sua, at o amanhecer. 
S dava algumas cochiladas quando o sono o vencia.
       Ela continuava sem comunicar sua deciso. De fato, no havia tornado a falar a ss com ele. Por que no se decidiu? Seria sua vacilao um bom sinal, ou mal? 
Estaria esperando que resolvesse a situao com Alex Mallory antes de atrever-se a acreditar no que Nicholas tinha contado? Eram provas o que esperava? No havia 
forma de que soubesse, e j doa a cabea de tentar encontrar o sentido.
       Calmo, tinha que estar calmo. Aquilo estava sendo mais e mais difcil cada vez. As tenses cresciam em todas as direes. No podia transformar-se com toda 
a casa procurando Nero com uma pistola, mas agora Sara sabia. Sem esse obstculo, enquanto seguiam procurando o Nero, podia ao menos cancelar a busca de Alex Mallory 
em sua forma humana. O doutor estava de acordo de que era pouco provvel que Mallory se transformasse, se no o tinha feito at agora, e Nicholas decidiu fazer correr 
a histria de que o administrador tinha reaparecido e o tinha despedido. Se voltasse a transformar-se e reaparecia depois, sempre poderia dizer que havia voltado 
a entrar usando alguma das entradas dos contrabandistas, das quais tanto gostava. Era uma aposta, mas no tinha mais alternativa. Teria que enfrentar-se a isso, 
se isso chegasse a ocorrer.
       A manh do quarto dia depois do funeral, Smythe se apresentou na porta do escritrio. Ao ver sua expresso sombria, Nicholas se viu obrigado a perguntar o 
que acontecia.
       -O que acontece, Smythe? -Perguntou.
       -Peo desculpas, senhor -Disse o mordomo -Vim comunicar algumas preocupaes que h no andar de baixo.
       Nicholas deixou a pena com meticuloso controle e cruzou as mos sobre o livro de contabilidade no que estava trabalhando.
       -Preocupaes? -Repetiu.
       -Sim, senhor -Continuou o mordomo -O certo  que depois do que aconteceu a Nell, l em baixo todos temos medo: do co, de Nero.
       Nicholas sentiu vontades de gritar: "Nero no os tocaria nem em um cabelo da cabea, jamais, estpidos!
       Mas decidiu optar por uma ttica menos agressiva.
       -Retornou a ver o animal depois, Smythe? -Perguntou.
       Os quartos de servio eram o nico local da casa em que no tinha procurado.
       - disso que trata, senhor. No o vimos, mas a comida no para de desaparecer.
       -Comida? Que comida? No me diga que esteve pondo comida a esse animal!
      Ficou de p de um salto. Era muito consciente de que Sara tinha estado alimentando-o, mas isso cessou quando lhe contou a verdade, e Nicholas confiava que 
a fome o levasse para o exterior. Agora lhe ardia o sangue.
       -Sim... Sim, senhor -Disse o mordomo dando um passo para trs -Sempre lhe deixamos comida no passado, j sabe. Quando aconteceu o que aconteceu a Nell deixamos 
de faz-lo, mas continua desaparecendo comida da despensa... Sobre tudo carne e aves de curral em grandes quantidades, assim voltamos a lhe deixar comida por temor 
a sermos ns os seguintes, se no o fazamos. Deixou tudo feito um desastre ali l em baixo, senhor.
       -E vem me contar isso agora? -Bramou Nicholas.
       -A senhora Bromley pensou que...
       -Ao diabo com a senhora Bromley! Voc  o responsvel pelo servio de baixo, Smythe. Desde quando a senhora Bromley te diz o que tem que fazer?
       -O sinto, senhor -Gaguejou o mordomo -Eu... No queramos incomod-lo com isto, com o funeral e tudo mais.
       -Certamente haver mais de um funeral nesta casa se no me "incomodar" no futuro -Espetou Nicholas.
       Voltou a deixar-se cair sobre a cadeira, colocando o cabelo para atrs com dedos rgidos. At que ponto podia confiar no mordomo? Sem dvida no at o fim, 
mas sim o suficiente para limpar o nome de Nero, j que ia seguir sendo parte do pessoal da casa quando tudo tivesse acabado; ou isso ou teria que repor a todo o 
pessoal. Agora mesmo estava o suficientemente zangado para faz-lo.
       -Sente-se, Smythe -Pediu.
       -Senhor?
       -Sente-se! -Bramou Nicholas. O mordomo se deixou cair como uma pedra sobre a cadeira mais prxima. -No tem sentido te dizer que guarde silncio em relao 
ao que vou contar -Continuou -Porque nesta casa as paredes tm ouvidos, as lnguas se soltam e a nica utilidade das portas  que os criados tenham algo no qual 
se apoiar para escutar.
       -S... Sim, senhor.
       -Entretanto, devo insistir em que evite ir contando histrias no futuro, porque no dia que o faa, no ficar, ao pr do sol, nem um s membro do servio
ali de baixo. Despedirei a todos! Tendo em conta o que esteve acontecendo no povoado, todos podem se considerar afortunados de ter trabalho aqui. Se alguma vez voltar
a sair alguma palavra pela porta, recolhero sua quitao e partiro sem referncias. O teria feito o dia que vieram os guardas, mas com tanta presso sobre a casa,
no tive tempo para procurar substitutos, embora todos vocs encheram at a borda o copo de minha pacincia a estas alturas, estou disposto a suportar as molstias.
Entendemo-nos?
       -S... Sim, senhor.
       -Bem! Se por acaso no est convencido de que estou a par de tudo o que acontece de cima a baixo nesta casa, quero que seja consciente que sei que minhas
particularidades se comentam com regularidade entre vocs. Sei que escutam para alimentar seus rumores. Sei quando o fazem, como o fazem e a quem contam suas intrigas.
Sei que Millie rouba pequenas aves do quarto de caa em suas tardes livres. No tomei cartas no assunto porque temos caa de sobra em Ravencliff, e sou consciente
de que o tem feito para ajudar a que comam sua me doente e seus irmos, porque seu pai, um bom homem ao que eu conhecia e admirava, faleceu.
       "Tambm me chamou a ateno que alguns criados ficam na cama at o meio da manh enquanto os mais novos fazem suas tarefas por eles. Sei que os moos o fazem
por medo de receber uma surra e com a esperana de cobrar uma recompensa quando acabarem. Tambm sei que do poucas recompensas e muitas surras, tanto se as tarefas
se fazem como se no. Isto comeou quando a senhora chegou a casa. O que? Acreditava que estaria to ocupado com minha esposa que no me daria conta? No pense isso
jamais! Sou consciente de tudo o que acontece nesta casa."
       "Sei que havia um compl no andar de baixo para envenenar Nero com o arsnico que os moos usam para livrar-se dos ratos no estbulo. Bom, pois Peters foi
despedido, no  verdade? OH, sim, sei que ele estava por trs disso, e tampouco encontrar um gro de arsnico agora em todo o imvel. Que os ratos se apoderem
deste lugar! E vocs sero os seguintes. Se algum de vocs, que seja, levanta alguma vez um dedo contra esse animal, os colocarei entre grades. Nem ocorra me pr
a prova."
       "Sei que a senhora Bromley e voc desenvolveram um gosto pelos vinhos franceses de minha adega: quando sobe uma garrafa  mesa, por norma geral, saem duas
da adega. Sei que a senhora Bromley e voc bebem juntos, com certa regularidade quando suas obrigaes permitem isso,  obvio.  suficiente com isto ou sigo? A lista
 bastante longa. Poderamos ficar toda a manh."
       -Sim, senhor... Quero dizer no, senhor.
       -Mmm -Grunhiu Nicholas -Estes assuntos so sua responsabilidade, Smythe, de ningum mais. Como mordomo da manso,  sua obrigao para comigo e para com a
casa se assegurar de que tudo funcione corretamente. Faz vista grossa com o das aves. Deixa que a moa as leve, e no me importa que me surrupie um pouco de vinho
em ocasies, sempre e quando no se embebedar enquanto est trabalhando, mas o assunto entre os criados deve terminar, e  voc quem deve det-lo. Se no o fizer,
contratarei um mordomo que possa faz-lo, e se no cessar imediatamente, os criados se vero na rua sem recomendaes. Expliquei-me com claridade?
       -S... Sim, senhor.
       -Assim que a prxima vez que ocorra algo, como o que me acaba de contar da comida, se no vir diretamente a mim, recolher sua quitao. Isto sim pode cont-lo,
gritar aos quatro ventos subido ao telhado, porque todos tm motivos para estar assustados, mas no do Nero. Ele no matou Nell. Sei porque estava comigo quando
ela morreu. H outro... Animal solto pela casa.
       O mordomo conteve o flego.
       -Dois ces, senhor? -Perguntou dando um pulo.
       Nicholas assentiu.
       -No me pergunte como entrou nem de onde saiu. Isso no  meu assunto. H muitas entradas e sadas neste mausolu para que possa as contar. Talvez, inclusive
um de vocs possa t-lo deixado entrar, acreditando que era Nero. Parecem-se muito, o suficiente para parecer irmos. Eu mesmo fiquei impressionado quando os vi
juntos.
       -Senhor, eu nunca imaginei...
       -Me diga algo, Smythe, ameaou-o Nero alguma vez?
       -Claro que no, senhor. Quer dizer, alm de aparecer em momentos inesperados e nos dar um susto, sempre foi muito cordial. At que o senhor Mallory atirou
nele, claro. Aps se comportou de forma estranha em ocasies.
       -Tornou a ver o senhor Mallory desde que ocorreu isso, Smythe?
       -No, senhor -O mordomo ofegou -Ao ver que no o encontrvamos, demos por feito que finalmente tinha recuperado o sentido e que voc havia o voltado a envi-lo
para fora, por algum assunto. Est acostumado a passar mais tempo fora que em casa.
       -Mmm -Murmurou Nicholas.
       Aquele monte de preguiosos no tinha procurado com verdadeiro afinco. Mas talvez fosse melhor assim.
       -O senhor Mallory foi despedido -Disse -Mas alguns de seus pertences ainda continuam aqui. Em caso de que volte para busca-los, quero saber imediatamente.
No terminamos precisamente bem. No tomei bem que bebesse at perder o controle, tentasse incomodar a minha esposa e disparasse em meu co.
       -Sim, senhor.
       -Bem, h alguma coisa mais, Smythe?
       -S que necessitamos uma nova donzela para a senhora, senhor -Disse o mordomo -A senhora Bromley est extenuada tentando reunir suas tarefas cotidianas com
a assistncia  senhora, embora a senhora tenha sido mais que gentil dispensando-a. Mas no  justo que deixemos que ela se arrume sozinha a maior parte do tempo,
especialmente agora.
       Nicholas franziu o cenho.
       -Estou de acordo, Smythe. Pode dizer  senhora Bromley que teremos uma nova donzela assim que capturemos o animal que matou Nell e nos ocupemos dele. No
trarei uma nova criada a esta casa at que seja seguro faz-lo. Pode ser que esse seja o incentivo que faltava para que o servio se implique na busca. Avise a todos
abaixo de que h outro animal perambulando por Ravencliff, que  perigoso e no devem aproximar-se dele, que se o virem devem me dizer imediatamente. No quero que
nenhum de vocs faa nada que possa os pr em perigo, mas se virem esse animal, quero sab-lo imediatamente. Fica claro?
       -S... Sim, senhor.
       -Podem se armar, mas tomem cuidado de no disparar no Nero. Ele nunca os ameaaria. O pobre animal j recebeu um tiro. Se agirem com precipitao, respondero
diante mim.
       -Muito bem, senhor -Disse o mordomo -Mas, o que fazemos com o da comida?
       Nicholas revirou os olhos e deixou escapar um profundo suspiro.
       -Se Continuarem alimentando o animal, permanecer escondido. Deixem de lhe dar comida! Fechem com chave a despensa e o quarto de caa! No deixem sobras na
cozinha! Pelo amor de Deus, homem, usa a cabea! Estou tentando fazer com que morra de fome para que saia, e vocs esto enchendo seu estmago. Voc no  bom da
cabea, Smythe. Usa o crebro que Deus te deu.
       -S... Sim, senhor -Murmurou o mordomo.
       -Muito bem, ento. Se no tiver nada mais, pode partir, mas  bom que estejam preparados. O mau tempo vai terminar, por fim. Amanh far bom tempo, e podemos
contar com que os guardas venham em bando para completar a busca. Depois destas notcias, direi que comecem pelos quartos dos criados. No preciso te dizer que fiscalize
que tudo esteja como deve ser a abaixo.
       -N... No, senhor. Quero dizer sim, senhor -Gaguejou o mordomo.
       -Muito bem, ento vamos -Concluiu Nicholas voltando a centrar-se no livro de contabilidade.
       Escreveu trs letras e deixou outra vez a pena a um lado. Colocou sua dolorida cabea entre as mos. Aquilo era insuportvel. Estava ficando louco ao pensar
na deciso que tomaria Sara, tinha perdido a f nos experimentos do doutor, e agora isto. No tinha sentido tentar ocupar-se de nada at que encontrassem o animal.
       Abriu a gaveta de seu escritrio e tirou a pistola carregada que guardava a. Ficou de p e saiu a toda pressa do escritrio.


  Captulo 27


       Nicholas no desceu  sala de caf da manh na hora de comer. Rondou pelos passadios sem nenhum resultado at que o crepsculo acabou com a luz e depois
retornou a sua sute envolto em teia de aranha, coberto de limo e p e com pouqussimo tempo para arrumar-se para o jantar.
       -Odeio mentiras -Grunhiu submerso at o pescoo em sua banheira cheia de gua aromatizada pelas ervas.
       -No pode dizer a verdade, senhor -Assegurou o ajudante de cmara.
       -Que suas habitaes estejam juntas s minhas tem suas desvantagens, velho amigo -Lamentou Nicholas -Se te alojasse escada abaixo com o resto do servio,
isto no teria acontecido. Teria visto como davam de comer a esse maldito animal. Todo este tempo perdido. Maldio!
       -Quer que ocupe um dos quartos de baixo, senhor, ao menos at que tudo isto tenha terminado?
       -E lhes dar assim mais motivos para que falem? No, Mills. Necessito que fique onde est. Alm disso,  muito tarde. O dano j est feito. Acredito que coloquei
o suficiente medo para que no voltem a fazer algo parecido.
       -Sim, senhor.
       Nicholas deu um forte murro  gua, dando banho em Mills no processo.
       -Por que Sara no se decide? -Perguntou.
       Aquilo era o que realmente o preocupava. No podia pensar em outra coisa.
       -Posso comentar que no saiu fugindo da casa a gritos como voc predisse, senhor? Eu tomaria isso como um bom sinal.
       -No acredito que os guardas deixem sair a ningum at que tenham completado sua investigao. Poderemos nos considerar afortunados se no chamarem  Polcia
de Bow Street. Cometeu-se um assassinato!
       -Foi um animal, senhor. Bastou com o testemunho do doutor...
       -Sim, sim, sei, Mills, mas pode acreditar quando te digo que se lanariam sobre ns, como uma matilha de ces sobre um coelho, caso de que algum tentasse
sair de Ravencliff agora.
       -De acordo, senhor -Assegurou o ajudante de cmara -Faa todos os comentrios desfavorveis que quiser, mas o fato  que no partiu da casa, nem parece que
tenha inteno de faz-lo. No tem mais que ver a forma em que se encarregou de todo o assunto do funeral. Controlou-o de uma forma que me deixou impressionado.
       -No quero pression-la. Disse que lhe daria tempo, mas j se passaram quatro dias, Mills. Quanto tempo necessita?
       -Est claro que mais de quatro dias, senhor.
       Nicholas elevou as sobrancelhas e seus lbios formaram uma careta de exasperao. Mills reagiu lhe jogando um balde de gua morna por cima da cabea, e Nicholas
se sacudiu como um co, jogando mais gua sobre o ajudante de cmara.
       -No tem por que me afogar! -Espetou Nicholas.
       -Tem graa que o diga, senhor, quando estou mais molhado que voc -Respondeu Mills baixando o balde -Tome cuidado. Tem que tranquilizar-se. Agora no  o
momento de que Nero vague livremente pela casa, com a metade de seus ocupantes levando armas que quase no sabem usar. Devemos fazer todo o possvel para que permanea
como est e no apresentar nenhuma chance, senhor.
       Nicholas suspirou.
       -Ningum voltou a ver Alex desde o tiroteio -Disse -L em baixo acreditam que eu o tinha enviado para trabalho fora. No parece que v transformar-se de novo,
se j no o fez a estas alturas, isso diz o doutor. Lancei o rumor de que o demiti por sua conduta, mas que ainda tem algumas coisas aqui e quero saber imediatamente
se apresentar para recolh-las.
       -Sbia deciso, senhor -Disse o ajudante de cmara -Como vo essas sesses?
       Nicholas encolheu de ombros.
       -Nero no tem aparecido desde que me deixou naquela sala oculta.
       -Isso  um bom sinal -Assegurou Mills segurando a toalha enquanto ele saa da banheira.
       -Breeden diz que se continuar assim, logo estarei preparado para tentar me transformar por vontade prpria.
       -Mas essa  uma notcia excelente, senhor! -Gritou o ajudante de cmara.
       -Pergunto-me se... Imagina que no consigo-Replicou Nicholas -Ou pior, suponha que eu consiga e depois no seja capaz de voltar a mudar, como Alex. Sou um
pouco resistente a tent-lo.
       -Eu no aconselharia que levasse a cabo nenhum experimento at que os guardas tenham terminado, senhor -Opinou o ajudante de cmara -Eles continuam pensando
que foi Nero quem matou  moa.
       -Em qualquer caso, no estou preparado Mills. Em minha cabea h muitas coisas. Alm disso, quem sabe se o que est fazendo o doutor servir de algo?
       -No corrigiu seu problema de confiana, senhor -Observou Mills -E at que solucione esse assunto, temo que nada ir a seu favor: nem os esforos do bom do
doutor nem a deciso que a senhora tome. Desculpe que fale com tanta sinceridade, mas esse  seu maior defeito. J disse muitas vezes que no pode esperar confiana
cega dos outros quando voc no est disposto a entrega-la. Talvez agora comece a se dar conta de quo absurda  essa ttica.
       -Contei a Sara a verdade, no  assim? -Espetou Nicholas.
       -De m vontade e depois ela que o viu transformar. Espero que no tenha sido muito tarde. Disse desde o comeo que deveria considerar cont-lo, para que sobreviva
o amor, tem que existir confiana, senhor. O amor murchar e morrer na vinha sem ela, disso pode ter certeza.
       -Ento  um perito neste tema, no? -Censurou Nicholas.
       -Digamos que aprendi com meus enganos, senhor, e queria lhe economizar to dolorosa lio.
       Era impossvel para Nicholas imaginar Mills apaixonado. Perguntou-se quando isso teria acontecido. E entretanto, a julgar pelo olhar ausente nos frgeis olhos
do ajudante de cmara, no duvidava de que tinha ocorrido. Mills nunca mostrava suas emoes.
       -Agradeo -Disse Nicholas com um suspiro -Mas j sabe que minha situao no  algo que possa "confiar" a qualquer um. Acredito que Sara  provavelmente a
nica mulher do pas em que posso confiar sem temor. Tem honra e  ntegra apesar de sua juventude. Nunca conheci uma mulher como ela.
       -Nem nunca a conhecer -Assegurou Mills -Voc est aprendendo, senhor. Mas recorde que todas as lies tm um preo. No  muito pedir um pouco de confiana,
tendo em conta o que voc est pedindo tanto  senhora quanto ao mdico.
       Era tarde, e Mills ajudou Nicholas a colocar seu traje noturno, que consistia em calas negras, casaco bordado de cor borgonha. Quando colocou o leno no
pescoo com o complicado n oriental que estava de moda aquela temporada, Nicholas correu escada abaixo para acompanhar Sara a sala de jantar. Tinha a esperana
de encontrar algum sinal que pusesse fim  tempestade e tranquilizasse sua mente. No houve nenhuma.  exceo das mnimas frases de cortesia, no trocaram nenhuma
palavra entre eles.
       Durante o jantar, Sara se mostrou alegre e se envolveu em uma conversa com o doutor Breeden, mas no se dirigiu diretamente a Nicholas nem o olhou nos olhos.
Quando ele tentou provocar uma resposta, ela respondeu sucinta e educadamente, mas isso foi tudo.
       Era a imagem da beleza embainhada naquele vestido de musselina amarelo adornado com pequenos laos de seda verde. O cabelo, recolhido para cima, brilhava
sob o halo da luz das velas. J no ficavam sinais do pranto que tingiram suas bochechas nem tinha os olhos inchados nem vermelhos, como tinham mostrado com tanta
frequncia durante os ltimos dias. Eram de um azul claro como a gua, como o cacho transparente de uma onda do mar, e s um delicado rubor tingia as bochechas.
O que no ficava claro era se isso significava que j tinha superado a tristeza ou se j no se importava, e a alma Nicholas caiu aos ps.
       Depois do jantar, quando a acompanhou a sua sute, fizeram-no em silncio. Ele no tentou surrupiar nada. Lutou contra todos seus instintos, que gritavam
que a estreitasse entre seus braos, que afundasse os dedos no brilho dourado de seu cabelo e voltasse a saborear, outra vez, aqueles lbios suaves como ptalas
de rosa. Nicholas se manteve firme na soleira, inclinou-se enquanto a porta se fechava em sua cara e retornou a sua sute, onde o doutor Breeden o esperava.
       Como o tempo era curto, tinham pulado o costume de tomar brandy na sala de visitas depois do jantar durante alguns dias, e o tomavam na salinha da sute do
baro. Apesar de sua vida de ermito, Nicholas tinha conseguido, at ento, manter seus rituais. Mas, dadas as circunstncias, isso j no era possvel. Ao mdico,
no parecia importar. Mostrou-se que disposto, estava to ansioso por solucionar seu problema como o prprio Nicholas. Em qualquer caso, tinha decidido seguir o
conselho de Mills, e enquanto o mdico e ele tomavam o brandy antes da sesso, isso foi o que fez.
       -Devo confessar algo -Comeou a dizer agitando o brandy dentro de sua taa -No fui justo com voc, doutor. Mills me fez ver isso faz um momento. Peo desculpas.
No h desculpa para esbanjar o tempo de outro homem, mas vivi tanto tempo na desesperana que no me pus completamente em suas mos.
       -OH, isso j sei -Assegurou o mdico - lgico no que me concerne.
       -Alm disso, tambm tenho um medo atroz de pr minhas esperanas nisto e que acabem frustradas aqui e agora, quando h tanto em jogo...
       Nicholas sacudiu a cabea. No foi capaz de terminar a frase.
       -Digamos que seria como tomar um horrvel tnico de sabor repugnante para descobrir que foi em vo ao comprovar que no funciona, no ? -Disse o mdico.
       -Dito suavemente -Respondeu Nicholas rindo sem humor.
       -Mas  certo -Disse o mdico -No deve reprovar-se nada, baro. Estamos tratando com uma doena que a cincia mdica no quer sequer reconhecer que existe,
e vive sob uma presso que nenhum homem deveria suportar. Sinceramente, no sei como o suporta, mas o faz. Eu gostaria de estudar isso. Desafia toda a razo.
       -Desenvolve-se certa... disciplina como consequncia desta... Afeco -Explicou Nicholas -Mas no posso me atribuir o mrito.  parte do processo e, ou se
ajusta a suas exigncias ou sucumbe. Logo aprendi que se quisesse sobreviver tinha que me fortalecer; construir uma concha ao meu redor para que uma parte de mim
pudesse viver com certa normalidade, se  que isso pode existir. Acreditei que tinha conseguido, at que a senhora chegou. Agora vejo quo vazia estava essa concha,
e no serei capaz de rastejar de volta a ela depois de saborear o que perdi da vida.
       -Estou aqui para fazer tudo o que esteja em minha mo para me assegurar de que no tenha que voltar -Afirmou o mdico.
       -Ento devo fazer mais para ajud-lo em seus esforos -Disse Nicholas -Mills diz que me falta confiar nos outros, quando eu exijo deles essa confiana. Tem
razo,  obvio. Sempre a tem. Confessei tudo  baronesa, embora Mills me culpe por no t-lo feito desde o comeo. Agora eu gostaria de tentar me abrir mais a seus
tratamentos. Se puder demonstrar a Sara que ao menos sou capaz de controlar as transformaes, talvez isso ajude. OH, no sei, doutor, mas vou tentar com mais afinco.
       -No existe uma soluo rpida para controlar sua doena. O que se requer  estar aberto e em um estado relaxado.
       Nicholas soltou uma risada calma como resposta.
       -J sei que  muito pedir dadas as circunstncias, senhor, mas  necessrio. Recorde que estamos navegando por guas desconhecidas e mal comeamos a sondar
as profundidades. Quando entre aqui para as sesses comigo, deixe o mundo fora durante esse breve espao de tempo.
       -Farei tudo o que esteja em minhas mos para que assim seja -Assegurou Nicholas -Mas enquanto estou aqui, preso com voc, a baronesa est vulnervel, desprotegida,
e sinceramente, a julgar por passadas experincias, no posso confiar nela. Com isso pesando sobre minha mente e a ameaa de um lobo metamorfo vagando por aqui...

       Apesar do banho quente e aromtico que a senhora Bromley tinha preparado, Sara no podia dormir. Vestida com a camisola e o neglig cor marfim, caminhava
de sala em sala, de tapearia em tapearia, como um animal enjaulado, observando as obras de arte, fixando cada ponto na memria, perguntando-se o que teria acontecido
com as novas tapearias que supostamente Alexander Mallory deveria trazer de Londres. Qualquer coisa para tirar da mente o autntico problema. Mas foi intil. O
tema das formosas tapearias penduradas trouxe Nero  memria, e pensar em Alexander Mallory desenhou a imagem de outro lobo e a crua realidade de que seu marido
era um metamorfo. As ramificaes daquilo foram alm da imaginao e, entretanto, eram reais.
       Tinha Nicholas sofrido o suficiente? No, ainda no. E ela? OH, sim, disso no tinha dvidas. Seria capaz de seguir suportando o castigo? Serviria de algo?
Certamente no, mas queria que o baro Nicholas Walraven pensasse duas vezes antes de voltar a negar sua confiana; se  que ficava,  obvio. Isso ainda estava por
decidir-se.
       A ira tinha secado as lgrimas; ira por Nicholas ter permitido que descobrisse seu segredo de uma maneira to traumtica, ira por si mesma por ter se apaixonado
to desesperadamente por aquele homem. Que duro tinha sido ignorar seus olhares suplicantes, fazer caso omisso da tristeza daqueles hipnticos olhos de obsidiana 
que a devoravam, que chegavam at a alma e derretiam o corao. A nica maneira de faz-lo era evitando totalmente seu olhar. Tinha-o feito pelo bem de Nicholas, 
e tambm pelo seu prprio, porque no ficaria ali onde a haviam enganado, mas tampouco podia partir. Era uma lio dura que tinha que aprender. Nicholas tinha que 
ganhar seu amor com confiana, e ela precisava estar segura de que no voltaria a engan-la jamais.
       No que se dizia respeito a Sara, seu acordo, tal e qual estava exposto, ficou anulado no corredor escuro que havia fora da estreita sala cravada nas vsceras 
da manso de Ravencliff. Agora tinha que ser tudo ou nada, e ela acreditava que tinha ganhado o direito de estabelecer as normas. Aqueles tinham sido os quatro dias 
mais compridos de sua vida. Seria suficiente? Nicholas teria aprendido a lio?
       Sara se aproximou da janela. L fora, as estrelas piscavam na abbada de cor azul. No havia lua, ou ao menos ela no podia v-la de onde estava, embora umas 
lentejoulas de prata feitas de luz de lua danavam de forma inquietante sobre a gua negra como tinta, que estava calma, pela primeira vez desde que Sara tinha chegado 
 costa. Tratar-se-ia de um pressgio? E nesse caso, do que? Significava que o perigo tinha passado, ou no era mais que a calma antes de outra tempestade? Em qualquer 
caso, ao olhar o cu, ficava claro que os guardas chegariam pela manh. Um profundo suspiro a fez baixar os ombros, e depois de um instante, afastou-se dali.
       Caminhando pelo vestbulo da salinha, observou a pistola que Nicholas tinha dado e que estava sobre a mesinha ao lado da porta. E se disparava com ela ao 
lobo errado? No. No se arriscaria. A pegou com cautela e a deixou na gaveta da mesinha, para evitar qualquer tentao.
       Voltou a caminhar, mas um rudo no corredor deteve seus passos. Eram umas pegadas sonoras e cansadas que no pretendiam mostrar sigilo. Sara se aproximou 
da porta nas pontas dos ps e apoiou a orelha contra a madeira para escutar. Os passos se detiveram fora. Sara conteve o flego, mas ele no. Ao outro lado da porta, 
Nicholas esvaziou seus pulmes tal e como ela tinha feito.
       Os olhos se encheram de lgrimas ao escutar aquele som. Piscou para cont-las. Depois de um instante, os passos voltaram a soar pelo corredor. Ento se escutou 
um clique suave e metlico quando a porta da sute verde se fechou do outro lado,  provocando um calafrio na coluna vertebral. Havia algo definitivo naquele som. 
Algo evidente que a encheu de terror. Algo que formou um n na invisvel corda que se estendia entre ela e o homem que amava mais que sua prpria vida apesar daquele 
pesadelo.
       Algo que se no agarrasse e ento segurasse com fora com as duas mos, se perderia para sempre.
       Sara saiu precipitadamente de sua sute e cruzou o trecho de corredor atapetado que os separava, com passos ligeiros e rpidos, e entrou com ele.
  
       
  Captulo 28
  
  
       A invisvel lua tecia tambm sua magia na sute verde, jogando um facho de luz prateada atravs das janelas sobre as quais danavam bolinhas de p. Sara avanou 
com os ps descalos pelo vestbulo sem fazer nenhum som e entrou no quarto. Nicholas no a viu a princpio. Estava de costas para ela. Tirou a jaqueta, o leno 
do pescoo, o colete e a camisa, e estava nu da cintura para cima ao lado da janela, olhando para o jardim.
       Que os ombros largos tinha, que cintura estreita. Parecia uma esttua ali de p, com a luz da lua brincando sobre sua pele nua e projetando sombras ao longo 
da fenda de sua espinha, reta como uma flecha, criando um brilho de prata sobre as calas de seda negra que no deixavam nada  imaginao na zona de suas apertadas 
ndegas e as bem torneadas coxas.
       Nenhum enchimento rodeava aquelas pernas. Sara recordava que seu pai sim fazia uso daqueles truques, tal e como faziam os homens que no estavam to dotados 
para tratar de adaptar suas menos agraciadas figuras na moda do momento. Tampouco havia nenhum espartilho que mantivera em seu lugar o estmago plano e bem musculoso 
de Nicholas. Ela tinha se apoiado, nua, contra aquele corpo duro e esbelto. Tinha conhecido a suavidade de seu peito coberto de suave pelo contra seus seios. Havia 
sentido a fora de Nicholas, a firmeza de seu sexo apertado contra ela, a disciplina que o mantinha controlado e que fazia com que todos os tendes de seu corpo 
se endurecessem como cordas de ao e que cada msculo se contrasse e relaxasse contra ela como se estivessem a ponto de arrebentar.
       O mero fato de v-lo ali, de p, despertava o desejo, preparava-a para a consumao de uma paixo que nem sequer conseguia compreender. A nica coisa que 
sabia era que Nicholas a alagava com um calor estranho e proibido; proibido porque uns sentimentos assim, to intensos, tinham que s-lo. Aquele calor mido e abrasador 
que se apoderava de seu sexo em sua presena era algo escandaloso que faziam suar as mos e tremer o corpo com deliciosos calafrios, apesar do calor que sentia por 
dentro. S poderia deixar de tremer envolta naqueles braos fortes. S o aroma animal de Nicholas, adoado pelas ervas e refrescado pelo sal marinho poderia dar 
uma razo para respirar. S a presso de sua boca abrindo seus lbios poderia acalmar seu insacivel desejo de sabore-lo profunda e completamente.
       No podia nem imaginar que outros prazeres guardavam aquele corpo. E, entretanto, apesar de desejar aqueles prazeres mais que tudo no mundo, uma voz interior 
esteve a ponto de convenc-la a sair dali to sigilosamente como tinha entrado. Mas isso foi at que Nicholas inclinou a cabea e passou ambas as mos pelo cabelo 
antes de deix-las cair ao lado do corpo. Era um gesto de derrota, e todas as defesas de Sara vieram abaixo, tal qual a postura de Nicholas.
       -Nicholas... -Murmurou com uma voz que mais parecia um sussurro, embora ressoou no meio do silncio como um trovo.
       Seu marido deu a volta a tal velocidade para olh-la que ela s viu uma imagem imprecisa, como a que tinha visto no passadio quando Nero saltou pelos ares 
e Nicholas apareceu nu diante de seus olhos. Como um dj vu, ficou fascinada. A respirao ficou retida na seca garganta. Estava ardendo por ele.
       Durante um instante, Nicholas no se moveu. Seu olhar de obsidiana a devorava. Brilhava com a luz que refletia as sombras. No parecia real, estava contra 
a luz no dividido feixe da ilusria luz da lua que se derramava a seu redor. Parecia como se brilhasse atravs dele, como se fosse um espectro ali, de p, olhando-a 
fixamente, disposto a desaparecer em uma neblina etrea se ela respirava e rompia o feitio.
       O momento pareceu prolongar-se eternamente. Ento voltou a movimentar-se e a alcanou em duas grandes passadas que pareceram mais animais que humanas. Agora 
Sara reconheceu aquela energia animal que sempre tinha estado ali, na forma em que se movia, espreitava, aparecia e caminhava. Era uma reminiscncia da encarnao 
de Nero, ou animal e homem eram uma mesma criatura separadas unicamente por uma mnima distncia sobrenatural, ou pelo batimento de um corao palpitante?
       Nicholas guardou silncio durante um instante. Deslizou os olhos por ela com anseia ctica de um homem morrendo de sede que temesse que o osis diante de 
seus olhos no fosse mais que outra miragem, um truque visual para atorment-lo. Sara no podia suportar olhar-se neles. Nicholas aspirou seu aroma com as fossas 
nasais muito abertas, quase como um co, como um lobo, com seu aristocrtico e reto nariz elevado e aqueles olhos fixos e enlouquecidos finalmente ocultos. Gemeu 
como se estivesse em transe e voltou a abrir os olhos, bebendo-lhe com eles.
       Atraiu-a para si com mos tremulas, envolvendo-a, estreitando-a entre seus fortes braos. Voltou a gemer e Sara passou os braos ao redor da sua cintura, 
apertando-o ainda mais contra ela.
       - real -Sussurrou Nicholas -No estava seguro. Conjurei-te em minha mente tantas vezes que tinha medo de que no fosse mais que outra apario que tinha 
vindo me atormentar.
       -Sou completamente real -Assegurou ela -Mas durante um instante vi voc do mesmo modo, como um fantasma na escurido.
       -Isto significa que j se decidiu? -Perguntou com voz tremula.
       -Significa... Que te amo -Replicou Sara olhando-o a nos olhos - Isso escavou meu sentido comum, minou meus escrpulos e derrotou minha determinao.
       Nicholas a estreitou mais contra si, segurando seu rosto contra o suave pelo de seu torso. Sua pele queimava sob sua bochecha, o corao pulsava com fora, 
num ritmo rpido, em seu ouvido.
       -Significa que o desejo que sinto por voc  to grande, que no tenho vergonha -Murmurou Sara em meio a soluo contido.
       Nicholas elevou seu rosto at que seus olhares se cruzaram. Eram lgrimas aquilo que havia em seus olhos e brilhava na escurido? Os olhos de Sara tambm 
estavam empanados ao olhar nos seus.
       -No ter medo? -Perguntou Nicholas.
       -Medo?
       -Se ocorresse alguma coisa do que se lamentar, como o que aconteceu no passadio -Murmurou ele roando a testa com os lbios, que estavam ardentes e secos 
-Saberei com suficiente antecipao para me distanciar, mas de todas formas...
       -Por que teria medo? -Disse Sara -Amo os dois, e resisto a pensar que algum de vocs me faria mal.
       Os pulmes de Nicholas exalaram o ar em uma rajada de quentes e midos sussurros contra seu rosto, seu cabelo, seu arqueado pescoo. Sara no podia entender 
suas palavras, s o significado que continham, o absoluto alvio do som daquele amor ancestral que os unia e que os atava tambm ao momento.
       Nicholas segurou sua cabea entre suas grandes mos e tomou seus lbios, abrindo a boca, intensificando o beijo com uma lngua sedutora que atraiu  sua. 
Aquilo provocou entusiasmo em Sara, tal como tinha acontecido no passado, e afundou a mo na suave seda de seu cabelo, segurando-o com fora at que seus trmulos 
lbios se separaram, midos e ofegantes.
       -Esta com frio -Murmurou Nicholas contra sua boca -Est tremendo.
       -No tremo de frio -Sussurrou ela. Seus lbios ainda se tocavam -Nunca havia me sentido assim.  como se me derretessem os ossos.
       Nicholas tirou o resto de seu elegante traje, jogou a roupa sobre o div, onde estavam as demais coisas, e parou nu diante dela. Desatou os laos que fechavam 
seu neglig e o deslizou pelos ombros. Depois fez o mesmo com a camisola, at que essa caiu a seus ps formando uma nuvem.
       O feixe de luz de lua, que agora brilhava com mais fora, derramava-se sobre eles atravs dos vidros das janelas. Nicholas estava excitado, seu sexo a roava 
enquanto deslizava as mos pelos ombros, pelos braos, e chegava at seus seios. Enquanto os acariciava, passou os polegares pelos mamilos, despertando nela um suave 
gemido que a levou a aproximar-se mais. Nicholas percorreu em crculos o contorno de cada mamilo com um dedo, acariciou-os at que se fizeram mais altos, aproximando-se 
das pontas cada vez mais, levando-a a borda do xtase mediante uma deliciosa tortura quando seus lbios desceram primeiro sobre um deles e depois sobre o outro. 
Nicholas os acariciou com a lngua, mordiscou-os suavemente. Ela estremeceu de prazer, cada terminao nervosa de seu corpo tremia de desejo, de antecipao pelo 
que aqueles dedos peritos e aquela lngua cruel iam fazer a seguir.
       - deliciosa -Ofegou Nicholas enquanto sua quente respirao acariciava sua pele mida -Tem sabor de creme doce e rosas. No me canso de voc.
       O sexo de Sara ardia em chamas, estava mido e inchado, palpitando de excitao. Nicholas pegou sua mo e a guiou ao longo de sua grosa virilidade, que estava 
quente e dura e ao mesmo tempo era sedosa ao toque.
       Sara ficou sem respirao enquanto respondia a suas carcias, assim como tinha acontecido no passado; s que agora era como se Nicholas fosse outra pessoa. 
J no estava contendo-se. Era dela.
       De repente, pegou-a nos braos, tirou de seu caminho a camisola e o neglig e a levou para cama. Retirou a colcha e a colocou entre os lenis, subiu a seu 
lado com um movimento que a deixou sem respirao e a estreitou entre seus braos. Nicholas se movia com fluidez. Nunca mudava o passo. Seus lbios no se separavam 
dos seus. Suas mos no paravam de acarici-la, explor-la, lev-la a borda do arrebatamento que Sara temia, a derreteria at a alma.
       No era nenhum aficionado; tratava-se de um amante experiente. O corao de Sara comeou a pulsar um pouco mais rpido. Nem sequer estava muito segura do 
que se esperava dela. Como ia proporcionar prazer? De repente no havia nenhuma iminente ameaa, nenhum lobo assassino espreitando nos corredores de Ravencliff, 
nem guardas que apareceriam de repente com as pistolas carregadas. Eles eram as duas nicas pessoas que havia sobre a terra, e o prazer de Nicholas era o nico que 
importava a Sara. Se ao menos fosse o suficientemente experiente. Ou o suficientemente segura de si mesma. Se tivesse a capacidade de proporcionar o prazer que estava 
dando a ela.
       A mo tremula de Nicholas deslizou pela curva de sua coxa e depois continuou subindo. Seus dedos sondaram aquele canto oculto que havia entre suas pernas, 
que ardia, pulsava e procurava suas carcias. Nicholas recuou e a olhou nos olhos.
       -Tem certeza? -Perguntou.
       -Sim -Assegurou ela mantendo o negro olhar, aqueles olhos escuros que agora estavam dilatados e esquadrinhavam seu rosto.
       -Os lobos tm uma nica companheira para toda a vida, Sara -Disse com voz grave.
       -Sei, Nicholas...
       Ento ele a estreitou com mais fora contra si enquanto respirava em forma de um longo e agitado suspiro.
       -Voltaremos a ver o Nero? -Sussurrou ela no ouvido.
       No havia voltado a v-lo desde o incidente. Tinha que sab-lo.
       Nicholas sorriu, e Sara sentiu como se o sol sasse em seu corao. Por um lado parecia um moo travesso, e ao mesmo tempo escondia um rastro de seduo. 
De suas fossas nasais abertas saa uma respirao quente, e tinha os olhos entreabertos e brilhantes pelo desejo. Aquela combinao provocava tremores na alma.
       -s vezes -Disse ele beijando as bochechas, a testa e o pescoo arqueado enquanto falava -Acredito que... Ama mais a... Esse animal... Do que me ama....
       -E de quem  a culpa? -Perguntou Sara dando um golpezinho brincalho no brao -Entrava sigilosamente em minha sute, deixava que te alimentasse com a mo, 
lambia-me a mo, a face. Deixou que transformasse o Nero em meu mascote e que substitusse os ces que tanto tinha amado e que tinha perdido.
       -Era a nica maneira que tinha de te tocar, de estar perto de voc, sentir a fresca suavidade de seus dedos na testa, aspirar seu aroma. Se acha que isso 
no era um tortura para mim, pensa-o de novo.
       -No pode estar com cimes de voc mesmo, Nicholas. No tem nem ideia das vontades que tinha de te tocar desde o primeiro dia, quando estendi a mo e voc 
se jogou para atrs para se afastar de mim, e me disse que no queria que te tocasse.
       -Se tivesse permitido que me tocasse ento teria presenciado ali mesmo em meu escritrio o que viu quatro dias atrs, Minha Sara. Assim que pus os olhos em 
voc pela primeira vez soube quo absurdo tinha sido meu "acordo".
       -Ento eu ca de amores por Nero -Continuou ela -Ele enchia o oco que a perda de meus ces tinham deixado em meu corao. Tinha outra vez um mascote, e foi 
ele quem recebeu o afeto que tanto desejava entregar a voc, e o teria feito se tivesse deixado, Nicholas. Eu me senti muito sozinha. Via a tortura pelo que estava 
passando e morria por te consolar. O estranho  que tambm vi essa tortura em Nero, e no respondeu a minha pergunta. Voltarei a v-lo outra vez? Para mim sempre 
foram e sempre sero duas entidades diferentes.
       Nicholas a atraiu ainda mais para si.
       -Antes do que voc gostaria, se no tomar cuidado -Murmurou tomando os lbios com sua boca faminta.
       Depois de um instante, essa boca foi descendo, seguindo a curva de seu pescoo, detendo-se no pulso que pulsava ali, buscando com a lngua a fora vital que 
bombeava atravs dela. Sara fechou os olhos e gemeu enquanto ele abria suas pernas e comeava a acariciar entre elas uma vez mais. Tocou-a com delicadeza e rapidez, 
afundando-se mais profundamente a cada carcia. Sara arqueou o corpo contra sua presso, procurando no sabia o que at que chegou: uma e onda abrasadora de palpitaes 
que atravessou seu corpo. Umas lnguas de fogo gelado se moveram por seu interior como as ondas de umas guas tranquilas depois de que uma pedra rompe a superfcie.
       De repente, Nicholas retirou a mo e a encheu com seu sexo. O gemido que surgiu de sua garganta enquanto se deslizava em seu interior sobre o orvalho de seu 
primeiro despertar parecia tirado de sua alma. No tinha controle sobre ele. Chegou de forma inesperada, por sua prpria vontade, combinando com o gemido da ressecada 
garganta de Nicholas, enquanto sua boca se fechava sobre seus trmulos lbios. Aquela mistura de sons ressonava atravs do corpo de Sara. Era seu corao aquele 
que pulsava to grosseiramente? Ou era o de Nicholas? Ou eram ambos os coraes pulsando, estremecendo o um contra o outro?
       Os duros seios delas estavam afundados na seda do pelo do peito de Nicholas. Foi como se acendessem, e um novo prazer percorreu o sexo como lava lquida enquanto 
se movia ao ritmo de suas investidas. Como a enchia. Com que perfeio se ajustavam. Perdida numa tempestade de fogo de enlouquecedor xtase, rendeu-se a cada matiz 
de seu amor. Seu corpo ficou malevel em suas mos, respondendo  febre de seu sangue.
       Teria que ter havido dor, mas no foi assim. Sara a esperava, preparou-se para suport-la, mas nunca chegou. S sentiu a presso de seu sexo, a delicada fora 
enquanto se movia dentro dela como umas ondas geladas e ardentes que deixaram fora a dor, qualquer pensamento e toda razo, deixaram fora tudo menos a certeza de 
Nicholas. Mas no era s ele. J no eram duas pessoas independentes. Eram um. Aquilo era o que a transportava, o que a elevava e aproximava cada clula do corpo 
dele ao seu, levando jorros de fogo lquido.
       Tudo tinha lugar naquele momento breve, mas eterno. Haviam-se acasalado para sempre. Era como se o mundo inteiro contivesse a respirao. Naquele mgico momento 
de consumao j no havia ameaas nem perigos, s amor.
       Infelizmente, foi muito passageiro. De repente, Nicholas se esticou contra ela. A disciplina retornou, e se retirou de seu corpo antes que sua transbordante 
vida pudesse alag-la com a quente rajada de sua semente. O que fez foi pr a mo de Sara em seu sexo e gritar seu nome enquanto chegava ao xtase.
       Subitamente sua respirao passou de ser rpida e superficial a emitir uns sons profundos e estremecedores. Tinha a testa banhada de suor, e a deixou cair 
sobre o ombro de Sara, atraindo-a para si, afundando a mo em seu cabelo.
       -Por que fez isso? -Murmurou Sara.
       -O que disse, o disse a srio. -Nicholas ofegou e tirou um leno debaixo do travesseiro que ps na mo de Sara -No posso me arriscar a transmitir este pesadelo. 
Deve terminar comigo. No tem por que ser assim sempre. Breeden conhece algumas solues. Deve falar com ele. Em qualquer caso, no podia fazer nada esta primeira 
vez. Sinto muito, Sara...
       -s vezes o que mais tememos se transforma no menor de nossos medos quando tudo termina -Murmurou ela.
       -s vezes sim, mas no nesta ocasio. Sara, deve confiar em que eu sei o que  melhor para ns. Amo-te. No permitirei que sofra ao ser me de uma criatura 
como eu, e no castigarei com semelhante legado um pobre inocente, no o condenarei a uma vida como a que eu me vi obrigado a levar s porque meu pai tinha que ter 
seu maldito herdeiro.
       -At agora -Sussurrou Sara -To terrvel  agora? Est fazendo progressos, Nicholas. O doutor est comprometido com a tarefa de te ensinar a controlar suas 
transformaes. Quando tiver aprendido, poderia ensinar a seu filho a fazer o mesmo se fosse necessrio. No  assim?
       -Shh -A sossegou ele.
       Agasalhando-a na colcha, atraiu-a para assim e roou a tmpora com os lbios. Eram lgrimas aquilo que brilhava em seus olhos? Desejava beij-las para sec-las.
       -Dorme, minha Sara -Murmurou Nicholas com voz rouca.
       Ela no disse nada mais. Aquele no era o momento. Nicholas estava afogado pela emoo, e ao parecer, tentando evitar sofrer uma transformao ali mesmo. 
De repente tudo esteve muito claro, como se tivesse acendido subitamente uma vela em seu nublado crebro. No era que Nicholas no quisesse ter um filho. O que ocorria 
era que no se atrevia a desejar t-lo. Tinha construdo um muro ao redor de sua alma e seu corao que queria completar porque pensava que ele mesmo nunca estaria 
completo. Estava claro. Aquele era a tortura que tinha visto nos olhos do homem e do lobo desde o comeo. No o tinha reconhecido at agora, e mordeu o lbio at 
que sangrou, para evitar romper a chorar.
       Aconchegou-se mais perto, apertou-se contra Nicholas, deslizando os dedos pelo suave pelo de seu peito. O corao dele estava calmo agora. Uns batimentos 
suaves e compassados cavalgavam sobre a agitada respirao. Sara tinha a pele do rosto ainda mida e ruborizada; o corpo comprido e esbelto de Nicholas estava apertado 
contra ela e ainda ardia pelo calor de sua unio.
       -No me deixe nunca, Sara -Murmurou ele contra a testa.
       Ela no respondeu, limitou-se a atra-lo com mais fora para seus braos. No havia necessidade de palavras. Seu corpo falava em voz alta com mais eloquncia 
do que poderiam t-lo feito seus lbios.
       Ento Nicholas suspirou e ela comeou a deslizar-se para o sono seguindo a msica de sua profunda respirao, seguindo o subir e descer de seu peito, como 
se sua cabea fosse um navio navegando pelas suaves ondas de um calmo mar. L fora, o autntico mar tambm respirava profundamente. As ondas lambiam a praia, formando 
espuma sobre as rochas e os montculos, sussurrando nas poas criadas pela mar, murmurando entre os grupos de pedras, as baas e os cantos ocultos.
       A voz do vento se sossegou. O dia seguinte seria bom. Sara no queria pensar nisso. Vivia o aqui e o agora, aconchegada entre os fortes braos de seu marido, 
escutando a sinfonia do homem e da natureza, permitindo que a arrastasse em espiral para baixo, mais abaixo, para o que podia ter suposto ser um sono perfeito se 
no tivesse sido por uma persistente pergunta que seguia espreitando o corao. Como podia conseguir que uma vida habitasse dentro dela? Como poderia completar Nicholas? 
Aquele era seu nico desejo.
       Despertou  manh seguinte sobressaltada com o rangido e o estrondo de um trovo ressoando pela praia e a brilhante luz do sol alagando o quarto. Como podia 
ser possvel? Levantou-se de repente sobre a cama revolta, esfregou os olhos para livrar-se do sono.
       Nicholas no estava ao seu lado. O corao deu um tombo. O rastro que seu corpo tinha deixado na cama de plumas e no travesseiro ainda continuava ali. Quando 
a tocou estava fria. Onde tinha ido? Quando a tinha deixado? Que horas seriam?
       O trovo voltou a soar. Agora parecia mais estrondoso, mas era devido ao eco. As mudanas na climatologia do mar amplificavam o som ao longo da praia. Os 
homens gritavam agora e se escutou o rudo de mais troves. Sara ficou olhando fixamente a manh brilhante que filtrava atravs dos cristais, lanando brilhos pelas 
janelas, e escutou outro rangido e outro estrondo. No! No eram troves, eram disparos!
       Levantou-se na cama cobrindo o corpo nu com a colcha. Tremia a pesar do quente sol que se filtrava pela janela. Era como se um punho de gelo tivesse agarrado 
sua espinha, paralisando-a ali onde estava sentada. Sua camisola e o neglig estavam ali perto, no cho, onde Nicholas os tinha deixado. Estava a ponto de recolh-los 
quando algum bateu com urgncia  porta, deixando-a outra vez paralisada. Antes que pudesse responder, abriu-se e Mills entrou precipitadamente.
       -Peo-lhe desculpas, senhora -Exclamou -Sua Senhoria...?
       -No... No est aqui -Gaguejou ela.
       O rosto do ajudante de cmara era da cor da cinza, e seus entrecerrados olhos, cinza, brilhavam. Sara no o tinha ouvido elevar a voz jamais antes.
       -Meu Deus, Mills, o que est acontecendo?
       -Sabe onde foi, senhora? -Insistiu o ajudante de cmara.
       -No. Acabo de despertar, e ele no estava aqui. O que aconteceu?
       Os olhos do ajudante de cmara oscilaram entre a pilha de roupa que havia sobre o div e as botas de Nicholas, atiradas de qualquer maneira no cho.
       -Isto  o que usava Sua Senhoria ontem  noite durante o jantar -Murmurou como se estivesse pensando em voz alta -Eu mesmo o vesti.
       Procurando no armrio, encontrou o robe de Nicholas e o tirou dali com um grunhido.
       -O que ouve, Mills? Importaria me dizer por favor o que est acontecendo?
       -Vieram os guardas, senhora -Assegurou ele -Encurralaram um lobo na praia.
  
       
  Captulo 29
  
  
       Sara no perdeu tempo vestindo-se. Envolvendo-se em sua roupa de noite, saiu correndo para a sute das tapearias, colocou rapidamente o vestido de musselina 
listrado, o primeiro que encontrou quando abriu o armrio, e se cobriu com o casaco. Os corredores estavam vazios, mas teria dado no mesmo embora estivessem abarrotados 
de criados; correu escada abaixo e depois pelo corredor do primeiro andar at chegar  entrada de servio e saiu  plataforma.
       Abaixo, o som dos disparos, de balas de pistola ricocheteando sobre a rocha de granito, ressoando por cima do resto arrancou um grito dos lbios. Isso fez 
que Mills desse a volta enquanto enfiava para os degraus de pedra com a capa de Nicholas pendurado do brao.
       -No, senhora, no... Volte por onde veio! -Gritou fazendo-se ouvir por cima do som do vento, que tinha levantado de repente e do qual desprendia um profundo 
aroma de sal -Aqui no  seguro. Deixe que eu me ocupe, imploro!
       -Deixar que jogue isso sobre seu corpo depois de que o tenham matado, quer dizer? -Gritou assinalando a capa enquanto corria para ele -Prefiro que o jogue 
sobre o meu!
       Durante um dcimo de segundo, viu o brilho do ao sob a capa e se deteve sobre seus passos. Mills estava armado.
       -O que pretende fazer com isto? -Exclamou com voz rouca assinalando a pistola.
       -Senhora, por favor! Retorne a casa e deixe que eu me ocupe deste assunto.
       -Vai atirar neles?
       Sua voz aguda ressoou em seus prprios ouvidos, amplificada pelo vento.
       -No h tempo para isto, senhora. O suplico, retorne  casa!
       -Vai faz-lo! Meu Deus vai faz-lo! -Gritou Sara lanando-se a pela pistola.
       Mills a manteve em seu lugar com mo firme.
       -Se for necessrio, sim -Assegurou -Isto  algo que concordamos, caso acontecesse uma situao assim, senhora. Devo atirar. Feri-lo, nada mais, antes que 
eles o faam. No se transformar imediatamente; o impacto do tiro o evitar, e posso lev-lo de novo para dentro antes de acontecer e evitar o que eles fariam se 
o capturassem vivo, ou o que veriam se o matam. No, senhora! Solte a pistola! No quero machuc-la. Poderia ser o senhor Mallory que est ali, e se for assim, vou 
necessitar dela! No deve interferir!
       -Meu Deus! -Gemeu Sara -Como poder distinguir a diferena? Poderia... Poderia...
       O pensamento era muito terrvel para express-lo com palavras.
       -Confie em mim, saberei -Assegurou Mills -Isso tambm est acertado. Solte senhora!
       Era intil. O ajudante de cmara estava segurando a arma com fora. Seu olhar deu asas aos ps de Sara, que soltou um gemido, saiu disparada para o extremo 
do quebra-mar e comeou a descer para chegar  praia que ficava abaixo.
       A praia estava abarrotada de guardas que corriam atropeladamente pela areia disparando suas armas. O aroma de enxofre da fumaa das pistolas invadia o vento, 
penetrando por suas fossas nasais at que seus olhos se encheram de lgrimas. Sua posio, a meio caminho dos degraus de pedra, proporcionava uma viso clara. Os 
guardas convergiam para a pequena cova na qual ela tinha encontrado a roupa de Nicholas. Uma viso de cabelo negro e prateado estava tentando chegar  cova. Havia 
muita distncia, e eles estavam aproximando.
       -No! -Gritou precipitando-se a toda pressa para baixo.
       Agora no tinha Mills e o doutor atrs dela. Onde tinham se metido? No importava. Levantando as saias, tirou os mocassins de pele marroquino, o casaco porque 
pesava e correu pela areia compacta da borda do mar. Ia mais leve que aqueles que estavam na frente dela, e os ultrapassou com facilidade, ignorando seus gritos 
pare. Nero estava ainda ao alcance das pistolas. Por que tinham parado? Sara engoliu seco. O corao pulsava a toda pressa e os pulmes ardiam pelo sal.
       Estava retornando! Estava correndo para eles!
       -No, Nero, volta! -Gritou Sara colocando-se na linha de fogo.
       Soaram mais disparos, quando uma das balas impactou sobre ela, levantando-a do cho. Ocorreu to depressa que a princpio no sentiu dor quando deu a volta. 
A praia parecia estar ao contrrio, a areia e o cu inclinados diante sua nublada viso enquanto caa no cho em um enrugado vulto de musselina rasgada e anguas 
de cambraia branca.
       Um assobio penetrante e agudo escutou por cima do estouro. Onde estava Nero? Por que no podia v-lo? Tinha-o tido muito perto. Uns passos retumbando sobre 
a areia compacta reverberaram atravs de seu corpo enquanto muitos rostos convergiam ao redor dela, todos desconhecidos exceto o do doutor Breeden, que abriu caminho 
atravs de outros homens ali reunidos e se ajoelhou a seu lado. De repente, uma tremenda dor atravessou suas costas e ombro e Sara gemeu.
       -NE... Nero? -Perguntou com voz suplicante.
       Mas no escutou a resposta do mdico. Algo tinha bloqueado o sol, os rostos e o murmrio de vozes discordantes. A dor era completamente insuportvel agora. 
Sentiu arcadas. Uns pequenos pontos brancos nublavam a viso. E depois desapareceram. O cu ficou negro, e a ltima coisa que escutou foi o profundo e lastimoso 
uivo de um lobo que foi sossegando-se com o vento.
  
       Nicholas estava sentado descalo no div da salinha da sute das tapearias. Tinha a cabea entre as mos. Levava postos as enrugadas calas de seda negra
e a camisa de algodo egpcio que tinha jogado na noite anterior sobre o div da sute verde. Do outro lado da porta fechada que dava ao quarto, o doutor Breeden
e a senhora Bromley atendiam a Sara. Naquele momento o tempo o era tudo e no era nada, s transcorria. Tinham-no afastado da cabeceira de Sara; prisioneiro em sua
prpria casa, quando ela poderia estar morrendo.
       Nicholas no tinha nem ideia do tempo que tinha transcorrido quando Mills irrompeu no vestbulo. Nem sequer elevou a vista; tinha os olhos to cheios de lgrimas
que no teria podido enfocar a imagem do ajudante de cmara em qualquer caso.
       -Os guardas se foram, senhor -Disse Mills -Todos exceto o capito Renkins, quero dizer. Est esperando notcias da senhora na sala de convidados.
       -Malditos! -Exclamou Nicholas furioso golpeando-as joelhos com os punhos apertados.
       - um milagre que no tenham levado voc com eles -Repreendeu Mills -Quase acaba com o capito. E comigo!
       -Acha que voltaro?
       -No voltaro, senhor. No haver mais caada de ces na praia depois do que aconteceu hoje, mas sem dvida o capito o perseguir at descobrir o que acontece.
Disso pode estar completamente seguro. No se esqueceu que voc disse que no havia nenhum animal no imvel. Nunca saberei por que no o tinham detido, acusado de
agresso. Deve controlar-se! No posso seguir fazendo isto. Estou muito velho para me interpor e o segurar como quando era um moo. No estou em condies de faz-lo,
especialmente com este brao intil e aleijado. Amanh estarei rgido como um cabide. E ento, quem se ocupar de voc?
       -Atiraram em minha esposa, Mills! -Recordou Nicholas.
       -Mas miravam em Nero -Particularizou o ajudante de cmara -O que te passou pela cabea para voltar? J estava quase na cova. Poderia t-los perdido entre
as rochas e ter retornado a casa pelo velho caminho, atravs de qualquer dos tneis dos contrabandistas, e teria tempo de sobra. Igual  ltima vez que ficou apanhado
na praia, quando escapava da senhora. Mas no! Correu direto para a linha de fogo. Nunca vi nada igual, por um instante pensei que, talvez, tivessem encurralado
ao outro lobo, depois de tudo. Assim de absurdo era o que estava fazendo!
       -Estava tentando proteg-la. Ps-se deliberadamente em perigo tentando me proteger. E no teria chegado  cova. Acabava de chegar quando eles abandonaram
a busca. A teriam encontrado, e teriam seguido direto at chegar  manso, e sem dvida teriam topado comigo. Meu Deus, ela acreditava que no iam atirar, e deram
um tiro nela!
       -O lobo tentando fazer o trabalho do homem, no ? -Disse Mills -Bem, agora v quo absurdo foi, senhor. Que Deus me perdoe, que espcie de "tratamento" est
dando esse homem? Seu sentido comum tinha sido sempre infalvel at que comeou a experimentar com voc.
       -No se trata de minha cabea, e no  culpa do doutor -Grunhiu Nicholas -Nunca antes tinha estado apaixonado -Assinalou com um gesto o quarto -Mas o que
ocorreu no foi completamente culpa minha tampouco, Mills -Assegurou -Por que diabos a deixou descer? Por que no a deteve?
       -Det-la, senhor? -Resmungou o ajudante de cmara apertando os dentes e soltando uma risada sem humor -Nem uma manada de elefantes selvagens poderia t-la
detido. Viu a pistola e tentou tir-la das minhas mos. Tive que lhe contar o que tnhamos acertado, mas isso s serviu para piorar as coisas. Lutou contra mim como
uma tigresa at que chegou o doutor correndo e ento ela se lanou a toda pressa para a praia.
       Nicholas deixou a cabea cair entre as mos e passou os dedos pelo cabelo. O ajudante de cmara se afastou arrastando os ps e, depois de um instante, voltou
a aproximar-se.
       -Tome -Disse oferecendo uma taa de brandy meio cheia -Beba isto, senhor. Tem um aspecto terrvel.
       Nicholas deu um sorvo  taa, mas o clique da porta do quarto abrindo o fez girar a cabea, ficou em p de um salto, devolvendo a taa a Mills e espalhando
seu contedo pelo peitilho do at ento impecvel colete branco do ajudante de cmara.
       A senhora Bromley entrou na salinha caminhando como um pato, com expresso sombria e os olhos cheios de lgrimas. Levava um vulto de roupa de cama branca,
cheio de sangue, apertado contra o avental. Quando abriu a porta, um gemido surgiu do quarto e Nicholas se lanou para frente, tropeando com a mulher na soleira
enquanto tentava passar.
       Mills deixou a taa de repente sobre a mesinha auxiliar e segurou Nicholas com fora pelo brao. Nicholas no prestou nenhuma ateno enquanto tentava rodear
a governanta e entrar no quarto.
       -Saa de meu caminho, senhora Bromley! -Ordenou.
       -Peo desculpas, senhor -Disse a governanta -O mdico diz que no pode entrar at que o chame.
       -Tenho que saber! -Insistiu Nicholas -Tenho que v-la. Est sofrendo, mulher, maldio. No est dando nada para acalmar a dor? Eu disse que se afaste!
       -No, senhor! -rogou o ajudante de cmara-. A ltima coisa que precisamos, agora mesmo,  que fique louco. Precisa acalmar-se para evitar que... Para evitar
mais danos.
       Nicholas leu nas entrelinhas, mas no se importava; os gemidos de Sara eram mais do que podia suportar. Ele era quem os tinha provocado, e ia ficar louco
se no pudesse v-la com seus prprios olhos, abra-la, acarici-la, dizer que seu sacrifcio no tinha sido em vo.
       -Traga sua bebida, senhora Bromley -Pediu Mills em um  parte  governanta enquanto tentava sem xito tirar os dedos de Nicholas dos braos da mulher -Solte-a,
senhor! Est dificultando tudo.
       -Por que no administraram uma dose? -Bramou Nicholas.
       No queria machucar  mulher, mas Por Deus que se no o deixasse passar...
       -No pode tomar mais ludano -Assegurou a governanta -Tomou suficiente para pr em perigo sua vida. Vou preparar uma de minhas beberagens. Por favor, me deixe
passar, senhor, estamos fazendo tudo o que podemos.
       -Est... Ela vai...?
       -No sabemos ainda, senhor. Por favor, me deixe passar!
       -O deixem entrar! -Bramou a voz do mdico do quarto -S tenho mos para atender um paciente agora mesmo!
       Mills o soltou e Nicholas entrou aos tropices pela porta do quarto, correu para a cama e caiu de joelhos ao lado de Sara.
       Parecia muito pequena ali deitada entre as colchas, com o cabelo como ouro fiado estendido em leque sobre o travesseiro. Nicholas pegou suas a mo e a beijou.
       -Sara, pode me ouvir? -Murmurou esquadrinhando aqueles olhos frgeis e ausentes que pareciam olhar atravs dele -No me reconhece, doutor! -Exclamou desesperado.
       -No reconheceria nem a prpria me depois da dose que lhe administrei -Assegurou o mdico -No pode ficar aqui, baro. Vai fazer mais mal que bem. Se quiser
que termine meu trabalho e ajude a continuar, deve partir e me deixar.
       - muito grave? -Perguntou Nicholas cravando a vista nas bandagens ensopadas de sangue que o mdico estava aplicando na ferida exercendo presso.
       -A bala no chegou a atravess-la de tudo -Respondeu Breeden -Se alojou perto da artria. Tirei-a, mas perdeu muito sangue e agora devo limpar e cauterizar
a ferida. No pode estar aqui quando o fizer, ou Nero voltar a fazer sua apario.
       Nicholas olhou para o atiador que estava colocado nas chamas da lareira e sentiu como se esticava o couro cabeludo.
       -A senhora Bromley acendeu o fogo -Disse o mdico -S estou esperando que haja suficiente calor para fazer o trabalho.
       -E depois...? -Murmurou Nicholas.
       -Devemos esperar -Respondeu o doutor -A febre  nosso inimigo agora. Deve confiar em que faremos o que possamos. Vive. Depois do que acaba de passar, acredite
se disser que  um bom sinal. E agora, por favor, suplico-lhe que nos deixe.
       -No o compreende -Murmurou Nicholas contra os frios dedos que tinha apertados nos lbios -Tudo isto  minha culpa. Levei isso para cama, e passei por isso
sem... Me transformar, mas depois no pude cont-lo. Ela estava profundamente adormecida quando aconteceu. Nero deveria ter ficado a seu lado. Deveria ter se aconchegado
perto da lareira e deixar que o encontrasse ali quando despertasse, mas no... Tratei de pass-lo correndo pela praia, e ento chegaram os guardas. Se ao menos ela
no tivesse descido... Se ao menos...
       -Se no o tivesse feito, voc estaria morto. No poderia ter se esquivado deles, eram muitos. Teriam-no matado com um disparo e teriam descoberto seu segredo,
porque ao morrer teria transformado outra vez. Pense nas repercusses disso, senhor, e d graas aos cus de que ela fez o que fez. Onde voc foi? No o vi. Estava
atendendo  senhora.
       -Todo mundo correu para a baronesa -Disse Nicholas -Mills assobiou e Nero obedeceu.  um sinal que combinamos para o caso de emergncia. Mal consegui chegar
ao tnel antes de voltar a trocar. Vesti-me e voltei o mais rpido que pude.
       -E quase consegue que os guardas o levem preso. O que o possuiu para lanar-se contra eles dessa maneira?
       -O que teria feito voc se fosse sua esposa que jazia estendida em um atoleiro de sangue na praia? Como teria enfrentado o bastardo que tinha disparado a
pistola e que estava ali de p, boquiaberto e indignado, cuspindo toda essa merda de que s estava "cumprindo com seu dever"?
       O mdico deixou escapar um profundo suspiro nasal.
       -Certamente o mesmo -Disse -Mas eu no sou um metamorfo. Est pensando com o corao, no com a cabea. Os homens que fazem isso em situaes assim costumam
terminar mortos. Neste assunto deve centrar-se em manter o controle, ou estragar tudo o que tnhamos conseguido. Tanto se d conta como se no, as arrumou para
controlar a transformao at um ponto, e sob as piores condies possveis. Eu a isso o chamo progredir.
       -No estava pensando para nada nisso -Assegurou Nicholas.
       S podia pensar em Sara, to quieta, to plida e to longe de seu alcance embora sua mo segurava a dela como um cordo umbilical, em uma tentativa desesperada
de insuflar vida com o nico poder de sua vontade.
       -Como  que se transformou to depressa nesse tnel, baro?
       -Tinha que faz-lo! -Exclamou ele -Tinha que sab-lo. Temia que estivesse morta!
       O mdico assentiu.
       -Ento fez um esforo por voltar a transformar-se -Disse -Poderia ter feito algo assim quando eu cheguei a esta casa? No precisa responder. Recordo o que
ocorreu quando o prendemos em seu provador e quando a senhora o meteu naquela sala estreita. Poderia ter se transformado de volta em alguma das duas ocasies? Acredito
que no, baro. No o atribua  sorte. Agora quero que saia daqui, descanse, e deixe que eu me ocupe disto.
       -Sabe que no vou faz-lo, doutor. No partirei desta sute at que saiba que vai viver.
       -Faa o que queira, mas sim sair deste quarto -Disse o mdico.
       A senhora Bromley entrou levando uma bandeja com ataduras limpas de linho, antissptico e vrios remdios mais.
       -Espere onde queira e como queira, mas no voltar a cruzar esta soleira at que eu o chame. E agora v e deixe que tente terminar com isto enquanto ela esteja
ainda muito drogada para sentir o pior da dor.
       Nicholas ficou de p cambaleando, lanou um ltimo olhar para sua semi inconsciente esposa e saiu dando tombos do quarto como se estivesse bbado. Mills o
esperava na salinha e ofereceu a habitual bebida. Nicholas a bebeu de um gole e comeou a percorrer toda a longitude do tapete persa.
       -Tem que se acalmar e descansar -Assinalou o ajudante de cmara -Se aproxima do inevitvel tal e como est, e no pode permitir-se que acontea aqui e agora,
com o capito da Guarda farejando por aqui.
       Nicholas se deteve sobre seus passos.
       -Poderia morrer, Mills -Assegurou -Se isso acontecer, pode estar seguro de que Nero arrancar o pescoo de seu capito da Guarda!
       No disse nada mais. Andou de cima abaixo rondando durante todo o dia, vigiando de perto a porta do quarto, mas permaneceu fechada. No se escutaram mais
rudos dentro, e a senhora Bromley no voltou a sair. Era um bom sinal? No havia como saber. Se ao menos um deles sasse e dissesse algo...
       Smythe foi vrias vezes  sala de convidados diante a insistncia de Nicholas para tentar convencer o capito Jenkins de que se fosse, mas o homem se negou
a partir, o que s serviu para enfurecer Nicholas mais e mais. O mordomo retornou com a notcia de que o capito no estava disposto a partir at que soubesse como
se encontrava a baronesa Walraven, dado que era sua bala a que a tinha abatido, mas aquela era a ltima das preocupaes de Nicholas. Do outro lado da enorme porta,
sua esposa sofria estendida no que bem poderia ser seu leito de morte, e tudo por sua culpa. Aquilo punha sua prudncia  prova, e Nero aguardava sob a superfcie
para fazer sua apario.
       Quando o crepsculo acabou com a luz e Mills acendeu as velas, Nicholas no pde seguir suportando-o. Aproximou-se da porta do quarto a grandes passadas e
gritou:
       -Breeden! Em nome de Deus!
       Depois de um instante, o mdico saiu  salinha e fechou a porta atrs de si. Gasto e plido, aspirou com fora e cravou os afiados olhos sem brilho no crculo
de luz da vela.
       -Est...? -Gemeu Nicholas.
       -Est resistindo -Replicou o mdico -Tem febre, mas os remdios da senhora Bromley esto se encarregando disso. Saberemos mais pela manh.
       -Est consciente? -Perguntou Nicholas.
       O doutor negou com a cabea.
       -No, baro, e isso  uma bno. O temos que agradecer ao ludano, aos remdios de ervas da senhora Bromley e ao fato de que seja uma mulher sadia, jovem
e forte.
       -Quero v-la -Disse Nicholas -Tenho que v-la!
       -No pode incomod-la. Precisa descansar.
       -No a despertarei, doutor. O suplico. S um momento... S isso.
       O mdico vacilou.
       -Suponho que no teremos paz at que consinta -Disse -Dois minutos. Nenhum mais.
       -Feito -Disse Nicholas passando na frente dele para entrar no quarto, enquanto a governanta saa levando mais ataduras de linho e uma bandeja vazia.
       Sara estava muito plida. Parecia um fantasma na suave penumbra. Nicholas engoliu em seco para acalmar o rpido batimento de seu corao e apoiou um joelho
no cho, ao seu lado, tomando sua mo como tinha feito antes. E assim como antes, estava fria e sem vida. Sara respirava agitada e superficialmente, e Nicholas se
girou para o mdico, que estava ao seu lado.
       - a febre -Explicou o doutor.
       Nicholas se inclinou para aproximar-se e sussurrou ao ouvido:
       -Estou aqui, Sara, e eu... Tudo ficar bem. Volta para mim, Sara. Por Deus, no me deixe!
       O mdico lhe agarrou por ombro.
       -Vamos, senhor -Disse -No pode ouvi-lo.
       -Ouvi dizer que as pessoas que esto neste estado podem escutar o que acontece a seu redor -Disse Nicholas -Espero que seja verdade, porque se morre pensando
que no serviu que nada...
       -Acredite, assim que recupere a conscincia eu mesmo direi que no saiu ferido. Tem minha palavra. E agora, v.
       Nicholas ficou de p e ficou olhando para baixo com olhos frgeis.
       -A senhora Bromley foi descansar um pouco -Disse o mdico -Nos alternaremos durante a noite. Se houver alguma mudana o chamaremos imediatamente.
       -No tero que ir muito longe para me encontrar -Espetou Nicholas saindo a toda pressa do quarto para entrar na salinha, onde o esperava Mills.
       -Como est a senhora? -Perguntou o ajudante de cmara.
       -Est viva -Disse Nicholas -No est consciente. Tem febre. No saberemos nada mais at manh.
       -Est em boas mos, senhor -Assegurou o ajudante de cmara -Por favor, v descansar um pouco. Precisa manter o controle.  muito perigoso correr riscos aqui
e agora.
       -Controle, Mills? -Exclamou Nicholas -Se no fazer algo, ficarei completamente louco. V procurar minhas botas e minhas pistolas.
       -O que vai fazer senhor? -Gemeu Mills.
       -Em primeiro lugar vou expulsar daqui o bastardo que est esperando na sala de convidados. Por seu prprio bem, asseguro-lhe isso. E depois vou caar.


  Captulo 30


       Era o vento o que soprava no ouvido? Soava desesperado. Mas era certo que o vento de Cornualha sempre tinha gemido como uma criatura possuda desde a primeira
vez que o escutou sacudir a carruagem no lgubre dia que chegou a manso. Aquilo parecia ter acontecido fazia uma vida. Este vento no tinha movimento, s som. Uma 
pena. Teria sido bom para acalmar a febre que a atravessava. Estava pronunciando seu nome, ou o estaria sonhando?
       Voltou a escutar o som e Sara se agitou. Por que no podia abrir os olhos? Sentia as plpebras pesadas e tudo girava. Tambm havia dor, um desconforto persistente 
nas costas e no ombro. Por que estava colocada de lado?
       Algum gemeu. Demorou um instante para se dar conta de que aquele som procedia de sua prpria e seca garganta. O sussurro se escutou mais forte. No, no 
era o vento, algum estava chamando por seu nome.
       Sara entreabriu os olhos, mas no podia ver nada. Tudo o que havia em sua linha de viso parecia como seda de mar: cheio de ondas, fluido e agitado. Era 
de dia ou de noite? De quem era a mo que tinha na testa, to delicada e fresca? Apoiou-se contra ela e voltou a gemer.
       -Nicholas? -Murmurou.
       De repente, a cama de plumas se curvou com seu peso, e uns braos fortes se deslizaram por seu corpo sem mudar sua posio. Uns lbios frescos roaram a testa. 
Eram muito calmantes sobre sua pele mida e quente. Que sonho to delicioso.
       -Tome cuidado, baro!
       Era aquela a voz de doutor Breeden? Algum mais gritou. Podia tratar-se da senhora Bromley? O que estavam fazendo em seu sonho? Escutou-se outra voz entre 
o resto que ela no reconheceu. Ao princpio no pde distinguir o que estava dizendo. Soava muito longe. Depois, quando ganhou volume, os fortes braos que a estavam 
segurando a soltaram, e o peso do corpo que tinha curvado a cama de plumas, se levantou bruscamente.
       -Isso foi uma maldita estupidez -Disse a voz desconhecida.
       Era uma voz resmungona e vulgar. No gostava. Fazia mal aos ouvidos.
       -Correr desse modo para a linha de fogo -Estava dizendo a voz -"Interferindo" com o dever da Guarda. Ela poderia estar morta.
       -Bem, pode agradecer  Divina Providncia que no esteja -Grunhiu Nicholas -Seu superior ter meu relatrio sobre o ocorrido ali abaixo na praia, disso pode 
estar certo. Que no caiba a menor duvida!
       -Voc nem sequer estava ali, senhor!
       -Mas o vi da casa. Estava descendo para dizer que estavam disparando no animal errado. Isto no vai acabar aqui, Renkins.
       -OH, agora sim admite que havia um co, no  verdade, Walraven? -Bramou o desconhecido -Isso me parecia. Se o tivesse reconhecido da primeira vez que vim, 
no estaramos aqui agora, no ?  sua culpa que a baronesa esteja deitada nessa cama.  como se voc mesmo tivesse atirado nela!
       Escutou-se o som de uma briga, gritos em voz baixa e... Era a senhora Bromley que gritava?
       -Me solte, Mills!
       Nicholas?
       -J basta, senhor!
       -O segurem! -Bramou a voz resmungona -Se me puser uma mo em cima ter que responder diante de um juiz embora seja baro!
       Sara estremeceu e gemeu. Estava desejando que terminasse aquele estranho sonho.
       -H dois animais neste imvel, estpido! -Disse a voz que se parecia com a de Nicholas -Um  meu e o outro  um co vadio com o que estivemos tentando acabar. 
Decidi no cont-lo a primeira vez que passaram por aqui porque no queria me arriscar que fizessem mal ao co errado. Mas isso  irrelevante. Se tivesse se incomodado 
em me consultar antes de sair por a,  boa de Deus, tudo isto teria sido evitado. A senhora sabia que tinham encurralado ao animal errado. Ela pode diferenci-los, 
e como est claro que nem voc nem seus homens so capazes, eu encontrarei e destruirei o animal que matou a minha criada. Voc, senhor,  uma ameaa! Quero-o fora 
de minhas terras.
       -Sabia que viramos -Respondeu o capito -Devia ter pegado a esse co.
       -Devo insistir em que falem disto em outro lugar -Interveio o mdico elevando a voz com tom frio -Esto incomodando a minha paciente.
       Uns passos pesados seguiram a aquelas palavras, levando longe as vozes, embora Sara continuasse as ouvindo discutir e gritar, inclusive depois de que o mdico 
tivesse fechado a porta atrs delas. E ento adormeceu.
  
       Precisaram trs dias e uma reduo gradual da dose de ludano para que Sara recuperasse completamente a conscincia. O capito da Guarda partiu, e Nicholas 
estava sempre ao seu lado apesar da insistncia por parte de Mills e do doutor de que a crise j tinha passado. A febre tinha desaparecido. No havia sinais de infeco, 
nem razo para acreditar que no fosse se recuperar completamente.
       Os unguentos de ervas da senhora Bromley, os cataplasmas e os corantes foram responsveis em grande parte pela recuperao. Os unguentos e os cataplasmas 
de leo de linhaa, folhas de dedalera13 e cardo de leite14 curaram a ferida e acabaram com a dor e o inchao; e as borragem, os corantes de blsamo e o suco de 
groselhas negras recm espremidas acabaram com a febre. Este ltimo, adoado com mel, era o de mais agradvel sabor, mas Sara enfrentou a tudo com alegria apesar 
do quo preocupada estava por Nicholas, que quando se ausentava da sute das tapearias, perambulava por Ravencliff como um possesso com as pistolas carregadas e 
preparadas. At o momento em vo. Foi durante uma daquelas ausncias que Sara decidiu falar com o mdico a respeito de um assunto que s ele podia ajudar a resolver.
       Nunca a deixavam sozinha. Quando o doutor Breeden ia descansar um momento ou levar a cabo algum dos tratamentos de Nicholas, a senhora Bromley a atendia e 
depois Nicholas se alternava com ela. Aquela noite Sara estava sozinha com o mdico, que acabava de trocar a bandagem da ferida.
       -Se continuar melhorando desta maneira, a partir desta manh te permitirei sair da cama a intervalos curtos -Disse o mdico dedicando um de seus escassos 
sorrisos.
       -Doutor -Comeou ela -H algo do que quero falar com voc.  em relao  afeco do Nicholas.
       -Contarei-lhe o que queira sempre e quando no implicar em trair o segredo profissional, baronesa.
       -Isto no deve infringir a confidencialidade -Assegurou ela -Tem mais a ver com a afeco que com o prprio Nicholas.
       -Entendo -Disse o doutor tomando assento na cadeira Chippendale que havia ao lado da cama -Diga ento, no que posso ajud-la?
       Fazer perguntas ntimas no ia ser fcil, mas aquilo era muito importante para permitir que a vergonha se interpusesse em seu caminho, e depois de tudo, ele 
era mdico. E entretanto, o vermelho subiu por suas bochechas, mais quentes que a febre que acabava de superar.
       -A... Afeco sempre se transmite pelo sangue? -Comeou a dizer a pesar do n que tinha na garganta -Quero dizer... Se tivermos filhos...?
       O mdico vacilou.
       -Sua Senhoria no quer correr esse risco, senhora.
       -J sei, doutor. O que pergunto ... Haveria alguma possibilidade de que o beb no fosse... Infectado?  essa a palavra correta? Sou uma ignorante nestes 
assuntos. Tudo isto  muito novo para mim.
       -Simplesmente, no sabemos -Replicou o mdico -Existem muito poucos precedentes nos que nos fixar nestes casos, e a documentao que h no  concludente, 
temo. Essa  a razo pela que Sua Senhoria no quer arriscar-se.
       -No  que ele no queira ter um herdeiro, doutor -Assegurou Sara - que tem medo de desejar um filho. Estou segura disso. Prefere negar o direito  paternidade 
a infringir algo assim a seus descendentes.
       -Assim que isso te disse?
       -No -Disse ela -No houve necessidade. O vi nos olhos, na tristeza que refletem cada vez que falamos disto.
       -Entendo -Murmurou o mdico -Ento falou disso em profundidade, baronesa?
       Sara ficou em silncio. Como ia contar que seu idolatrado marido se retirou de seu corpo para evitar a concepo? Entretanto, Nicholas havia dito que tinha 
que manter esta conversa com o mdico. Assim decidiu comear por a.
       -Sua Senhoria me sugeriu que falasse com voc... Sobre as alternativas -Murmurou.
       -Ah -Disse o doutor - obvio. H vrios mtodos que pode utilizar, por exemplo os unguentos de ervas. Uma adequada combinao de ervas pode ser muito efetiva. 
E depois h artefatos que as cortess utilizaram desde o comeo dos tempos. Algo feito com uma esponja empapada nas ervas das que lhe falei demonstrou ser muito 
confivel h algum tempo. As cortess francesas o utilizam h muitssimo tempo. Aqui ganhou popularidade durante a ltima dcada, mas se pode conseguir facilmente.
       -Que... Antinatural -Murmurou Sara.
       No podia imaginar como se utilizaria semelhante artefato, e no era valente o bastante para pergunt-lo.
       -No h... Outra coisa? -Quis saber.
       -Tem o perodo com regularidade, senhora?
       -Sim...
       -Nesse caso, o espao compreendido na metade de dois perodos seria o momento perigoso, durante o que deveria praticar a abstinncia. Mas os clculos teriam 
que ser precisos, e no h forma de que o sejam. Cada pessoa  diferente. No h um caminho fixo. Sua idiossincrasia fsica  exclusivamente sua, e um ms poderia 
ser completamente diferente do seguinte. H muitas influncias externas que afetam ao ciclo feminino. Isso restringiria drasticamente as condies para uma coabitao 
segura.  o mtodo mais natural, mas o menos efetivo, e se est pensando em sugerir algo assim a Sua Senhoria... -O mdico sacudiu a cabea -Eu no o faria. Implica 
muitos riscos.
       Aquilo no estava indo bem. Sara estava profundamente envergonhada, e no tinha ganhado nada. As lgrimas ardiam nos olhos, mas piscou para evit-las. No 
utilizaria os instrumentos de uma prostituta, e o doutor tinha razo, Nicholas nunca concordaria com algo de natureza to arriscada e imprevisvel. Tampouco ia engan-lo, 
mas no permitiria que continuasse com a soluo que tinha dado ao problema. Era ela a que tinha que solucionar o problema, mas talvez, s talvez, o bom doutor seria 
capaz de gui-la para a direo correta. Isso implicava ser sincera com o homem, e j que tinha chegado to longe...
       -Doutor, talvez deva voltar a expor minha pergunta original -Comeou -Em sua opinio, existe a certeza de que Sua Senhoria transmitiria sua afeco a seus 
descendentes?
       - obvio que no -Respondeu ele -No h nada seguro. Isso  o mais traioeiro deste assunto.
       -Nesse caso, ocorre alguma sugesto em relao  direo que devo tomar para persuadir a Sua Senhoria para que deixe esses assuntos nas mos da Divina Providncia?
       O mdico sorriu.
       -No necessita minhas sugestes para isso -Assegurou -As artimanhas das mulheres sempre tiveram a habilidade de conquistar os homens. Se algo pode ser feito, 
voc  a nica pode obt-lo. Disso estou to certo como de que o sol sair amanh.
       -Quem dera tivesse sua confiana -Disse Sara.
       -Isto  muito importante para voc -Afirmou o mdico com firmeza.
       - vital, mas no s para mim, mas sim para ele, e nem sequer sabe.
       -Explique-se.
       Como ia contar que sentia que as emoes reprimidas de Nicholas estavam desejando liberar-se entre seus braos, e como lutava contra a tentao de render-se 
a aquilo que o transformaria em um homem completo?
       -No estou falando s de agradar meu marido. H muitas maneiras de faz-lo. O que eu quero  algo muito mais profundo. Tem a ver com o esprito e o direito 
que Deus deu para reproduzir-se. No importa como nos amemos, ele nunca estar completo a menos que nos amemos... Completamente.
       -E o que me diz de voc, senhora? -Perguntou o mdico -No est completa?
       -No estamos falando de mim, doutor -Assegurou ela -No  minha plenitude o que se questiona,  a dele. Quero lhe dar isso. No sei como faz-lo, mas sim 
sei que no descansarei at que o tenha conseguido.
       -Conseguir o que? -Disse uma voz profunda e sensual da soleira da porta.
       Aquela voz a atravessou com profundas ondas de fogo lquido. Nicholas se aproximou mais. Seu sorriso inclinado fez com que sasse o sol em sua alma apesar 
da lgubre nvoa cinza que se amontoava contra a janela e a despeito da incmoda conversa.
       -Sair desta cama -Respondeu Sara imediatamente.
       -Doutor? -Perguntou Nicholas ao mdico.
       Breeden assentiu.
       -Se comportar bem pode ser que amanh lhe permita que passe vrios perodos breves fora da cama -Assegurou.
       -Mas isso  uma notcia maravilhosa! -Exclamou Nicholas deixando-se cair na cama a seu lado.
       -Se posso confiar em que se encarregue de que se comporte bem, irei consultar com a senhora Bromley sobre a dose.
       -No se preocupe, est em boas mos -Assegurou Nicholas.
       -Mmm -Grunhiu o mdico -Voltarei em seguida.
       Assim que cruzou a soleira, Nicholas estreitou Sara entre seus braos. Afundou as mos no cabelo e tomou os lbios em um beijo apaixonado que a deixou fraca 
e tremula.
       -Nicholas, estava desejando falar com voc a ss -Disse.
       -Bem, pois agora estamos completamente sozinhos, meu amor -Murmurou enquanto enchia o rosto de beijos suaves.
       -No -Disse Sara resistindo -Digo a srio, Nicholas, temos que falar.
       Aquele era o momento perfeito para tirar o tema dos filhos. No haveria outro melhor. Nunca aceitaria se fosse por ele. Aceitaria por ela? Se fosse verdade 
que no queria viver sem ela, talvez... S talvez...
       -Falei com o Breeden, tal e como sugeriu -Comeou a dizer -E temo que no encontro aceitveis seus... Antinaturais mtodos para acautelar a concepo. Posso 
dizer o que penso?
       Ele deixou cair as mos.
       - obvio.
       Sua voz soou como as unhas deslizando-se por uma parede. Estava se preparando para o que tinha que dizer; isso era evidente. Sua postura adquiriu tenso. 
Os msculos da mandbula pulsavam a um ritmo frreo e firme. Os tendes de seus bceps duros, estirados at o limite de suas foras, mostravam-se visivelmente atravs 
da camisa de algodo. Mas j tinha comeado e agora no havia volta atrs.
       -Amo voc, Nicholas -Disse com voz tremula -E nunca te negarei os prazeres da carne. Nunca. Mas quero te dar filhos, ou ao menos tent-lo, e acredito que 
voc no tem direito a me negar isso.
       -Tenho todo o direito, Sara -Respondeu ele ficando de p -J falamos disto. No posso trazer conscientemente outra criatura como eu a este mundo. No seria 
justo para ela nem para voc.
       -J vi quo pior pode acontecer nesse passadio dali de baixo -Assegurou Sara -Tenho que admitir que essa primeira vez foi todo um impacto, mas se chegasse 
a ocorrer diante de mim neste mesmo instante nem sequer piscaria, porque te amo. Amo-o por inteiro, a ambos. O que te faz pensar que nossos filhos no encontraro 
uma companheira como a que voc encontrou em mim? Por que est to seguro de que nossos descendentes sero sequer afetados, quando nem o prprio doutor pode sab-lo? 
Acha que sabe mais que ele?
       -O que no posso  correr o risco -Disse Nicholas -Se no pode estar seguro de que nosso filho ser afetado, tampouco pode est-lo do contrrio.
       -Pelo que entendi, sua afeco  mais leve que a que padeceu seu pai. Tem lgica pensar que seu filho, se  que chega a ser afetado, seria de um modo mais 
suave. Acontea o que acontecer, no aconteceria o contrrio.
       -Isso no se sabe.
       -No sabemos nada -Espetou ela -Isso  o que quero dizer. Como pode negar minha plenitude se apoiando em meras especulaes? Isso no me parece justo.
       Vacilou. O que tinha pensado dizer a seguir poderia abrir entre eles uma brecha que os separaria por toda vida, ou poderia mudar tudo. No havia forma de 
estar segura. Ele tinha se afastado e estava percorrendo o tapete de cima abaixo.
       -No quer ter filhos, Nicholas? Meus filhos? -Murmurou.
       Ele se deteve em seco e cravou o olhar. Sara no pde ler a mensagem daqueles olhos, ou no quis faz-lo, embora aguentasse o olhar com valentia. Se dissesse 
no de corao, tudo teria terminado. Aquele assunto chegaria a seu fim com uma s palavra. Mas se no fosse capaz de faz-lo, ainda haveria esperana, e Sara conteve 
o flego  espera, agarrando-se a essa esperana durante o que pareceu uma eternidade.
       -Isso no  justo -Disse Nicholas tremendo.
       -Como no? -Perguntou ela -Voc foi injusto comigo desde o comeo, e apesar de tudo te amo. Mentiu de forma descarada, e tambm me escondendo coisas. Colocou 
minha vida em perigo por seu orgulho e sua obstinada falta de confiana. Quero sab-lo. Acredito que tenho direito. Estive a ponto de morrer nessa praia, Nicholas. 
Quando algum se aproxima tanto de sua prpria morte v as coisas de outra perspectiva. No se pode evitar ser sincero com a gente mesmo em uma situao assim. Estou 
te pedindo que seja to sincero comigo como eu fui comigo mesma. E agora, com sinceridade, pode me dizer que no quer filhos, que voc no gostaria, que no os necessita, 
que no tem pacincia para eles ou o que for? Nem meus filhos nem os de ningum?  o nico que te peo. No  uma pergunta difcil.
       Nicholas a alcanou com grande rapidez, sentou-se a seu lado e a estreitou entre seus braos. Tinha os olhos empapados pelas lgrimas, brilhavam em suas largas 
e escuras pestanas, captando brilhos da lgubre luz diurna que se filtrava pela janela. Sara no podia olhar naqueles olhos. Embora ele contivesse as lgrimas, as 
dela dispararam.
       -No posso querer ter filhos, Sara -Murmurou Nicholas.
       Sua respirao clida acariciava a orelha, prendendo fogo.
       -No posso me permitir o luxo de querer o que no posso ter. Essa  a razo pela que fechei a porta a essa possibilidade faz tempo, e por isso no formou 
nunca parte de nosso acordo.
       -J no h "acordo" -Recordou Sara -O cancelou quando consumamos nosso matrimnio. Tudo mudou agora, Nicholas. Somos um. J no  o responsvel somente por 
voc mesmo. Tem que pensar em mim tambm. No  necessrio que me responda agora. Sou consciente de que necessita tempo para pensar. O que estou pedindo  to simples 
como isto: para que me sinta completa como sua esposa, poderia deixar as consequncias de nossa convivncia nas mos de Deus, e me amar como toda mulher tem o direito 
de esperar ser amada por seu marido?
       -Sara...
       -Cada vez est ficando mais e mais perito em controlar suas transformaes com a ajuda do doutor -Continuou ela colocando os dedos nos lbios -Acaso teme 
adquirir a responsabilidade de ensinar a seu filho a superar essa doena se caso for necessrio, tal como voc tem feito? Porque voc vai conseguir, sabe? Pressinto-o, 
sei! Pode chegar a confiar...  o suficientemente valente para pr nosso futuro nas mos da Divina Providncia, no por voc, e sim por mim? Isso  o que preciso 
saber antes de seguir adiante. Olhe em seu corao, Nicholas. Procura nele profundamente. Quando puder responder a esta pergunta, veem a mim.
  
       
  Captulo 31


       Nicholas se arrastou at sua sute para se vestir para o jantar. A entrada da senhora Bromley naquele momento crtico, com a bandeja do jantar, o poupou de
ter que responder  pergunta de Sara, mas nada podia evitar as observaes de Mills. Acaso aquele homem era clarividente? Nicholas estava comeando a pensar que
sim.
       -OH, senhor! -Ofegou o ajudante de cmara -Piorou a situao da senhora?
       -No, Mills, piorou a minha -Espetou Nicholas -Quer que deixe esta loucura nas mos da Divina Providncia e me arrisque a ter filhos.
       -Sim, senhor.
       -Sim, senhor? Isso  o nico que te ocorre dizer, Mills?
       -Sim, senhor -Repetiu o ajudante de cmara -Me surpreende que no tenha sugerido o tema com antecedncia.
       Nicholas ficou olhando fixamente.
       -Est de acordo? -Perguntou boquiaberto.
       -At certo ponto tem razo, senhor -Disse o ajudante de cmara -Tem direito de desejar ter filhos.  uma moa, saudvel e formosa, e tenho a sensao de que
seria uma grande me, do mesmo modo que voc seria um pai magnfico, senhor, apesar desta "loucura". Nunca desejou levar uma vida assim?
       - obvio que sim, antes sim. Antes de tirar isso da minha cabea. No  possvel, Mills. No poderia suportar transmitir isto a um filho, permitir que um
dia se desse conta do que eu tinha feito e me odiasse, tal como me aconteceu no despertar da vida e seus prazeres.
       -Do mesmo modo que voc sempre odiou seu pai pelo que fez, senhor? -Interrompeu o ajudante de cmara -Desculpe-me, mas com a ajuda do doutor tem feito grandes
progressos, e no tenho a menor duvida de que algum dia ser capaz de controlar completamente as transformaes. Ao menos esse  o prognstico do doutor. O que voc
conseguiu fazer, seus filhos tambm podero, senhor, e com menos dificuldade, porque voc j  precedente. Talvez nem sequer tenham que faz-lo. No existem garantias
de que seus descendentes saem como voc.
  "Negar a si mesmo por uma especulao? -Mills sacudiu cabea -Isso  injusto para ambos. Afinal se saiu bastante bem, senhor. Encontrou a sua companheira sem ter
sequer que sair desta priso que construiu. Odiaria o ver perd-la."
       -Perd-la? No posso perd-la, Mills. Como ia viver sem ela agora?
       -Acredito que chegou o momento de lhe contar algo que tem que saber, senhor -Disse o ajudante de cmara -Est relacionado com esse pai ao que tanto odeia
por ter te trazido para este mundo. Seu pai, que Deus o tenha em sua glria, no soube em nenhum momento o que estava acontecendo quando voc foi concebido. Naquele
tempo pensava que tinha uma ferida infectada pela mordida de um lobo que no conseguia curar-se. No o guiava a obsesso por ter um herdeiro apesar de sua afeco,
como voc sempre pensou. Sua me e ele estavam muito apaixonados. Isso me surpreendia, porque muitos de seus contemporneos consentiam em matrimnios de convenincia
para procriar e depois tinham amantes para seu prazer. Nunca chegou a saber que enfermidade tinha, nem muito menos como afetaria a voc. Se tiver que odiar algum,
odeie ao lobo que provocou tudo isto, no a seu pai. Ele foi uma vtima, exatamente como voc.
       -Mas eu sei, Mills! -Soltou Nicholas -E est em minha mo evitar que se faa mais dano.
       -A pergunta , senhor, tem direito a exercer esse poder? E se o exerce, como isso afetar sua relao com a senhora?
       Como aquele assunto tinha chegado a transformar-se em um debate aberto? Sempre tinha sido um tema fechado; a nica parte do acordo que no era negocivel.
Agora o estavam olhando fixamente, e aqueles aos que amava o estavam enfrentando, dois contra um.
       -As coisas so diferentes agora, senhor. -Continuou Mills -J no pode pensar s em si mesmo. D um descanso a sua cabea e olhe em seu corao. O pensamento
racional no serve para nada neste assunto. Se a senhora no tiver escrpulos...
       -Pare velho amigo, pare. H outras meadas que desenredar antes de nos pr com esta.
       A conversa necessitava uma mudana, e Nicholas estava muito esgotado depois de sua conversa com Sara para enfrentar o ajudante de cmara, que sempre tinha
razo; exceto nisto. Disso estava seguro.
       -Temos que encontrar Alex. Ser que todo mundo o esqueceu?
       -Eu, certamente que no, senhor, e suponho que voc tampouco, tendo em conta que percorreu os corredores de Ravencliff com as pistolas carregadas durante
quase uma semana.
       -Bem! Agora me ajude a trocar para que eu possa jantar e continuar com a busca.

       Sara afastou a bandeja para a senhora Bromley. Fez o que devia ao dar um ultimato ao Nicholas? No havia como saber. Se tivesse tido uns minutos mais para
fazer valer seu caso. Se ao menos a senhora Bromley no tivesse entrado naquele exato momento. Tinha perdido o apetite, e a metade da comida ainda estava sob a tampa
da baixela de prata. Esperava que a mulher no olhasse debaixo at que sasse da sute das tapearias; no estava com humor para sermes.
       Era estranho no ter algum pairando sobre ela. No tinha ficado a ss desde que recuperou a conscincia. No tinha medo. Depois de tudo, a porta estava fechada.
No a tinha deixado entreaberta desde que descobriu o segredo de Nicholas. Tampouco havia voltado a ver Nero, e isso a entristecia. Sabia que era uma tolice, mas,
voltaria a ver alguma vez seu querido Nero? Para ela se tratava de duas identidades diferentes: seu marido e seu mascote. Simplesmente, no podia pensar neles como
sendo um. Recordando, suspirou e fechou os olhos.
       Estava a ponto de adormecer quando a senhora Bromley entrou. A governanta se dirigiu diretamente  bandeja de prata e levantou a tampa.
       -Nossa -Disse estalando a lngua -Como vai recuperar as foras se comer como um passarinho?
       -Amanh o farei melhor -Prometeu Sara -O doutor vai deixar que me levante desta cama por um momento amanh pela manh.
       -Ento deveria ter comido um pouco esta noite -Repreendeu a governanta -A cozinheira vai se zangar. Mal provou um bocado.
       -Diga  cozinheira que tomarei o caf da manh muito bem -Assegurou Sara -Estou muito emocionada com a perspectiva de me levantar de novo para comer; cairia
mal no estmago.
       -De acordo, senhora -Disse a governanta recolhendo a bandeja -Descerei com isto e voltarei com seu ch de ervas. Isso sim vai beber?
       -Sim, senhora Bromley. Prometo.
       A governanta caminhou at o vestbulo com a bandeja na mo. Quando abriu a porta, um grito surgiu de sua garganta ao ver a corpulenta figura de um peludo
lobo negro entrando a toda pressa. Atirou-lhe a bandeja, que foi cair no corredor com um estrepitoso rudo de metal, porcelana e cristal. A besta passou pela frente
dela em direo ao quarto.
       -Senhora Bromley? -Gritou Sara.
       Mas os gritos desesperados da mulher foram descendo de intensidade pelo corredor.
       Antes que Sara pudesse piscar, o lobo saltou em cima da cama, abatendo-se sobre ela com os lbios curvados para trs, mostrando as presas. Babava pela lngua
e mandbulas. A pelagem, molhado pela nvoa da noite, cheirava a podre, e a morte, sobre tudo no local condensado sobre a ferida da pata dianteira. O lobo comeou
a grunhir. Sara mal podia respirar. O animal se aproximou mais, exalando seu pestilento flego no rosto, fazendo que ficasse imvel sob a colcha. No podia mover-se.
No o teria feito embora tivesse podido. Os dilatados olhos do lobo eram absolutamente ameaadores. Estava a ponto de lanar-se sobre ela.
       Transcorreram uns minutos que pareceram horas antes que Nicholas entrasse a toda pressa pela porta. O doutor Breeden estava bem atrs dele. Nicholas fez um
gesto ao mdico para que se afastasse.
       -No! -Exclamou -Deixe isto comigo. V procurar Mills. Diga que traga as pistolas e mantenha os outros afastados.
       -Baro...
       -Faa o que disse e fecha a porta ao sair. No vai sair vivo desta sute!
       -Nicholas! -Gritou Sara.
       -Shh, no se mova -Advertiu seu marido em uma voz que ela no foi capaz de reconhecer. Era mais parecido a um latido, algo que surgiu do estreito limite que
separava o homem da besta. Sara sentiu um calafrio percorrendo todo o corpo.
       -Acontea o que acontecer, no se mova!
       No podia; o animal estava virtualmente em cima dela.
       Nicholas tirou a botas e as meias, depois o colete, as calas e a camisa e os jogou no cho. Tirou a cueca e a deixou ali tambm.
       Sara conteve o flego.
       -Nicholas, no!
       - a nica maneira -Assegurou ele -Nos pegou despreparados.
       -A pistola! -Gritou Sara -Est na gaveta da mesa da salinha.
       Nicholas sacudiu a cabea.
       -No arriscarei chegar muito perto de voc -Disse -Ficou louco, Sara. Tenho que tir-lo da cama. No posso faz-lo em forma humana, mas Nero pode.
       -E se te morder?
       -No tem raiva.  a ferida que o est deixando louco. Nunca se curou. Provavelmente essa  a razo pela qual no voltou a se transformar. No pode me transmitir
o que j tenho, mas pode passar isso a voc. Deve fazer exatamente o que te digo!
       -Mills est a caminho! -Gritou ela -Por favor, Nicholas, espera o Mills!
       -Se eu no posso disparar um tiro limpo, como ele vai poder? No! Enquanto voc estiver na cama, no! Encontra-se com foras para sair dela?
       -Se tiver que faz-lo... OH, Nicholas!
       -Ento faa-o assim que o tire de cima, e sai deste quarto!
       Antes que ela pudesse continuar protestando, uma imagem imprecisa de carne, pelagem e tendes atravessou o ar como um raio de prata lquida e se lanou contra
o lobo impactando de lado de modo que Sara mal pde distingui-los. Colidiram com fora, mas no o suficiente para levar o combate ao cho. Ela levantou os joelhos
para afastar-se enquanto os dois animais se encetavam em uma batalha aos ps da cama de quatro colunas.
       Arrastou-se para um lado do colcho. J no estava paralisada sob a colcha, assim tirou os ps por um lado. A vertigem nublou sua viso com pequenos pontos
de luz branca, e o quarto deu voltas a seu redor. Atrs dela, uma bola de grunhidos, rugidos, dentes e msculos tinha mudado, por fim, a batalha para longe da cama.
Babas cobertas de sangue cobriam os lenis, e a colcha estava destruda. Os travesseiros cuspiam penas que flutuavam pelo ar como neve ao redor dos dois lobos,
que danavam sobre suas patas traseiras, abraados em mortal combate.
       Sara no conseguia diferenciar um do outro. Se ao menos no se estivessem movendo to depressa. Se ao menos ela no estivesse to tonta. J estava de p,
e se aproximou cambaleando da lareira vazia para agarrar o atiador. No sairia do quarto como Nicholas tinha ordenado. Se Nero necessitasse de sua ajuda, estaria
ali para dar, mas... qual dos dois era Nero? Ambos tinham a pelagem mida de babas e manchada de sangue. No podia distinguir qual tinha a pata ferida devido  saliva
que os cobria a ambos dos ps  cabea. Os dois pares de olhos brilhavam vermelhos  luz das velas. Os dois tinham as presas nuas, e nenhum se rendia.
       A ferida do ombro havia tornado a transformar-se em uma dor aguda. No se importava. S pensava em pr fim quele pesadelo de uma vez por todas, assim se
aproximou cambaleando deles arrastando o atiador. Pesava muito.
       -Nero! -Exclamou tentando obrigar a que a reconhecesse.
       Mas foi Mills quem respondeu. No o tinha ouvido entrar.
       -Fique onde est, senhora -Disse apontando a pistola enquanto segurava o cotovelo ferido -No se mova. No olhe nos olhos. Deixe que eu me ocupe disto.
       -Esto matando o um ao outro! -Gritou Sara -E se dispara no lobo errado?
       -Confie em mim, senhora. No o farei.
       Sara ficou onde estava, mas j era muito tarde. Tinha chamado a ateno de um dos lobos. Aproximou-se mais dela, e o outro se virou e lanou em cima, jogando-a
sobre o tapete para que no se machucasse.
       -No!-Gritou Sara -No atire! Este  Nero!
       Se um animal podia adquirir uma expresso de desespero humano, isso foi o que Sara viu nos olhos de Nero. Estava tentando afast-la do perigo, mas isso o
fez baixar a guarda, e o outro lobo se jogou sobre seu lombo.
       Girando de lado, Sara tampou os ouvidos numa tentativa desesperada de no escutar os uivos e o alvoroo de sons que ressoava pelas paredes, pelo cho e pelo
teto.
       -Est bem, senhora? -Gritou Mills por cima do barulho.
       -S... Sim. S estou sem flego -Respondeu ela -No atire! Meu Deus, esteve a ponto de mat-lo!
       -Confie em mim, no vou fazer isso -Assegurou o ajudante de cmara -E agora, por favor, afaste-se! Est na linha de fogo! Estou em desvantagem com este brao
intil.
       O tapete persa estava manchado de sangue, espuma e mechas de cabelo. Sara se aproximou, cambaleando, balanando o atiador apesar da advertncia de Mills.
Ambos os lobos estavam outra vez de quatro patas. Endireitaram-se, as patas separadas, as cabeas para cima e as ensanguentadas presas nuas. Emitindo uns grunhidos
guturais, deram voltas em crculos perseguindo-se. Ento um mordeu a pata do outro e se enfrentaram em um novo frenesi de luta, aproximando-se mais e mais de Sara
a cada giro.
       Ela elevou o atiador.
       -A qual? Meu Deus, Mills, a qual?
       O ajudante de cmara levou os dedos  boca. Um assobio penetrante rasgou o ar. Era o mesmo assobio que Sara escutou na praia antes que Nero desaparecesse
e ela perdesse a conscincia.
       -Nero! -Bramou Mills com uma voz to potente que ressoou atravs de seu corpo.
       Um dos lobos respondeu. Foi um ligeira claudicao, um meio giro da despenteada cabea; um brilho de reconhecimento em seus olhos dilatados e injetados em
sangue pela loucura da batalha. O outro se lanou para Sara e Nero se colocou no meio, desviando sua ateno. Aquele movimento saiu caro. A outra criatura cravou
os dentes no pescoo de Nero, lanando-o contra o tapete.
       O gemido de agonia de Nero soou ao mesmo tempo que o grito de Sara. Paralisado pelas mandbulas do outro animal, Nero no podia levantar-se. Ela levantou
o atiador e arremeteu com todas suas foras contra o lobo que o tinha segurado mortalmente com as presas. Bateu entre os olhos. Aturdido, o animal cambaleou, sacudiu
a cabea e soltou Nero para voltar-se para ela de novo. Sara gritou. As mandbulas ensanguentadas do lobo se fecharam sobre sua camisola, esquivando apenas porque
se afastou a tempo enquanto dava outro golpe com o atiador. Estava esgotada. Desta vez no tinha tanto equilbrio e falhou. Lanando um rugido aterrador, Nero se
incorporou e se lanou sobre o lombo do outro animal. Escutou-se um tiro. Um dos lobos caiu aos ps de Sara. O outro uivou, deu a volta e caiu de joelhos ofegando
antes de saltar pelos ares e surgir de novo em forma humana.
       Nicholas estava nu diante dela com a mida pele coberta de sangue, muito sangue. Sara no podia distinguir qual era dele e qual pertencia ao tremulo animal
que exalava seu ltimo flego sobre o tapete. Deixou cair o atiador e correu para seus braos.
       -Tem a camisola destroada! -Ofegou Nicholas -Me diga que no te mordeu, Sara!
       -N... No, no o fez, Nicholas -Murmurou ela.
       Os olhos de Nicholas a olhavam de forma enlouquecida e selvagem, esquadrinhando o rosto e o corpo uma e outra vez, como se no acreditasse.
       -S estou esgotada -Murmurou forando um sorriso.
       Ele a estreitou com mais fora contra si em um enorme abrao.
       -Tome -Disse Mills lhe lanando a roupa.
       Os gritos do corredor e os golpes frenticos na porta no podiam continuar sendo ignorados.
       -Haver tempo para isto depois, senhor. Deixe que o ajude. Isto no terminou ainda.
       -Farei-o no provador -Assegurou Nicholas pegando a roupa antes de guiar Sara para do div -Faz com que o doutor venha em seguida-Ordenou a Mills -Diga aos
outros que acabamos com o lobo que matou Nell. Faam entrar para que o vejam. Agora, Mills! Antes que morra, ou certamente vero algo diferente a cado!
       -Tem certeza de que est bem? -Exigiu Sara observando-o com ateno -. H muito sangue!
       -No  todo meu -Murmurou ele -O doutor me atender mais tarde. Faz o que Mills te diga at que eu volte.
       Os seguintes minutos foram uma neblina de exclamaes, soluos e murmrios de vozes enquanto Smythe, a senhora Bromley, os lacaios e todos outros apareciam
com a cabea para ver o animal cado. Em meio daquela inspeo no foi Nicholas, e sim Nero quem apareceu saltando pela porta do provador. Uma exclamao contida
percorreu o quarto. Foi uma apario breve. Sara ficou boquiaberta quando se aproximou de seu lado movendo a cauda e oferecendo a pata. Depois trotou um pouco pelo
quarto, deteve-se e lambeu a mo de Mills antes de voltar a cruzar a porta do provador como se nada de errado tivesse acontecido.
       -E bem, viram-no? -Exclamou Mills triunfante -Dois ces, no um, e todos vocs tinham condenado o pobre Nero. Foi ele quem me ajudou a abater este outro animal.
       Uns minutos mais tarde, com as feridas dos braos e do ombro ocultas sob a camisa e o colete, Nicholas saiu e tirou a todos do quarto menos Mills e doutor
Breeden.
       O mdico se ajoelhou ao lado do lobo, tocando o pescoo e o corpo atravs da pelagem.
       -Est morto -Disse levantando com as pernas rgidas e pouco firmes.
       -E agora o que? -Perguntou Mills.
       -Esperaremos -Assegurou o mdico.
       -A que vamos esperar? -Murmurou Sara.
       Mills tinha desfeito a cama e tinha posto lenis limpos. Nicholas levantou Sara do div e a acomodou na cama, apoiada contra o que ficava dos travesseiros.
Cobriu-a com a colcha. Depois se sentou a seu lado e a estreitou entre seus braos. Eram fortes e quentes, e ela o abraou murmurando seu nome.
       -Estamos esperando para ver se voltar a transformar -Disse Nicholas.
       No tiveram que esperar muito. De repente, a pelagem manchada de sangue comeou a fundir-se diante seus olhos. O corpulento perfil do lobo mudou, fez-se mais
largo, e adquiriu outra forma; uma forma que apenas se parecia com o Alexander Mallory que Sara recordava. Estava mais magro, enrugado. Umas sombras profundas rodeavam
os olhos. O brao infectado estava negro e inchado pela gangrena, e tinha a testa amassada pela marca que tinha deixado o atiador.
       -OH, Meu Deus, Alex... -Gemeu Nicholas.
       Sara afastou a vista de seu olhar, cravada nos restos apenas reconhecveis do que uma vez foi seu administrador e seu amigo. Mills cobriu seu corpo com a
colcha suja.
       -No podemos mostr-lo aos guardas -Disse o doutor assinalando o cadver com a cabea -Como poderamos explic-lo?
       -No temos que faz-lo -Assegurou Nicholas fazendo um esforo por recuperar a compostura -Por isso pedi que trouxessem o pessoal de servio, e por isso tem
feito Nero sua apario. Todos viram dois animais, e todos acreditam que despedi Alex faz tempo. Assim que se assegurem de que no h ningum rondando por aqui,
desc-lo-emos pelas escadas e o enterraremos no cemitrio. No permitirei que Mills carregue esta responsabilidade. Considerem o que aconteceu aqui como um duelo,
porque isso  exatamente o que foi.
       -No o matou a bala -Interveio o mdico -Foi o golpe na cabea. Por isso demorou tanto em morrer. Sofreu uma hemorragia. Olhem o corpo. -Levantou a colcha
-A bala est alojada no quadril, isso no  uma ferida mortal. A senhora salvou sua vida duas vezes, baro. Acredito que se pode dizer que lhe deve a vida, e deve
fazer o possvel para que se cumpram todos os desejos de seu corao.
       Nicholas estreitou a Sara com fora entre seus braos e ela distinguiu uma promessa em seu olhar entrecerrado. Conteve o flego.
       -Para sempre -Murmurou Nicholas selando seu voto com um longo beijo, sentido e profundo.
       O corao de Sara acelerou. Algo tinha mudado, e se rendeu ao fogo sedoso que prendeu em seu interior. Era uma provocadora antecipao do que estava por vir.


  Eplogo


       A primavera chegou suavemente, levando a chuva por toda costa. Sara estava aconchegada nos fortes braos de seu marido, escutando a vazante do mar sobre a
praia que ficava l em baixo na escurido anterior do amanhecer. Era difcil acreditar que tivesse transcorrido quase um ano desde que a carruagem a subiu por aquela
traioeira costa rumo a Ravencliff. Tinham ocorrido muitas coisas desde ento.
       J no se alojava na sute das tapearias. Agora sua sute estava situada no terceiro andar, recentemente reformado, ao lado da sute do baro. Eram os apartamentos
que a me de Nicholas tinha ocupado em sua poca. A seu lado havia um quarto alegre e luminoso que tinha sido o quarto infantil de Nicholas. Outro beb o ocupava
agora. Theodore Arthur Michael Pembroke Walraven, um nome de enormes propores para um menino de s dois meses. Sara sorria cada vez que pensava nisso. Chamavam-no
Ted, era um menino precioso com o cabelo escuro como a asa de um corvo e os olhos de uma cor azul similar  gua do mar.
       Nicholas acariciou um seio. Seus lbios eram quentes nos seus. Foi um beijo breve e tentador que prometia muito mais. Ele a atraiu mais para si, percorrendo
com os lbios o oco do pescoo.
       -Tem-me feito feliz alm do imaginvel -Murmurou.
       -No sem esforo -Sussurrou Sara em meio a uma risadinha brincalhona e um abrao sentido.
       -Ainda no sabemos... -Disse Nicholas com certo pesar -E no saberemos at que alcance a puberdade.
       Sara ps um dedo nos lbios.
       -Se for necessrio, enfrentaremos isso juntos. E ele tambm, tal como voc tem feito, meu amor -Disse -Mas h algo que...
       -Sim?
       -No  hora de que apresente Nero a nosso filho? -Perguntou -Em qualquer caso precisa conhec-lo, no te parece? E eu sinto muitas saudades dele.
       Nicholas riu.
       -Continuo pensando que ama mais esse velho lobo maltrapilho que a mim -Protestou.
       Sara sorriu.
       -Acredito que o amei primeiro, por culpa de sua obstinao -Disse -Mas deveria se adular que tenha me apaixonado por uma parte de voc que todos os outros
rejeitam. Quero que nosso filho tambm se apaixone por essa parte.
       -E assim ser -Disse Nicholas -Mas no esta noite.
       Voltou a buscar o seio, e os lbios que tomaram os seus se mostraram famintos agora, penetrantes, aproximando a mais  promessa do xtase.
       Sara se abriu a ele feliz. Depois o tomou profundamente em seu interior, cavalgando sobre as brancas e quentes ondas que brilhavam, acendiam-se e ardiam entre
eles, como aconteceria sempre.

  Fim


Comunidade: http://www.orkut.com.br/Community?cmm=94493443&mt=7
Grupo: http://groups.google.com.br/group/tiamat-world?hl=pt-BR
Blog: http://tiamatworld.blogspot.com/
1 pea em bronze ou lato fixada na porta de entrada para usar como batedor. Em vez de bater com a mo na porta para chamar o morador, utiliza-se a aldrava. Pea
muito utilizada na idade mdia
2 Obsidianas Vidro vulcnico, geralmente escuro, que se podem fazer instrumentos cortantes e espelhos.
3 Pessoa entendida em ervas e plantas.
4 Escutelria- cutelaria costaricana. Caractersticas gerais: arbusto ereto, atingindo de 50 a 70 cm de altura, apresenta ramos arroxeados e quadrangulares- Origem:
Mxico e Costa Rica.
Tilia L.  um gnero botnico pertencente  famlia Malvaceae.
Lpulo  uma liana europia da espcie Humulus lupulus, da famlia Cannabaceae. O lpulo  tradicionalmente usado, junto com o malte, a cevada e o levedo, na fabricao
de cerveja.
5 Planta da famlia das crucferas cultivadas para ornamento:  o alhel  tpico da regio do Mediterrneo. A flor dessa planta, simples ou duplas, mltiplas cores
e cheiro agradvel
6 planta com o nome cientfico de Euphorbia milii Des Moulins, que, de acordo com a Wikipdia,  conhecida no Brasil pelos nomes de Martrios, Coroa-de-cristo, Dois
Irmos, Bem-Casados, Coroa-de-Espinhos.
7 ragworts ou Senecio -   um gnero da margarida famlia ( Asteraceae ) que inclui ragworts e groundsels
Chickweed - planta comum na Europa, comestvel e usada como remdio.
8 O mirtilo, tambm conhecido como uva-do-monte ou Billberry (Vaccinium myrtillus) ("blueberry"  uma outra fruta)  um arbusto que pertence  famlia Ericaceae
(famlia da azlea).
9 Esta planta foi utilizada desde os tempos remotos, aparecendo no Papiro de Ebers como remdio para dor de dente. Foi um veneno famoso, sendo citado na obra de
Shakespeare, que fez o pai de Hamlet morrer com o suco de Meimendro deitado no ouvido. Tanto o Meimendro quanto a beladona so indicados no tratamento da bradicardia
sinusal (por exemplo, aps o infarto no miocrdio); na dilatao pupilar no Parkinsonismo; na preveno de cinetose; como pr-medicao anestsica para ressecar
secrees; em doenas espsticas do trato biliar, clico-ureteral e renal, entre outras indicaes.
10Angelica archangelica L.- arcanglica, erva-de-esprito-santo, jacinto-da-ndia, polianto, raiz-do-esprito-santo; anglique (francs); ch'ien-tu (chins); echte
engelwurz (alemo); anglica, hierba de los ngeles, hierba del espritu Santo e archangelica (espanhol), angelica (ingls), angelica arcangelica (italiano), archangelicae
(latim).
11 Escaramujo - O hip rosa, tambm conhecido como gabanzo tapaculos, em especial o rosa selvagem . Normalmente, cor vermelho-alaranjada, mas em algumas espcies
podem mudar para roxo escuro e preto.
12  Aldrava - pea de metal para chamar s portas.
13 A dedaleira, do alemo "Roter Fingerhut" (dedal vermelho), tambm chamada de "campainhas" pelo formato de suas flores,  uma erva lenhosa ou semilenhosa (Digitalis
purpurea L.; Scrophulariaceae), venenosa, nativa da Europa. Pode ser cultivada como medicinal, por conter digitalina, e tambm como ornamental, pois possui inmeras
variedades hortcolas de flores rseas ou brancas.
14 Cardo de Leite ou Milk Thistle - planta originria do sul da Europa e sia, mas agora  encontrado em todo o mundo - e s vezes  considerada uma espcie invasora.
---------------

------------------------------------------------------------

---------------

------------------------------------------------------------




Tiamat World
     Dawn Thompson
     O Lobo de Ravencliff

